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Saturday, January 21, 2017

Uma cabeça em miniatura de NERO em OSSONOBA?

Esta é uma nota sem pretensões, feita com bibliografia caseira, sobre um minúsculo fragmento escultórico romano inédito, descoberto recentemente em Faro.
A notícia original é do grupo FARO CAIXA DE MEMÓRIAS do Facebook.
Agradeço a
Rui Jesus toda a informação gentilmente disponibilizada.

O que representa?

Uma cabeça humana em baixo-relevo.
Dimensões indicadas: 2 a 3 cm.
Material aparente: terracota ou barro cozido.
Voltada à esquerda, representa uma figura masculina de cabelo ondulado, com uma franja de madeixas curvas que formam uma crista sobre a testa, separada na sua base do resto do penteado por um risco frontal.
Em redor e sobre a cabeça destaca-se um diadema ou fita estreita definida em negativo, disposta obliquamente, com a parte superior por detrás do risco da franja e a inferior na nuca.
A orelha é proeminente e a bochecha redonda exprime um grau de obesidade.
O nariz é recto ou aquilino pois falta-lhe a extremidade partida. Os lábios são grossos.
Apresenta um barba estreita tipo passepartout, que prolonga a patilha na parte posterior do maxilar inferior e passa por baixo do queixo. Sem mais barba nem bigode.

Em que suportes escultóricos é que estas "cabecinhas" surgem mais frequentemente?

Genericamente elas pertencem a grupos de figuras humanas de corpo inteiro, que representam cenas esculpidas em frisos ou placas.
A pequeníssima dimensão da cabeça implica uma figuração de pequeno tamanho, adaptável a uma placa ou friso modesto.
O material pobre (terracota ou barro) vai no mesmo sentido e o conjunto sugere um suporte de uso modesto e popular, muito longe dos frisos de mármore e de grandes dimensões próprios das expressões públicas e institucionais ou das decorações funerárias privadas das classes abastadas.

O que representam esses frisos?

Habitualmente representam cenas pertencentes a um dos tipos seguintes:
  • Político-militares, incluídas no culto imperial romano
  • Actos e representações do imperador e do seu séquito ou da família imperial
  • Campanhas militares e batalhas
  • Cerimónias e actos políticos e administrativos de personalidades e entidades institucionais
  • Históricas e míticas da cultura greco-romana
  • Homenagem a imperadores falecidos
  • Heróis e notáveis, personagens mitológicos e literários
  • Quadros privados
  • Familiares
  • Ocupação profissional ou manifestação de estatuto social e religioso
  • Religiosas
  • Representações hagiográficas de divindades específicas
  • Representação de personagens intervenientes em rituais de culto



Exemplo de friso figurativo com cena de casamento.
Fragmento de sarcófago romano do séc. II da nossa Era. Museu Britânico. Londres

Em que lugares se situam habitualmente e com que finalidade?

Os frisos e placas de carácter público ou colectivo destinam-se sobretudo a decoração de edifícios públicos civis ou religiosos, de espaços públicos monumentalizados ou de monumentos singulares (altares, pedestais de estátuas ou colunas, arcos,...).
Os de carácter privado encontram-se sobretudo em ambientes funerários (sarcófagos, mausoléus ou jazigos) e domésticos, destacando-se então os próprios do culto privado do imperador e da família imperial, as imagens religiosas de devoção e protecção e os de promoção do estatuto familiar ou de colectividades. 

De quem pode ser a cabeça e de quando é ?

Os elementos da cabeça acima descritos correspondem perfeitamente aos retratos do imperador Nero, nomeadamente da sua penúltima e última fases estilísticas, datáveis respectivamente de 59-64 e 64-68 da nossa Era. 
(Ulrich W. Hiesinger, "The Portraits of Nero", American Journal of Archaeology, Vol. 79, No. 2 (Apr., 1975), pp. 113-124: p. 120 ss.; Diana E.E. Kleiner, Roman Sculpture, Yale University Press, New Haven 1992: pp. 135-9; e Eric R. Varner, Mutilation ans Transformation. Damnatio Memoriae and Roman Imperial Portraiture, Brill, Leiden 2004: pp. 47-49).



