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Wednesday, July 30, 2008

A Igreja do Corvo

Reconstituição da História Religiosa de um Santuário do Extremo Ocidente

Resumo de um estudo a apresentar (versão longa!)

Esta comunicação resume partes de um estudo sobre o culto do proto-mártir Vicente de Valência no seu santuário da "Igreja do Corvo", referido nas fontes árabes medievais.
Aborda sobretudo aspectos da assimilação cristã de lugares de culto e crenças anteriores da esfera marítima e, também, da posterior interpretatio islâmica do culto vicentino moçárabe.

Dossiers bibliográficos
A sua realização tornou-se possível a partir da reunião de dossiers historiográficos pertencentes a domínios disciplinares geralmente pouco comunicantes.
Destaca-se entre o corpus bibliográfico a influência determinante dos trabalhos de Philippe Walter e M. Garcia Quintela, Vitor Saxer, J. M. Blázquez, Ramsay Macmullen e M. Asín Palácios.
Destaca-se igualmente a contribuição da historiografia árabe medieval e da tradução directa de originais, realizada para este trabalho por Abdallah Khawli, que também contribui decisivamente com os seus conhecimentos sobre a história do Gharb e a cultura religiosa islâmica na época em estudo.

Síntese

A comunicação apresenta o culto paleocristão e moçárabe de S. Vicente como uma charneira histórico-religiosa entre o paganismo tardo-romano, o sufismo islâmico do Gharb e o catolicismo da "Reconquista".

Aceita-se como provável a existência de um culto de S. Vicente anterior ao séc. VIII no santuário mais tarde designado como "Igreja do Corvo", embora não existam fontes escritas sobre o culto antes de meados do séc. XII, estando as existentes seriamente inquinadas pelo programa político-religioso do novo Estado português.

A Igreja do Corvo nas fontes árabes
Sistematizam-se as referências de cinco fontes árabes sobre a Igreja do Corvo, criando-se um perfil que inclui a topografia local, arquitectura e aspectos religiosos (elementos míticos, crenças funcionais, símbolos e objectos, ritual e organização do culto).

Desse perfil destaca-se neste resumo apenas a localização da igreja numa península montanhosa que entra pelo mar, o ser escavada na rocha, ser coberta por uma grande cúpula com aberturas, já existir assim desde o tempo dos "primeiros cristãos" (ou dos visigodos) e ser famosa entre a gente do mar.

Localização
Reveem-se as hipóteses mais correntes de localização da igreja na literatura recente.
Propõe-se a sua localização mais provável em Sines, a partir da interpretação conjunta dos três roteiros árabes conhecidos.
A consolidação destes indica uma distância de 7 milhas entre o Promontório Sacro (actual Cabo de São Vicente) e a Igreja e de 40 milhas entre esta e a foz do Sado. Na realidade a distância total entre o Cabo e o Sado é de 110 milhas (40+70) e não 47.
Sines fica precisamente a 40 milhas do Sado e a 70 milhas do Cabo. O valor 7 corresponderá a um erro de cópia, em vez de 70, pois o zero árabe medieval representava-se por um ponto simples, facilmente omitido na reprodução manuscrita.

Esta localização ratifica-se complementarmente pela topografia do sítio e pela sua geografia naval, arqueologia visigótica e tradição hagiográfica local sobre a existência de uma grande igreja do início da cristandade.

Santuário pluriconfessional

Conclui-se sobre o carácter essencialmente marítimo e pluriconfessional do santuário até inícios do séc. XII.

A construção da mesquita enquadra-se na regulamentação e separação dos espaços do culto referidas nas fontes árabes.
Esta situação sugere um poder político regional organizado e uma conjuntura marítima e territorial relativamente segura, com ausência de raids de pirataria. Sugere-se assim que a mesquita será posterior ao final das incursões dos vikings na costa atlântica do al-Andalus, conseguida após 972.

Sufismo islâmico
A partir dos elementos do culto muçulmano no perfil da Igreja do Corvo e do sufismo popular, forma histórica da islamização do Gharb nos sécs. X a XI, infere-se a sua adopção islâmica como santuário de Khidr/Al-Khadir, entidade espiritual de primeira grandeza do sistema de crenças sufista, objecto de devoção marítima e interpretatio notável de São Vicente.
Propõe-se uma origem comum para parte dos mitos de Khidr e Vicente, baseada no "Romance de Alexandre".

