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Monday, March 19, 2012

Notas sobre a geografia do subúrbio oriental de Ossonoba


A propósito de uma necrópole romana recentemente descoberta em Faro (Algarve, Portugal)

RESUMO

No trabalho aqui apresentado, a necrópole romana recentemente descoberta junto à pista de atletismo de Faro é integrada no contexto topográfico da sua época. 

Conclui-se que se situava a meio caminho do eixo de acesso directo entre uma aglomeração ribeirinha de certa importância que lhe é coeva (Garganta-Amendoal) e a principal via oriental da cidade (via Ossonoba-Balsa).

Tratar-se-á de mais um exemplo, muito comum, de uma necrópole de gente modesta localizada a uma certa distância (c. 250m) do povoado a que pertenciam, num dos seus acessos principais.

O ponto de junção com a via corresponde a um trivium suburbano cuja memória religiosa se prolongou até à dominação portuguesa, graças a renovação católica do culto viário.

Tudo indica assim que a zona escavada corresponde a uma parte da necrópole norte da referida aglomeração, cujo tipo corográfico permanece no entanto duvidoso: ou uma villa marítima suburbana; ou então uma aglomeração portuária especializada na qual existiu uma domus senhorial numa cronologia romana tardia (séc. III e sobretudo IV).

Este estudo é parte de um projecto de reconstituição da ocupação romana entre Ossonoba e Balsa, que integrará uma monografia sobre Marim Romano, em preparação. Uma versão mais antiga dessa reconstituição pode ser vista aqui.

ABSTRACT

Notes on the geography of the eastern suburb of the Roman town of Ossonoba (Lusitania, Hispania Ulterior).
Regarding a recently discovered necropolis in Faro (Algarve, Portugal).

In the present study, the recently discovered Roman necropolis near the athletics stadium in the city of Faro (old Roman Ossonoba) is set in the spatial context of its time.

It is concluded that the necropolis stood halfway through the axis of direct access between a contemporary riverside agglomeration of some importance (Amendoal-Garganta) and the main Roman road eastward of the city (from Ossonoba to Balsa).

This placement is interpreted as an instance of the (very common) spatial configuration of a necropolis of modest people located at a distance (c. 250m) from the settlement to which they belonged, in one of its main road accesses.

The junction with the main road corresponds to a suburban trivium whose religious memory lasted until (and through) the Portuguese domination (from the 2nd. half of the 13th century), thanks to the Catholic renewal of the travelers cult.

While it seems unproblematic that the excavated zone corresponds to a necropolis of the said agglomeration, the chorographic type of this remains dubious: it could be either a seaside suburban villa; or a specialized port agglomeration, in which there was a gentry's domus in a late Roman date.

This study is part of a forthcoming historical geography of Roman occupation between the tows of Ossonoba and Balsa, included in a monograph on Roman place of Marim. An earlier version of this can be seen
here.



1. A povoação romana da Garganta

A informação sobre a presumida villa romana do Amendoal (Garganta, Faro) provém quase exclusivamente de Estácio da Veiga (EV), com contribuições de Fernandes Mascarenhas e S. Lopes Belchior[1].

A resenha mais completa é de Fernandes Mascarenhas[2], que compila as notícias esparsas e sempre muito incompletas de EV. Este último autor, como é seu costume, nunca localiza com o mínimo de rigor geográfico as estruturas arqueológicas que faz desenhar com bastante cuidado. Faltam também, como é infelizmente frequente na sua obra póstuma publicada, as legendas essenciais dos desenhos das estruturas arqueológicas, forçando os leitores a um ingrato exercício de adivinhação baseado em paralelos formais.

Com base nestas limitações gritantes é no entanto possível definir grosseiramente uma área de "povoação arrasada" isto é, de grande densidade de vestígios à superfície, entre a margem esquerda da ribeira das Lavadeiras e o caminho vicinal da zona da Garganta, troço onde a referida ribeira e o Rio Seco correm paralelamente separadas por um estreito corredor, a Sul da actual EN 125, situação que estará na base do referido topónimo Garganta. Este existe já no séc. XVI, (Ver Visitação da Ordem de Santiago mais adiante), referido como zona de propriedades agrícolas, tal como hoje.

Sem dispor de um modelo digital de terreno de maior resolução da zona (uma equidistância de 1 m seria ideal) não é possível modelizar convenientemente as alterações da orla estuarina desde a Antiguidade. Infelizmente, mesmo com esse modelo, a fisiografia antiga da foz do Rio Seco será impossível de reconstituir devido ao enorme grau aparente de transformação destrutiva: o rio está reduzido a um canal de meandro regularizado por acção antrópica e as margens lagunares na sua vizinhança são demasiado altas (cotas de 4 a 6 m) para um leque expectável de sedimentação natural. Provavelmente só resultados de sondagens geológicas poderiam indicar soluções fiáveis.

Com os pontos cotados da Carta Militar e indícios das aerofotografias só é possível apresentar um esquema de baixa definição, representado na Figura 1 por uma banda de indefinição. A modelização minimalista (ignorando um hipotético estuário aberto do Rio Seco) revela a existência de uma pequena península cujo esteiro ocidental (Ribeiro das Lavadeiras) possui um potencial portuário que sobrevive parcialmente até hoje. Vê-se assim que a posterior Garganta corresponde à colmatação mais recente dessa península.

 Figura 1 – Reconstituição grosseira da costa antiga e localização da aglomeração romana de Garganta-Amendoal

Com a informação de EV é também possível localiza-se aproximadamente e implantar a estrutura edificada desenhada por este autor, imediatamente a nascente do referido caminho vicinal. EV publicou desenhos de mosaicos aí encontrados e noticia também a existência de vestígios de estuques pintados. Esta informação e o que resta do modelo arquitectónico chegam para revelar a existência de uma domus luxuosa de carácter urbano no lugar mais central da península atrás referida.

A Figura 2 reproduz a planta de EV[3]:

 Figura 2 – Amendoal. Planta do edifício romano explorado por EV.

As Figuras 3 a 6 reproduzem as estampas s obreviventes dos mosaicos[4]:



 Figuras 3-6 – Amendoal. Desenhos dos mosaicos dos pavimentos das divisões A,B,C e E da planta

A planta de EV não tem originalmente régua de escala e a escala nela indicada é a do desenho original arquivado no MNA. Segui as dimensões da cópia publicada (ver nota 3), sem hipótese de confirmar se esta corresponde ao original. A sobreposição comparativa com estruturas similares melhor documentadas revela no entanto que as medidas da cópia são as originais ou não se afastam significativamente delas. A Figura 7 ilustra esta sobreposição com o corpo principal da domus de Cerro da Vila (Vilamoura)[5].


Figuras 7 – Sobreposição na mesma escala aproximada  da edificação do Amendoal (a vermelho) sobre a fase 3 da domus de Cerro da Vila-Vilamoura (segundo Felix Teichner)

A dimensão das divisões, a sua pavimentação com mosaico e a sua interligação interior permite identificá-las como cubicula: quartos e salas ou antecâmaras residenciais integradas em aposentos concebidos para gente de uma certa condição.

Infelizmente, a parte desenhada por EV é insuficiente para definir um modelo arquitectónico do conjunto, sendo impossível determinar se estamos perante uma "villa de peristilo" (no sentido arquitectónico do termo villa, em que a série de divisões formaria um dos lados: mais provavelmente o ocidental) ou perante um edifício linear, com pavilhões.

Recorrendo aos numerosos paralelos do Algarve e não só, pode propor-se sem grande audácia a existência de um balneário na vizinhança, por ser impensável a sua ausência num complexo com estas características, sobretudo se situado numa zona portuária. Ainda segundo esses paralelos (que concordam de um modo geral com os preceitos teóricos dos agrónomos-arquitectos clássicos[6]) esse balneário dever-se-ia situar do lado mais ocidental e voltado a Sul, isto é, algures do lado do porto.

A correspondência espacial entre a margem mais edificada e o único esteiro com potencialidade portuária leva naturalmente a sugerir ter sido esta a funcionalidade principal da aglomeração ou, pelo menos, um dos critérios fundamentais da sua fixação.

Estaremos assim perante mais um caso dos muitos já identificados no Algarve em que um aglomerado portuário especializado e de dimensões relativamente modestas se associa a uma mansão senhorial de características urbanas aparentemente excessivas, sendo característico o desenvolvimento em expansão e luxo decorativo destas residências durante o séc. IV, nomeadamente em seus meados.

A possível lista, com alguns casos duvidosos, inclui: Boca do Rio, Senhora da Luz, Paul/Jardim-Lagos(?), Abicada, Cerro da Vila, Loulé Velho(?), Ludo, Garganta-Amendoal, Torrejão, Marim, Pedras d'El-Rei, Cacela-a-Velha, Álamo, Montinho das Laranjeiras.

