A
propósito de uma necrópole romana recentemente descoberta em Faro (Algarve, Portugal)
RESUMO
No trabalho aqui apresentado, a necrópole romana
recentemente descoberta junto à pista de atletismo de Faro é integrada no
contexto topográfico da sua época.
Conclui-se que se situava a meio caminho do
eixo de acesso directo entre uma aglomeração ribeirinha de certa importância
que lhe é coeva (Garganta-Amendoal) e a principal via oriental da cidade (via Ossonoba-Balsa).
Tratar-se-á de mais um exemplo, muito comum, de uma necrópole de gente
modesta localizada a uma certa distância (c. 250m) do povoado a que
pertenciam, num dos seus acessos principais.
O ponto de junção com a via
corresponde a um trivium suburbano cuja
memória religiosa se prolongou até à dominação portuguesa, graças a renovação
católica do culto viário.
Tudo indica assim que a zona
escavada corresponde a uma parte da necrópole norte da referida aglomeração,
cujo tipo corográfico permanece no entanto duvidoso: ou uma villa marítima suburbana; ou então uma
aglomeração portuária especializada na qual existiu uma domus senhorial numa cronologia romana tardia (séc. III e sobretudo
IV).
Este estudo é parte de um projecto de reconstituição da ocupação romana entre Ossonoba e Balsa, que integrará uma monografia sobre Marim Romano, em preparação. Uma versão mais antiga dessa reconstituição pode ser vista aqui.
ABSTRACT
Notes on the geography of the eastern suburb of the Roman town of Ossonoba (Lusitania,
Hispania Ulterior).
Regarding a recently discovered necropolis in Faro (Algarve, Portugal).
In the present study, the recently discovered Roman necropolis near the athletics
stadium in the city of Faro (old Roman Ossonoba)
is set in the spatial context of its time.
It is concluded that the necropolis stood halfway through the axis of direct
access between a contemporary riverside agglomeration of some importance (Amendoal-Garganta)
and the main Roman road eastward of the city (from Ossonoba to Balsa).
This placement is interpreted as an instance of the (very common) spatial
configuration of a necropolis of modest people located at a distance (c. 250m) from
the settlement to which they belonged, in one of its main road accesses.
The junction with the main road corresponds to a suburban trivium whose religious memory lasted until (and through) the Portuguese
domination (from the 2nd. half of the 13th century), thanks to the Catholic
renewal of the travelers cult.
While it seems unproblematic that the excavated zone corresponds to a necropolis
of the said agglomeration, the chorographic type of this remains dubious:
it could be either a seaside suburban villa; or a
specialized port agglomeration, in which there was a gentry's domus in a late Roman date.
This study is part of a forthcoming historical geography of Roman occupation between
the tows of Ossonoba and Balsa, included in a monograph on
Roman place of Marim. An earlier version of this can be seen here.
1. A povoação romana da Garganta
A informação sobre a presumida
villa romana do Amendoal (Garganta, Faro) provém quase exclusivamente
de Estácio da Veiga (EV), com contribuições de Fernandes Mascarenhas e S. Lopes
Belchior
.
A resenha mais completa é de Fernandes Mascarenhas
,
que compila as notícias esparsas e sempre muito incompletas de EV. Este último autor,
como é seu costume, nunca localiza com o mínimo de rigor geográfico as
estruturas arqueológicas que faz desenhar com bastante cuidado. Faltam também,
como é infelizmente frequente na sua obra póstuma publicada, as legendas
essenciais dos desenhos das estruturas arqueológicas, forçando os leitores a um
ingrato exercício de adivinhação baseado em paralelos formais.
Com base nestas limitações gritantes é no entanto possível
definir grosseiramente uma área de "povoação arrasada" isto é, de
grande densidade de vestígios à superfície, entre a margem esquerda da ribeira
das Lavadeiras e o caminho vicinal da zona da Garganta, troço onde a referida
ribeira e o Rio Seco correm paralelamente separadas por um estreito corredor, a
Sul da actual EN 125, situação que estará na base do referido topónimo Garganta.
Este existe já no séc. XVI, (Ver Visitação
da Ordem de Santiago mais adiante), referido como zona de propriedades
agrícolas, tal como hoje.
Sem dispor de um modelo digital de terreno de maior
resolução da zona (uma equidistância de 1 m seria ideal) não é possível
modelizar convenientemente as alterações da orla estuarina desde a Antiguidade.
