It takes a great deal of History to produce a little History

Wednesday, August 30, 2006

ITINERÁRIOS DE ANTONINO

Mapa da ocupação romana do Sul da Lusitânia com a implantação dos trajectos dos Itinerários de Antonino sobre a rede viária principal reconstituida.
Em numeração romana a designação do itinerário na edição de Otto Cuntz (in El Miliario Extravagante)
Em numeração árabe, o número de ordem das etapas de cada itinerário

Itinerário
XIII Ossonoba - Salacia (ou Salaria)
XXI Esuri - Pace Iulia
XXII Esuri - Pace Iulia
XXIII Ostio Fluminis Anae - Emeritam

POPULI

Carta Etnológica dos Povos Pré-Romanos da Península Ibérica, circa 200 a.C.



Apresentação

Fazer um mapa da Hispânia pré-romana é uma tarefa ingrata e interminável, por diversas razões, em que se destacam:

- A inconsistência no ajustamento dos distintos levantamentos regionais
- A incerteza nas identificações e localizações
- Questões taxionómicas e conceptuais de fundo como, por exemplo, os limites cronológicos e geográficos do urbanismo pré-romano e do mundo céltico
- O risco de anacronismo, pela necessidade de recorrer a elementos apenas documentados posteriormente.

Tive assim, de cortar a eito relativamente a numerosas e difíceis opções, esperando que o formato digital utilizado permita ir fazendo correcções e aditamentos progressivos.

Plano e notas

Geografia de base

Linha costeira

Rios principais

Grandes grupos linguísticos existentes em 200 a.C., nas zonas em que são maioritários.

Celta

Consideram-se os celtas no sentido estrito, definidos desde finais da I Idade do Ferro. Neste sentido, não se distinguem os celtas hispânicos, resultantes da evolução local de estratos pré-célticos, dos celtas gauleses recém-migrados.

Para além das zonas de predomínio linguístico representam-se as principais áreas de complexos do celta com outras línguas, nomeadamente com o indo-europeu atlântico (Galaico-Lusitano), com o proto-Basco e com o Ibérico. Representa-se ainda o principal núcleo contíguo de imigração céltica na Turdetânia, como uma trama de sobreposição.

Indo-europeus pré-celtasta

Representa-se a área dos Lusitanos e Vetões, assim como a maioria da área montanhosa da cultura castreja, em que o substrato pré-céltico coexistiria ainda com os aportes célticos posteriores que se generalizam por toda a Gallaecia. Não se representam zonas de línguas indo-europeias pré-celticas, eventualmente ainda existentes, na área pirenaica e na época de estudo.

Proto-Basco

Representam-se os principais complexos geográficos com os grupos céltico e ibérico.

Tartéssico

Área primitiva da língua tartéssica, já residual ou desaparecida em 200 a. C, sobretudo nas zonas célticas. O tartéssico poderá ter evoluído para a variante linguística falada na Turdetânia ocidental.

Ibérico

Inclui as variantes levantina e meridional. Representam-se os complexos principais formados com o Proto-Basco e com o celta, já no Sul da Gália.

Entidades etno-políticas

Principais, com topónimos a preto, dimensionados segundo a dimensão geográfica estimada do grupo:

Grupos étnicos principais com topónimo e expressão regional delimitada.

Formações sociais multiétnicas e multilingues que partilham um contexto geográfico, sociopolítico e cultural comum (Turdetanos e, eventualmente, zonas da área ibérica não assinaladas).

Secundárias. Correspondentes a gentes isoladas ou integradas em grupos étnicos ou formações sociais principais.


Notas

- Os Cónios e os Túrdulos da Betúria são assinalados sobre o limite da área turdetana, destacando o seu carácter tampão, etnicamente célticos mas integrados politicamente na charneira do mundo turdetano.

- Ainda na Turdetânia, os líbio-fenícios das fontes clássicas fazem-se corresponder com a área de colonização cartaginesa sobre o território dos Bástulos.

- Os Túrdulos do litoral atlântico são assinalados como uma faixa contínua entre o Douro e o Tejo, correspondendo aos Turdulii Veteres e aos Turdulorum oppida das fontes e da Arqueologia.

Geografia da colonização pré-romana

- Domínio geopolítico cartaginês, diferenciado em área de colonização, área de domínio territorial e área de influência política e militar.

- Fundações coloniais principais e sobreviventes em 200 a.C. Excluem-se as colónias fenícias e gregas já desaparecidas ou muito decaídas assim como as feitorias e portos logísticos. Representa-se a potência colonizadora e o topónimo da cidade

- Zona do “Círculo do Estreito”, koiné costeira, económica e cultural centrada em Gadir , assinalada esquematicamente.

Geografia das cidades indígenas e fundações coloniais menores

- Consideram-se como urbanos apenas os povoados que emitiram moedas indígena antes de César.

- Não se consideram como urbanas, circa 200 a.C., as largas centenas de oppida que não cunharam moeda, na sua grande maioria pertencendo à zona céltica ou integrados nas “cidades-estado” polinucleares, turdetanas e ibéricas.

- Assinalam-se toponimicamente alguns centros indicados nas fontes, com funções de capitalidade política e militar mas que desapareceram durante as Guerras de conquista e civis dos séculos II e I a.C. (Conistorgis, Munda e Numancia). Identificam-se ainda Sagunto e Keition (forma que aceitamos como nome pré-romano de Salacia/Alcácer do Sal).

Romanização

- Frente militar romana em 194 a.C. e 156 a.C.

- Limites das províncias romanas após a 2ª reorganização de Augusto (antes de 7 a.C.).

Exclusões e inconsistências

- Não se incluem corónimos, isto é, nomes de regiões e de acidentes fisiográficos, mesmo quando são derivados de etnónimos.

- Não se incluem gentílicios derivados de nomes de núcleos urbanos peregrinos, preexistentes ou formados a partir de oppida, já na época romana.

- A designação dos populii não é consistente. Nos casos mais comuns usam-se termos em português (geralmente idênticos ao castelhano) e nos restantes, menos conhecidos e susceptíveis de alguma confusão devida à tradução, usam-se os termos no plural latino, retirados ou reconstituídos das fontes.


Bibliografia
No documento PDF indicado acima, que inclui o mapa

Saturday, August 26, 2006

Conquista Romana da Hispania

Esboço da evolução cronológica e geográfica da conquista romana da Hispania.
13 mapas esquemáticos, destacando os principais eventos, personagens e sítios da história militar, nomeadamente na zona do Algarve.
Materiais para um possível atlas didático da história regional.

I 205 a.C. - 187 a. C.
Conquista da Hispania mediterrânica. Guerras ibérica e turdetana

II 186 a.C. - 179 a. C.
Penetração na Celtibéria e Sudoeste

III 178 a.C. - 154 a. C.
Guerras Lusitanas 1: Púnico

IV 153 a. C.
Guerras Lusitanas 2: Caisaros e Cauceno

V 152 a.C. - 151 a. C.
Guerras Lusitanas 3: Campanha de Galba

VI 150 a.C. - 139 a. C.
Guerras Lusitanas 4: Viriato

VII 140 a. C.
Campanha contra os Cúneos

VIII 155 a.C. - 115 a. C.
Expedição de Décimo Júnio Bruto e Guerra Celtibérica

IX 114 a.C. - 100 a. C.
Fim das Guerras Lusitanas

X81 a.C. - 80 a. C.
Campanha de Cecilio Metelo contra Sertório

XI 67 a. C.
"Guerra dos Piratas" comandada por Pompeu Magno

XII 61-60 a. C.
Campanha de Júlio César na Lusitânia

XII 27 a .C. - 19 a. C.
Guerras Cantábras, de Augusto

Saturday, August 19, 2006

MONTE FIGO II: A navegação no Golfo Gaditano

O Monte Figo no sistema regional de navegação

Para se compreender a grande relevância marítima do santuário do Monte Figo (Cerro de São Miguel) na Proto-História e Antiguidade, é necessário traçar um quadro do seu significado funcional no sistema antigo de navegação regional.
Apesar da sua elevação relativamente modesta, o
Monte Figo constitui o sinal de navegação mais conspícuo do Algarve Oriental, tendo uma visibilidade marítima útil de cerca de 60 km de raio, que abrange desde a Praia da Luz, entre Sagres e Lagos, à barra de Huelva, chegando a ser visível da encosta de Mazagón, já na costa ocidental do Golfo.
Como farol diurno controlava assim o tráfego de cabotagem ao longo de 120 km de costa, sendo a sua visibilidade mais aparente a Leste do meridiano de Faro. Controlava igualmente o tráfego mais ao largo das rotas do Guadalquivir para o Atlântico e das rotas do Atlântico para o Mediterrâneo.
Servia igualmente como farol de aproximação dos portos da laguna algarvia entre Quarteira e Tavira. Em termos locais, a laguna de Faro-Olhão e o estuário do Gilão constituiriam as opções portuárias mais directas para a navegação referenciada pelo Monte Figo, embora a foz do Guadiana também possa ser referenciada, embora indirectamente, recorrendo a um alinhamento presumivelmente definido pelo rasto oceânico da corrente do rio e pelas ilhas que existiam então na boca do delta.

Foto de satélite da corrente de sedimentos do Guadiana, na actualidade.
Uma marca de localização para os navegadores da Antiguidade:

Ana amnis illic per Cynetas effluit
sulcatque glaebam. panditur rursus sinus
cavusque caespes in meridiem patet.
memorato ab amni gemina sese flumina
scindunt repente perque praedicti sinus
crassum liquorem (quippe pinguescit luto
omne hic profundum) lenta trudunt agmina.


Avieno, Ora maritima; 202-8


O regime dos ventos no Golfo de Cádis e as técnicas da navegação na Antiguidade são temas complexos, que transcendem largamente o âmbito deste post. A compreensão das suas tendências principais é porém indispensável para se poder ter uma ideia das condicionantes da navegação marítima na Antiguidade, na nossa zona de estudo. Os barcos atlânticos recorriam então ao vento e às velas como força motriz principal e utilizavam os remos como propulsão suplementar mas essencial, em casos de acalmia, travessia de barras e para vencer ventos ou correntes contrários durante períodos limitados. Bolinavam mal e tinham uma capacidade de manobra limitada, relativamente aos veleiros modernos.
Nada indica que as condições climáticas marítimas se tenham alterado significativamente desde o século VIII a.C. Os ventos dominantes variavam (e variam) segundo a zona do Golfo, segundo o esquema seguinte, grosseiramente simplificado:
1. Na costa atlântica ocidental a Norte e até ao Cabo de São Vicente predominam os ventos de Norte junto à costa.
2. Na costa norte (algarvia) predominam os ventos do quadrante Oeste, sobretudo do Sudoeste, com períodos do quadrante Leste (Levante).
3. Ao largo predominam igualmente os ventos do Oeste, sobretudo do Noroeste, com períodos de Sudeste.
4. Ao longo da costa africana predomina o vento do Sudoeste.
5. No canal do Estreito e no corredor atlântico que o continua para Oeste predominam os ventos de Leste.
6. Na costa ocidental (andaluza) predominam os ventos do Oeste com importantes períodos de ventos Leste, no canal do Guadalquivir e de origem térmica, junto à costa.

Estes ventos determinavam os percursos das principais rotas navais, abordadas mais adiante.

Os calendários naval, agro-pecuário e piscatório

A sazonalidade do clima mediterrânico originou desde muito cedo a inclusão da época navegável no calendário e no ritual religioso anual. Na Época romana a estação de navegação prolongava-se de 5 de Março a meados de Outubro, seguindo um velho ritual egípcio, provavelmente partilhado por todos os povos levantinos de navegadores, com destaque para os fenícios.
A celebração do isidis navigium, inicia a estação de navegação, dedicada a Isis, procedimento semelhante à Ploeaphesia grega, em que os navios ficam autorizados a fazer-se ao mar e este declarado como aberto à navegação.[1]
Esta data, adaptada ao Mediterrâneo, é no entanto um pouco precoce para a costa Atlântica, em que as condições de invernia ainda permanecem, pelo menos até meados de Abril.
No circuito anual da navegação fenícia, o calendário ritual dos portos atlânticos deveria assim definir uma estação de navegação mais curta. Os primeiros barcos coloniais provenientes do Mediterrâneo Levantino só chegariam por finais de Abril e os últimos partiriam ainda em Setembro.