Fig. 1 Nero. Palatino. ano 59 n.E. Museo Nazionale delle Terme, Roma
Fig. 2 Nero. Palazzo Nuovo. Musei Capitolini, Roma. Reconstrução do séc. XVII.

Possível uso e significado

Se se tratar realmente de um retrato de Nero, poder-se-ia estar na presença de uma placa destruída ou mutilada devido à damnatio memoriae deste imperador, isto é à condenação da sua memória e subsequente destruição de todas as sua efígies, devido á queda em desgraça após a morte, ocorrida no ano 68 da nossa Era. (Eric R. Varner op cit., pp. 49-57).
O material e o pequeno tamanho podem sugerir uma manufactura em série a partir de moldes. Será sempre, de qualquer modo, um suporte modesto que se deve associar a uma forma de difusão popular e doméstica do culto imperial.
De facto e ao contrário da versões clássicas que o definem como um monstro odiado, Nero era efectivamente popular junto de largos sectores da população mais modesta do império e o seu tempo foi do ponto de vista económico um dos mais florescentes das províncias do Ocidente, em que se incluía o Algarve (David Shotter, Nero, Edições 70, Lisboa 2008: p. 75-79).
O gráfico seguinte indica a conjuntura económica histórica da cidade romana de BALSA (Luz de Tavira, Algarve), medida através da importação de louças semi-finas modernamente conhecidas por "sigillatas", importação esse medida por sua vez pela quantidade de fragmentos materiais arqueológicos achados e datados. 
(Luis Fraga da Silva, "Da classificação de materiais arqueológicos à conjuntura socioeconómica do passado romano", Actas do 7º Encontro de Arqueologia do Algarve, Silves – 22 a 24 Outubro 2009, pp. 191-214: p. 207)
A barra vertical corresponde ao tempo de Nero, que se revela uma época de grande crescimento económico não só de Balsa como de todo o Algarve romano.




Importância para a história de Faro romana

Tanto quanto sei, este pequeno fragmento é único entre os espólios romanos do Algarve e não encontrei até agora nada de semelhante no repositório mais recente da escultura romana nacional (Luis Gonçalves, Escultura romana em Portugal: uma arte do quotidiano, Studia Lusitana 2, 2 vols., Museo Nacional de Arte Romano, Mérida 2007). 
Porém, só uma pesquisa bibliográfica mais profunda permitirá confirmar, como penso, que se trata de um caso muito raro ou único no panorama da arqueologia romana portuguesa.
Apesar dos grandes avanços dos últimos trinta anos ainda se conhece muito pouco sobre a cidade e a população de OSSONOBA, cidade romana que jaz debaixo de Faro actual. Esta pecinha quase insignificante devolve-nos um pouco dessa época e aguça a nossa curiosidade e interesse.





Está de parabéns o achador, que em boa hora decidiu registar e partilhar a sua descoberta.

Sunday, January 15, 2017

A propósito de um post do Museu Casa da Moeda no facebook


O Museu Casa da Moeda publicou na sua página no Facebook uma foto e um comentário relativamente às primeiras moedas cunhadas no território actualmente português, que podem ser vistos aqui.
 
“Por influência das moedas romanas, vários núcleos de povoamento indígenas da II Idade do Ferro [do actual território português], com forte tradição mediterrânea, bateram moedas, de diversas denominações e valores, entre os séculos II e I a.C.

Exceptuando a datação, a informação acima citada é grosseiramente errada! 
 
Ela corresponde a uma visão numismática ultrapassada já há décadas, que desconhece e não compreende nem a existência de moeda romana provincial e local nem a existência de sistemas monetários peregrinos (não romanos) num grande número de províncias e comunidades locais do Império Romano durante um largo período da sua história. 
 
Nesta visão estreita e antiquária da moeda romana existiriam apenas as emissões do Estado Central, produzida nas capitais imperiais, nomeadamente em Roma.
 
Gerou-se assim a falsa ideia de uma moeda "ibérica" ou indígena, pré-romana, semelhante às verdadeiras amoedações ibéricas pré-romanas do Nordeste peninsular ou às moedas célticas da Gália e da Bretanha independentes.
 
Este erro permanece vivo junto dos numismatas amadores portugueses, que insistem em designar estas moedas como “ibéricas”!
 