Penso no entanto que este critério de uniformidade esconde importantes distinções funcionais, organizativas, estatutárias e de nível de lugar central, que não permitem agrupar todos estes lugares num tipo simplista e rudimentar, como villas marítimas! (Ver nota no final do texto).

Na caracterização tipológica do habitat da Garganta-Amendoal, do qual praticamente nada se conhece, permanece portanto a dúvida de se tratar de villa suburbana marítima, ou então de uma aglomeração secundária de cariz portuário com uma residência senhorial.


2. A via romana oriental de Ossonoba e as transformações posteriores da rede viária

Na época Romana o antigo caminho entre Faro e Olhão pelo Alto de Santo António e a margem do sapal não era ainda viável devido a submersão da margem do Sapal do Fialho e à potência do esteiro das Lavadeiras, aparentemente mais importante que o do Rio Seco.

Este caminho desapareceu sob o eixo da linha de caminho de ferro entre Faro e Olhão, concluída em 1904. (Inexistente portanto aquando da exploração de EV em 1878).


Não é possível estabelecer uma data precisa para a construção das Pontes das Lavadeiras e do Rio Seco, no eixo da actual EN 125. A ponte do Rio Seco aparece referida, penso que pela primeira vez, na Visitação da Ordem de Santiago de 1517-18 (fl. 183, p. 137)[7]. Será provavelmente uma obra já da época portuguesa e deve articular-se com a construção da Ponte de Quelfes, redefinindo o trajecto viário entre Faro e Tavira com o abandono ou despromoção da antiga via romana, que se revela fossilizada, tal como direi mais adiante.
São Cristovão
Nas "Visitação" surge também a ermida de São Cristóvão (fl. 196, p. 157), descrita como sendo de uma só nave com um pilar no meio, uma pequena capela abobadada e um pequeno adro em frente da entrada, construída em pedra e taipa. Sendo "tão antiga que não há aí memória de que a edificou", tal significa uma mais que provável origem pré-portuguesa[8].

A dedicação a S. Cristovão deve ser relativamente moderna, já portuguesa. Ela assinala lugares à beira da estrada, frequentemente associados a passagens de rios ou linhas de água. É muito provável a existência aí de um culto viário mais antigo, moçárabe ou misto, ainda sobrevivente nos primeiros séculos do domínio português, o que justifica a manutenção funcional da dedicação apesar da alteração do orago.


Figuras 8 – Parte do mapa de 1832 mostrando o caminho de S. Cristóvão

O mapa de Faro de José Gualdim Ferreira (1832)[9] (representado parcialmente na Figura 8) mostra perfeitamente o antigo caminho por São Cristovão até ao Rio Seco. As edições da Carta Militar, mais modernas, são ainda mais detalhadas: a situação da ermida e os troços fósseis de caminhos alinhados que lhe estão associados são determinantes para definir o traçado do eixo da antiga via romana oriental de Ossonoba, usada posteriormente até à construção das pontes das Lavadeiras e Rio Seco. (Figura 9).


Figuras 9 – Vestígios fósseis da via romana (e do caminho medieval que lhe sucedeu, anterior à construção das pontes das Lavadeiras e do Rio Seco)

Próximo da ermida (e muito provavelmente justificando a sua localização primitiva) é possível reconstituir por interpolação o trivium (entroncamento) onde a estrada vinda de Ossonoba se dividia em duas:

1) Para Estoi e Bicalto por Galvana (outra villa romana identificada pelo topónimo e, mais recentemente, por prospecção arqueológica);
2) Para Balsa, por Contenda, João de Ourém e Quatrim.

O culto viário (S. Cristóvão) associado ao caminho fóssil sobrevivente revela a memória da função viária importante deste eixo ANTES da época portuguesa e ANTES da construção das pontes das Lavadeiras e do Rio Seco, que puxaram o eixo viário principal mais para sul. Isso levou à despromoção e obliteração parcial da via antiga, que surge quebrada em troços de caminhos secundários desconexos mas alinhados, como se pode ver na Figura 9. As interrupções correspondem tipicamente à apropriação de troços caídos em desuso pelos proprietários circundantes.

No palimpsesto viário visível nas Cartas Militares nota-se também o modo como a abertura de novas estradas modernas (como a para Pechão-Quelfes e a EN125) levou ao surgimento de novos caminhos de ligação entre pontos nodais da antiga via e os novos eixos.

A reconstituição da rede viária mostra-se na Figura 16.

A situação da antiga via romana evita a travessia das Ribeira das Lavadeiras e do Rio Seco, numa zona onde historicamente mais se fazem sentir as marés, impedindo a travessia sem pontes ou obrigando à reparação permanente destas quando existentes. Naturalmente, nas conjunturas de avaria das referidas pontes o antigo trajecto mais a norte deveria ser obrigatoriamente retomado.
As passagens antigas faziam-se facilmente por pontões (portus) sem necessidade de grandes infra-estruturas, tal como se verifica ainda hoje no porto de passagem do Rio Seco.
Tudo indica assim que esta linha de água já fazia jus ao seu nome desde a Antiguidade, com o seu carácter de arroio temporário e torrencial, seco ou quase seco a maior parte do ano mas intransponível na estação chuvosa.

É ainda de notar que o trivium de S. Cristóvão é o segundo entroncamento notável da via Ossonoba-Balsa após a saída da cidade. O primeiro corresponde ao actual Largo d S. Luis, onde a função viária também se manifesta na associação a um culto hagiológico medieval no limiar da cidade, neste caso protector da peste e das doenças contagiosas trazidas pelos viajantes.
Considerando o percurso reconstituído da via e uma origem das distâncias no Largo da Palmeira em Faro (presumíveis portas de Ossonoba no Alto-Império), o trivium de S. Cristovão fica a c. 1950m (aproximadamente 1.3 m.p.). Trata-se portanto de um lugar claramente suburbano em termos urbanísticos romanos.


3. A necrópole da pista de atletismo de Faro

A necrópole conhece-se, por enquanto, apenas pelo pouco que veio nos jornais. Aguarda-se com expectativa que se concluam os trabalhos arqueológicos e se publiquem os respectivos resultados, afim de se poder fazer um balanço rigoroso do local.

A Figura 10 localiza a necrópole na área urbana de Faro.


 Figuras 10 – Localização da necrópole romana da pista de atletismo de Faro

A Figura 11 mostra aproximadamente os limites da área escavada onde existem sepulturas. É perfeitamente possível que a área original tenha sido consideravelmente mais vasta do que a parte posta a descoberto, sobretudo para sul, para nascente (até a estrada) e para poente (sob o muro e os logradouros da pista de atletismo).

 Figuras 11 – Limites aproximados da área intervencionada da necrópole onde se acharam sepulturas

Pelo que pude ver pessoalmente, a parte descoberta corresponde a uma pequena necrópole com uma baixa densidade de enterramentos, orientados segundo dois eixos: OSO e ONO, que correspondem grosseiramente ao pôr-do-sol respectivamente nos solstícios de Inverno e de Verão. Com excepção de de duas sepulturas aparelhadas com blocos dispostos horizontalmente, as restantes são muito pobres, formadas e cobertas com pedaços de contentores cerâmicos e tégulas. As lajes de cobertura parecem ser raras. A sepultura estruturalmente mais importante é representada na figura 12.

As Figuras 12-15 foram retiradas do blog "Turismo do Algarve", da Região de Turismo do Algarve[10].

Figuras 12-15 – Aspectos da necrópole (Cortesia da Região de Turismo do Algarve)

Tem de se aceitar a informação jornalística sobre o período de uso da necrópole pelo seu valor facial, à falta de melhor alternativa: sécs. III a V, o que corresponde a uma necrópole do Baixo-Império. Esta precisão não é suficiente para sugerir uma ocupação desde o "Médio-Império" (grosso modo a 1ª metade do séc. III), tal como sucede em Marim. Nada do que se vê permite sugerir haver uma fase de ocupação tardo-antiga/páleocristã, de acordo com os paralelos existentes em Marim, Mértola, Moncarapacho e muitos outros lugares.

Existe assim uma concordância satisfatória entre o uso da necrópole e a datação conhecida da domus da Amendoeira, sendo desconhecidos quaisquer detalhes do resto da aglomeração da Garganta.