Hipótese de culto judaico

A proximidade entre Khidr e Elias no mundo judaico-islâmico e as analogias entre Elias e S. Vicente no mito original do santo sugerem poder ter sido um santuário também frequentado por judeus, tendo em conta a função auxiliadora do profeta no culto judaico medieval e o papel deste grupo étnico-religioso no tráfico inter-regional do al-Andalus, nomeadamente naval.

Fontes portuguesas
Analisam-se as fontes portuguesas sobre São Vicente, revelando as suas inconsistências historiográficas quer quanto à proveniência das relíquias de Valência quer quanto ao seu posterior achamento pelos portugueses no séc. XII. Estabelece-se um perfil comparativo entre as sucessivas versões histórico-lendárias e reitera-se a interpolação anacrónica do "pseudo-Rasis" na Crónica de 1344 e no manuscrito de Santa Cruz de Coimbra, há muito denunciada.

Aceita-se a lição de Vitor Saxer, a única fundamentada documentalmente e historicamente consistente. Elimina-se a sua reticência quanto à Chronica Pseudoisidoriana poder ser a fonte independente mais antiga sobre o culto de Vicente na região, visto sua edição recente indicar uma data da 2ª metade do séc. XII, portanto posterior aos eventos da narrativa portuguesa.

Abordagem comparativista
Propõe-se um modelo conjectural "comparativista" de regressão religiosa para épocas pré-cristãs, a partir de uma grelha de atributos formados pelo perfil religioso da Igreja do Corvo e pelos seguintes factores adicionais:
  • Exegese comparativista do mito e culto de Vicente nos sécs. IV e V, revelando-o como um "Hércules marinho", fusão dos mitos de Andreas, Hércules e Palaimon, vencedor indómito de ordálias sobre os quatro elementos, com apoteose celeste após o afogamento do corpo, curador médico, garante da preservação dos cadáveres e da recuperação das vítimas dos naufrágios com vista à ressurreição da carne e intercessor com a divindade suprema.

  • Crenças associadas à geografia do local, no Extremo Ocidente, como morada do Sol; fim do mundo humano; lugar eminentemente próximo quer do mundo inferior quer do mundo celestial; lugar funerário e de apoteose de personagens/heróis dotadas de poder e atributos solares.

  • Importância regional do culto marítimo de Hércules Gaditano, com características oraculares.

  • Aspectos religiosos da numismática de Ipses e Salacia e da arqueologia de Tróia e Sines.
Reconstituição da cronologia religiosa
Esse modelo considera que os atributos identificados podem relacionar-se com hipóteses alternativas de sistemas de crenças, cultos locais e estruturas religiosas anteriores, de cinco períodos fundamentais:

Nos séc VIII-X
  • Monacato visigodo-moçárabe, reconhecido pelas autoridades muçulmanas.
No séc VII
  • Mosteiro e igreja, muito provavelmente ampliados ou reconstruídos após o reinado de Suintila, vencedor dos bizantinos do Algarve.
  • Possível introdução do culto de São Vicente, talvez com relíquias secundárias.
Nos sécs. IV a VI
  • Possível eremitério cristão com eventuais períodos de abandono.
  • Possível monaquismo místico cristão, pré-visigótico, terreno ideológico para a posterior interpretação sufista.
Nos sécs. III e IV
  • Culto de Hércules solar funerário (estóico) associável ao culto imperial da Tetrarquia e à Teologia Solar posterior a Aureliano: possível mausoléu ou cenotáfio do séc. IV.
  • Mitraísmo, que pode integrar os cultos anteriores: possível antro mitraico.
Antes do séc. I a. C
  • Possível santuário oracular semelhante ao do "Porto dos Dois Corvos" referido por Estrabão
  • Culto de divindades marinhas, cuja iconografia numismática e mito reconstituído possuem grandes afinidades com o mito helenístico de Melicertes/Palaimon/Portuno e Ino/Leucoteia/Vénus Marítima, talvez romanizados regionalmente como Neptuno e Salácia
  • Tradição da existência do túmulo de Melkart/Hércules no Ocidente, provável origem do culto funerário de Hércules já referido.
Igreja do Corvo e Cabo de São Vicente
Desmistifica-se assim a tese da identificação do Promontório Sacro (actual Cabo de S. Vicente) com a Igreja do Corvo e com o culto do santo antes do domínio português, quer em termos geográficos quer em termos das regressões religiosas mais prováveis, pouco compatíveis com o santuário dedicado às divindades infernais no referido Promontório, que Estrabão descreve.