Infelizmente, mesmo com esse modelo, a fisiografia antiga da foz do Rio Seco será
impossível de reconstituir devido ao enorme grau aparente de transformação
destrutiva: o rio está reduzido a um canal de meandro regularizado por acção
antrópica e as margens lagunares na sua vizinhança são demasiado altas (cotas
de 4 a 6 m) para um leque expectável de sedimentação natural. Provavelmente só
resultados de sondagens geológicas poderiam indicar soluções fiáveis.
Com os pontos cotados da Carta Militar e indícios das
aerofotografias só é possível apresentar um esquema de baixa definição,
representado na Figura 1 por uma banda de indefinição. A modelização minimalista
(ignorando um hipotético estuário aberto do Rio Seco) revela a existência de
uma pequena península cujo esteiro ocidental (Ribeiro das Lavadeiras) possui um
potencial portuário que sobrevive parcialmente até hoje. Vê-se assim que a posterior Garganta corresponde à
colmatação mais recente dessa península.
Figura 1 – Reconstituição grosseira da costa antiga e
localização da aglomeração romana de Garganta-Amendoal
Com a informação de EV é também possível localiza-se aproximadamente
e implantar a estrutura edificada desenhada por este autor, imediatamente a
nascente do referido caminho vicinal. EV publicou desenhos de mosaicos aí
encontrados e noticia também a existência de vestígios de estuques pintados. Esta
informação e o que resta do modelo arquitectónico chegam para revelar a
existência de uma domus luxuosa de
carácter urbano no lugar mais central da península atrás referida.
A Figura 2 reproduz a planta de EV
:
Figura 2
– Amendoal. Planta do edifício romano explorado por EV.
As Figuras 3 a 6 reproduzem as estampas s obreviventes dos
mosaicos
:
Figuras 3-6 – Amendoal.
Desenhos dos mosaicos dos pavimentos das divisões A,B,C e E da planta
A planta de EV não tem originalmente régua de escala e a
escala nela indicada é a do desenho original arquivado no MNA. Segui as
dimensões da cópia publicada (ver nota 3), sem hipótese de confirmar se esta
corresponde ao original. A sobreposição comparativa com estruturas similares
melhor documentadas revela no entanto que as medidas da cópia são as originais
ou não se afastam significativamente delas. A Figura 7 ilustra esta
sobreposição com o corpo principal da
domus
de Cerro da Vila (Vilamoura)
.
Figuras 7 – Sobreposição na mesma escala
aproximada da edificação do Amendoal (a
vermelho) sobre a fase 3 da domus de
Cerro da Vila-Vilamoura (segundo Felix Teichner)
A dimensão das divisões, a sua pavimentação com mosaico e a
sua interligação interior permite identificá-las como cubicula: quartos e salas ou antecâmaras residenciais integradas em
aposentos concebidos para gente de uma certa condição.
Infelizmente, a parte desenhada por EV é insuficiente para
definir um modelo arquitectónico do conjunto, sendo impossível determinar se
estamos perante uma "villa de
peristilo" (no sentido arquitectónico do termo villa, em que a série de divisões formaria um dos lados: mais
provavelmente o ocidental) ou perante um edifício linear, com pavilhões.
Recorrendo aos numerosos paralelos do Algarve e não só, pode
propor-se sem grande audácia a existência de um balneário na vizinhança, por
ser impensável a sua ausência num complexo com estas características, sobretudo
se situado numa zona portuária. Ainda segundo esses paralelos (que concordam de
um modo geral com os preceitos teóricos dos agrónomos-arquitectos clássicos
)
esse balneário dever-se-ia situar do lado mais ocidental e voltado a Sul, isto
é, algures do lado do porto.
A correspondência espacial entre a margem mais edificada e o
único esteiro com potencialidade portuária leva naturalmente a sugerir ter sido
esta a funcionalidade principal da aglomeração ou, pelo menos, um dos critérios
fundamentais da sua fixação.
Estaremos assim perante mais um caso dos muitos já
identificados no Algarve em que um aglomerado portuário especializado e de
dimensões relativamente modestas se associa a uma mansão senhorial de
características urbanas aparentemente excessivas, sendo característico o
desenvolvimento em expansão e luxo decorativo destas residências durante o séc.
IV, nomeadamente em seus meados.
A possível lista, com alguns casos duvidosos, inclui: Boca
do Rio, Senhora da Luz, Paul/Jardim-Lagos(?), Abicada, Cerro da Vila, Loulé
Velho(?), Ludo, Garganta-Amendoal, Torrejão, Marim, Pedras
d'El-Rei, Cacela-a-Velha, Álamo, Montinho das Laranjeiras.