Porém, mais relevante do que esta concordância cronológica circunstancial (isto é, necessária mas insuficiente para estabelecer um vínculo contingente) é a disposição espacial única dos dois elementos, bem manifesta na Figura 16, que permite associar a necrópole a esta aglomeração: situa-se imediatamente a norte do istmo da antiga península, na zona de acesso directo entre esta e a via Ossonoba-Balsa, que passa umas duas centenas de metros mais a norte. Tudo indica portanto que a necrópole se dispunha aproximadamente a meio do diverticulum (caminho de acesso com uns 480m de extensão) que uniria a aglomeração à via no sítio do trivium ou muito próximo dele, e cujo descendente actual é a estrada municipal M518.

 Figuras 16 – Reconstituição da topografia do subúrbio oriental de Ossonoba, mostrando os limites aproximados da cidade romana, a via oriental e as suas principais ramificações, a aglomeração da Garganta-Amendoal com a localização do edifício nobre e a necrópole junto ao acesso conjectural entre o povoado e a via. 

Esta disposição das necrópoles entre o núcleo de povoamento a Sul, junto à margem, e um caminho principal mais a norte parece ser comum na zona, verificando-se também na necrópole-casa do núcleo portuário de Marim e, muito provavelmente, em Belamandil, cuja necrópole se poderá relacionar com o núcleo litoral do Torrejão, conforme se pode ver no mapa de reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Antiguidade, onde a nova necrópole já está representada (Figura 17).

(Esta figura será incluída oportunamente)
Figuras 17 – Reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Época Romana


ANEXOS

Transcrição das fontes arqueológicas

Estácio da Veiga:
Amendoal – Este sítio, mui próximo da obstruída foz do antigo Rio Seco, onde explorei parcialmente uma opulenta villa ou granja romana, cujos edifícios tinham excelentes pavimentos de mosaico, que felizmente foram desenhados...
AMA II = Antiguidades Monumentais do Algarve, vol. 2, Imprensa Nacional, Lisboa, 1887, p. 389-90

O sítio do Amendoal até ao flanco direito da Ribeira do Rio Seco fica a nordeste de Faro e de Santo António do Alto em distância superior a 1 quilómetro.
Tem assentamento de povoação extinta desde a margem esquerda do ribeiro das Lavadeiras até à linha da estrada vicinal da Garganta.
Em frente da portada da quinta do Fonseca tentei um reconhecimento nas ruínas que o solo quase totalmente encobria, e pus à vista um famoso edifício com oito pavimentos de mosaico, havendo no terreno muitos fragmentos de louças finas e grosseiras, de vasos de vidro, quinários do Baixo-Império, e muitos ossos de diversos animais...
AMA II, p. 575-6

O emblema da cruz e a swastika foram sempre aparecendo como símbolos de antigas traduções... pois um e outro emblema achei eu , perto de Faro, no sítio do Amendoal, figurados nos pavimentos de mosaico de uma villa romana, onde conjuntamente coligi alguns pequenos bronzes do Baixo-Império...
AMA III = Antiguidades Monumentais do Algarve, vol. 3, Imprensa Nacional, Lisboa, 1889, p. 35.

Referência a materiais inventariados por EV:
Doze fragmentos de estuque pintado.
28 fragmentos de terra sigillata, frag. de vasilha de barro, peso de rede, cinco tijolos, grande número de objectos de metal, dois anzóis, frag. de vidro, dois cadinhos, objectos de osso e cornalina.
ARA II, p. 174-6.

Gravuras com desenhos dos mosaicos reproduzidas de
ARA II, figs. 248 a 251.
Fernandes Mascarenhas:
Não obstante a ausência [actual] de tais vestígios à superfície, tivemos conhecimento directo que, nos campos junto ao Rio Seco e Ribeiro das Lavadeiras – ribeiro por onde as águas do mar avançam em marés vivas, ainda hoje se encontram muitos restos de contruções e moedas de vários imperadores romanos, três das quais nos foram oferecidas pelo Sr. Francisco Tomaz, caseiro da quinta do Amendoal.
Dizia-nos esse senhor que em redor das casas da propriedade se torna por vezes difícil lavrar a terra, pois o ferro da charrua vai esbarrar constantemente com bocados de tijolo e paredes.
Mascarenhas, op. cit., p. 24-5.

 

Nota sobre o uso da categoria villa

Considero que há um uso excessivo da categoria "villa", aplicada a esmo a sítios rurais da época romana com edifícios de formas arquitectónicas aparentemente urbanas. Parece haver por parte de certos arqueólogos uma sofreguidão em produzir classificações corográficas instantâneas e simplistas sem dominar a complexidade das formas e escalões dos tipos de povoamento romano.

Infelizmente, este primarismo numa matéria que dominam mal (a geografia humana do povoamento) acompanha-se frequentemente por uma notável falta de detalhe arqueológico, reveladora de desinteresse pelas tipologias específicas da sua própria disciplina (que muita falta fazem e que ninguém doutras áreas poderá desenvolver) respeitantes à classificação multidimensional de sítios romanos segundo os achados que aí ocorrem[11].

De facto, enquanto estas tipologias de sítios arqueológicos não forem suficientemente elaboradas num quadro regional apropriado não será possível produzir modelos de mapeamento com carácter científico entre o universo dos vestígios modernamente registados e o universo das categorias de povoamento da geografia antiga.
Até lá temos de nos ir sujeitando a regras heurísticas de valor incerto ou, pior, a receitas dogmáticas e aos seus degenerados epítomes sebentinos.

Como se sabe o conceito de villa aplica-se a um espaço tipológico relativamente complexo de povoamentos rurais da época romana e tardo-antiga.
Muito sucintamente, configura um domínio edificado associado a propriedades fundiárias de usufruto e frequentemente integrado por residências abastadas de carácter urbano.
As finalidades do seu usufruto, o tipo de paisagem da sua situação geográfica, as actividades económicas e os tipos de produções eventualmente presentes, as formas de organização social do trabalho existentes, os tipos de propriedade e as formas de exploração qualificam as villas segundo um quadro multifactorial de geometria variável.

O problema está precisamente em que estas residências rurais abastadas de carácter urbano não são, por um lado, indispensáveis para definir uma villa nem a sua presença corresponde, por outro lado, obrigatoriamente a uma villa.
Apesar de de facto serem muito mais comuns em villas, elas existem igualmente noutros contextos de povoamento especializado, sempre que aí haja residentes abastados.
É o caso de meios portuários muito diversos, de aglomerações residenciais secundárias, de centros notáveis do sistema viário, militar ou administrativo, ou de certas zonas de produção especializada.

Pior no entanto é categorizar uma villa apenas por vestígios de materiais de construção ou componentes arquitectónicos decorativos, ou pela presença de estruturas arquitectónicas funcionalmente especializadas como é o caso conspícuo dos balneários. Na realidade não se pode afirmar nestes casos que se tratem sequer de domus no sentido exposto acima e muito menos de povoamentos do tipo villa.

O uso do termo villa nestes contextos devia ser assim, quanto a mim, evitado a priori, podendo a residência ser designada por domus ou por outro termo de carácter descritivo que assinale uma casa de carácter urbano. Tenho porém plena consciência que este modo de ver (de geógrafo do povoamento) não é fácil de aplicar à cultura arqueológica esmagadoramente dominante, pois vai contra a norma da literatura arquitectónica da especialidade que define as nomenclaturas tipológicas destes espaços edificados, designando-os sempre como villas.

Em resumo e conclusão:

O termo villa tem um duplo sentido, o que tende a constituir uma fonte permanente de mal-entendidos e de usos indevidos.
1.    É um tipo de povoamento rural específico, integrado numa nomenclatura corográfica do povoamento, isto é, numa conceptualização do espaço característica da geografia humana histórica.
2.    É um tipo de morfologia de edificação rural, integrado numa nomenclatura arquitectónica das edificações e espaços edificados, isto é numa conceptualização própria da arqueologia da arquitectura e da história da arquitectura.

Os dois conceitos intersectam-se mas não são equivalentes, o que obriga a uma qualificação terminológica: há inúmeros habitats-villa com edificações-villa (essa é a razão primitiva de partilharem o mesmo nome) mas há também habitats-villa sem edificações-villa assim como edificações-villa sem habitats-villa. Embora uma edificação pertença sempre a um tipo de habitat ela raramente é específica de um dado tipo. A edificação-villa pode integrar assim outros tipos de habitat para além do seu tipo homónimo.
Um raciocínio indutivo do tipo estrutura material =>;(implica)  tipo arquitectónico =>; tipo de habitat deve ser evitado no que respeita a villas sempre que possível.


[1] Este último é, tanto quanto sei, autor de um único artigo (a que ainda não pude ter acesso): Estudos acerca de Ossónoba e Faro, "O Algarve", Faro, 31 de Março de 1982)  referido na bibliografia da Carta Arqueológica de Portugal (Coord. Teresa Marques, "Faro, Olhão-Tavira, Vila Real de Santo António, Castro Marim-Alcoutim", IPPAA, Lisboa, 1995; p. 50), onde assinala a presença de vestígios cerâmicos no local.
[2] J. Fernandes Mascarenhas, "De Ossónoba a Balsa. Subsídios para o estudo da via romana que ligava as duas cidades e localização de Ossónoba" in Elementos de arqueologia sobre o Algarve (dos romanos aos árabes, na zona central da província), pp. 7-25, Col. Por Terras do Algarve, Ed. Autor, Tavira 1967: sobre o Amendoal ver pp. 23-5.
[3] ARA II = Maria Luísa Santos, Arqueologia Romana do Algarve. (Subsídios), Associação dos Arqueólogos Portugueses, Lisboa, vol. 2, 1972: Planta com o nº 28 na numeração de EV, hors-texte desdobrável após p. 176.
[4] ARA II: Figs. 248 a 251 hors-texte após p. 176.
[5] Segundo Felix Teichner, Entre Tierra y Mar. Zwischen Land und Meer, Museu Nacional de Arte Romano, Mérida, 2008; p. 290.
[6] Ver "Preceitos dos agrónomos latinos sobre villas rurais" em http://imprompto.blogspot.pt/2010/07/preceitos-dos-agronomos-e-arquitectos.html.
[7] Manuel Pedro Serra (Coord.), Fernando Calapez & António Viegas (Transcrição), "Visitação da Ordem de Santiago ao Algarve. 1517-1518". Suplemento da Revista al-ulyã, nº 5, Câmara Municipal, Loulé, 1996.
[8] Em 1517-18 a memória pessoal, colectiva e administrativa das construções religiosas desde a conquista portuguesa estava ainda bem viva, sobretudo tendo em conta que as construções rurais são raríssimas antes de 1400 e os edifícios construídos são demasiado notórios para ser esquecida a sua origem em pouco mais de 200 anos. As "Visitações" fazem uma distinção geralmente clara quanto ao tipo de fundadores (ou reconstrutores) portugueses: por iniciativa real ou senhorial, por ordens religiosas, por associações de âmbito municipal, por privados locais e por comunidades rurais de vizinhos. Quanto às construções anteriores ao domínio português o texto usa expressões com "mui antiga" e "não há aí memória de quem a edificou".
[9] Publicado por João Baptista da Silva Lopes em "Memórias para a história eclesiástica do Bispado do Algarve", 1848.
[10] http://blog.turismodoalgarve.pt/2012/03/cemiterio-romano-descoberto-em-faro.html, acedido em 13-Mar-2012
[11] Refiro-me aos perfis temporais e tipológico-funcionais dos achados, integrados nas suas estruturas espaciais subjacentes perceptíveis nas escalas arquitectónica e topográfica, isto é, integrados nas morfologias das edificações e nas morfologias dos povoamentos.

Thursday, January 13, 2011

Rede viária histórica do Sul de Portugal - I

Elementos geográficos geocondicionados
As redes viárias são um dos elementos geográficos mais representativos de persistência funcional geocondicionada, no âmbito de um quadro histórico pré-industrial. No Sul de Portugal este quadro milenário prolonga-se desde a Proto-História até meados do séc. XIX e muitos dos seus elementos fósseis sobreviveram até c. 1980.

A continuidade de uso e a manutenção das suas marcas tornam estas uma fonte insubstituível de informação histórica sobre as redes viária de um passado muito mais antigo.


Perfil funcional
Em cada época é teoricamente possível atribuir um perfil funcional aos itinerários mais significativos da rede viária então activa, segundo uma tipologia comum a toda a longue durée pré-industrial. 

Esta é caracterizada no Sul de Portugal por: 
- Conjunturas políticas de periferia tributária relativamente a Estados Centrais;
- Formas de organização administrativa territorial com três ou quatro níveis: "provincial", "municipal", "paroquial" e "comunidade rural". 

A tabela seguinte apresenta uma classificação funcional dos itinerários segundo os seus usos dominantes. As redes viárias
em que os itinerários se realizam podem então assumir um perfil factorial, segundo o tipo ou tipos de itinerários mais importantes:
GeopolíticaEstabelecimento de soberaniaInvasão. Conquista
Resistência a invasões
Controlo territorial interno
Defesa do perímetro territorial
GeoeconomiaPolaridades sub e supraregional de economias de vizinhança: agricultura, pecuária, pesca, materiais básicos
Escoamento de recursos geocondicionados que marcam os termos de troca regionais e definem nodos e interfaces de trânsito em determinadas épocas
Administração CentralFiscal. Redes de centralização e de exportação de massa tributária em espécie ou géneros
Judicial e política. Itinerância sazonal de funcionários e condenados. Rotas regionais de trânsito judicial
Sistemas de informações do Estado e infra-estruturas de serviços de comunicações
Itinerância religiosaPeregrinações
Rede de lugares centrais regionaisAcessos entre lugares centrais: centros de poder urbano e de agências do Estado Central
Acessos intermunicipais e equiparados
Acessos dos núcleos de povoamento rural e lugares de produção de nível sub-municipal.
Economias de subsistênciaRedes cadastrais, do parcelário coercivo de culturas e das passagens de gados



Fases históricas. Sistemas viários.
No Sul de Portugal pode definir-se uma sequência de fases históricas, segundo a existência de sistemas viários específicos  quanto às hierarquias e fluxos de usos, relacionadas com quadros particulares de poder político:

REDE VIÁRIAFontes essenciais
Cronologia
ÉPOCA
Pré-Romana-
200 a.n.e.
Proto-História
Romana (Conquista)-
200-70 a.n.e.
Romana e pós-romana
Romana (Pacificação)-
70a.n.e.-14 n.e.
Romana (Administração Provincial)Itinerário de Antonino
Ravennate
14-410
Islâmica pré-Almorávida-
410-1100
Medieval Islâmica
Islâmica tardia Idrisi
1100-1300
Da colonização portuguesa-
1300-1570
Medieval e Renascentista
Pré-pombalina Baptista de Castro
Allard
1570-1755
Antigo Regime
Pré-Liberal Sande Vasconcelos
Carpinetti
Neele, etc.
Silva Lopes
1755-1850
Liberal CCP (Filipe Folque)
1850-1920
Liberalismo e Estado Novo
(Rede tradicional)
Estado NovoCMP 1ª Edição
1920-1960
Rede modernizada antes da UECMP 2ª Edição
1960-1985
Contemporânea
Rede modernizada depois da UECMP 3ª Edição
1985-2010

O Antigo Regime.
A documentação especializada sobre as redes viárias pré-contemporâneas do Sul de Portugal não é anterior à 2ª metade do séc. XVII. As fontes existentes entre esta época e 1950 permitem reconstituir com bastantes rigor a rede viária articulada com o povoamento paroquial em meados do séc. XVIII, antes das transformações pombalinas.

Essa rede corresponde à maturação da rede formada como resultado da colonização rural portuguesa – cujas marcas viárias não deverão ser anteriores a c. 1400 – acrescentada pelos eixos geopolíticos e administrativos desenvolvidos a partir da restauração da independência.

Sob a rede da colonização jaz o palimpsesto das redes islâmicas, em que se podem identificar apenas as directrizes dos eixos das redes provincial, interurbana e –em alguns casos - dos territórios de encastelamento.

A problemática da reconstituição das redes viárias romanas será tema de outros posts.

As necessidades técnicas de transporte alteram-se progressivamente a partir do séc. XVII, com aumento crescente da importância dos trens atrelados, em detrimento dos animais de carga, que contudo continuam a ser utilizados em grande escala nos trânsitos rurais e trans-serranos. São sobretudo as novas necessidades militares (transportes de artilharia e de trens de abastecimento ) e administrativas (correio de informações político-militares e circulação de agentes) que fomentam a modernização e sistematização das redes viárias num novo quadro moderno e iluminista, característico do apogeu do Antigo Regime.

Vulgarizam-se assim nesta época os investimentos públicos em infraestruturas viárias ao longo de eixos estratégicos e de ligações entre centros urbanos principais. Pela primeira vez desde a Época Romana reintroduzem-se extensivamente perfis e pavimentos adequados ao trânsito carroçável pesado, assim como pontes, pontões e passadeiras que permitem a passagem regular em todas as estações.


Fontes documentais históricas
Uma consequência destas políticas foi o aparecimento de documentação de uso oficial, sob a forma de roteiros e cartas geográficas, fundamentais para o seu conhecimento e reconstituição históricas.

O diagrama seguinte sintetiza as fontes geográficas principais sobre a rede viária do Sul de Portugal, mostrando as suas relações bibliográficas, o seu tipo e o nível de detalhe e precisão do seu conteúdo:


Álvaro Seco

Pedro Texeira Albernaz

Karel Allard

Johann Baptiste Homann

João Baptista de Casto
Ver mapa e roteiro aqui



João Silvério Carpinetti, sobre base geográfica de Charles de Granpré

João Silvério Carpinetti, sobre base geográfica de Charles de Granpré

Tomás López de Vargas y Machuca

Samuel John Neele

Willian Faden

João Baptista da Sliva Lopes

Filipe Folque

Monday, July 26, 2010

Mapa viário do Sul de Portugal (1ª metade séc. XVIII)



Rede viária reconstituída a partir da implantação sistemática dos itinerários do Roteiro Terrestre de Portugal, do Padre João Baptista de Castro. (2ª Edição do Mapa de Portugal deste autor, 1763). Ver a transcrição do original neste blog.

O Roteiro, segundo o seu autor, baseia-se fundamentalmente: num inquérito aos serviços regionais do Correio-Mor do Reino (c. 1725-ante quem1743) e num inquérito ordenado por Filipe IV em 1638.

Considero que a reconstituição corresponde ao fundamental da rede viária oficial do Estado Português entre c. 1580 e 1755, sendo uma grande parte dos seus elementos mantida posteriormente até c. 1860/1920.

O mapa não representa a totalidade da rede viária importante na época. Faltam:
  •  As estradas internacionais;
  • A totalidade da rede viária inter-concelhia;
  • Os caminhos regionais organizados à parte dos centros urbanos;
  • Parte da rede radial dos lugares centrais de Évora e, sobretudo, de Beja.

A implantação da rede viária baseia-se: na Carta Corográfica de Portugal (CCP) de 1856-1904; na Carta Agrícola de Portugal (CAP) de 1856-1904; e na Carta Militar de Portugal (CMP,1ª ed. c.  1940/50 e 2ª ed. c. 1980). O referencial geográfico do mapa é a CMP.

Na versão actual os troços viários são generalizações geográficas na sua grande maioria. Os entroncamentos ou cruzamentos entre troços estão porém implantados, mesmo quando não  correspondem a estações de itinerários.

Tal como João Baptista de Castro refere, os valores das distâncias (em léguas) das etapas dos itinerários estão muito longe de merecerem confiança: a incerteza e variabilidade do valor da légua; a
grosseira imprecisão das medições; e os erros de transmissão tornam estes valores virtualmente inúteis como
medida das distâncias reais.

Esses valores têm, porém, um valor insubstituível no estudo da percepção das distâncias terrestres, no contexto histórico dos transportes e comunicações pré-industriais, pedestres ou por tracção ou dorso animal.

Elementos quantitativos da rede viária reconstituída
221 ligações ou troços viários, excluindo alternativas.
170 nodos ou povoações, das quais:
  • 1 origem exclusiva de itinerários (Lisboa).
  • 30 destinos de itinerários (dos quais 7 geradores de itinerários regionais e 23 não geradores).
  • 128 estações de etapas.

Wednesday, July 21, 2010

1º Roteiro Viário de Portugal

Do Padre João Baptista de Castro, 1700-1775.  

Obra anexa ao "Mapa de Portugal, Antigo e Moderno" do mesmo autor: Tomo III, após a parte V. 2ª
Edição revista e aumentada pelo autor, Lisboa, 1763.

Excertos da Introdução e partes relativas aos Itinerários do Algarve e a parte dos Itinerários do Alentejo relacionados com os acessos ao Algarve.
 

Texto original na internet (imagens das páginas a preto e branco)
aqui.

TRANSCRIÇÃO
 

NOTA do transcritor

A presente transcrição é parcial e não pretende constituir uma edição crítica. Não substitui a leitura do texto original. As normas usadas são as seguintes:

  • Actualizou-se a ortografia e, parcialmente, a pontuação mas manteve-se a sintaxe original.
  • As distâncias nos itinerários correspondem ao original, em léguas, transcritas em numeração decimal.
  • Número da página da edição original correspondente à inserção {nn}.
  • Notas originais de rodapé: [nota n pág. nn: texto].
  • Elementos do texto omitidos na transcrição: [...].
  • Texto original entre parênteses: (texto).
  • Actualização ou correcção de nomes de lugar: nome no texto [nome actual ou corrigido].
  • Texto ilegível: [??].


[INTRODUÇÃO]

{1} Roteiro Terrestre de Portugal.

Em que se ensinam por jornadas e sumários não só os caminhos, e as distâncias, que há de Lisboa para as principais terras das Províncias deste Reino, mas as derrotas por travessia de umas e outras povoações dele.


Introdução.

1    Este Roteiro, que pelo assunto havia de servir de complemento ao nosso Mapa de Portugal, aparece agora com antecipação depois da quinta Parte dele a instâncias da curiosidade. Eu já havia reflectido ser sumamente importante o conhecimento das estradas, com as distâncias que entre si guardam os lugares por onde se decorre, não só para o bom cómodo dos viageiros, segurança das expedi{2} ções militares, [nota 1 pág. 2: Primum itineraria omnium regionum, in quibus bellum geritur, plenissime debere habere per scripta, itaut locorum intervalla non solum passuum numero, sed etiam viarum qualitates perdiscat. Vegécio. l. 3. de Re milit. cap.6.] e fácil conduta dos géneros concernentes ao comércio recíproco, mas sobre tudo para o socorro, que contribui à verdadeira posição, e notícia local das terras, que é a base da Geografia, e uma das principais luzes da História [nota 2 pág. 2 Esta autem itinerum notitia non tantum mercatoribus necessaria, qui per varias regiones perigrinantur, sed exactiori locorum descriptioni plurimum inservit, & totius Geographia fundamentum est. Simlerus in prefation. Itinerar. Antonin. E mais para diante: Affert etim Itinerum cognitio multum lucis Historiae. Veja-se Mons. D. Andiffret no Pref. da Geogr. tom. I e ao P. Segura na 1ª p. do Norte Critico ?? 2. §5.].

2    Confesso porém, que desde que empreendi esta obra, me preocupou bastantemente o cuidado o poder satisfaze-la nesta parta pela falta, que tínhamos desta instrução; e sendo-me quase impossível poder indagar isto pessoalmente, como era preciso, de algum modo o consegui, valendo-me da intervenção dos meus amigos António Daniel, tenente do Correio-Mor deste Reino, e de Manuel Gomes Rebelo, oficial antigo do mesmo expediente, os quais mandando pedir a todos os Correios assistentes das Províncias os Itinerários, que dos seus distritos havia até Lisboa, os mais deles, informando-se de pessoas práticas, remeteram relações provavelmente bem averiguadas, de que formei o presente Roteiro com a melhor formalidade, e exacção, que foi possível; sem embargo de que em algumas partes vai diminuto, não só por falta de notícias, e algumas indigestas, mas por ser esta uma empresa verdadeiramente desigual ao meu talento, e mais própria de pulso superior.

3    A verdade é, que parte deste projecto não foi já intentado, mas posto em execução por El-Rei Filipe IV, desde o ano de 1638, quando governava este Reino; porque desejando saber as distâncias, que havia de umas a outras terras dele, passou um Decreto, para que os Corregedores das Comarcas fizessem tirar com individuação o cálculo destas medidas pelas terras da sua alçada, encarregando a diligência ao Duque de Villa Hermosa. As listas, ou relações originais, que se remeteram a Madrid, me comunicou já há tempos o erudito Fr. Francisco de Santa Maria, religioso {3} Augustiniano, que a morte nos usurpou tão depressa, as quais em dois volumes de folha existem presentemente na insigne livraria do Convento de N. Senhora da Graça desta Corte, e delas de aproveitei quanto a alguns Sumários somente: porque estão defeituosas, e incompletas; porque embaraçando-se com outras averiguações, deixam em muitas de corresponder as respostas aos interrogatórios.

4    Também o laborioso, e diligente Padre António Carvalho da Costa [nota 1 pág. 3: Na Corograa Portug. t. 3, no princíp. do liv. 2] prometeu um Roteiro breve de Lisboa para as principais povoações do Reino; mas sem dúvida ficou só na promessa, pois não me consta que alguém o visse; de sorte, que esta minha ideia, oficiosa em benefício público do Reino, sem mais interesse que seu o próprio lustre, bem pode merecer o título de primeiro Itinerário, que até agora se tem visto disposto para o nosso particular País.