Além disso, a informação do Museu Casa da Moeda reflecte uma conhecida dificuldade avuncular da historiografia portuguesa em compreender o desfasamento temporal muito considerável da conquista romana entre o sul e o norte do actual território nacional.
 
Para essa historiografia, conceptualmente coimbrã e nortenha, a conquista só se realiza a partir de César ou de Augusto. Até então, todo o mítico território português seria habitado por valentes lusitanos independentes, que resistem aos romanos do Minho ao Algarve!
 
Esta visão romântica e nacionalista, sempre vivaz, teve uma actualização posterior e passou a falar-se nos meios académicos em comunidades indígenas independentes da 2ª Idade do Ferro, que interagiam com os romanos comercial e militarmente, como inimigos ou mercenários, mas sem se corrigir o grosseiro anacronismo subjacente, geográfico e político.
 
Porém a realidade dos factos é bem diferente: 
  • O litoral entre o Guadiana e o Sado terá estado já sob domínio romano desde a submissão de Gades (206 a.n.E.) e o actual Baixo-Alentejo desde o final das Guerras Turdetanas (197-187 a.n.E.);
  • A linha entre o estuário do Sado e Mérida será fronteira estável da Hispânia Ulterior desde o final das Guerras Lusitanas (156-138 a.n.E.) e a linha do Tejo em finais da Guerra Sertoriana (80-71 a.n.E.);
  • A conquista entre Tejo e Douro, incluindo parte do Baixo-Minho, ocorrerá no tempo de César (entre 61 e 44 a.n.E.) e extremo norte e a zona transmontana só serão incorporados por Octávio/Augusto na preparação das Guerras Cantábricas (29-26 a.n.E.).
 
No mapa seguinte sobrepõem-se as fronteiras aproximadas e datadas da província romana da Hispânia Ulterior (ou do domínio romano anterior à criação das províncias hispânicas em 197 a.n.E.) com as localizações das cecas monetárias do actual território português. 
 
A sua leitura permite perceber que todos as cecas correspondem a zonas de domínio romano mais antigo, a grande maioria delas produzindo moeda já muitas décadas (ou mais de um século) depois da conquista romana.
 
 
Verifica-se que todas as moedas do actual território português na Antiguidade são emitidas em nome de comunidades provinciais romanas da Hispânia Ulterior. 
Todas têm um estatuto peregrino (isto é, juridicamente não romano), com excepção de PAX IULIA e EBORA, que são hispano-romanas. 
 
Não existe qualquer moeda pré-romana (indígena da Idade do Ferro) em nenhuma parte do território actualmente português! 
 
A sua emissão nada tem a ver com a "forte tradição mediterrânica" dos núcleos indígenas mas sim com o facto das comunidades étnico-políticas do sul se terem integrado muito precocemente no Império Romano e nas suas políticas monetárias provinciais da Hispânia Ulterior. 
 
Estas políticas, como se sabe, recorreram largamente a emissões de moeda local desde o final das Guerras Celtibéricas (133 antes da nossa Era: a.n.E.) até à reforma monetária e provincial de Augusto (c. 15 a.n.E.). 
 
Assim, apenas MVRTILIS (e quiçá CILPES) na sua primeira fase emite moeda nas últimas décadas do séc. II a.n.E. 
 
Estas e todas as outras emitem moeda no séc. I a.n.E., sobretudo após o final da Guerra Sertoriana (71 a.n.E.).
 
Após a reforma provincial e monetária de Augusto extinguem-se as emissões peregrinas em cobre. Daí em diante só há emissões provinciais locais "hispano-romanas" de comunidades cívicas privilegiadas (caso singular de EBORA em território português).

As cidades portuárias do Algarve continuam porém a produzir abundantes e variadas emissões de moeda de chumbo, na continuidade dos tipos marítimos de cobre previamente existentes.

Em termos históricos gerais, as moedas peregrinas do Mundo Romano tiveram um enorme destaque em quase todas as províncias do Império até ao tempo de Augusto.

Daí em diante continuam a existir em grande abundância como moedas locais e provinciais das províncias do Oriente romano, até ao fim do séc. III da nossa Era. 

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Ironicamente, a foto que foi escolhida no post do Museu não podia ser menos apropriada para ilustrar a tese do indigenismo pré-romano: mostra o reverso de uma moeda provincial romana, de LIBERALITAS IVLIA EBORA (civitas privilegiada de estatuto municipal romano) emitida no tempo de Augusto após 12 a.n.E. e tendo no lado anverso a cabeça deste imperador! 

