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Monday, April 09, 2012

Gravura de Tavira do século XVII


Gravura de Tavira, de autor desconhecido do século XVII

Notas para o Atlas Histórico de Tavira
Este texto é um esboço incompleto do estudo desta fonte iconográfica, a incorporar no Atlas Histórico de Tavira. O plano desta obra pode ver-se neste blog, aqui: Atlas Histórico de Tavira.

 Imagem de Tavira. Séc. XVII.
Panorama. Jornal Literário e Instrutivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, 2ª Série, vol. 2, nº 80, Julho, 8, 1843

A gravura é uma "quase-paisagem", em que certos elementos são representados com dimensões desproporcionadas ou fora da sua posição real para caberem no enquadramento, e em que o casario secundário é reduzido em número e simplificado na forma.
O único estudo que conheço sobre a gravura é da autoria de António Sebastião e Silva (CGST)[1].
Nunca foi feita uma abordagem analítica sistemática, sem dúvida por não se conhecerem outras representações urbanas suficientemente próximas ou com alçados comparáveis.
Esta situação alterou-se radicalmente com a revelação da planta de Leonardo de Ferrari (FERR) e do "Borrão do alçado de Tavira" de José de Sande Vasconcelos (BAT), ambas previamente desconhecidas pelos estudiosos da história urbana de Tavira.

Estudo analítico
Esse estudo analítico – de que aqui se apresenta uma primeira versão – fica porém muito facilitado a partir das referidas plantas e de um "modelo digital de terreno" do espaço urbano actual.
A sua realização é um exercício didáctico elementar de geografia histórica urbana, cujo enunciado se pode estabelecer do seguinte modo:
- Identificação prévia dos elementos da gravura que servem de marcadores de paisagem
- Determinação do ponto de tirada da vista
- Ajustamento e sobreposição da cartografia mais próxima no tempo à gravura
- Avaliação do rigor topográfico da gravura
- Sistematização dos elementos urbanísticos identificados
- Estimativa de um intervalo de datação da gravura, a partir da datação de elementos já aí representados mas omissos em FERR, com base em fontes documentais e estudos específicos
- Contribuições específicas da gravura para o conhecimento da arquitectura e da forma urbana
Aqui tratarei apenas sumariamente de alguns destes pontos.

Marcadores de paisagem e pontos de tomada de vista
A figura seguinte mostra a selecção de marcadores de paisagem (identificados segundo uma numeração arbitrária sistematicamente usada neste estudo: ver lista mais adiante) e a sua implantação no espaço topográfico real. 
A planta é de um modelo digital de terreno com uma resolução altimétrica de 1m.
Mostra também os alinhamentos dos marcadores da paisagem percepcionados segundo a sequência visual e a profundidade visual da gravura, idealmente convergentes para pontos únicos de tomada de vista, definidos pela sua intersecção.

 Planta e modelo digital de terreno da área urbana de Tavura, com marcadores de paisagem, alinhamentos e pontos de tomada de vista da gravura

O ponto de tomada de vista principal da gravura assim definido (designado por A) situa-se num pontal planáltico sobreelevado sobre todo o vale do Gilão, hoje situado a sul da Rua de Miraflores, junto ao logradouro/largo da Rua Brigadeiro Eduardo José dos Santos. Este ponto de vista define o plano de visão da gravura, paralelo ao eixo do rio.

Os alinhamentos e a sequência visual são quase perfeitos e sistemáticos para todos os marcadores de paisagem seleccionados, com excepção dos eixos da Rua da Porta Nova e da Carreira de S. Lázaro, que surgem grandemente distorcidos no conjunto.

O alinhamento e sequência visual destes eixos extemporâneos correspondem na realidade, não a um erro de desenho, mas sim a um segundo ponto de tomada de vista (assinalado como B). A ponte surge como charneira comum entre ambas as perspectivas.

Tudo indica assim que a gravura se obteve pela composição de elementos de ambos os pontos de tomada de vista, com grande predominância do primeiro.

Implantação e sobreposição da gravura na planta de Ferrari

 1 - Modelo da planta original de Leonardo de Ferrari (c. 1555) cf. FERR.



2 - Modelo da mesma planta rodada e perspectivada de modo a corresponder aproximadamente ao ângulo de visão da gravura

 3- Modelo da mesma planta distorcida para se ajustar aproximadamente à gravura.