5    Nele, depois de dar uma breve notícia das Vias Militares, que no tempo dos Romanos discorriam pelas nossas terras, e de algumas pontes, que atravessavam pelos nossos rios [memória, que achei não ser imprópria do assunto presente] entro a delinear o Itinerário moderno, constituindo a Cidade, e Corte de Lisboa, centro de todos os Roteiros, que distribuo para as principais povoações das Províncias, e destas faço produzir, e derivar outras vias por travessia, que servem como ramos, que vão pegar nos lugares circunvizinhos mais notáveis. E porque não foi possível demarcar por jornadas, e mansões todos os intervalos, que há de uns a outros sítios, reduzi alguns a compêndios, ou sumários; fazendo porém muito pelos orientar, ou ajustar à melhor arrumação, com que umas terras correm com as outras, regulando-me para isso pelo Mapas de João Baptista Himannu. Não sei todavia se acertei em todos os rumos.

6    O ponto central, que elegi para deles lançar os Roteiros para as mais partes, pareceu-me ser adequado, e útil para a clareza. Lisboa, como Corte do Reino Português, é o coração da sua Monarquia, não tanto pela vantagem do felicíssimo sitio, em que está, quanto pela grande capacidade, e conveniência do comércio, que tem, onde à maneira {4} do coração nos corpos viventes, que é o principal fundamento, que vivifica todos os seus membros, assim Lisboa com uma fácil, e continua distribuição comunica, e reparte a substância vital dos cabedais a todas as partes mais remotas das suas Comarcas; ou já pelas vias dos portos, e trajectos dos rios, ou pelas vias das estradas, por meio das quais recebe também com reciproca afluência a fertilidade, e regalo dos frutos, que todas as terras deste Continente lhe estão tributando, como a Princesa.

7    Em nenhum tempo melhor que no pacífico, e faustoso reinado d'el-Rei D. João V. se verificou esta felicidade [...]

8    Porém a incomparável providência de Sua Majestade, eximindo de todos estes descómodos os seus vassalos, perpetuou os seus louvores; porque mandou ampliar os caminhos, e desimpedir as estradas, fez facilitar a comunicação desta fertilidade. [...]

9    {5} Agora um dos pontos principais, que neste assunto se faz preciso advertir, é sobre o cálculo das léguas. Neste Reino não há medida certa itinerária, e por isso encontramos pelas Províncias tanta irregularidade neste particular; pois vemos que as léguas da Estremadura pela maior parte são pequenas, as do Alentejo maiores, e as de Trás-os-Montes, e Algarve demasiadamente compridas: donde disse bem o Padre Argote [nota 1 pág. 5: Argote nas Antig. da Chancel. de Braga p. 202] que entre as léguas Portuguesas apenas se acham duas, que convenham no comprimento; e tudo nasce, porque vulgarmente se medem as léguas por estimativa.

10    No sistema do Engenheiro-mor [nota 2 pág. 5: Manoel de Azev. Fort. no Modo de fazer as Cartas Geográf. pág. 4] deve computar-se a légua por uma hora de caminho a passo cheio, e ordinário, dando a cada légia trez mil passos geométricos, e a cada passo geométrico cinco pés geométricos, que fazem quase sete palmos de craveira. Não quisera meter agora ao Leitor em prolixas averiguações deste ponto, que pode ver em outros Autores mais de espaço; [nota 3 pág. 5: Ciuverio na Geogr. Fort. no Engenh. Portug. t.2 l. 1 c. 6; Fr. Bern. de Brit. na Monarch. Portug. p.2 l. 5. c 11; Barreir. na Corograf. fol. 61] só é bem que saiba ter-se observado ordinariamente, que um Postilhão, ou Correio, indo a pé, caminha em vinte e quatro horas de Verão catorze léguas, e de Inverno 13; e indo pela posta, anda nas vinte e quatro horas trinta léguas.

11    Da medida do pé horário, que se determina mediante as vibrações de um pêndulo, quando se praticasse universalmente, diz Pedro Du-Val, [nota 4 pág. 5: Du Val Trat. do Uso do Globo, e do Mapa] que resultariam certas as distâncias itinerárias em toda a parte; e já hoje alguns Geógrafos e peritos usam deste engenhoso instrumento para regularem sem falência as léguas, e intervalos progressivos. [nota 5 pág. 5: D. Jorge Juan nas Observ. Astronómic. feit. por ordem do Rei Filipe V. l.8 c.I, há pouco impress.] Porém enquanto se não observa geralmente, ou não se tomam outras precações para esta medida, me foi preciso acomodar na afinação das léguas com a vulgar estimativa do País, praticada entre caminhantes, que mais cruzam as estradas; e por isso advirto, que entre nós não merecem muito crédito os Itinerários de Cherubim Stella, João Maria Vidari, {6} e D. Pedro Ponton, não só porque erram os nomes das nossas terras nas poucas viagens, que por este Reino descrevem, mas também, porque não acertam na medida actual, que há entre terra, e terra. [...]

14    Parece-me que tenho dado aos Leitores a razão, que basta para penetrarem não só os fundamentos da minha ideia, e o carácter da Obra, mas poder merecer-lhes também a desculpa dos defeitos dela, para que talvez concorrerão muitos {7} acidentes inevitáveis, os quais poderá emendar o tempo com diligência, que aplicar outro qualquer zelo do bem público em o desempenho deste projecto. [...]

[ITINERÁRIOS DO ALGARVE]


{89}
Divisão VI

Roteiros de Lisboa para as principais povoações do Reino, e Província do Algarve. Sem embargo de ser montuosa [montanhosa] esta Província, é todavia fértil. Tem dezasseis léguas de fronteira com Andaluzia apartada pelo Guadiana, que se não vadeia. Atendendo à aspereza da maior parte das suas estradas, se reputam as léguas por cinquenta em qualquer viagem desta província, ou seja pouca, ou muita a distância, que se caminha. Os produtos deste Reino, que consistem em excelentes vinhos, uvas, e figos passados, amêndoas, e em muitos géneros de peixes gostosos, servem grandemente ao comércio, e contracto não só das nações do Norte, que os conduzem daqui às suas terras, mas aos próprios nacionais, que por transporte vem com eles fertilizar as mais Províncias do Reino, obrigando-os este interesse a transitar com mais frequência pelas terras desta Região.


Capitulo I

Roteiro de Lisboa para a cidade de Faro, em que se contam trinta e nove léguas ao Sueste, as quais de reputam, e costumam pagar-se por cinquenta.
De Lisboa à Moita    3
Águas de Moura    5
Alberges    3
Quinta de D. Rodrigo    4
Figueira de Cavaleiros    3
Aljustrel    4
Castro    3
Sembrana [Semblana]    3.5
Ameixial    3.5
São Brás    5
Faro    2

Por outro caminho

De Lisboa a Aldeia Galega    3
A Montemor-o-Novo    12
A Viana    6
Alvito    1
{90} Beja    5
Entradas    5
Crasto    2
Almodôvar    3
Loulé    9
Faro    2

§.I.

Sumário das distâncias, que há de Faro às terras do seu termo
Alagoa    7
Alcantarilha    5
Alferce    6
Algos [Algoz]    4
Alportel    2
Alvor    7
Ameixoeira [Mexilhoeira] Grande    8
Ameixoeirinha [Mexilhoeirinha]    7
Santa Bárbara    2
S. Brás    2
S. Bartolomeu    6
Estombar    6
Estoi    2
Monchique    11
Nexe    2
Olhão    1
Pêra    5
Pixão [Pechão]    2
Quelfes    2
S. João da Venda    1
Silves    7


Capitulo II

Roteiro de Lisboa para a Cidade de Lagos, em que se contam trinta e sete léguas ao Sul.
De Lisboa à Moita por mar    3
Setúbal    3
Comporta    3
Melides    6
Santo André    2
Vila Nova de Mil Fontes    7
Odeseixas [Odeceixe]    6
Aljezur    2
Bensafrim    4
Lagos    1

Quem não quer ir à Comporta, onde o barco é incerto, pode logo da Moita tomar o caminho seguinte:
Da Moita à Palhota    2
A Águas de Moura    3
Alcácer do Sal    4
Melides    6
Daqui continua a estrada para diante, como fica dito acima.

{91} §.I.

Roteiros transversos de Lagos para as principais terras circunvizinhas, e primeiramente para Faro, em que se contam onze léguas ao Nascente.
De Lagos a Alvor    1
Daí a Vila Nova de Portimão    1
Ao lugar da Alagoa    1
Ao lugar de Porches    1
Ao lugar de Pêra    1
À Estalagem da Nora    2
À Quinta de Quarteira    1
A S. Lourenço de Almancil    2
A Faro    1

§.II.

Roteiro de Lagos para Silves, em que se contam quatro léguas ao Nordeste
De Lagos a Vila Nova de Portimão    2
Daí a Silves pelo rio, ou por terra    2

§.III.

Roteiro de Lagos para Sagres, em que se contam sete léguas ao Sudoeste
De Lagos até Vila do Bispo    5
Daí a Sagres    2

§.IV.