Existia assim uma conjugação regional entre o calendário da navegação e o calendário agro-pecuário, que tem os seus pontos altos nas comemorações da fertilidade Primaveril em Maio, no solstício de Verão, auge das solenidades de ambos os ciclos, e nas festas de redistribuição de Setembro.
Este calendário conjuga-se ainda com o da pesca do atum, provavelmente o fenómeno periódico de maior importância económica e social dos povoados litorais da costa do Golfo de Cádis. O período da pesca do atum de direito decorria desde princípios de Maio a fins de Junho. A partir desta altura e até meados de Agosto decorria a pesca do atum de revés, a que sucederiam as celebrações do fim desta faina, cristianizadas sob diversas formas de culto mariano marítimo.
Esta sintonia de calendários e de auge de actividades estivais relacionadas com a abastança económica, constitui, na nossa opinião, a base sócio-económica da integração dos rituais e cultos coloniais mediterrânicos na esfera local e a base da identidade e coesão religiosa das comunidades que se estendiam entre a Serra e a Beira-Mar.
Será também a justificação da prevalência secular das tradições religiosas de origem fenícia, durante as épocas Turdetana e Romana, até à implantação do Cristianismo.

No Algarve desenvolvem-se, desde inícios do séc. XVI, formas de culto mariano associados à faina bacalhoeira sazonal na Terra Nova e Gronelândia (inícios de Abril, finais de Setembro), que se sobrepoem a formas anteriores.

Rotas de navegação no Golfo

1 Rota de cabotagem, atlântica, na Primavera

Esta rota era sobretudo utilizada no percurso de saída para o Atlântico, contrário à direcção dos ventos dominantes, do quadrante Oeste. As escalas de cabotagem, de Sul para Norte, ao longo da costa andaluza, permitiam negociar o avanço segundo o estado dos ventos térmicos, correntes e marés, tendo como consequência viagens mais longas. Processar-se-ia sobretudo na Primavera, quando estado do mar permite iniciar a estação da navegação atlântica.

A navegação a partir de Onoba (Huelva) para Ocidente era particularmente problemática por ser contrária aos ventos dominantes. As soluções técnicas mais prováveis seriam ou fazer largos bordos, em que o Monte Figo servia de importante referencial, ou utilizar os remos, negociando eventuais brisas. O Guadiana surgia como a primeira marca costeira facilmente perceptível, através do rasto marítimo deixado pela sua corrente, já referido por Avieno[2] e o Monte Figo como o segundo marco, delimitando a entrada da ou das barras de Tavira, que na Antiguidade se poderiam estender desde Cacela ou Cabanas.

A partir de Tavira ou Balsa, o cabo de Santa Maria obriga a uma ampla manobra de contorno pelo largo (cerca de 6 milhas náuticas na actualidade) para evitar os ventos de Oeste junto à restinga do cabo, susceptível de provocar naufrágios. A perpendicular do Monte Figo com a costa marca aproximadamente a barra velha de Marim, que daria acesso a Ossonoba pelo lado Ocidental, através da laguna de Olhão.

Um vento de Levante conduziria rapidamente as embarcações para a costa algarvia a partir do Estreito, porém a ondulação que quase sempre o acompanha inviabilizaria todos as barras do Sotavento, com excepção do Guadiana, e no Barlavento, inviabilizaria Lagos e Sagres (Mareta). No estado actual dos conhecimentos, o melhor porto-de-abrigo durante o Levante, para além da laguna-delta de Baesuris, parece ter sido o de Farrobilhas-Ludo, hoje desaparecido, protegido pelo Cabo de Santa Maria.

A travessia do Promontório Sacro poderia obrigar, como sucedeu até aos tempos modernos, a longas esperas num porto do Barlavento, até que os ventos permitissem um contorno do cabo pelo largo, não só evitando o Oeste contrário, antes do cabo, como o Norte logo após a sua travessia. Fontes renascentistas[3] indicam esta situação e a criação de infra-estruturas pelo Infante D. Henrique no sítio de Terçanabal, hoje associado à baía de Sagres-Mareta (ou de Belixe, em caso de Levante) junto a Sagres. O uso deste local na Antiguidade para o mesmo efeito é muito provável, não só pelas suas condições portuárias únicas junto do Cabo como pelo próprio topónimo, de origem árabe, cuja etimologia proposta é *dársena'Hanibal, isto é, uma tradução literal de Portus Hannibalis (referido por Pomponius Mela III, 1) (ver post http://imprompto.blogspot.com/2005/11/portus-hannibalis.html)

2 Rota directa pelo largo, de retorno ao Mediterrâneo, em meados do Outono

Nas rotas de retorno, do Atlântico para o Mediterrâneo, os barcos que contornavam o Cabo de São Vicente deviam forçosamente procurar uma escala de abastecimento, antes de se aventurarem à travessia do Golfo. De facto, mesmo provindos de escalas relativamente próximas na costa Ocidental (como o Sado, Melides, Sines ou a Baía do Pessegueiro), a sua autonomia limitada obrigá-los-ia a uma nova paragem. Os ventos do quadrante Oeste, dominantes após o cruzamento do Cabo, empurravam naturalmente as embarcações para um dos diversos portos disponíveis na costa algarvia. A escolha dependeria tanto de factores geopolíticos como do maior ou menor alongamento da rota no sentido Oriental, dependente da orientação do vento.

É de realçar que com um Sudoeste forte e a respectiva ondulação, situação bastante comum no Outono, os portos de Barlavento tornam-se perigosos ou difíceis, o mesmo sucedendo com o corredor da laguna de Olhão. Nestas condições Lagos/Lacobriga e Tavira surgiriam como os portos mais adequados.
Independentemente do porto-de-escala utilizado, o meridiano de rumo ao Sul devia estabelecer-se pelo Cabo Cuneo e pelo Monte Figo, de modo a aproveitar os ventos do Oeste e do Norte, mais ao largo, no sentido do Estreito.
Avieno é explícito sobre isto, constituindo a primeira abonação literária duma realidade conhecida por todos os navegadores do Golfo: A partir do Cabo de Santa Maria, os ventos dominantes do Norte e Oeste permitem uma rota directo ao Estreito[5], pelo largo acrescentaríamos nós, com uma passagem directa ao Mediterrâneo que evita as correntes costeiras contrárias.