Erros
A gravura só é conhecida através de uma litografia publicada em 1843, em época anterior à reprodução fotográfica generalizada. Não é possível portanto saber-se se alguns erros de omissão e simplificação são originais ou devidos a erros da cópia manual para a matriz litográfica
A gravura apresenta sete erros mais ou menos evidentes:
-  A ermida da Senhora do Loreto e as casas nobres que a incluem são omissas. As casas já são representadas em FERR (e a ermida já existe em 1573, aquando da visita de D. Sebastião à cidade) e o conjunto é destruídas apenas em 1888.  A sua omissão na gravura só se compreende por erro de desenho.
-  A ponte tem uma dimensão desproporcionada e está sobreelevada relativamente ao rio
-  O castelo tem uma altura desmesurada. Todo o andar superior abaluartado é imaginário
-  As torres da cerca da Graça e, sobretudo, o torreão manuelino da porta "nova" da Bela Fria estão sobredimensionados, sobretudo em altura.
-  A muralha almóada entre o muro albarrã da Porta do Mar e a Porta da Vila não está representado, sendo substituído por casas fantasiosas
-  A qualidade artística dos alpendres e arcada das casas da Câmara junto à Alfândega é má, permitindo apenas adivinhar os arcos a quem saiba da sua existência por outras fontes.
Tendência para a distorção "abaluartada" das paredes verticais: é o caso manifestamente exagerado da ponte e do castelo e, em menor grau, da torre do mar e da capela ameada da Igreja de Sant'Ana
Tudo o resto parece ser aceitavelmente rigoroso dentro do esquematismo simplificado seguido, quer quanto às posições relativas na paisagem quer quanto aos detalhes arquitectónicos dos edifícios mais notáveis.
  
Sistematização dos elementos arquitectónicos identificados

 
  1. Convento das Bernardas
  2. Igreja de S. Sebastião
  3. Convento de S. Francisco
  4. Castelo
  5. Igreja de Santa Maria
  6. Convento da Graça
  7. Torre Norte da Cerca da Graça (muralha medieval almóada)
  8. Igreja de S. Roque
  9. Casa de Vaz Velho
  10. Pelames
  11. Torre manuelina da porta da Bela Fria
  12. Barbacã manuelina
  13. Palácio da Galeria
  14. Torre e Porta do Mar
  15. Praça da Ribeira
  16. Alfândega: edifícios e terreiro
  17. Horta do Rei e Horta do Bispo
  18. Edifícios singulares
  19. Ponte
  20. Igreja de S. Lázaro
  21. Porta Nova
  22. Igreja da Sra. da Ajuda e Convento de S. Paulo
  23. Largo da Alagoa
  24. Igreja de Sant'Ana
  25. Rua Direita do Corpo Santo
  26. Rua do Sapal
  27. Estrada para Castro Marim (Carreira de S. Lázaro)
  28. Rua da Porta Nova
  29. Estrada do Cano para Faro
  30. Rua do Sapal de Sant'Ana. Caminho para Vale Formoso
  31. Rua do Alto do Cano e estrada de Loulé
  32. Rua da Praia da Ribeira (Porto de Tavira)
  33. Adro da Porta da Vila
  34. Largo/Terreiro da Corredouras
  35. Torre do canto Noroeste da cerca da Graça
 Tipos de elementos

A    Casas conventuais
B    Igrejas e ermidas
C    Fortificações medievais: castelo e muralhas
D    Portas e cercas fiscais pós-medievais
F    Casas particulares notáveis       
G    Hortas e campos agrícolas
H    Largos e Terreiros
I     Edifícios de comércio e administração local
J    Edifícios de manufacturas (curtumes)
K    Eixos de arruamentos e limites de largos


O sobredimensionamento
O sobredimensionamento referido atribui um estilo "maneirista"  á gravura, em que o desenhador aumenta selectivamente os principais símbolos urbanísticos de prestígio da povoação: a ponte, que é o ex-libris da cidade, e a fortificação medieval, cujo valor é porém meramente simbólico visto ser já completamente anacrónica na época.

A ponte (Nº 19)
A gravura mostra a ponte antes da sua grande reconstrução de 1655-57, que criou a estrutura que permanece até hoje nos seus traços fundamentais (TST1, 300-1).

