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Sunday, August 02, 2015

Casas Abastadas de São Brás de Alportel


SIT TIBI TERRA LEVIS. Mais um projecto local para a necrópole.



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o Brás de Alportel possui um número incontável de patrimónios tão numerosos e variados quanto microscópicos. Eles interessam fundamentalmente a grupos geracionais locais e encontram-se sob formas extremamente semelhantes em qualquer outra povoação do mesmo universo cultural.
Sabe-se que uma parte crescente desses “micro-patrimónios o invenções ou reinvenções recentes, ou cópias de sucessos mediáticos na moda, no quadro de uma “eventocracia” de cariz competitivo e mercantilista que tem dominado em crescendo a vida cultural municipal portuguesa nas últimas cadas.
No entanto e acima desses pequenos horizontes e frenesins locais São Brás possui uma riqueza patrimonial edificada invulgar no Algarve, cujo interesse ultrapassa largamente o âmbito concelhio e eventualmente o regional.
Trata-se do conjunto de quintas e casas residenciais rurais abastadas, edificadas na sua grande maioria entre 1890 e 1930, no seguimento do crescimento repentino da indústria corticeira local.
O seu expoente maior é bem conhecido: a sede do Museu do Trajo, situada hoje na área urbana actual, tal como outras. Ele constitui um exemplo excepcional quer na sua dimeno arquitectónica quer na sua formulação erudita e muito moderna para a época. A restante grande maioria das casas é porém igualmente interessante e quiçá mais representativa, por se integrar melhor nos modelos arquitectónicos, funcionais e sociais da sociedade local do seu tempo.
Do ponto de vista de património edificado as casas de o Brás representam a marca sobrevivente mais significativa e espectacular dessa época, que marcou a paisagem construída são-brasense de forma determinante a à cada de 1970 e que ainda hoje se revela de modo singular no meio da metástase suburbana actual.
Um aspecto destacado destas casas é terem servido como estrutura essencial do modelo de gentrificação social da época. Desenvolveram-se primeiro entre as famílias socialmente mais importantes e progressivamente a partir daí para escalas mais modestas. Essa difusão vertical e transversal contribuiu para transformar o seu estilo num marcador de identidade generalizada e comum às classes abastadas e médias dos proprietários concelhios.
Mais do que a sua originalidade arquitectónica, é essa proliferão numérica e a riqueza das suas variantes e simplificões dentro de um estilo comum que tornam estas casas em um verdadeiro ex-líbris local.
A sua relevância patrimonial e cultural decorre de quatro aspectos principais:
 
  • A forte marca arquitectónica do conjunto das casas, caracterizada por residências principais com importantes elementos urbanos estruturais e decorativos, associadas a complexos e espaços agrícolas muito tradicionais na sua ruralidade;
  • O elevado número de exemplares (mais de vinte em todo o concelho, incluindo algumas desaparecidas ou totalmente descaracterizadas);
  • O bom estado de conservação da traça original talvez ainda da maioria;
  • A continuidade da sua memória vivencial ininterrupta desde a sua construção a há pelo menos uns vinte anos atrás, continuando a maioria em ocupação residencial permanente até aos dias de hoje.
As casas de São Brás definem assim um tipo específico de povoamento ou habitat rural próprio de uma época, de uma região e de uma formação social, em que a complexidade e a riqueza da estrutura espacial reflectem a sua adaptação a um modo de vida e a uma hierarquia social que se manteve desde o séc. XIX até meados do XX.
 
Elas ilustram um modelo em que a cultura urbana burguesa provincial se articulou perfeitamente com a economia de proprietários rurais e comerciantes agrícolas abastados e com os hábitos sociais e familiares muito tradicionalistas das classes possidentes do sul nesse período.
 
Neste sentido as casas e as respectivas “fazendas” articulam quatro domínios de estudo principais:
 
1. A parte urbana
A casa principal e os seus anexos, nomeadamente as partes de representação social, de residência propriamente dita e de anexos de serviços e de infra-estruturas domésticas.
Os logradouros e espaços exteriores.
Os usos funcionais dos espaços: usos projectados, comuns e extraordinários.
 
2. A parte rústica
Os usos agrícolas das propriedades. Partição e uso do solo.
As formas de trabalho e destino da produção: abastecimento doméstico e produções excedentárias e específicas para o mercado. Rendas, parcerias e salários em géneros.
A parte frutuária. Celeiros, currais, estrumeiras, pátios de criação, armazéns e despensas.
O espaço dos transportes e dos animais de tiro e montada.
O espaço dos veículos motorizados e alfaias
 
3. A parte industrial
As fábricas e oficinas da indústria corticeira nos recintos das fazendas.
Estudo específico sobre a morfologia edificada, a organização do espaço e as relações sociais, e a economia manufactureira subjacente em termos de: mecanização, emprego, produtividade e especializações tecnológicas e condições de trabalho.
 
4. A parte hidráulica 
A água e os sistemas hidráulicos de abastecimento doméstico e de usos agrícolas e de disposição de águas residuais.
 
É em cada uma destas partes e no seu conjunto que as casas devem ser abordadas, estudadas e conhecidas.

Por outro lado a constituição e expansão deste grupo de casas liga-se indissociavelmente às famílias e à sociedade local que sustentou politica e economicamente a fundação do concelho e que permitiu a sua sobrevivência após o final do ciclo da industrialização rural corticeira.

Esta ligação fortemente estruturante entre casas e famílias, com a sua inevitável evolução ao longo do tempo, constitui um dos aspectos mais interessantes e originais do seu estudo e permite associar o conhecimento do património edificado à história das famílias locais.

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