Tratava-se assim de uma rota de retorno, a efectuar portanto em meados do Outono, com os barcos cheios, numa viagem mais rápida e sem escalas até depois das colunas de Hércules, embora haja a hipótese de uma escala junto da boca atlântica do Estreito, em porto-de-espera, devido à instabilidade provocada pelo vento Levante. O porto de Lixus (Larache) e Zilil (Arzila), na costa marroquina e ambos de fundação fenícia, seriam os locais mais prováveis.

3 Rota de retorno, pela costa da Mauritania

As rotas efectivas dependeriam porém, então tal como hoje, da resultante de forças entre Boreas (a Nortada) e Zéfiro (o Poente):

- O Poente empurra as embarcações directamente para Estreito, situação correspondente à descrição de Avieno.

- O Norte empurra-as para o largo da costa mauritana, tão a Sul quanto Mazagão/El-Jadida, onde tendem a apanhar os ventos Sudoeste aí dominantes, fazendo-as subir ao largo da costa em direcção ao Estreito.

Os estabelecimentos fenícios da costa africana atlântica têm sido sempre estudados no contexto da sua ligação bilateral directa com o Mediterrâneo, ou então, como entrepostos dependentes de Gadir. Independentemente destas realidades, devemos assinar a forte probabilidade de eles terem feito parte do sistema de escalas do comércio peninsular atlântico, devido à sua localização no percurso das rotas de navegação acima descritas.
Embora se não se conheçam referências explícitas a esta relação no período fenício, excepto a das datas coincidentes da sua fundação e extinção (entre os Sécs. VIII e VI a.C.), a sua relevância geográfica e realidade histórica posterior justifica plenamente a hipótese.
De facto o Algarve Oriental, sobretudo através dos portos de Tavira e, posteriormente, de Olhão, constitui a escala perfeita na navegação à vela para o cruzamento do Golfo de Cádis de e para a parte da costa africana actualmente marroquina.

As hipóteses desta relação entre as duas margens do Golfo durante a Época romana são ainda parcialmente conjecturais:

  • As diversas notícias sobre a “pirataria” nas duas margens do Golfo desde o final da II Guerra Púnica até Cláudio, com destaque para os episódios da viagem de Sertório, da Guerra dos Piratas de Pompeu, da “limpeza” das margens por Agripa e de um historial recorrente de invasões de lusitanos, maurii e bárbaros através do Golfo, até à Antiguidade Tardia, revela a extraordinária facilidade da navegação entre as duas margens do Golfo pelas populações ribeirinhas, desde um período indeterminado da Proto-História.
  • O desenvolvimento urbanístico de Balsa, medido pela riqueza do seu espólio arqueológico, acelera-se a partir do reinado de Cláudio I (41-54 d.C.), o que é interpretado como consequência, primeiro do apoio logístico, fornecido por Balsa e outros povoados do Algarve, aquando da revolta mauritana e, segundo, pela inclusão da Mauritânia Tingitana no Império a partir desta época. A criação e desenvolvimento de cidades romanas no litoral africano (como Salla) influenciaram sem dúvida o crescimento do tráfico bilateral no Golfo, contribuindo significativamente para o apogeu económico de Balsa e para a influência africana manifestada na epigrafia desta cidade, que não deve ser procurada apenas na província de Bizacena[6].
  • Mais tarde, no século III, a invasão dos maurii que atinge Italica, Baelo e quase seguramente a costa algarvia, exemplifica a fragilidade sentida ao longo da História pelas cidades e povoamentos costeiros da orla do Golfo, em conjunturas de insegurança ou guerra declarada.

Posteriormente, o próprio desenvolvimento da Tavira islâmica, a partir do século XI, terá estado certamente associado ao aumento de tráfego marítimo e de intercâmbios populacionais entre as duas margens do Golfo, posteriores ao acesso ao poder na Península pelas dinastias berberes.
Esse papel de Tavira reforça-se posteriormente já sob domínio português, como principal centro fornecedor das praças ocupadas pelos portugueses no Norte de África, nos sécs. XV e XVI, sendo a grande facilidade de contactos ilustrada pela presença de milícias defensivas dessas praças, habitando no Algarve português, nessa mesma época. Estas milícias, provenientes de sítios tão remotos como Estoi, em caso de ataque acorriam por barco à defesa das praças africanas, cujos fornecimentos mais elementares provinham igualmente das bases algarvias.
Os inúmeros episódios de corso entre as duas margens, até finais do séc. XVIII, e o permanente fluxo piscatório e humano que se manteve até à actualidade, sobretudo na zona de Larache, sendo comuns os filhos de pescadores nascidos em Marrocos, são um rol de situações, que ilustram mais recentemente, a grande importância e facilidade desta rota ao longo dos séculos.

Esta realidade permite colocar hipóteses que relacionem os assentamentos fenícios do Algarve, nomeadamente de Tavira, com os da costa ocidental Norte Africana, cuja criação, sobrevivência e destruição ou abandono parecem ter sido paralelos. É portanto perfeitamente plausível que a região cunea constituísse o vértice de uma rota triangular entre a Costa Africana e o Estreito, utilizada quando as condições adversas impedissem uma navegação directa.

NOTAS

[1] Apuleio (Metamorphoses XI) e Joannes Lydus (De mensibus IV, 45)
[2] O.M. 205-211. O rasto é ainda observável na actualidade. Ver, por exemplo http://eol.jsc.nasa.gov/scripts/sseop/QuickView.pl?directory=ESC&ID=ISS006-E-9576
[3] IRIA, Alberto. Itinerário do Infante Dom Henrique no Algarve, Faro 1960: 36, 49
[4] Proposta de Adel Sidarus, com a grafia de CORRIENTE, Federico. Diccionario de arabismos y voces afines en iberorromance, Gredos, Madrid 1999: 231, verbete arsenal
[5] Os versos de Avieno acima transcritos
[6] Na costa Oriental da Tunísia, a Sul de Cartago.

