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Tuesday, September 22, 2015

Recursos do Império Romano e poder territorial

Nota sobre um modelo sistémico

A escassez das ciências sociais históricas nos currículos clássicos e (sobretudo) nas suas franjas tecno-patrimoniais conduz facilmente a visões simplórias (isto é, pouco ilustradas e auto-satisfeitas) na abordagem dos recursos periféricos do Império Romano.

Não há achado mais trivial que não se fale logo de "recursos económicos", que no essencial se resumem a produtos "comercializáveis", idealmente através de sistemas de comércio à distância, descritos geralmente por litanias enumerativas com colorações muito modernistas.

Na realidade, a questão dos recursos da periferia imperial romana nas escalas local ou regional obriga, na sua expressão mais sintética, a considerar um escalonamento hierárquico e um leque amplo de tipos de recursos, de naturezas distintas para além do estritamente económico.

Sem querer também ser simplório, vou procurar ser o mais simplista possível:


A verde os de carácter essencialmente autónomo, local e regional.
A vermelho os do âmbito do Estado central


1. Na sua base devem primeiro distinguir-se os recursos de subsistência das populações locais, que definem os limites da capacidade de carga demográfica e, por consequência a dimensão potencial do produto primário.

Neste cálculo conceptual deve ter-se em conta os altíssimos níveis de autoconsumo rural, assim como os baixos níveis de produtividade e a "bombagem" demográfica permanente do campo para a cidade, necessária à recomposição dos níveis de população urbana.

Neste escalão devem também incluir-se as regiões onde predominam as formações sociais e tipos de economia natural susceptíveis de produzir pessoas alienáveis como bens de uso (e de troca) no quadro da macroeconomia imperial.

É o caso das zonas produtoras de escravos, de soldados ou de certos tipos de trabalhadores especializados (como os mineiros, ou os professores/perceptores e outros profissionais liberais).

2. No escalão seguinte vêm então os célebres recursos de base estratégica, na acepção de J. P. Roth (Roth 2012) , produzidos localmente para serem encaminhados e apropriados por entidades imperiais metropolitanas ou do aparelho de Estado.

São os recursos que definem e caracterizam o carácter da economia de exploração imperialista propriamente dita: extractivos, agro-primários, etc.

3. No terceiro escalão estão os recursos organizacionais e de riqueza consolidada (isto é, a sua ordem de grandeza, independentemente das origens) que permitem a constituição e manutenção mais ou menos sustentável de um sistema de cidades ou rede urbana regional , caracterizada por centros nodais e linhas de comunicação.

 Incluem-se neste grupo as infra-estruturas físicas e edificadas, os subsistemas especializados, as organizações sociais e institucionais e os regimes financeiros e fiscais privilegiados no quadro imperial, que culminam no grau de autonomia e de poder jurisdicional local, na sua negociação permanente com as autoridades imperiais regionais e centrais.

4. No quarto escalão estão os recursos posicionais dos sítios, enquadrados nos recursos situacionais das respectivas regiões, definidos na esfera da circulação, nas acepções comuns destes termos em geografia humana e ciências geoestratégicas.

Os recursos situacionais definem as periferias em termos das redes geoeconómicas e geopolíticas de âmbito supra-regional ou global, mas também na escala mais restrita das redes provinciais polarizadas relativamente aos seus centros.

Os sítios respectivos são valorizados de acordo com os seus perfis de recursos ou valências funcionais, definidas nos contextos dessas redes.

Deles fazem parte os sistemas de comunicações e transportes de utilidade supra-local incluídos em rotas e eixos de valor estratégico, assim como os lugares especializados e dispositivos técnicos, logísticos e organizacionais necessários ao seu funcionamento e manutenção.

5. Finalmente, no quinto e último escalão que coroa este edifício conceptual, consideram-se os recursos de centralidade na pirâmide hierárquica político-militar imperial, que culminam na capital ou capitais da corte imperial e nas bases operacionais (de novo Roth 2012) das principais forças militares.

Num nível abaixo do anterior incluem os lugares centrais da hierarquia territorial da administração civil, definida por critérios institucionais e situacionais ou pela excepcionalidade política das enormes dimensões urbanas.


A questão dos recursos pode ter outras abordagens mais elaboradas, que os integram no quadro mais geral das estruturas romanas de poder territorial e que adicionam ao modelo hierárquico aqui proposto a complexidade das relações sistémicas entre cada nível e a especificidade de cada subsistema e cada entidade principal.

Estas visões sistémicas são mais rigorosas quando se limitam a quadros geo-históricos limitados, permitindo a sua representação através de diagramas com um número limitado e visualmente aceitável de graus de liberdade.

A figura seguinte mostra um exemplo em desenvolvimento, concebido para as províncias ocidentais não fronteiriças e não tribais, onde tenha sido implantado o sistema político das res publicae de modelo itálico, genericamente a partir de Augusto.

É um modelo simplificado da formação, distribuição e regulação territorial do poder e da riqueza no mundo romano, a partir de Augusto (27 a.n.E.).

Inclui as principais entidades, forças e relações definidas através das diferentes esferas conceptuais, subsistemas e escalões hierárquico-espaciais do universo imperialista romano, com destaque para as estruturas do poder local poliado e a sua articulação com o poder central.

Ensaio em desenvolvimento.







Bibliografia muito seleccionada

Christian Grateloup; Introduction à la géohistoire; Armand Colin; Paris 2015

David J. Mattingly; Imperialism, power and identity. Experiencing the Roman Empire; Princeton University Press; Princeton 2011

Jonathan P. Roth: The Logistics of the Roman Army
(264 BC - AD 235); Brill; Leiden 2012

Michael Rowlands et alii (eds.): Centre and periphery in the ancient world; Cambridge University Press; Cambridge 1987

Patrice Brun et alii (eds.): Frontières d’empire. Nature et signification des frontières romaines; Apraif; Nemours 1993

Paul Claval: Espace et Pouvoir; Presses Universitaires de France; Paris 1978

Peter F. Bang; The Roman Bazar. A comparative study of trade and markets in a tributary empire; Cambridge University Press; Cambridge 2008

Robin A. Butlin: “Historical geographies of power and control” & “Historical geographies of trade, transport and communications” in Historical Geography, trough the gates of space and time; Arnold, London 1993

Roger Brunet: L Déchiffrement du Monde. Théorie et pratique de la géographie; Belin; Paris 2001
Stéphane Rosière: Géographie politiqie & Géopolitique. Une grammaire de l’espace politique; Ellipses, 2e. ed.; Paris 2007

Walter Scheidel et alii (eds.): The Cambridge Economic History of the Greco-Roman World; Cambridge University Press; Cambridge 2013

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