A figura mostra vários instrumentos de culto próprios do Pontífice Máximo de Roma. 

Ela assinala assim a ascensão a esse cargo por Augusto em 12 a.n.E. ou comemora um aniversário posterior desse evento. 

É uma moeda divisional do denário romano, em bronze, com o valor de um dupôndio (RPC 50, idem Ripollès 2010). 

Quer do ponto de vista institucional e político, quer do ponto de vista da tipologia numismática e do padrão monetário, trata-se portanto de uma moeda 100% romana! 


  

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É desastroso e lamentável que erros e preconceitos antigos continuem a ser reproduzidos e veiculados em meios de divulgação destinados ao público leigo (como é o caso do Facebook em geral e da página Portugal Romano (https://www.facebook.com/portugal.r...) em particular), sobretudo por parte de instituições com grandes responsabilidades no estudo e divulgação da história numismática e monetária, como é o caso do Museu Casa da Moeda. 

Relativamente à moeda local do actual território português na Antiguidade romana sugere-se o texto muito introdutório seguinte (em inglês): https://www.facebook.com/notes/luis-fraga-da-silva/nummi-in-ultimo-occidentis/1537591852933232

Sugere-se igualmente o vídeo mais desenvolvido sobre o mesmo tema: https://www.youtube.com/watch?v=tUX9nNJqTv8

Sunday, August 02, 2015

Nota sobre uma moeda rara de IPSES

IPSES é uma das cecas que emitiram moeda local durante a época romana no território do actual sul de Portugal. O mapa seguinte identifica essas cecas.



O topónimo IPSES (com esta grafia ou na grafia equivalente IPSIIS) é apenas conhecido nesta forma específica através da sua escassa evidência numismática. O nome poderá ser corroborado num documento de difícil interpretação datado do final do período visigótico (finais séc. VII),conhecido por "Divisio Wambae", que assinala IPSA como um dos limites da diocese episcopal de OXONOBA.

A proposta da sua localização em Alvor deve-se a Teresa Júdice Gamito, que efectuou uma exploração muito limitada do ópido de"Alvor Velho", sítio com ocupação desde a Idade do Ferro até à conquista portuguesa.



Foram então descobertos no local dois numismas da série II (ver adiante).

Desde então surgiram outros exemplares da moeda local, permanecendo a obra de Alberto Gomes de 1998 o catálogo mais completo dos tipos conhecidos até à data.

Muito mais recentemente tornou-se possível fazer um primeiro ensaio da geografia da dispersão das emissões de IPSES, através de uma série dos seus exemplares bem localizados. É o que mostra o mapa seguinte.



A concentração de achados na zona de Alvor corrobora a localização de IPSES e associa-se a assemblagens numismáticas em que predominam tipos de Balsa e Ossonoba, que hoje se podem considerar muito tardios (da época de Augusto a finais do séc. II da nossa Era).

A dualidade do povoamento de IPSES entre um ópido da Idade do Ferro/Romano republicano e um centro hipodâmico de traça romana imperial foi também proposta por Teresa Júdice Gamito, de acordo com a imagem seguinte.



Com base em elementos da autora tive oportunidade de fazer um estudo arqueotopográfico do local, integrado numa evolução regressiva da ocupação entre o séc. XVII e a Antiguidade.
A súmula resultante corresponde à proposta de forma e funcionalidade urbana expressas na figura seguinte.



Em boa hora o artista Jorge Vidal, de Portimão, teve já há anos a ideia de produzir uma reconstituição idealizada da ocupação humana do sítio de Alvor em várias épocas.
As figuras seguintes correspondem à fase do apogeu romano de IPSES, numa magnífica versão gráfica ainda em desenvolvimento.






As Amoedações de IPSES

O estado de conhecimento sobre as emissões de IPSES pode sintetizar-se no quadro seguinte, onde se definem, três séries de emissões. Nas séries II e III, em chumbo, distinguem-se diversos tipos de unidades e tipos específicos de divisores formais (assinalados com .f)



Estas três fases integram-se no quadro geral das emissões locais de tipologia "peregrina" do sul da Lusitânia, quadro esse muito resumido na figura seguinte. Não é possível nesta nota abordar sequer as numerosas e importantes questões nele e por ele levantadas.




