It takes a great deal of History to produce a little History

Monday, November 26, 2012

Ensaio sobre o urbanismo romano de PAX IULIA (Beja)


Através da publicação de duas imagens pela prof. Conceição Lopes no Facebook, e através da gentil informação fornecida pela autora, fiquei a conhecer um estudo recente de Gérard Chouquer (http://fr.wikipedia.org/wiki/G%C3%A9rard_Chouquer) sobre o urbanismo romano de Beja/Pax Iulia.

O referido estudo intitulado Méthodologie de l'analyse de morphologie urbaine. Le centre historique de Beja (Portugal, Alentejo) está disponível em linha, no link indicado mais abaixo na bibliografia.

Trata-se de um autor bem conhecido dos estudiosos das obras dos gromáticos romanos, dos cadastros antigos e da disciplina por ele designada de arqueogeografia, também conhecida por topografia antiga.

A obra de Gérard Chouquer tem naturalmente um lugar de destaque na minha biblioteca, nas secções de geografia histórica e de estudos rurais romanos. 

De facto, só pelas vicissitudes das modas actuais e institucionais ela pode surgir ligada à arqueologia, tal como esta disciplina é ensinada e aplicada hoje!

O estudo referido sobre Beja é de grande importância para os estudiosos do urbanismo histórico antigo em Portugal. 

Não só porque apresenta um novo modelo de reconstituição da cidade baseado numa cuidada técnica analítica, como sobretudo porque inclui um verdadeiro manual de análise arqueotopográfica urbana, de grande qualidade e de valor inestimável para estudantes e profissionais.


HISTORIAL DAS RECONSTITUIÇÕES DO URBANISMO ROMANO DE BEJA / PAX IULIA

Como  homenagem ao estudo do prof. Gérard Chouquer e à sua publicação graciosa em linha, apresento um pequeno historial gráfico das reconstituições urbanísticas de Pax Iulia, tema que o autor aborda de modo desenvolvido no referido estudo. 


Tomo a liberdade de incluir duas novas reconstituições, não tratadas pelo autor. Acrescento no fim uma curta apresentação da problemática das fontes de informação em geografia urbana histórica.


1990 JORGE DE ALARCÃO
 

 
ALARCÃO 1990a: Ilustração p. 464; ALARCÃO 1990b:  fig. 2 p. 47. LOPES 2003: fig. 69, p. 190.



1987 MANUAL MAIA

 
MAIA 1987: Vol2: Sobreposição da Planta 8 (transparência): "Reconstituição conjectural de Pax Iulia" sobre a Planta 7: "Núcleo urbano mais antigo de Beja"


1996 VASCO MANTAS



MANTAS 1996a: 1ª versão na fig. 4, p. 15; MANTAS 1996b: fig. 2, pág. 48.


2006-7 LUIS FRAGA DA SILVA
 

 
Inédito. Elementos reconstituídos da malha urbana "romana" e dos seus ecos ortogonais, sem interpolações nem ajustamentos.
 


 
FRAGA DA SILVA 2007: detalhe da infografia p. 107. Reconstituição minimalista baseada na análise anterior e nos estudos publicados por ALARCÃO, MANTAS e LOPES.


2011 GÉRARD CHOUQUER

 
CHOUQUER 2011: fig. 27. Cidade medieval

 
CHOUQUER 2011: fig 39. Elementos morfológicos da cidade romana

 
Bibliografia


ALARCÃO (1990a) = Jorge de Alarcão
"O Domínio Romano" in Jorge de Alarcão (Coord.), Portugal, das origens à Romanização in Joel Serrão & A.H. de Oliveira Marques (Dir.), Nova História de Portugal, vol. I, Presença, Lisboa, 1990, pp. 343-489.
ALARCÃO (1990b)
"A urbanização de Portugal nas épocas de César e de Augusto", in Stadtbild und Ideologie. Die Monumentalisiergung hispanischer Stadte zwischen Republik und Kaiserzeit, Bayerische Akademie der Wissenschaften, Munich, 1990, pp. 43-57

CHOUQUER (2011) = Gérard Chouquer
Méthodologie de l'analyse de morphologie urbaine. Le centre historique de Beja (Portugal, Alentejo), Observatoire des Formes du Foncier dans le Monde, FIEF, Paris, 2011
(URL=http://www.formesdufoncier.org/index.php?rub=thematiques%2Fespurbains; data acesso= 22/11/2012)

FRAGA DA SILVA (2007) = Luis Fraga da Silva
Balsa Cidade Perdida, Campo Arqueológico de Tavira/Câmara Municipal de Tavira, Tavira, 2007

LOPES (2003)  = Maria da Conceição Lopes
A Cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca da "civitas" de PAX IVLIA, Universidade de Coimbra, Coimbra, 2003.

MAIA (1987) = Manual Andrade Maia
Romanização do Território Hoje Português a Sul do Tejo. Contribuição para a análise do processo de assimilação e interacção sócio-cultural. 218-14 d.C. 2 vols., Universidade de Lisboa, Lisboa, 1987.
 

MANTAS (1996a) = Vasco Gil Mantas
"Teledetecção, cidade e território: Pax Ivlia", Arquivo de Beja. vol. I, série III, (Abr. 1996), pp. 5-29.
MANTAS (1996b)
"Em torno do problema da fundação e estatuto de Pax Iulia", Arquivo de Beja. vol. II/III, 3e série, (Dez. 1996), p. 41-62
MANTAS (1990)
"Teledetecção e urbanismo romano: o caso de Beja", Geociências. V, 1 (1990), pp. 75-88



NOVA RECONSTITUIÇÃO DO URBANISMO DE PAX IULIA
O filme flash seguinte mostra uma apresentação de slides com as principais fases de um novo ensaio de reconstituição do urbanismo romano de PAX IULIA/BEJA. Baseia-se no meu trabalho de 2007 e nos desenvolvimentos recentes.