Penso no entanto que
este critério de uniformidade esconde importantes distinções funcionais,
organizativas, estatutárias e de nível de lugar central, que não permitem
agrupar todos estes lugares num tipo simplista e rudimentar, como villas marítimas! (Ver nota no final do
texto).
Na caracterização tipológica do habitat da Garganta-Amendoal,
do qual praticamente nada se conhece, permanece portanto a dúvida de se tratar
de villa suburbana marítima, ou então
de uma aglomeração secundária de cariz portuário com uma residência senhorial.
2. A via romana oriental de Ossonoba e as transformações posteriores da
rede viária
Na época Romana o antigo caminho entre Faro e Olhão pelo
Alto de Santo António e a margem do sapal não era ainda viável devido a submersão
da margem do Sapal do Fialho e à
potência do esteiro das Lavadeiras, aparentemente mais importante que o do Rio
Seco.
Este caminho desapareceu sob o eixo da linha de caminho de ferro entre
Faro e Olhão, concluída em 1904. (Inexistente portanto aquando da exploração de
EV em 1878).
Não é possível estabelecer uma data precisa para a
construção das Pontes das Lavadeiras e do Rio Seco, no eixo da actual EN 125. A
ponte do Rio Seco aparece referida, penso que pela primeira vez, na
Visitação da Ordem de Santiago de
1517-18 (fl. 183, p. 137)
.
Será provavelmente uma obra já da época portuguesa e deve articular-se com a
construção da Ponte de Quelfes, redefinindo o trajecto viário entre Faro e
Tavira com o abandono ou despromoção da antiga via romana, que se revela fossilizada,
tal como direi mais adiante.
São Cristovão
Nas "Visitação" surge também a ermida de São
Cristóvão (fl. 196, p. 157), descrita como sendo de uma só nave com um pilar no
meio, uma pequena capela abobadada e um pequeno adro em frente da entrada,
construída em pedra e taipa. Sendo "tão antiga que não há aí memória de
que a edificou", tal significa uma mais que provável origem pré-portuguesa
.
A dedicação a S. Cristovão deve ser relativamente moderna, já portuguesa. Ela
assinala lugares à beira da estrada, frequentemente associados a passagens de
rios ou linhas de água. É muito provável a existência aí de um culto viário
mais antigo, moçárabe ou misto, ainda sobrevivente nos primeiros séculos do
domínio português, o que justifica a manutenção funcional da dedicação apesar
da alteração do orago.
Figuras 8 – Parte do mapa de 1832 mostrando o caminho
de S. Cristóvão
O mapa de Faro de José Gualdim Ferreira (1832)
(representado parcialmente na Figura 8) mostra perfeitamente o antigo caminho
por São Cristovão até ao Rio Seco. As edições da Carta Militar, mais modernas,
são ainda mais detalhadas: a situação da ermida e os troços fósseis de caminhos
alinhados que lhe estão associados são determinantes para definir o traçado do
eixo da antiga via romana oriental de
Ossonoba,
usada posteriormente até à construção das pontes das Lavadeiras e Rio Seco.
(Figura 9).
Figuras 9 – Vestígios fósseis da via romana (e do
caminho medieval que lhe sucedeu, anterior à construção das pontes das
Lavadeiras e do Rio Seco)
Próximo da ermida (e muito provavelmente justificando a sua
localização primitiva) é possível reconstituir por interpolação o trivium (entroncamento) onde a estrada
vinda de Ossonoba se dividia em duas:
1) Para Estoi e Bicalto por Galvana (outra villa romana identificada pelo topónimo
e, mais recentemente, por prospecção arqueológica);
2) Para Balsa, por Contenda, João de Ourém e Quatrim.
O culto viário (S. Cristóvão) associado ao caminho fóssil
sobrevivente revela a memória da função viária importante deste eixo ANTES da
época portuguesa e ANTES da construção das pontes das Lavadeiras e do Rio Seco,
que puxaram o eixo viário principal mais para sul. Isso levou à despromoção e
obliteração parcial da via antiga, que surge quebrada em troços de caminhos
secundários desconexos mas alinhados, como se pode ver na Figura 9. As interrupções
correspondem tipicamente à apropriação de troços caídos em desuso pelos
proprietários circundantes.