Roteiro de Lagos para Albufeira, em que se contam seis léguas ao Nascente
De Lagos ao lugar de Pêra    5
Daí a Albufeira    1

§.V.

Roteiro de Lagos para Loulé, em que se contam dez léguas ao Nascente
De Lagos à Quinta da Quarteira    8
Daí a Loulé    2

§.VI.

Roteiro de lagos para Tavira, em que se contam quinze léguas ao Nascente.
De Lagos até Loulé    10
Daí a Tavira    5
Por Faro são dezasseis léguas.

{92} §.VII.

Roteiro de Lagos para Castro Marim, em que se contam vinte léguas ao Nascente.
De Lagos a Tavira    16
Daí a Castro Marim    4
Indo por Loulé são dezanove.

§.VIII.

Roteiro de Lagos para Alcoutim, em que se contam vinte e seis léguas ao Nordeste.
De Lagos a Castro Marim    20
Daí a Alcoutim pelo Guadiana, ou pela terra    6

§.IX.

Roteiro de Lagos para a Vila do Bispo, em que se contam cinco léguas ao Sul
De Lagos ao lugar de Budes [Budens]    2
Daí ao lugar da Figueira    1
Ao lugar da Raposeira    1
À Vila do Bispo    1

§.X.

Roteiro de Lagoa para a cidade de Beja, em que se contam vinte e três léguas a Nordeste.
Da Lagos ao lugar de Odeseixe [Odeceixe]    7
À vila de Odemira    4
À Aldeia de Santa Luzia    4
A Messejana    2
A Aljustrel    1
A Beja    5

Por outro caminho mais breve, indo pela serra

De Lagos ao lugar de Monchique    5
À estalagem da Palhota    4
À igreja de Santa Clara    0.5
A S. Martinho das Amoreiras    0.5
A Gravão [Garvão]    1
Panoias    1
Messejana    1
Aljustrel    1
Beja    5

{93} §.XI.

Roteiro de Lagos para a vila de Ourique, em que se contam catorze léguas ao Norte
Da Lagos a S. Martinho das Amoreiras    12
Daí a Ourique    2

§.XII.

Roteiro de Lagos para Évora, em que se contam vinte e nove léguas ao Nordeste
De Lagos até Messejana    15
Daí à vila de Ferreira    4
Alvito    4
Aguiar    2
Évora    4

§.XIII.

Roteiro de Lagoa para a Vidigueira, e Vila de Frades, em que se contam vinte e três léguas ao Nordeste
De Lagos a Aljustrel    16
À aldeia de Ervidel    2
Beringel    2
Cuba    2
Vidigueira, ou Vila de Frades    1

§.XIV.

Roteiro de Lisboa para Albufeira, em que se contam trinta e seis léguas a Sul.
De Lisboa à Moita    3
Águas de Moura    5
Palma    2
Alcácer do Sal    3
Vale de Guizios    1
Bairos [Bairros]    4
Alvalade    2
Vale de Santiago    2
S. Martinho    2
Santa Clara    3
S. Marcos    3
S. Bartolomeu    2
Albufeira    3
Nesta jornada se passam seis ribeiras.

{94} Por Lagos há 35.5 léguas, a saber:

De Lisboa a Setúbal    6
À Comporta    0.5
A Melides    5
A Vila Nova de Milfontes    6
Odeceixe    6
A Aljezur    2
A Lagos    5
A Alvor    1
A Vila Nova de Portimão    1
A Albufeira    4
Por esta jornada não há ribeiras que passar.

Pelo Serro do Malhão há 38 léguas, a saber:

De Lisboa à Moita    3
A Águas de Moura    5
A Palma    2
A Figueira    8
A Aljustrel    4
A Crasto    3
A Almodôvar    3
Ao Serro do Malhão    5
A Albufeira    5
Tem esta jornada nove ribeiras que passar.

As terras principais, e circunvizinhas a esta vila, contando de Albufeira até Castro Marim, são estas:

De Albufeira a Loulé    3
De Loulé a Faro    2
A Tavira    5
A Castro Marim    3
E contando de Albufeira até Lagos:
De Albufeira a Vila Nova de Portimão    4
A Alvor    1
A Lagos    1
A Vila do Bispo    5

§. XV.

Roteiro de Lisboa para a vila de Loulé, em que se contam trinta e sete léguas ao Sul.
De Lisboa à Moita    3
Dai à Palhota    2
Águas de Moura    3
Palma    2
Alberges    1
Vale de Rei    0.5
Porto de Lama    0.5
Porto d'El-Rei    2
Quinta de D. Rodrigo    1
Figueira dos Cavaleiros    3
Aljustrel    4
Castro    3
Almodôvar    3
Corte Figueira    3
Loulé    6

{95} Por outro caminho mais breve:

De Lisboa à Moita    3
Setúbal    3
Santiago de Cacém    10
Panoias    5
Ourique    3
Corte Figueira    6
Loulé    6

§. XVI.

Roteiro de Lisboa para a Vila Nova de Portimão, em que se contam trinta e oito léguas ao Sul.
De Lisboa a Setúbal    6
De Setúbal à Comporta    3
Melides    6
Santo André    2
Vila Nova de Mil Fontes    7
Odeceixe    6
Aljezur    2
Vila Nova de Portimão    6

Por outro caminho:

De Lisboa à Moita    3
Águas de Moura    5
Alcácer do Sal    5
Bairos [Bairros]    8
Vale de Santiago    7
Palhota    6
Monchique    4
Vila Nova de Portimão    4


Capítulo III

Roteiro de Lisboa para a cidade de Tavira, em que se contam quarenta e uma léguas ao Sul, e se reputam por cinquenta.
De Lisboa à Moita    3
À Palhota    2
Águas de Moura    3
Palma    2
Alberges    1
Porto de Lama    1
Porto d'el-Rei    1
Quinta de D. Rodrigo    1
Figueira [dos Cavaleiros]    2
Aljustrel    4
Entradas    2
S. Marcos    2
S. João    2
S. Sebastião    1
A dos Caros    2
A dos Vargens    1
Aos Giões    1
Zambujal    2
Tavira    7

Por outro caminho, indo pela estrada de cima:

De Lisboa à Moita    3
Da Moita segue a mesma estrada até Aljustrel em que há    19
De Aljustrel a Crasto    3
Ao Ameixial    7
A S. Brás    5
A Tavira    4

{96} §. I.

Sumário das distâncias, que há de Tavira às terras da sua Correição.
De Faro [Tavira] a
Alcoutim    9 Nordeste
Alte    8 Noroeste
Ameixial    9
Arenilha    4
Azinhal    5 Nordeste
Azor [Açor]    7
Benafins [Benafim]    7
Boliqueime    8 Poente
Cacela    2 Nascente
Cachopo    5 Noroeste
Santa Catarina    2 Norte
Castro Marim    4 Nordeste
Conceição    1
Do deleite [Odeleite]    6 Norte
Fuzeta    2
Giões    9 Norte
Loulé    6 Poente
Luz    1
Martinlongo    9 Norte
Moncarapacho    2 Sul
Pereiros    7 Norte
Sellir [Salir]    8 Poente
Vaqueiros    6

§. II.

Vários roteiros por travessia na viagem do Algarve
De Lisboa a Lagos    50
De Lagos a Vila Nova de Portimão    3
Daqui a Silves    2
A Alagoa    3
A Albufeira    3
A Faro    2
A Tavira    5
A Castro Marim    5

§. III.

Outra travessia
De Lisboa a Sagres    50
De Sagres a Lagos    7
De Lagos a Vila Nova de Portimão    3
Daqui a Alagoa    2
De Alagoa a Albufeira    3
De Albufeira a Silves    3
De Silves a Loulé    6
De Loulé a faro    2
De Faro a Tavira    5
De Tavira a Castro Marim    5
Daqui a Alcoutim    6
Daqui a Mértola    5
De Mértola para Lisboa    34

{97} §. IV.

Outra travessia
De Sagres a Lagos    7
De Lagos a Vila Nova de Portimão    3
Daqui a Silves    2
De Silves à Alagoa    3
Daqui a Albufeira    3
Daqui a Loulé    3
Daqui a Faro    2
Daqui a Tavira    5
De Tavira a Lisboa    40


[OUTROS ITINERÁRIOS QUE REFEREM OU SE LIGAM AOS DO ALGARVE]


{14}
Divisão I

Roteiro de Lisboa para as principais povoações da Província da Estremadura [...]