A nova moeda

Note-se que a série III de IPSES era conhecida até aqui apenas a partir de desenhos esquemáticos do catálogo de Alberto Gomes.
Esta série é considerada a mais tardia, com uma paginação e composição semelhante às de OSSONOBA, BALSA e BAESURIS nas suas últimas fases.

Porém há poucos dias surgiu um exemplar inédito do Tipo 1 da Série III de IPSES num catálogo de leilões"on-line" da prestigiada casa Pliego. Ele corresponde ao tipo IPS 02.01 de Gomes 1998. 

Trata-se da primeira atestação fotográfica conhecida deste tipo numismático, que justifica esta nota.

A figura seguinte compara o modelo de Gomes com o exemplar de Pliego, acrescentando uma transcrição preliminar deste último.



O exemplar apresenta sinais de grande usura, que eliminaram todas as arestas e acabamentos finos certamente existentes.

A paginação da moeda é a seguinte:

Anverso: Barco com proa à direita (e não à esquerda!) sobre topónimo IPSES dentro de grafila de pontos grossos, idealmente circular.

Reverso: Golfinho em salto à direita sobre arco.


A embarcação

O barco é uma galera muito estilizada com as estruturas da popa e sobretudo da proa muito sobredimensionadas relativamente à extensão do bordo de través, onde se situariam os remos que não são representados.
Estas deformações são típicas da iconografia naval numismática de toda a Antiguidade.

A popa eleva-se e arredonda-se à vante, num estilo bem característico. Originalmente o bordo livre seria mais longo e afilado, tendo desaparecido com a usura.
A figura seguinte ilustra os dois tipos principais de popas em embarcações romanas de casco linear.
O nosso caso corresponde ao tipo da esquerda.




A proa tem um castelo muito sobredimensionado na sua representação. São ainda visíveis duas cintas que corresponderão a duas cobertas do castelo e definem painéis na sua amurada exterior, também num estilo bem característico.

A coberta superior do castelo é suportada à ré por amuradas ou cornijas de bordo arciforme côncavo, num estilo amplamente documentado em fresco, escultura e moedas da República romana. As figuras seguintes exemplificam atestações dos primeiros tipos.





Há vestígios de um esporão mas não de um poste da proa, o que se poderia eventualmente dever ao limite do cunho (o desenho não coube totalmente na área disponível) ou mais provavelmente a um tipo real de embarcação sem poste sobredimensionado, como é o caso de modelos mais tardios do séc. II da nossa Era.

A elucidação pode estar no paralelo numismático mais similar ao modelo em estudo. Trata-se do tipo OSS 08.05 de Gomes 1998, da ceca de OSSONOBA, que representa o mesmo tipo de embarcação na mesma orientação.

Infelizmente este modelo também só é conhecido até hoje através do desenho esquemático de Alberto Gomes, reproduzido na figura seguinte.



O detalhe é no entanto suficiente para se conformar a presença do esporão e a ausência de um poste de proa sobreelevado, assim como da notoriedade volumétrica do castelo da proa.

Este conjunto de características ajusta-se muito bem ao único tipo de navio que possui tais características: uma liburna na sua versão do Alto-Imperial, sem a gaiola da fila superior de remadores.

A figura seguinte representa, segundo esta leitura, o tipo de embarcação real correspondente à imagem da moeda, nas suas proporções verdadeiras.



Há fortes indícios que o modelo de Gomes corresponda ao mesmo cunho do anverso, apesar da diferença no posicionamento relativo das letras do topónimo face ao navio. Sobre o cunho do reverso a identidade não parece ser tão evidente.


O Golfinho

A nova moeda apresenta o golfinho em bastante mau estado, mas com detalhes das barbatanas que enriquecem o modelo de Gomes e sobretudo com vestígios claros de um arco junto ao focinho do animal.

Esta representação de um arco sobre o qual o golfinho se apresenta a saltar já era conhecida doutros tipos de IPSES da série II. É o caso exemplificado na figura seguinte.




Bibliografia

As referências bibliográficas e créditos das imagens serão fornecidas pessoalmente aos interessados.