No palimpsesto viário visível nas Cartas Militares
nota-se também o modo como a abertura de novas estradas modernas (como a para
Pechão-Quelfes e a EN125) levou ao surgimento de novos caminhos de ligação entre
pontos nodais da antiga via e os novos eixos.
A reconstituição da rede viária mostra-se na Figura 16.
A situação da antiga via romana evita a travessia das
Ribeira das Lavadeiras e do Rio Seco, numa zona onde historicamente mais se
fazem sentir as marés, impedindo a travessia sem pontes ou obrigando à
reparação permanente destas quando existentes. Naturalmente, nas conjunturas de
avaria das referidas pontes o antigo trajecto mais a norte deveria ser
obrigatoriamente retomado.
As passagens antigas faziam-se facilmente por
pontões (portus) sem necessidade de
grandes infra-estruturas, tal como se verifica ainda hoje no porto de passagem
do Rio Seco.
Tudo indica assim que esta linha de água já fazia jus ao seu nome
desde a Antiguidade, com o seu carácter de arroio temporário e torrencial, seco
ou quase seco a maior parte do ano mas intransponível na estação chuvosa.
É ainda de notar que o trivium
de S. Cristóvão é o segundo entroncamento notável da via Ossonoba-Balsa após a saída da cidade. O primeiro corresponde ao
actual Largo d S. Luis, onde a função viária também se manifesta na associação
a um culto hagiológico medieval no limiar da cidade, neste caso protector da peste e das doenças
contagiosas trazidas pelos viajantes.
Considerando o percurso reconstituído da via e uma origem
das distâncias no Largo da Palmeira em Faro (presumíveis portas de Ossonoba no Alto-Império), o trivium de S. Cristovão fica a c. 1950m
(aproximadamente 1.3 m.p.). Trata-se
portanto de um lugar claramente suburbano em termos urbanísticos romanos.
3. A necrópole da pista de atletismo de Faro
A necrópole conhece-se, por enquanto, apenas pelo pouco que veio nos jornais. Aguarda-se com expectativa que se concluam os trabalhos arqueológicos e
se publiquem os respectivos resultados, afim de se poder fazer um
balanço rigoroso do local.
A Figura 10 localiza a necrópole na área urbana de Faro.
Figuras 10 – Localização da necrópole romana da pista
de atletismo de Faro
A Figura 11 mostra aproximadamente os limites da área
escavada onde existem sepulturas. É perfeitamente possível que a área original
tenha sido consideravelmente mais vasta do que a parte posta a descoberto,
sobretudo para sul, para nascente (até a estrada) e para poente (sob o muro e
os logradouros da pista de atletismo).
Figuras 11 – Limites aproximados da área
intervencionada da necrópole onde se acharam sepulturas
Pelo que pude ver pessoalmente, a parte descoberta
corresponde a uma pequena necrópole com uma baixa densidade de enterramentos,
orientados segundo dois eixos: OSO e ONO, que correspondem grosseiramente ao
pôr-do-sol respectivamente nos solstícios de Inverno e de Verão. Com excepção
de de duas sepulturas aparelhadas com blocos dispostos horizontalmente, as
restantes são muito pobres, formadas e cobertas com pedaços de contentores
cerâmicos e tégulas. As lajes de cobertura parecem ser raras. A sepultura estruturalmente
mais importante é representada na figura 12.
As Figuras 12-15 foram retiradas do
blog "Turismo do Algarve", da Região de Turismo do
Algarve
.
Figuras 12-15 – Aspectos da necrópole (Cortesia da
Região de Turismo do Algarve)
Tem de se aceitar a informação jornalística sobre o período
de uso da necrópole pelo seu valor facial, à falta de melhor alternativa: sécs.
III a V, o que corresponde a uma necrópole do Baixo-Império. Esta precisão não
é suficiente para sugerir uma ocupação desde o "Médio-Império" (
grosso modo a 1ª metade do séc. III),
tal como sucede em Marim. Nada do que se vê permite sugerir haver uma fase de
ocupação tardo-antiga/páleocristã, de acordo com os paralelos existentes em
Marim, Mértola, Moncarapacho e muitos outros lugares.
Existe assim uma concordância satisfatória entre o uso da
necrópole e a datação conhecida da domus
da Amendoeira, sendo desconhecidos quaisquer detalhes do resto da aglomeração
da Garganta.