{33}
Capitulo VIII

Roteiro de Lisboa para Setúbal, em que se contam seis léguas ao Sul.
De Lisboa à Moita por mar    3
Dai aos Olhos de Água    1
Daí a Palmela    1
A Setúbal    1

Por outro caminho
De Lisboa ao Barreiro por mar    2
Dai a S. António da Charneca    1
À Barra Cheia    1
A Palmela    1
A Setúbal    1

Por outro caminho
De Lisboa a Coina por mar    3
Daí a Azeitão    1.5
Daí a Setúbal    1.5

Por outro caminho
De Lisboa ao Seixal por mar    2
Daí a Coina    1
De Coina a Setúbal    3

{34} Por outro caminho
De Lisboa a Cacilhas por mar    1
Daí ao Rio do Judeu    1.5
Daí a Coina    1.5
Daí a Setúbal    3
[...]

§. II

Roteiro de Setúbal para Alcácer do Sal, em que se contam sete léguas ao Sueste
De Setúbal a Águas de Moura    3
A Palma    2
A Albergue [Alberges]    1

A Alcácer    1
[...]

{35} Divisão II

Roteiro de Lisboa para as principais terras da Província do Alentejo [...]
[...]

Capitulo I

Roteiro de Lisboa para a cidade de Évora, em que se contam vinte léguas ao Sueste.
De Lisboa a Aldeia Galega    3
Daí aos Pegões    5
A Vendas Novas    3
Às Silveiras    2
A Montemor-o-Novo    2
A Patalim    2.5
A Évora    2.5
[...]

{37} §.VIII.

Roteiro de Évora para Alcácer do Sal, em que se contam nove léguas ao Poente.
De Évora à Torre da Gesteira    2
A Santiago do Escoural    2
A Rio Mourinho    2.5
A Alcácer do Sal    2.5

§.IX.

Roteiro de Évora para Garvão, em que se contam dezoito léguas ao Sul.
De Évora a Aguiar    4
Daí a Viana    1
A Vila Nova [da Baronia]    1
A Ferreira d'Aves [do Alentejo]    3
Aos Longueiros    2
A Aljustrel    2
À Defesa    3
A Garvão    2
Nesta jornada entre os Longueiros, e Aljustrel se tem de passar a ribeira chamada do Roxo.

§.X.

Roteiro de Évora para Mértola, em que se contam vinte léguas ao Sul.
De Évora a Aguiar    4
A Água de Peixes    2
A Vila Ruiva    2
À Cuba    2
A Beja    3
Ao Valcovo    8
A Mértola    1
{38} Nesta derrota se passam algumas ribeiras, e rios, o Garavia, o Tegres, e o Cobres.

§.XI.

Roteiro de Évora para Serpa, em que se contam doze léguas ao Sul.
De Évora à Torre dos Coelheiros    3
A Benalverge    2
À Vidigueira    2
A Serpa    5
Passam-se nesta jornada as ribeiras Morteira, e de Peixes.

§.XII.

Roteiro de Évora para Moura, em que se contam onze léguas ao Sul.
De Évora a S. Miguel de Machede    1
A Monte de Trigo    3
A Amieira    2
A Alqueva    1
Ao Rio Guadiana    2
A Moura    2
[...] 

{42} Capitulo II

Roteiro de Lisboa para Beja, em que se contam vinte e duas léguas ao Sueste.
De Lisboa à Moita    3
Daí à Palhota    2
A Águas de Moura    3
A Porto Carvalho    2
A Rio Mourinho    2
Ao Torrão    3
A Alfundão    4
A Beja    3

Por outro caminho, que seguem os Almocreves.

De Lisboa à Moita    3
À Palhota    2
A Águas de Moura    3
A Palma    2
A Alberge [Alberges]    1
A Porto de Lama    2
À Palhota    2
A Quinta de D. Rodrigo    1.5
A Odivelas    3
Q Alfundão    1.5
A Beja    3

Por outro caminho, que seguem os Estafetas.

De Lisboa a Aldeia Galega    3
Dai às Rilvas    2
Aos Pegões    3
Às Vendas Novas    3
Às Silveiras    1
A Montemor    1
{43} A S. Brás    4
A Viana    2
A Alvito    1
A Beja    5

Por outro caminho, que seguem as carruagens.

De Lisboa a Aldeia Galega    3
Daí às Silveiras    10
A Santiago do Escoural    3
A S. Brás    3
A Viana    2
A Água de Peixes    0.5
A Vila Ruiva    1
A Cuba    1.5
A Beja    3
[...]

§.II.

Roteiro de Lisboa para a vila de Odemira, em que se contam vinte e sete léguas ao Sul.
De Lisboa à Moita por mar    3
Da Moita a Setúbal    3
À Comporta por mar    3
A Melides por charneca    6
A Santiago de Cacém    3
Este trânsito, que é de charneca, e areias, tem também duas ribeiras pequenas que passar.
De Santiago ao Cercal    4
Do Cercal a Odemira    5

{44} Estas cinco léguas do Cercal a Odemira é caminho de Serra, porém sofrível, e há um ribeiro, em que entra a maré, que de Inverno tem suas enchentes. Toda esta derrota é a ordinária.

Por outro caminho.
De Lisboa à Moita    3
A Marateca    5
A Águas de Moura    2
Aqui se passa uma ribeira grande
De Águas de Moura à Palma    2
Neste caminho, suposto ser de charneca, há também outra grande ribeira.
De Palma a Alcácer    2
Há aqui outra ribeira.
De Alcácer a Grândola    4
Estas quatro léguas todas são de charneca.
De Grândola a Odemira    11

Entre o espaço destas onze léguas há cinco ribeiras que passar, uma tem ponte, as mais são caudalosas de Inverno e não têm ponte.

§.III.

Roteiro de Lisboa a Messejana, em que se contam vinte e uma léguas.
De Lisboa à Moita    3
A Palhota    2
A Águas de Moura    3
A Palma    2
A Alberges    1
A Alcácer do Sal    1
A Vale de Juízo [sic] ou Arcão    1
A Niza    3
Bairros    1
Alvalade    2
Messejana    2
Em todas estas terras há sofríveis estalagens.  

Por outro caminho

De Lisboa pela mesma estrada Até Alberges    10
A Vale de Reis    0.5
A Porto de Lama    0.5
{45} Quinta de D. Rodrigo    2
Água do Paço    1
Figueira de Cavaleiros    2
A Messejana    4

Por outro caminho

De Lisboa à Moita    3
A Palmela    2
Setúbal    1
Comporta por mar    3
Grândola    6
Alvalade    5
Messejana    2

O Correio vai a Messejana, que dista seis léguas grandes com duas ribeiras. De que uma chamada a Douroana é caudalosa de Inverno: Por Garvão se evita por ter duas pontes, porém é mais distante. De Messejana passa o Correio a Beja, em que há uma ribeira grande, e caudalosa, e outra mais pequena, e são seis léguas; de sorte que dista Odemira de Beja doze léguas, ficando-lhe o Campo de Ourique e sua Comarca de permeio.


As vilas do Campo de Ourique, com quem há mais comunicação, são estas:
Garvão, que dista de Odemira    4
De Garvão a Ourique    2
De Ourique a Almodôvar    3
De Almodôvar a Colos    4
A Sines    9

Com o Reino do Algarve há também comunicação, por ser Odemira a última da Província do Alentejo. Dela dista Lagos onde léguas sem embaraço dos rios, por haver barcos certos e prontos.
[...]


{51}
Capítulo VII

Roteiro de Lisboa para a vila de Ourique, em que se contam vinte e cinco léguas a Sul.
De Lisboa à Moita    3
A Palmela    2
A Setúbal    1
À Comporta    3
A Grândola    6
A Alvalade    5
A Ourique    5

§.I.

Roteiro de Lisboa para Messejana, em que se contam vinte e uma léguas as Sul
De Lisboa à Moita    3
Daí à Moita    2
A Águas de Moura    3
A Palma    2
A Alberges    1
A Alcácer do Sal    1
{52} A Vale de Guizio    1
A Nisa    3
Aos Bairros    2
A Alvalade    1
A Messejana    2
Por outro caminho
De Lisboa à Moita    3
Daí até Alberges    8
De Alberges a Vale de Rei    0.5
A Porto de Lama    0.5
À Quinta de D. Rodirgo    2
A Água do Paço    1
À Figueira de Cavaleiros    2
A Messejana    4

§.II.

Sumário das distâncias, que há de Ourique às vilas da sua Correição De Ourique a
Aljustrel    4 Norte
Almodôvar    3 Sul
Alvalade    4 Norte
Castro Verde    2 Nordeste
Colos    4 Poente
Entradas    4 Nordeste
Garvão    2 Poente
Mértola    8 Nascente
Messejana    4 Norte
Padrões    4 Nascente
Panóias    3 Norte
Santiago do Cacém    8 Norte
Sines    9 Poente
 Vila Nova de Milfontes    8 Poente