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Saturday, September 15, 2007

Balsa: Memoria damnata


Ao conhecer a história de Balsa, um habitante do mundo greco-romano clássico não teria grandes dúvidas:
Uma cidade que é destruída por duas vezes ,sem deixar memória nos povos que vivem no local, só pode ser vítima de uma terrível maldição imposta pelos deuses sobre os seus habitantes, muito provavelmente devido a hubris, impietas ou sacrilegium imperdoáveis dos balsenses!
Senão veja-se:

  • A cidade antiga padece de um declínio doloroso e muito prolongado (séc. III a VI), gerando inevitavelmente nos espíritos de cada geração um sentimento de fatalidade da decadência e um suplício espiritual de saber-se que a idade dos filhos será pior que a dos pais.
    Esta punição terrível acompanha a extinção dos balsenses até ao último, que não deixam memória nos seus descendentes quase imediatos. Os próprios vestígios da cidade são arrasados, permanecendo apenas uma parte enterrada e oculta.
  • Ao relembrar-se o nome de Balsa, muito mais tarde no sec. XVI, espalha-se a confusão e o erro sobre a sua localização, situação que permanece nos espíritos até hoje, apesar da descoberta das suas ruínas em 1866.
  • À descoberta (acidental e voluntarista) das ruínas e à percepção da sua importância histórica seguem-se cem anos de paralisia e preguiça das agremiações encarregadas do seu estudo, situação em contradição total com os seus princípios orientadores e sem vislumbre racional possível, mesmo num país atrasado.
  • A partir do momento que se inicia timidamente a exploração dos vestígios de Balsa, em 1977, as suas ruínas começam a ser destruídas radicalmente, com uma violência inaudita desde o terramoto do ano provável de 382, de modo a nada permanecer no solo.
    Esta segunda destruição de Balsa é levada a cabo pela obstinação agressiva dos rústicos e pelo ensandecimento dos próceres, incapazes de reconhecer os seus próprios benefícios, num crescendo de confusão deliberada, de ocultações e de participações activas nas destruições. Estes acontecimentos espantosos, que prosseguem ainda hoje em dia, passam-se para além da esfera humana do interesse, da ordem e da razão!

Não haveria assim dúvidas, para o nosso greco-romano, que a maldição não só foi particularmente terrível como continua ainda activa na actualidade, 1800 depois, sendo-lhe possível reconstituir os seus termos gerais:

  • Que a cidade seja arrasada. Que nenhum vestígio dela permaneça à vista. Que os restos enterrados sejam arrancados e raspados da terra e espalhados e destruídos de modo a que nada reste delas e que a sua ligação a Balsa se perca.
  • Que a memória da res publica se extinga, assim como das suas leis e sucessos, das suas famílias poderosas e da massa do seu povo. Que ninguém se lembre ou reconheça os balsenses.
  • Que a localização, o aspecto e a história da cidade permaneçam confusos e incertos, para sempre sujeitos a desmentidos, chicanas e calúnias, tanto de ignorantes como de estudiosos.
  • Que os descendentes dos balsenses esqueçam os seus antepassados e que sejam possuídos por furor obsessivo na destruição dos vestígios e da sua memória, o mesmo sucedendo a quem venha a habitar o lugar maldito!

O nosso greco-romano meditaria então, provavelmente, sobre a importância da harmonia pessoal nas adversidades da condição humana e sobre os desígnios cruéis dos deuses contrariados. Perguntaria a si próprio se seria possível aplacá-los, antes que desapareça a derradeira memória da infeliz Balsa e dos seus tristes manes.

Tuesday, May 15, 2007

Balsa, cidade perdida


Posso, enfim, anunciar a publicação do meu livro dedicado à extinta cidade romana de Balsa (Luz, Tavira, Faro, Portugal).

Ficha técnica:
Título: Balsa, cidade perdida
Autor: Luis Fraga da Silva
Edição: Campo Arqueológico de Tavira e Câmara Municipal de Tavira
Ano: 2007
ISBN: 978-972-97648-9-9
Depósito Legal n.º: 258768/07
Produção: Tiragem Lda.
Nº de páginas: 140
Formato: A4
Distribuição (1ª edição): Bertrand
Data prevista de distribuição ao público: 6 Junho 2007

Advertência ao leitor
(pág. 16)
Este é o primeiro livro de divulgação sobre a cidade romana de Balsa, desde a descoberta das suas ruínas em 1866.
Não se sabe quando haverá outro e muito se aprendeu desde então, pelo que se avalizou e seleccionou uma enorme quantidade de informação, correspondente ao estado actual dos conhecimentos, a conjecturas sobre a cidade e a temas ligados à sua história.
O resultado é um livro denso, rico em texto, ilustrações e mapas geográficos, tendo-se dedicado um cuidado especial ao seu aspecto visual.
Aborda oito tópicos, que podem ser lidos separadamente como fichas resumidas e ilustradas, sobre alguns aspectos seleccionados da história, aspecto actual do antigo espaço urbano, cronologia, arqueologia, geografia, economia, população e urbanismo balsenses.
É uma obra dedicada ao público culto, requerendo conhecimentos básicos de história e cultura clássica e de geografi a regional. Recusa explicações infantis, paternalistas ou enganadoramente simples, procurando em contrapartida evitar maneirismos especializados e conceitos obscuros.
Inclui resumos do que se pensa serem as melhores conclusões de diversos estudos sobre Balsa e o seu tempo, de autores consagrados indicados na bibliografia.
Apresenta também uma visão inovadora sobre a história territorial e o urbanismo balsenses, com destaque para este último, sintetizando-se um trabalho original do autor sobre a morfologia urbana e o território da cidade.
Esse estudo incorpora: uma compilação espacial exaustiva da evidência arqueológica conhecida; uma análise sistemática das marcas topográfi cas anteriores às grandes destruições; e uma interpretação e reconstituição da forma urbana, baseada na aplicação de modelos técnicos e urbanísticos da época a esse quadro arqueológico e topográfico.
A novidade e a riqueza deste material, de interesse também para os estudiosos do urbanismo antigo, justificam a sua inclusão como resumo comentado num apêndice autónomo. (Onde estão os monumentos de Balsa?).
O livro fica longe de esgotar o tema de Balsa. Para além dos temas históricos e arqueológicos especializados, que nele não têm lugar, permanece um amplo campo aberto a abordagens alternativas e complementares.
O resultado final corresponde a um compromisso, em que importantes achados e temas tiveram de ser sacrificados às necessidades de espaço, sendo impossível explicitar todos os conceitos, tipos de vestígios e factos históricos referidos.
Apesar destas limitações, resolveu-se incluir uma síntese explicativa sobre as principais características típicas das cidades romanas. Este segundo apêndice, de leitura independente, (A cidade romana típica), destina-se aos leitores menos familiarizados com o tema e que desejem enquadrar o que é dito sobre Balsa numa moldura geral das cidades romanas do seu tempo.

Aspecto do livro (pdf 6.0 4 MB)
Balsa na net