Porém, mais relevante do que esta concordância cronológica
circunstancial (isto é, necessária mas insuficiente para estabelecer um vínculo
contingente) é a disposição espacial única dos dois elementos, bem manifesta na
Figura 16, que permite associar a necrópole a esta aglomeração: situa-se
imediatamente a norte do istmo da antiga península, na zona de acesso directo entre
esta e a via Ossonoba-Balsa, que
passa umas duas centenas de metros mais a norte. Tudo indica portanto que a
necrópole se dispunha aproximadamente a meio do diverticulum (caminho de acesso com uns 480m de extensão) que
uniria a aglomeração à via no sítio do trivium
ou muito próximo dele, e cujo descendente actual é a estrada municipal M518.
Figuras 16 – Reconstituição da
topografia do subúrbio oriental de Ossonoba,
mostrando os limites aproximados da cidade romana, a via oriental e as suas
principais ramificações, a aglomeração da Garganta-Amendoal com a localização
do edifício nobre e a necrópole junto ao acesso conjectural entre o povoado e a
via.
Esta disposição das necrópoles entre o núcleo de povoamento
a Sul, junto à margem, e um caminho principal mais a norte parece ser comum na
zona, verificando-se também na necrópole-casa do núcleo portuário de Marim e,
muito provavelmente, em Belamandil, cuja necrópole se poderá relacionar com o
núcleo litoral do Torrejão, conforme se pode ver no mapa de reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Antiguidade, onde a nova necrópole já está representada (Figura
17).
(Esta figura será incluída oportunamente)
Figuras 17 – Reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Época Romana
ANEXOS
Transcrição das fontes arqueológicas
Estácio da Veiga:
Amendoal – Este sítio,
mui próximo da obstruída foz do antigo Rio Seco, onde explorei parcialmente uma
opulenta villa ou granja romana, cujos edifícios tinham excelentes pavimentos
de mosaico, que felizmente foram desenhados...
AMA II = Antiguidades
Monumentais do Algarve, vol. 2, Imprensa Nacional, Lisboa, 1887, p. 389-90
O sítio do Amendoal
até ao flanco direito da Ribeira do Rio Seco fica a nordeste de Faro e de Santo
António do Alto em distância superior a 1 quilómetro.
Tem assentamento de
povoação extinta desde a margem esquerda do ribeiro das Lavadeiras até à linha
da estrada vicinal da Garganta.
Em frente da portada
da quinta do Fonseca tentei um reconhecimento nas ruínas que o solo quase totalmente
encobria, e pus à vista um famoso edifício com oito pavimentos de mosaico,
havendo no terreno muitos fragmentos de louças finas e grosseiras, de vasos de
vidro, quinários do Baixo-Império, e muitos ossos de diversos animais...
AMA II, p. 575-6
O emblema da cruz e a
swastika foram sempre aparecendo como símbolos de antigas traduções... pois um
e outro emblema achei eu , perto de Faro, no sítio do Amendoal, figurados nos
pavimentos de mosaico de uma villa romana, onde conjuntamente coligi alguns pequenos
bronzes do Baixo-Império...
AMA III = Antiguidades Monumentais do Algarve, vol.
3, Imprensa Nacional, Lisboa, 1889, p. 35.
Referência a materiais
inventariados por EV:
Doze fragmentos de estuque
pintado.
28 fragmentos de terra sigillata, frag. de vasilha de
barro, peso de rede, cinco tijolos, grande número de objectos de metal, dois
anzóis, frag. de vidro, dois cadinhos, objectos de osso e cornalina.
ARA II, p. 174-6.
Gravuras com desenhos dos mosaicos reproduzidas de
ARA II, figs. 248 a 251.
Fernandes Mascarenhas:
Não obstante a
ausência [actual] de tais vestígios à superfície, tivemos conhecimento directo
que, nos campos junto ao Rio Seco e Ribeiro das Lavadeiras – ribeiro por onde
as águas do mar avançam em marés vivas, ainda hoje se encontram muitos restos
de contruções e moedas de vários imperadores romanos, três das quais nos foram
oferecidas pelo Sr. Francisco Tomaz, caseiro da quinta do Amendoal.
Dizia-nos esse senhor
que em redor das casas da propriedade se torna por vezes difícil lavrar a terra,
pois o ferro da charrua vai esbarrar constantemente com bocados de tijolo e
paredes.
Mascarenhas, op. cit.,
p. 24-5.
