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Monday, April 09, 2012

Gravura de Tavira do século XVII


Gravura de Tavira, de autor desconhecido do século XVII

Notas para o Atlas Histórico de Tavira
Este texto é um esboço incompleto do estudo desta fonte iconográfica, a incorporar no Atlas Histórico de Tavira. O plano desta obra pode ver-se neste blog, aqui: Atlas Histórico de Tavira.

 Imagem de Tavira. Séc. XVII.
Panorama. Jornal Literário e Instrutivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, 2ª Série, vol. 2, nº 80, Julho, 8, 1843

A gravura é uma "quase-paisagem", em que certos elementos são representados com dimensões desproporcionadas ou fora da sua posição real para caberem no enquadramento, e em que o casario secundário é reduzido em número e simplificado na forma.
O único estudo que conheço sobre a gravura é da autoria de António Sebastião e Silva (CGST)[1].
Nunca foi feita uma abordagem analítica sistemática, sem dúvida por não se conhecerem outras representações urbanas suficientemente próximas ou com alçados comparáveis.
Esta situação alterou-se radicalmente com a revelação da planta de Leonardo de Ferrari (FERR) e do "Borrão do alçado de Tavira" de José de Sande Vasconcelos (BAT), ambas previamente desconhecidas pelos estudiosos da história urbana de Tavira.

Estudo analítico
Esse estudo analítico – de que aqui se apresenta uma primeira versão – fica porém muito facilitado a partir das referidas plantas e de um "modelo digital de terreno" do espaço urbano actual.
A sua realização é um exercício didáctico elementar de geografia histórica urbana, cujo enunciado se pode estabelecer do seguinte modo:
- Identificação prévia dos elementos da gravura que servem de marcadores de paisagem
- Determinação do ponto de tirada da vista
- Ajustamento e sobreposição da cartografia mais próxima no tempo à gravura
- Avaliação do rigor topográfico da gravura
- Sistematização dos elementos urbanísticos identificados
- Estimativa de um intervalo de datação da gravura, a partir da datação de elementos já aí representados mas omissos em FERR, com base em fontes documentais e estudos específicos
- Contribuições específicas da gravura para o conhecimento da arquitectura e da forma urbana
Aqui tratarei apenas sumariamente de alguns destes pontos.

Marcadores de paisagem e pontos de tomada de vista
A figura seguinte mostra a selecção de marcadores de paisagem (identificados segundo uma numeração arbitrária sistematicamente usada neste estudo: ver lista mais adiante) e a sua implantação no espaço topográfico real. 
A planta é de um modelo digital de terreno com uma resolução altimétrica de 1m.
Mostra também os alinhamentos dos marcadores da paisagem percepcionados segundo a sequência visual e a profundidade visual da gravura, idealmente convergentes para pontos únicos de tomada de vista, definidos pela sua intersecção.

 Planta e modelo digital de terreno da área urbana de Tavura, com marcadores de paisagem, alinhamentos e pontos de tomada de vista da gravura

O ponto de tomada de vista principal da gravura assim definido (designado por A) situa-se num pontal planáltico sobreelevado sobre todo o vale do Gilão, hoje situado a sul da Rua de Miraflores, junto ao logradouro/largo da Rua Brigadeiro Eduardo José dos Santos. Este ponto de vista define o plano de visão da gravura, paralelo ao eixo do rio.

Os alinhamentos e a sequência visual são quase perfeitos e sistemáticos para todos os marcadores de paisagem seleccionados, com excepção dos eixos da Rua da Porta Nova e da Carreira de S. Lázaro, que surgem grandemente distorcidos no conjunto.

O alinhamento e sequência visual destes eixos extemporâneos correspondem na realidade, não a um erro de desenho, mas sim a um segundo ponto de tomada de vista (assinalado como B). A ponte surge como charneira comum entre ambas as perspectivas.

Tudo indica assim que a gravura se obteve pela composição de elementos de ambos os pontos de tomada de vista, com grande predominância do primeiro.