O grande gigante ou quebra-mar central representado na gravura e em FERR, é interpretado por Sebastião e Silva como tendo tido inicialmente um carácter fortificado (FPT, 141).
As "casas" que aí existiram segundo Sarrão (em 1607: SARR, 166) terão tido uma existência efémera pois ainda não existem em FERR e já não sobrevivem na gravura.
Na gravura, os talhamares bem evidentes em FERR conseguem individualizar-se com alguma dificuldade. Os dois primeiros arcos da margem esquerda não estão representados, tapados pela perspectiva do casario. Correndo o risco de sobreinterpretar o desenho muito esquemático parece que o 6º arco, mais próximo da margem pode ter sido sobreelevado, possivelmente para permitir a passagem de barcas de maior calado.
Na reconstrução dos dois pilares aluídos do lado sul (nº 4 e nº 5) o arquitecto decidiu também arrasar o antigo gigante (nº 3), reconstruindo-o de novo e acrescentando mais um arco e um pilar do lado Sul, diminuindo assim os respectivos vãos. Todos os novos pilares têm a forma de castelejo, sendo o 3º ligeiramente maior – provavelmente com uma dimensão semelhante ao original. É fácil distingui-los, comparando a ponte de FERR com a planta da ponte actual.
 Plantas da Ponte aproximadamente na mesma escala e orientação.
Em c. 1555 (FERR), c. 1798 (BAT) e na actualidade (Monumentos Nacionais)

O castelo (Nº 4)
A representação do castelo ultrapassa o simples exagero dimensional: acima do nível real das ameias (bem perceptível na gravura e muito mais baixo do que as torres da Igreja de Santa Maria) o autor inventa uma extensão abaluartada e ameada, em que duas das torres se representam com telhados sobrepostos (um de quatro águas e um de duas águas!).
 Alinhamento comparativo aproximado do Castelo e Igreja de Santa Maria.
Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)
 Relação altimétrica real entre o Castelo e a Igreja de Santa Maria

A gravura, para além de uma base realista indiscutível, pretende difundir uma mensagem de poderio defensivo, tão simbólico quanto anacrónico. Porém, a própria realização da gravura e a invenção do castelo poderão corresponder a um projecto de reconstrução da fortaleza, no sentido de a tornar de novo eficaz no contexto militar da época.
Esta necessidade premente e generalizada colocou-se, como se sabe, ao recém-restaurado Estado português após 1640, o que permitiria datar a gravura logo a seguir à Restauração, isto é, a partir de 1641.

Elementos urbanos que surgem pela primeira vez na gravura

A gravura mostra uma série de elementos que ainda não existiam na planta de Ferrari, sendo portanto posteriores a ela:
 -  Nº 6: Edifícios novos do convento da Graça, iniciados em 1569 e concluídos já no séc. XVII.
 -  Nº 22: Convento de S. Paulo, concluído c. 1605.
 -  Nº 5: Torre sineira da igreja de Santa Maria (a da esquerda na gravura), de data por mim desconhecida. Fica por esclarecer em que medida esta data poderá contribuir para avançar o limite post quem do intervalo de datação da gravura.
 -  Nº 21: Porta Nova, provavelmente coeva da porta do Malforo, já existente em 1573.
·     -  Nº 13: Fachada nobre do Palácio da Galeria, já existente em 1635[2].

As casas de Câmara (Nº 16)
A representação das "casas da Câmara", arcada e alpendres junto à Alfândega revela a ausência de telhados sobre os referidos alpendres, assim como a ausência de um piso superior.

A casa do lado do rio – dos antigos açougues – parece estar também parcialmente destelhada.
Como já disse, os arcos não são explícitos para quem não conheça a sua existência, o que constitui uma dos pontos fracos do desenho.

Tendo em conta a fidelidade geral dos detalhes nos demais edifícios notáveis, é difícil aceitar que o "destelhamento" seja um erro do desenho (embora tal seja obviamente possível, pois o desenhador "esqueceu-se" das casas do Loreto!).

A alternativa mais provável é tratar-se de facto de uma representação fidedigna, de uma fase de obras notórias de reparação/reconstrução dos edifícios. 