Nota sobre o uso da categoria villa
Considero que há um uso excessivo da categoria "villa", aplicada a esmo a sítios
rurais da época romana com edifícios de formas arquitectónicas aparentemente
urbanas. Parece haver por parte de certos arqueólogos uma sofreguidão em
produzir classificações corográficas instantâneas e simplistas sem dominar a
complexidade das formas e escalões dos tipos de povoamento romano.
Infelizmente, este primarismo numa matéria que dominam mal (a
geografia humana do povoamento) acompanha-se frequentemente por uma notável
falta de detalhe arqueológico, reveladora de desinteresse pelas tipologias específicas
da sua própria disciplina (que muita falta fazem e que ninguém doutras áreas
poderá desenvolver) respeitantes à classificação multidimensional de sítios
romanos segundo os achados que aí ocorrem
.
De facto, enquanto estas tipologias de sítios arqueológicos
não forem suficientemente elaboradas num quadro regional apropriado não será
possível produzir modelos de mapeamento com carácter científico entre o
universo dos vestígios modernamente registados e o universo das categorias de
povoamento da geografia antiga.
Até lá temos de nos ir sujeitando a regras
heurísticas de valor incerto ou, pior, a receitas dogmáticas e aos seus degenerados
epítomes sebentinos.
Como se sabe o conceito de villa aplica-se a um espaço tipológico relativamente complexo de
povoamentos rurais da época romana e tardo-antiga.
Muito sucintamente,
configura um domínio edificado associado a propriedades fundiárias de usufruto e
frequentemente integrado por residências abastadas de carácter urbano.
As
finalidades do seu usufruto, o tipo de paisagem da sua situação geográfica, as actividades
económicas e os tipos de produções eventualmente presentes, as formas de
organização social do trabalho existentes, os tipos de propriedade e as formas
de exploração qualificam as villas
segundo um quadro multifactorial de geometria variável.
O problema está precisamente em que estas residências rurais
abastadas de carácter urbano não são, por um lado, indispensáveis para definir
uma villa nem a sua presença
corresponde, por outro lado, obrigatoriamente a uma villa.
Apesar de de facto serem muito mais comuns em villas, elas existem igualmente noutros
contextos de povoamento especializado, sempre que aí haja residentes abastados.
É o caso de meios portuários muito diversos, de aglomerações residenciais secundárias,
de centros notáveis do sistema viário, militar ou administrativo, ou de certas zonas
de produção especializada.
Pior no entanto é categorizar uma villa apenas por vestígios de materiais de construção ou
componentes arquitectónicos decorativos, ou pela presença de estruturas arquitectónicas
funcionalmente especializadas como é o caso conspícuo dos balneários. Na
realidade não se pode afirmar nestes casos que se tratem sequer de domus no sentido exposto acima e muito menos de povoamentos do tipo villa.
O uso do termo villa
nestes contextos devia ser assim, quanto a mim, evitado a priori, podendo a residência ser designada por domus ou por outro termo de carácter
descritivo que assinale uma casa de carácter urbano. Tenho porém plena
consciência que este modo de ver (de geógrafo do povoamento) não é fácil de
aplicar à cultura arqueológica esmagadoramente dominante, pois vai contra a
norma da literatura arquitectónica da especialidade que define as nomenclaturas
tipológicas destes espaços edificados, designando-os sempre como villas.
Em resumo e conclusão:
O termo villa tem
um duplo sentido, o que tende a constituir uma fonte permanente de
mal-entendidos e de usos indevidos.
1.
É um tipo de povoamento rural específico,
integrado numa nomenclatura corográfica do povoamento, isto é, numa
conceptualização do espaço característica da geografia humana histórica.
2.
É um tipo de morfologia de edificação rural,
integrado numa nomenclatura arquitectónica das edificações e espaços
edificados, isto é numa conceptualização própria da arqueologia da arquitectura
e da história da arquitectura.
Os dois conceitos intersectam-se mas não são equivalentes, o
que obriga a uma qualificação terminológica: há inúmeros habitats-villa com edificações-villa (essa é a razão primitiva de
partilharem o mesmo nome) mas há também habitats-villa sem edificações-villa
assim como edificações-villa sem
habitats-villa. Embora uma edificação
pertença sempre a um tipo de habitat ela raramente é específica de um dado
tipo. A edificação-villa pode
integrar assim outros tipos de habitat para além do seu tipo homónimo.
Um
raciocínio indutivo do tipo estrutura
material =>;(implica) tipo arquitectónico =>; tipo
de habitat deve ser evitado no que respeita a villas sempre que possível.