   Clique na imagem ou aqui para iniciar a apresentação.


FONTES DE INFORMAÇÃO NO URBANISMO HISTÓRICO. GENERALIDADES
As reconstituições de urbanismo histórico de determinadas épocas ou da sua evolução temporal são aplicações comuns em Geografia Urbana Histórica, levadas a cabo por geógrafos humanos, por arquitectos e por historiadores (hoje geralmente mais ou menos ligados às temáticas de índole arqueológica ou patrimonial).

Essas reconstituições materializam-se sobretudo na planimetria urbana, mais ou menos detalhada e precisa, e baseiam-se num amplo leque de fontes de informação, cada uma delas com as suas metodologias, técnicas e sistemas de classificação próprios. 

Faço aqui uma apresentação sucinta dessas fontes principais:

1. Fontes históricas

Tradicionalmente a Geografia Histórica recorre para o efeito maioritariamente a fontes documentais, sejam escritas, cartográficas ou iconográficas. O seu uso está de tal modo divulgado que não carece de apresentação

2. Fontes geográficas persistentes geocondicionadas

Recorre também a elementos páleo-fisiográficos (sobretudo hidrográficos e costeiros) e a elementos funcionais geocondicionados de carácter persistente, que não deixam vestígios materiais de épocas antigas mas mantêm o seu uso (ou reocupação) funcional em lugares específicos e de longa duração no contexto histórico pré-industrial.

São exemplos deste último caso: as localizações viárias; portuárias; defensivas; associadas a actividades extractivas ou manufacturas com matérias-primas altamente localizadas; de captação e transporte de água; de travessias de linhas de água; e de certos tipos de actividade religiosa de índole tópica.

3. Fontes toponímicas

Os nomes de lugar são um tipo especializado de informação espacial histórica. 

Por um lado têm características das fontes geográficas persistentes, enquanto marcadores de localização e ocupação, por outro lado têm características das fontes históricas, como elementos linguísticos susceptíveis de datação.

Transportam ainda informação semântica de carácter corográfico sobre o significado, uso e apropriação dos espaços designados nas épocas da formação dos nomes.

4. Fontes monumentais

Em certas cidades históricas as estruturas materiais sobreviventes de épocas passadas (monumentos presentes) têm um papel mais ou menos destacado na reconstituição das formas urbanas da sua época ou mesmo de épocas mais antigas. 

É o caso comum de fortificações, pontes, estruturas de abastecimento de água e edifícios singulares, com destaque nestes últimos para as igrejas no velho mundo.

5. Fontes arqueológicas

Com o desenvolvimento nas últimas décadas da arqueologia urbana, as estruturas arqueológicas urbanas postas a descoberto ou registadas têm vindo a tomar uma importância crescente na informação das reconstituições urbanísticas, tanto na escala topográfica como na escala arquitectónica.

O seu carácter geralmente muito pontual (e portanto pouco definidor do urbanismo subjacente) é compensado pela precisão da datação dos vestígios, geralmente superior aos demais tipos de informação.

6. Modelos teóricos: fontes de indução e de dedução funcional e estrutural


A criação progressiva de catálogos de urbanismo histórico de várias épocas e regiões começa a permitir a elaboração de modelos de urbanismo histórico-regional, suficientemente ricos e complexos para explicar as grandes e inúmeras variações individuais a partir de perfis definidos com um número restrito de factores comuns. 

Vai chegando ao fim a época quer do irracionalismo fenomenológico quer das generalizações grosseiras baseadas em documentação muito limitada e em casos de estudo singulares.

A capacidade preditiva e reconstitutiva dos modelos teóricos baseia-se geralmente na pré-definição de relações topológicas e geocondicionadas entre elementos identificados, propostos e omissos.

7. Fontes arqueotopográficas

A Geografia Histórica recorre finalmente a elementos sobreviventes da estrutura edificada e do parcelário urbano mais ou menos fossilizado. 

Neste último caso os parcelários sucessivos tendem a sobrepor-se ao longo do tempo, criando palimpsestos de arruamentos, quarteirões, logradouros e limites. 
Planos edilícios de geometria regular podem tender a transformar-se em malhas irregulares ou a desaparecer totalmente. 
Em contrapartida, novos eixos ou polaridades regulares podem estruturar eixos orgânicos antigos. Estas duas tendências podem coexistir em cidades de maiores dimensões e com um largo historial urbano pré-industrial.

Em certos casos é possível discriminar partes historicamente distintas destes palimpsestos a partir da análise diferencial da sua geometria planimétrica e da análise das características e anomalias da altimetria do terreno. 

A métrica das malhas e a forma e dimensões específicas das redes e parcelas permite por vezes datar mais ou menos grosseiramente as intervenções urbanas respectivas

A tendência para a irregularização de eixos e limites modernos implica a pesquisa de ajustamentos significativos por regressão, interpolação e extrapolação, de modo a obter os eixos e limites mais antigos.

Este tipo de análise aplica-se genericamente a malhas e redes geográficas definidas no intervalo de escalas topográficas: urbanísticas; parcelários rural e cadastrais e viárias.

A análise arqueotopográfica está rigorosamente limitada pelo conhecimento das fases regressivas da formação dos palimpsestos em análise, a fim de tentar minimizar os erros associados genericamente a este tipo de abordagem (
de equifinalidade, indefinição e fusão).


BIBLIOGRAFIA GERAL: Será incluída se houver interesse

No comments: