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Friday, March 01, 2013

Sobre uma moeda de Ossonoba vista no Facebook

Nota originalmente publicada no Facebook, com eventuais edições posteriores

Podem hoje distinguir-se duas fases tipológicas e cronológicas de cunhagens de moeda local tanto em Ossonoba como em Balsa.

Relativamente a Ossonoba esta questão foi já bem identificada e caracterizada por Antonino de Carvalho Poiares  no seu artigo "Algumas moedas inéditas de Osunba", Vipasca 7, 1998, p.59-65.
Embora Ossonoba seja muito mais pobre do que Balsa em achados numismáticos contextualizados (após a "descoberta" da colecção Vargues), a diferenciação das suas emissões em duas fases é mais evidente graças à alteração da grafia do topónimo: a forma primitiva OSVNBA transforma-se na forma romanizada OSSONOBA.

A esta alteração toponímica associa-se a alteração da composição das moedas: as mais antigas são em bronze e as mais modernas em chumbo, ou melhor: na fase moderna só há moedas em chumbo, tal como em Balsa.

Entre as moedas de Ossonoba conhecem-se dois tipos com a representação de uma "nave oneraria" da classe "corbita": uma de bronze e uma de chumbo.

BRONZE:

 GOMES* OSS 15.01 2A AE 23.1g (*Alberto Gomes, Moedas do território português antes da fundação da nacionalidade (Hispano-Romanas), Associação Numismática de Portugal, Lisboa, 1998)
 CNH* 424:1 Segundo António Marques de Faria,"Moedas da época romana cunhadas no actual território algarvio", in Barata, Filomena & Rui Parreira (Eds.), Noventa séculos entre a serra e o mar, Lisboa, IPPAR, 1997, p. 361-71: figs. 13 e 14, p. 368. 
(* Corpus Nvmmvm Hispaniae Ante Avgvsti Aetatem, Leandre Villaronga, José A. Herrero, 1994)

 Exemplar publicado no Facebook na página "Portugal Romano"


CHUMBO:

 GOMES OSS 12.01 A3 PB 5.9g

 CNH 424:1A (segundo António Marques de Faria, idem).

 VCOINS, 8.58g

 Colecção Vargues, 8.1g

Os dois exemplares apresentados têm um peso quase idêntico, bastante superior ao indicado em Gomes OSS 12.01 A3 (5.9g). Ou se trata de um erro tipográfico ou de pesagem deste autor, ou então de um divisor (semisse) não representado no seu catálogo.

As embarcações dos dois tipos de moedas parecem ter as mesmas características, correspondendo a cunhos muito semelhantes. A pior qualidade dos exemplares conhecidos de chumbo pode resultar da sabida maior fragilidade deste metal ou então da reutilização do cunho primitivo já numa fase de desgaste.

PARALELOS PENINSULARES
O único paralelo conhecido de "nave oneraria" nas emissões peninsulares é o dos asses do município romano de DERTOSA HIBERA IULIA ILERCAVONIA com duas versões, das épocas de Augusto (27 a.n.e.-14 n.e.) e de Tibério (14-37 n.e.).

 1ª e 2ª emissão


REVERSOS
Os reversos das moedas de OSVNBA e OSSONOBA são também distintos:

O primeiro tem o topónimo entre dois atuns horizontais voltados à esquerda. Segundo Gil Farrés este emblema difunde-se em cunhagens de várias povoações na época de César, durante a guerra Pompeiana ou após a sua vitória.

Curiosamente, conhece-se o desenho de um exemplar de uma moeda semelhante de Balsa, raríssima, um asse de bronze em que o reverso é idêntico (com a diferença do topónimo, bem entendido) e o anverso representa uma trirreme ou outra classe de navio de guerra de maior envergadura, sendo reconhecível uma torre de combate no convés e uma fileira de remos.

 Gomes BAL 08.07, A, AE, sem peso (Ilustrado primitivamente por Gil Farrés em 1966 e por Rosa e Mário Varela Gomes em 1984)

O reverso do segundo tipo de Ossonoba (em chumbo) usa a abreviatura OS.SO simétrica entre um atum vertical voltado para cima. Esta simetria tipográfica do topónimo abreviado é uma característica comum das moedas da 2ª fase das emissões ossonobenses.

A NAVE ONERÁRIA
Quanto à representação da corbita em moedas de Ossonoba, os melhores exemplares são os acima apresentados por António Marques de Faria.

 Bronze e Chumbo

Ambos os desenhos são suficientemente detalhados para identificar um conjunto importante de elementos estruturais e técnicos da embarcação. Os paralelos mais evidentes são estudados por Lucien Basch. Mas isso é tema para outra conversa, sobre a qual apenas deixo algumas ilustrações:

Embarcação representada na 1ª emissão das moedas de Dertosa-Ilercavonia. (Ilercavonia-Dertosa i les seves encunyacions monetàries Por M. Llorens & X. Aquilué, Barcelona, 2001: fig. 5 p. 36)

 Fig. 1026 p. 460: leitura do baixo-relevo de Naevolia Tichè. Lucien Basch, "Les navires marchands" in Le musée imaginaire de la marine antique, Athènes, 1987, p. 457-471.

 Modelo de Corbita in (Kriegsschiffe der Antike - Rome-Total War Fan-Treff)

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