Wednesday, August 16, 2006

MONTE FIGO I: O santuário



















(Cerro de São Miguel
)
Foto de João Caetano Dias
Vista de OSO para ONO a c. 15 km

Santuário dedicado a Zéfiro e São Miguel

O Monte Figo, também denominado cerro de São Miguel, é uma elevação com 410 m, situada no concelho de Olhão (Algarve), sensivelmente a meio caminho entre Faro e Tavira, a 8 km da costa.
Constituiu, juntamente com o vizinho cerro da Cabeça (Moncarapacho), o complexo de culto pré-cristão mais importante do Algarve Central e Oriental, ao longo da Proto-História e Antiguidade.

Santuário marítimo de montanha, farol diurno e oráculo meteorológico, foi provavelmente dedicado primitivamente pelos navegadores fenícios provavelmente a Baal Saphon, talvez ainda antes do século VIII a.C.
A interpretação grega posterior desta dedicação, talvez no século VI a.C., consagra-o ao vento Zéfiro divinizado.



















O seu uso como santuário durante a Antiguidade Romana está comprovado por vestígios bem conservados (em 2003) de uma via que subia ao seu cume, com um troço inferior em calçada de lajeado canónico e um superior escavada na rocha, rematado por muros de suporte na face exterior. A extrapolação deste troço conservado liga o Monte à cidade romana de Balsa, localizada a 11 km, revelando tratar-se de um lugar de culto desta cidade.
Os aspectos primaveris do culto local, com uma provével origem pré-romana, sobreviveram até à actualidade com um notável arcaísmo nas celebrações populares do 1º de Maio.
É, porém, muito provável que a sua função de farol marítimo se tenha tornado predominante e que a via tenha servido para alimentar um facho de sinalização nocturna que aí terá existido. É esta memória ou tradição de farol, ainda hoje mantida entre os pescadores, que pode melhor justificar a sua dedicação posterior a São Miguel.
De facto, pensa-se que esta dedicação poderá ter ocorrido após o Séc. VI, por provável influência bizantina, e que se pode associar a conversão de farois-santuários dedicados a Lucifer/Phosphoros, divinização do planeta Vénus, entidade condutora dos mortos e dos marinheiros, portadora de luz no meio das trevas, que é prontamente assimilada sincreticamente às funções psicopompas do arcanjo São Miguel, protector e condutor das almas recém-falecidas.
Mantém-se assim ao longo dos séculos a funcionalidade religiosa de monte, dedicado a uma divindade protectora dos marinheiros durante as tempestades.

O cume do Cerro de São Miguel, apesar das destruições provocadas pela central de telecomunicações e respectivas antenas, apresenta ainda indícios de edificações no seu ponto mais elevado, provavelmente sítio da ermida original. Parte delas parecem ser, no entanto, muito mais antigas, com um formato circular em torno desse ponto mais elevado. Só uma intervenção arqueológica poderá no entanto esclarecer o assunto.

A Ora Maritima

A fonte primordial de informação sobre a sacralidade do lugar é a Ora Marítima, de Avieno, poema datado do século IV d.C., mas baseada numa obra muito anterior que descreve uma viagem de circum-navegação da Península Ibérica. Essa obra é datável do século VI a.C. e é comummente aceite que se baseie em fontes fenícias mais antigas.
Apesar do carácter poético da Ora MAritima, que a torna confusa e por vezes inoperante como roteiro geográfico, a sua descrição da zona não deixa margem a dúvidas. Ela refere-se ao Cabo de Santa Maria como o Cabo do Zéfiro e à Serra de Monte Figo dedicada ao vento, destacando-se o seu cume mais elevado com o nome da divindade (arcis summitas Zephyris uocata). A localização moderna é hoje aceite pela maioria dos autores[i] e a descrição corresponde a uma imagem típica da zona vista do mar alto, da ria de Huelva ou da ilha do Farol, quando o continente fica com uma carapaça de nuvens sobre os cumes e o topo do Cerro de São Miguel oculto pela neblina.

Eis o que escreve Avieno[ii], na parte do texto relativa à costa algarvia:

222 Diz-se que desde aqui [do Promontório Sagrado/Cabo de São Vicente] até ao rio Ana [Guadiana] há um percurso de um só dia;
223 aqui está também a fronteira do povo dos Cinetas.
223 O território tartésico é contíguo a estes, e o rio Tartesso [Baetis/Guadalquivir] banha a região[iii].
225 Mais adiante apresenta-se um cabo consagrado ao Zéfiro; por isso o monte mais alto do maciço se chama Zéfiris.
227 Os seus picos elevam-se acima dos cumes. Uma enorme massa sobe pelo céu acima e uma névoa que a envolve quase sempre oculta a sua crista que chega até às nuvens.
231 Todo o território a partir daí é uma terra muito rica em erva;
232 o céu é sempre nebulosos para quem aí vive, o ar denso, a atmosfera menos transparente e o orvalho abundante de noite.
234 Nem o vento consegue penetrar, como seria habitual nem sopro algum do vento consegue clarear o cimo do céu; uma bruma obscura abate-se sobre as terras e o solo permanece húmido numa grande extensão.
238 Se alguém cruza, de barco, o maciço de Zéfiris e se dirige para o Mediterrâneo, é empurrado sem parar pelas rajadas do vento Favónio

É de um ponto de vista Oriental que se percebem melhor as descrições dos geógrafos antigos relativos ao Jugum Cuneus De facto, a visão do Monte a partir de Punta Umbria e Mazagon, em ambas as extremidades da ria de Huelva, confundem-no com um promontório elevado sobre o mar, na extremidade de uma cadeia montanhosa sobre a linha do horizonte. A esta distância, toda a campina de Faro, a Sul do monte, permanece já abaixo da linha do horizonte e a Serra algarvia surge como um imenso cabo terminado no Monte Figo.
Em Aiamonte, o Monte Figo serve tradicionalmente de indicador do estado do mar aos pescadores. Quando está perfeitamente visível a saída para o mar é considerada segura. Quando se encontra parcial ou totalmente enublado, surgindo então como uma ilha no meio do mar, é sinal de perigo, não devendo os barcos largar a barra.[iv]

O monte mantém assim a memória funcional de um ponto de sinalização marítima – verdadeiro farol diurno – e, simultaneamente, de oráculo meteorológico para a navegação, reflectindo assim as características essenciais dos santuários-montanha fenícios originais.