Tal permitiria datá-las numa data imediatamente anterior a 1645, altura em que as casas sobre os alpendres (já com piso superior) são usadas como aposentadoria do Corregedor, sendo essa a razão mais plausível para a realização das obras.
 

Datação

Em conclusão, a datação mais provável da gravura é, em graus crescentes de precisão mas também de incerteza:
   - Primeira metade do século XVII
   - Entre 1605 e 1645, sempre antes de 1657.
   - O intervalo pode ser encurtado tentativamente para 1641-45, considerando o que acima foi dito sobre o eventual projecto de modernização da fortaleza posterior à Restauração portuguesa.

Elementos arquitectónicos inéditos

   - Abside ameado da igreja de Sant'Ana (Nº 24)
   - Casa de Vaz Velho (Nº 9).
   - Edifícios singulares junto ao porto (Nº 18), ainda inexistentes em c. 1555 (FERR) e já omissos em c. 1797 (BAT).

Comparação muda de elementos urbanísticos seleccionados

Comparação gráfica de elementos urbanos da gravura com as respectivas plantas e alçados nas cartas de Leonardo de Ferrari (c. 1555) e Sande de Vasconcelos (c. 1798). A explicação e a sinalização das alterações relevantes, decorrentes da evolução histórica dos locais, serão incluídas numa versão posterior. 

Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)

  Conventos das Bernardas (Nº 1)

 
  Convento de S. Francisco (Nº 3)


Igreja de Sant´Ana (Nº 24)


 Porta e Torre do Mar (Nº 14) e Adro da Porta da Vila (Nº 33)

 Torre da Porta "Nova" da Bela Fria (Nº 11) e torres da cerca da Graça (Nº 7 e Nº 35)


Bibliografia

ACA        Catarina Almeida Marado, Antigos Conventos do Algarve. Um percurso pelo património da Região, Colibri, Lisboa, 2006
BAT         José Sande de Vasconcelos: ver neste blog Alçado da Planta de Tavira. Finais séc. XVIII http://imprompto.blogspot.pt/2010/01/alcado-da-planta-de-tavira-finais-sec.html
CGST       António Sebastião e Silva, " Considerações sobre a gravura seiscentista de Tavira" in Tavira do Neolítico ao Século XX. Actas das II Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1993; pp. 135-143.
CNSG      Daniel Santana, "O convento de Nossa Senhora da Graça de Tavira", Monnumentos, 14, D.G.E.M.N., Lisboa, 2001, 124-133.
CRA        Frei João de São José, "Corografia do Reino do Algarve", 1577, in DDA21-132.
DDA        Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães (Edição, estudo e notas), Duas descrições do Algarve do Século XVI, Sá de Costa, Cadernos da Revista de História Económica e Social, 3, Lisboa, 1983        
FERR       Leonardo de Ferrari: ver neste blog Uma planta inédita de Tavira, do séc. XVI  http://imprompto.blogspot.pt/2008/04/uma-planta-indita-de-tavira-do-sc-xvi.html
FPT         António Sebastião e Silva, "As Fortificações Pós-Medievais em Tavira", in Actas das III Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1997; pp. 207.
HRA        Henriques Fernandes Sarrão, "História do Reino do Algarve", 1607, in DDA, 133-170.
JAA         João Cascão, (Ed., estudo e notas de Francisco de Sales Loureiro), Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve (1573), Livros Horizonte, Lisboa, 1984.
NHT        Damião A. de Brito Vasconcelos, Notícias Históricas de Tavira. 1242/1840, (Notas de Arnaldo Casimiro Anica), Câmara Municipal, Tavira, 1989 (1937).
NNHT      Arnaldo Casimiro Anica, Notas in NHT, 1989
TST1       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico, Câmara Municipal, Tavira, 1993
TST2       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico. Volume II, Câmara Municipal, Tavira, 2001


[1] Estudo inovador na altura, quando a historiografia do urbanismo tavirense tinha ainda um carácter notoriamente pré-científico, com opiniões que o autor rebate justamente, caso a caso. Muitas das suas ilações, assim como a sua aceitação literal das representações, já não podem porém ser aceites hoje.
[2] TST1, p. 286: Data de 1635 a doação das "casas da Calçada que vai de Santa Maria para a Fonte, à mão esquerda" pela viúva de Luis de Aragão de Sousa ao seu filho.