Zéfiro

A associação do Monte Figo com uma dedicação fenícia original é uma hipótese conjectural baseada em três pontos :

  1. A presença bem atestada de um assentamento fenício nas imediações, em Tavira (sécs. VIII a VI a.C.) e, talvez em Ossonoba.
  2. O papel fundamental que o Monte desempanha no sistema tradicional de navegação entre o Mediterrâneo e o Atlântico (que será tema de um próximo post)
  3. A descrição da Ora Maritima, que é compatível com uma interpretação grega do local do mito fenício da luta entre Baal (Saphon e Shamem) e Mat assim como a assimilação de Zéfiro (que representa o vento do Oeste, húmido e chuvoso no Algarve) a Saphon (que significa do Norte, em fenício, e que representa a Nortada húmida e chuvosa)[v]

Zéfiro e Flora. Detalhe de "O nascimento de Vénus", Botticelli (1485)

Zéfiro partilha com Baal / Hadad uma parte importante dos mitos de regeneração primaveril, em que o vento Oeste se associa fundamentalmente à sua influência benéfica e húmida de crescimento vegetativo no início da Primavera e no Outono após a estiagem[vi].
No mito de Baal o deus habita no Inferno (palácio de Mat) durante a estiagem seca e escaldante e ressuscita ciclicamente no Outono, com o regresso da humidade e com o auxilio da sua paredra Annat.

Zéfiro tem porém um carácter mais específico e parcial de divindade fertilizadora vegetal, animal e humana, ilustrada pelos três mitos de violação homo e heterossexual a ele associados (De Jacinto, Flora e Íris). O seu pa
pel na fertilização pecuária manifesta-se numa célebre notícia sobre a existência duma raça de cavalos particularmente veloz na Lusitânia por as éguas serem fecundadas pela brisa do Favónio.

O Vento Zéfiro/Favónio está também ligado ao calendário sazonal agrícola romano, de oito estações formadas pela combinação dos eixos solstíciais e equinociais solares com os eixos das meias-estações ("cross-quarters") correspondentes ao calendário arcaico prevalente na Europa Ocidental, de grande simbolismo religioso.
A época em que o Vento começa a soprar (c. 6 de Maio) define o início do Verão agrícola, que se prolonga até ao Solstício de Junho (Plínio, História Natural, XVIII) e a data corresponde às calendas de Maio, cuja celebração se conhece no mundo celta gaélico-britónico com o nome de Beltane e hoje no Algarve como dia de Maio.

A sua função marítima como vento do Oeste é igualmente importante, sendo a Ora Maritima absolutamente explícita a esse respeito: quem (proveniente do Atlântico) chegar ao monte de Zéfiro, será empurrado daí em diante pelo seu vento até penetrar no Mediterrâneo. É de realçar também a função de sinal de navegação do cerro, característica comum de todos os acidentes costeiros realçados pelos fenícios e cuja funcionalidade se manteve até hoje, permanecendo o cerro o sinal mais conspícuo do Algarve para a navegação costeira[vii].
No entanto, apesar do seu carácter essencialmente benéfico outras fontes assinalam as terríveis borrascas do Oeste e a necessidade de aplacar o vento, realçando o seu carácter mais primitivo de divindade celeste telúrica[viii]. Existem também referências à sua função de divindade propiciadora da pesca.

Outro aspecto importante da sua natureza é a sua origem mítica subterrânea, fundamento das suas posteriores funções psicopompas, já referidas: os ventos são elementos primitivos ligados à terra e libertam-se para os céus e voltam a ela através de grutas e buracos especiais. Grande parte dos cultos eólicos – para além de cumes de montanhas inacessíveis a não iniciados – estabelecia-se em santuários com poços tapados[ix] para impedir a libertação da fúria incontrolável dos ventos. O conteúdo mais frequente dos cultos consistia, pelo que se conhece, em sacrifícios de animais no mar e junto dos citados poços. É curiosa a notícia de se sacrificarem ovelhas brancas para invocar bom vento e ovelhas negras para aplacar o mau vento, associando os animais ao carácter das nuvens[x]. Este carácter imediato e imaterial pode justificar a ausência de epigrafia do período romano associada ao culto de Zéfiro, baseando-se o nosso conhecimento sobretudo em notícias literárias de autores greco-romanos e numa abundante iconografia.

O santuário na época romana

Para além da referida calçada até ao cume e da ligação viária com Balsa, não se conhecem evidências específicas sobre o uso e as características do culto no Monte durante a época romana.
Podem-se estabelecer diversas conjecturas, compatíveis quer com a dedicação anterior a Zéfiro, quer com a dedicação posterior a São Miguel:

· Culto romano-helenístico do Vento nas suas facetas marítima e agro-primaveril, articulando uma tradição indígena anterior com a ideologia religosa dos colonos imigrantes balsenses. Esta hipótese é a que melhor se ajusta às tradições etnográficas sobreviventes , centradas no dia 1 de Maio.

·Rededicação a Júpiter, considerando os aspectos telúrico e montanhoso do culto anterior a Zéfiro. Esta hipótese, sem fundamentação evidencial, corresponderia a uma romanização clássica mais provável do santuário de montanha.

·Rededicação a Lucifer/Phosphoros, já referida, considerando a existência provável de um farol nocturno no cume, de apoio à navegação. Esta hipótese poderia explicar a supremacia dos temas luminosos no culto marítimo cristão posterior.

São Miguel. Luca Giordano (1634-1705)

É, porém, impossível de determinar eventuais relações entre o culto do Monte e o culto de dedicação marítima e curativa coevo baseado na Fonte Santa (Luz de Tavira) que deu muito posteriormente origem aos cultos marianos da Senhora da Luz e do Livramento e de Santa Luzia. A presença do tema da "luz" associada à salvação dos navegantes pode ter como uma das suas origens a memória da existência de um farol sagrado ou ser apenas devida a uma associação ancestral entre a protecção dos nascituros e a protecção dos navegantes, associada a uma outra divindade, feminina, curativa, luminosa, regente dos partos, da fertilidade pesqueira e da salvação dos mareantes.

Conjectura etimológica

A homofonia notável entre MONS ZEPHYRUS e Monte Figo permite colocar a seguinte hipótese de derivação etimológica entre ambos os topónimos:

MONS ZEPHYRUM > *MONCĔFĪR[O] > *MONTE FĪR[O] > Monte Figo

O topónimo actual terá sido formado já no domínio português, por analogia popular entre MONCĔ e MONTE e derivação de FĪRO para FIGO, potenciada por uma eventual associação do perfil montanhoso com a forma do fruto.
A designação actual de Serra do Monte Figo, que se estende ao maciço calcário entre Loulé e este monte, corresponde curiosamente à designação Zephyridos arcem utilizada por Avieno para designar precisamente a mesma cadeia montanhosa .

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Um texto mais completo e uma resenha bibliográfica podem ser vistos em http://www.arqueotavira.com/Sao-Bras/SBA-Texto.pdf

NOTAS

[i] BLÁZQUÉZ, 1991a p.67; AVIENO, 1994 (Mangas e Plácido) p. 83; ALVAR, 1996 p.258 (como hipótese)

[ii] Tradução a partir da versão bilingue latino-castelhana da Testimonia Hispaniae Antiqua, Vol 1, Madrid 1991. A numeração dos versos é a da versão latina

[iii] O poema descreve os troços da costa, no sentido directo (inverso dos ponteiros do relógio) da costa Ibérica, definindo primeiro os limites inicial e final de cada troço e depois voltando atrás, procedendo então a uma enumeração mais detalhada dos acidentes costeiros entre os referidos limites.

[iv] Informação confirmada localmente

[v] A posição do cerro de São Miguel, a Norte de quem navega, assim como a sua proximidade da costa, poderia permitir uma fácil assimilação ao monte Saphon original (que significa do Norte, como já referimos), que corresponde ao actual monte Keldag na Turquia, antigo KASIOS em grego e CASIUS em latim, situado a 30 km a Norte de Ugarit e a 4 km da costa. Este monte corresponde ao sítio mais chuvoso da costa levantina, com 143 litros de média anual, possuindo um clima nebuloso e húmido, compatível com a descrição de Avieno, devido à sua altitude de 1780 metros, mais de quatro vezes a do cerro de São Miguel (com os seus modestos mas impressionantes 410 metros)

[vi]Funcionalidade religiosa particularmente bem adaptada às incertezas e ao carácter extremado dos anos agrícolas do Algarve, em que a irregularidade da chuva e do vento marca decisivamente o mundo rural, facto registado lapidarmente pelo provérbio “O Outono, ou seca as fontes, ou leva as pontes”.

[vii]LOPES, 1841 pp.29-30 assinala a sua particular relevância na navegação paralela à costa, referindo o rumo desde o Atlântico, em que o Cerro de São Miguel se constitui como ponto de orientação após dez milhas a Leste da ponta de Sagres (aproximadamente desde o meridiano da praia de Nª Senhora da Luz, o que poderia estar na origem primitiva deste topónimo).

[viii]Este vento é designado pelos pescadores algarvios como “mar de fundo” e associa-se a tempestades que trazem para a costa do Algarve vagas que ultrapassam a dezena de metros de altura.

[ix]Designados em grego por bothroi.

[x]Williams, 1999 “Cults in Crete, Greece & Rome”



Saturday, August 05, 2006

TEMPLOS PAGÃOS TARDIOS

Os templos-de-galeria de Milreu, Marim e São Cucufate

Extracto do estudo MARIM ROMANO, publicado em www.arkeotavira.com/alg-romano/marim/index.html


Plantas comparadas dos templos de Marim, Milreu e São Cucufate
[i]

Theodore Hauschild revelou as semelhanças entre estes edifícios e os fana de tradição céltica, comuns na Gália e Germânia do Baixo-Império[ii] e caracterizados por um corpo central (rectangular, circular ou poligonal) rodeado por uma galeria períbolar, tendo frequentemente no seu interior uma fonte associada ao culto.

Reconstituição do templo-de-galeria de Milreu, por T. Hauschild

O abside semicircular, muito frequente na arquitectura romana do séc. IV, está porém virtualmente ausente dos exemplos romanos de tradição celtico-germânica[iii], o que poderá significar uma síntese original ao gosto de meados do séc. IV, que constituiu a última geração deste tipo de edifícios[iv].

A hipótese inicial de datar o templo de Milreu da 1ª metade do séc. IV
[v] foi posteriormente revista e atrasada para a a 2ª metade desse século[vi]
De facto, a construção do templo associa-se a uma reconstrução da parte residencial de Milreu em moldes palatinos luxuosos, reflexo evidente do aumento do estatuto do proprietário.

A transformação do templo de Milreu em igreja cristã terá ocorrido durante o séc. V, uma inevitabilidade após os éditos de Teodósio, de 391. No entanto, a piscina baptismal, inicialmente datada do séc. V, e mesmo do IV
[vii] é actualmente atribuída ao séc. VI[viii].

Seria interessante saber o impacto que teve no local o grande sismo que terá ocorrido em talvez em 382
[ix].

A conjuntura administrativa e religiosa da Lusitânia na 2ª metade do séc. IV

O aumento de estatuto do possessor de Milreu pode relacionar-se com a promoção da Lusitânia, de província praesidial a província a consular, que ocorreu no reinado de Constâncio II, provavelmente após a sua vitória sobre Magnêncio (em 353) e como recompensa pelo apoio provincial
[x]. Trata-se, pelo que se sabe, do evento mais importante de meados do séc. IV que poderá estar na origem na magnificência construtiva de que há diversos exemplos deste período.

A promoção da Lusitânia ter-se-á, sem dúvida, reflectido no aumento de nível dos dignitários dos diferentes escalões da administração provincial e, naturalmente, nos sinais ostentatórios da sua hierarquia adquirida.
Esses dignitários estavam nesta época intimamente ligados à aristocracia imperial da Prefeitura das Gálias, com sede em Treveris, de quem dependia o vigário e os governadores provinciais da Hispania assim como os nomeados para os distintos cargos do Estado nas províncias.

Desde 355 que Juliano controla a Gália (e indirectamente a Hispania) como César, sendo o seu édito de tolerância religiosa de inícios de 362. Após a sua morte em 363, Valentiniano e Valente continuaram essa política de tolerância do paganismo.

No Ocidente, até à vitória de Teodósio sobre Eugénio em 391, a aristocracia pagã romana e gaulesa manteve-se sempre no topo da hierarquia política, administrativa e militar, sobretudo nas décadas de 350 a 380, destacando-se o seu desempenho à cabeça da Diocese da Hispânia e da província da Lusitânia. Javier Arce
[xi] assinala que praticamente todos os vicarii são pagãos e provenientes de velhas famílias aristocráticas que encabeçaram a reacção intelectual ao avanço cristão. Como consequência, o paganismo peninsular terá usufruído deste apoio ao mais alto nível.

É de referir o caso do senador e erudito Agorius Praetextus, que foi vir clarissimus consularis Lusitaniae antes de ser proconsul de Acaia em 363 (já no reinado de Valentiniano), protector dos cultos mistéricos, que obteve o privilégio de manter os rituais de adivinhação e de sacrifícios nocturnos nesta última província
[xii]. Já Hauschild, em 1964, colocava a hipótese do construtor do templo ter pertencido à "nobreza romana de espírito pagão conservador"[xiii].

Pode, portanto, concluir-se que o renascimento pagão que se seguiu à vaga repressiva de Constâncio em 341-345 tornou perfeitamente viável não só a vinda de altos dignitários pagãos de Itália e da corte de Treveris para o Algarve mas também a edificação de templos privados nas suas luxuosas residências.
Muitos desses cargos tornaram-se, nesta época, sinecuras hereditárias, sem ocupação efectiva de um posto oficial, criando uma classe de potentiores provinciais de estatuto senatorial.

A sub-capitalidade de Ossonoba

Embora nada se saiba em concreto da sediação em Ossonoba de officia sub-provinciais nem das suas atribuições, essa hipótese tem sido avançada, podendo ter existido já no séc. III, desde o reinado de Diocleciano, ou mesmo de Galieno.

Existe também a hipótese de Milreu ter sido uma residência oficial dessa magistratura
[xiv], quiçá uma residência temporária do governador provincial, no séc. IV[xv] e, anteriormente, de um possível praefecto estatal relacionado com a actividade mineira[xvi].

Estas hipóteses ganham relevância pela própria localização da Milreu, no limite exterior da pertica centuriada de Ossonoba
[xvii], o que indicia uma autonomia (e consequente imunidade) relativamente à jurisdição territorial da civitas. A transformação da pars fructuaria de Milreu a partir do séc. III, em zonas residenciais secundárias[xviii] é igualmente compatível com um processo de palatização, isto é, de transformação da residência privada num complexo de serviços e residências administrativas próprios de um centro de poder sub-provincial.

A hipótese ajusta-se também à construção muito tardia, nos últimos anos do séc. IV ou inícios do V, do "Mosaico do Oceano" em Ossonoba, no que pode ter sido o bairro administrativo estatal na periferia norte da cidade.
[xix]

Notas

As referências bibliográficas estão em www.arqueotavira.com/pleiades/marim/marim-romano-texto.pdf

[i] Segundo Teichner (2003), p. 108
[ii] Hauschild (1964/1990), p. 148-9
[iii] P. Gros (1996), pp. 199-203; R. Chevalier (1988), pp. 124-131
[iv] Outro templo "romano-céltico" da Britannia, em Caerwent (Gales do Sul), datado de c. 330 d. C., apresenta um pequeno ábside adossado a um dos lados da cella, mantendo porém ainda uma galeria exterior rectangular, rodeada por um precínto exterior, também ractangular (LA BÉDOYÈRE 2006: p. 243).
[v] Hauschild (1964/1990), pp. 146-7
[vi] Hauschild e Teichner (2002): 55, Teichner (2003), p. 107
[vii] Hauschild (1964/1990), p. 147
[viii] Hauschild e Teichner (2002), p. 55
[ix] Responsável pela destruição irreversível de Baelo Claudia (Sillières 1995: p.57), pela ruína de Gades, referida por Avieno (Ora Maritimia 265-268) e talvez pela submersão de três pequenas ilhas em frente do Promontório Sacro (Moreira 1991 apud COSTA e ABREU 2005: p. 20). Este sismo, originador de um tsunami, terá sido também responsável pela obliteração do porto de Balsa e pela destruição de incontáveis edifícios em todo o Algarve Romano, nomeadamente o estabelecimento da Boca do Rio (Budens).
[x] F. Salmonte 2002 p. 28
[xi] J. Arce (1982), p. 61-62
[xii] A.H. M. Jones (1966), p. 64
[xiii] Hauschild (1964/1990), p. 150
[xiv] Alarcão (1985), p. 105-106; Mantas (1990), pp. 183-184
[xv] Encarnação (1985), p. 126
[xvi] Mantas (1997), p. 296; Fraga da Silva (2002), p. 35
[xvii] Fraga da Silva (2002), p. 19. Ver a representação das perticas de Ossonoba e Balsa no mapa 3 em apêndice.
[xviii] Hauschild (1997), p. 408
[xix] É inexplicável a sua datação na transição do séc. II com o III, por LANCHA (1985): p. 120, seguida por muitos autores, sabendo-se já desde a época da sua escavação, terem sido descobertos debaixo do nível do mosaico cacos de cerâmica sigillata clara africana e uma moeda não identificada (e entretanto desaparecida) mas datada do séc. V, provavelmente de Teodósio.