Implantação e sobreposição da gravura na planta de Ferrari

 1 - Modelo da planta original de Leonardo de Ferrari (c. 1555) cf. FERR.



2 - Modelo da mesma planta rodada e perspectivada de modo a corresponder aproximadamente ao ângulo de visão da gravura

 3- Modelo da mesma planta distorcida para se ajustar aproximadamente à gravura.


Erros
A gravura só é conhecida através de uma litografia publicada em 1843, em época anterior à reprodução fotográfica generalizada. Não é possível portanto saber-se se alguns erros de omissão e simplificação são originais ou devidos a erros da cópia manual para a matriz litográfica
A gravura apresenta sete erros mais ou menos evidentes:
-  A ermida da Senhora do Loreto e as casas nobres que a incluem são omissas. As casas já são representadas em FERR (e a ermida já existe em 1573, aquando da visita de D. Sebastião à cidade) e o conjunto é destruídas apenas em 1888.  A sua omissão na gravura só se compreende por erro de desenho.
-  A ponte tem uma dimensão desproporcionada e está sobreelevada relativamente ao rio
-  O castelo tem uma altura desmesurada. Todo o andar superior abaluartado é imaginário
-  As torres da cerca da Graça e, sobretudo, o torreão manuelino da porta "nova" da Bela Fria estão sobredimensionados, sobretudo em altura.
-  A muralha almóada entre o muro albarrã da Porta do Mar e a Porta da Vila não está representado, sendo substituído por casas fantasiosas
-  A qualidade artística dos alpendres e arcada das casas da Câmara junto à Alfândega é má, permitindo apenas adivinhar os arcos a quem saiba da sua existência por outras fontes.
Tendência para a distorção "abaluartada" das paredes verticais: é o caso manifestamente exagerado da ponte e do castelo e, em menor grau, da torre do mar e da capela ameada da Igreja de Sant'Ana
Tudo o resto parece ser aceitavelmente rigoroso dentro do esquematismo simplificado seguido, quer quanto às posições relativas na paisagem quer quanto aos detalhes arquitectónicos dos edifícios mais notáveis.
  
Sistematização dos elementos arquitectónicos identificados

 
  1. Convento das Bernardas
  2. Igreja de S. Sebastião
  3. Convento de S. Francisco
  4. Castelo
  5. Igreja de Santa Maria
  6. Convento da Graça
  7. Torre Norte da Cerca da Graça (muralha medieval almóada)
  8. Igreja de S. Roque
  9. Casa de Vaz Velho
  10. Pelames
  11. Torre manuelina da porta da Bela Fria
  12. Barbacã manuelina
  13. Palácio da Galeria
  14. Torre e Porta do Mar
  15. Praça da Ribeira
  16. Alfândega: edifícios e terreiro
  17. Horta do Rei e Horta do Bispo
  18. Edifícios singulares
  19. Ponte
  20. Igreja de S. Lázaro
  21. Porta Nova
  22. Igreja da Sra. da Ajuda e Convento de S. Paulo
  23. Largo da Alagoa
  24. Igreja de Sant'Ana
  25. Rua Direita do Corpo Santo
  26. Rua do Sapal
  27. Estrada para Castro Marim (Carreira de S. Lázaro)
  28. Rua da Porta Nova
  29. Estrada do Cano para Faro
  30. Rua do Sapal de Sant'Ana. Caminho para Vale Formoso
  31. Rua do Alto do Cano e estrada de Loulé
  32. Rua da Praia da Ribeira (Porto de Tavira)
  33. Adro da Porta da Vila
  34. Largo/Terreiro da Corredouras
  35. Torre do canto Noroeste da cerca da Graça
 Tipos de elementos

A    Casas conventuais
B    Igrejas e ermidas
C    Fortificações medievais: castelo e muralhas
D    Portas e cercas fiscais pós-medievais
F    Casas particulares notáveis       
G    Hortas e campos agrícolas
H    Largos e Terreiros
I     Edifícios de comércio e administração local
J    Edifícios de manufacturas (curtumes)
K    Eixos de arruamentos e limites de largos


O sobredimensionamento
O sobredimensionamento referido atribui um estilo "maneirista"  á gravura, em que o desenhador aumenta selectivamente os principais símbolos urbanísticos de prestígio da povoação: a ponte, que é o ex-libris da cidade, e a fortificação medieval, cujo valor é porém meramente simbólico visto ser já completamente anacrónica na época.

A ponte (Nº 19)
A gravura mostra a ponte antes da sua grande reconstrução de 1655-57, que criou a estrutura que permanece até hoje nos seus traços fundamentais (TST1, 300-1).

O grande gigante ou quebra-mar central representado na gravura e em FERR, é interpretado por Sebastião e Silva como tendo tido inicialmente um carácter fortificado (FPT, 141).
As "casas" que aí existiram segundo Sarrão (em 1607: SARR, 166) terão tido uma existência efémera pois ainda não existem em FERR e já não sobrevivem na gravura.
Na gravura, os talhamares bem evidentes em FERR conseguem individualizar-se com alguma dificuldade. Os dois primeiros arcos da margem esquerda não estão representados, tapados pela perspectiva do casario. Correndo o risco de sobreinterpretar o desenho muito esquemático parece que o 6º arco, mais próximo da margem pode ter sido sobreelevado, possivelmente para permitir a passagem de barcas de maior calado.
Na reconstrução dos dois pilares aluídos do lado sul (nº 4 e nº 5) o arquitecto decidiu também arrasar o antigo gigante (nº 3), reconstruindo-o de novo e acrescentando mais um arco e um pilar do lado Sul, diminuindo assim os respectivos vãos. Todos os novos pilares têm a forma de castelejo, sendo o 3º ligeiramente maior – provavelmente com uma dimensão semelhante ao original. É fácil distingui-los, comparando a ponte de FERR com a planta da ponte actual.
 Plantas da Ponte aproximadamente na mesma escala e orientação.
Em c. 1555 (FERR), c. 1798 (BAT) e na actualidade (Monumentos Nacionais)

O castelo (Nº 4)
A representação do castelo ultrapassa o simples exagero dimensional: acima do nível real das ameias (bem perceptível na gravura e muito mais baixo do que as torres da Igreja de Santa Maria) o autor inventa uma extensão abaluartada e ameada, em que duas das torres se representam com telhados sobrepostos (um de quatro águas e um de duas águas!).
 Alinhamento comparativo aproximado do Castelo e Igreja de Santa Maria.
Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)
 Relação altimétrica real entre o Castelo e a Igreja de Santa Maria

A gravura, para além de uma base realista indiscutível, pretende difundir uma mensagem de poderio defensivo, tão simbólico quanto anacrónico. Porém, a própria realização da gravura e a invenção do castelo poderão corresponder a um projecto de reconstrução da fortaleza, no sentido de a tornar de novo eficaz no contexto militar da época.
Esta necessidade premente e generalizada colocou-se, como se sabe, ao recém-restaurado Estado português após 1640, o que permitiria datar a gravura logo a seguir à Restauração, isto é, a partir de 1641.

Elementos urbanos que surgem pela primeira vez na gravura

A gravura mostra uma série de elementos que ainda não existiam na planta de Ferrari, sendo portanto posteriores a ela:
 -  Nº 6: Edifícios novos do convento da Graça, iniciados em 1569 e concluídos já no séc. XVII.
 -  Nº 22: Convento de S. Paulo, concluído c. 1605.
 -  Nº 5: Torre sineira da igreja de Santa Maria (a da esquerda na gravura), de data por mim desconhecida. Fica por esclarecer em que medida esta data poderá contribuir para avançar o limite post quem do intervalo de datação da gravura.
 -  Nº 21: Porta Nova, provavelmente coeva da porta do Malforo, já existente em 1573.
·     -  Nº 13: Fachada nobre do Palácio da Galeria, já existente em 1635[2].

As casas de Câmara (Nº 16)
A representação das "casas da Câmara", arcada e alpendres junto à Alfândega revela a ausência de telhados sobre os referidos alpendres, assim como a ausência de um piso superior.

A casa do lado do rio – dos antigos açougues – parece estar também parcialmente destelhada.
Como já disse, os arcos não são explícitos para quem não conheça a sua existência, o que constitui uma dos pontos fracos do desenho.

Tendo em conta a fidelidade geral dos detalhes nos demais edifícios notáveis, é difícil aceitar que o "destelhamento" seja um erro do desenho (embora tal seja obviamente possível, pois o desenhador "esqueceu-se" das casas do Loreto!).

A alternativa mais provável é tratar-se de facto de uma representação fidedigna, de uma fase de obras notórias de reparação/reconstrução dos edifícios. 

Tal permitiria datá-las numa data imediatamente anterior a 1645, altura em que as casas sobre os alpendres (já com piso superior) são usadas como aposentadoria do Corregedor, sendo essa a razão mais plausível para a realização das obras.
 

Datação

Em conclusão, a datação mais provável da gravura é, em graus crescentes de precisão mas também de incerteza:
   - Primeira metade do século XVII
   - Entre 1605 e 1645, sempre antes de 1657.
   - O intervalo pode ser encurtado tentativamente para 1641-45, considerando o que acima foi dito sobre o eventual projecto de modernização da fortaleza posterior à Restauração portuguesa.

Elementos arquitectónicos inéditos

   - Abside ameado da igreja de Sant'Ana (Nº 24)
   - Casa de Vaz Velho (Nº 9).
   - Edifícios singulares junto ao porto (Nº 18), ainda inexistentes em c. 1555 (FERR) e já omissos em c. 1797 (BAT).

Comparação muda de elementos urbanísticos seleccionados

Comparação gráfica de elementos urbanos da gravura com as respectivas plantas e alçados nas cartas de Leonardo de Ferrari (c. 1555) e Sande de Vasconcelos (c. 1798). A explicação e a sinalização das alterações relevantes, decorrentes da evolução histórica dos locais, serão incluídas numa versão posterior. 

Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)

  Conventos das Bernardas (Nº 1)

 
  Convento de S. Francisco (Nº 3)


Igreja de Sant´Ana (Nº 24)


 Porta e Torre do Mar (Nº 14) e Adro da Porta da Vila (Nº 33)

 Torre da Porta "Nova" da Bela Fria (Nº 11) e torres da cerca da Graça (Nº 7 e Nº 35)


Bibliografia

ACA        Catarina Almeida Marado, Antigos Conventos do Algarve. Um percurso pelo património da Região, Colibri, Lisboa, 2006
BAT         José Sande de Vasconcelos: ver neste blog Alçado da Planta de Tavira. Finais séc. XVIII http://imprompto.blogspot.pt/2010/01/alcado-da-planta-de-tavira-finais-sec.html
CGST       António Sebastião e Silva, " Considerações sobre a gravura seiscentista de Tavira" in Tavira do Neolítico ao Século XX. Actas das II Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1993; pp. 135-143.
CNSG      Daniel Santana, "O convento de Nossa Senhora da Graça de Tavira", Monnumentos, 14, D.G.E.M.N., Lisboa, 2001, 124-133.
CRA        Frei João de São José, "Corografia do Reino do Algarve", 1577, in DDA21-132.
DDA        Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães (Edição, estudo e notas), Duas descrições do Algarve do Século XVI, Sá de Costa, Cadernos da Revista de História Económica e Social, 3, Lisboa, 1983        
FERR       Leonardo de Ferrari: ver neste blog Uma planta inédita de Tavira, do séc. XVI  http://imprompto.blogspot.pt/2008/04/uma-planta-indita-de-tavira-do-sc-xvi.html
FPT         António Sebastião e Silva, "As Fortificações Pós-Medievais em Tavira", in Actas das III Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1997; pp. 207.
HRA        Henriques Fernandes Sarrão, "História do Reino do Algarve", 1607, in DDA, 133-170.
JAA         João Cascão, (Ed., estudo e notas de Francisco de Sales Loureiro), Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve (1573), Livros Horizonte, Lisboa, 1984.
NHT        Damião A. de Brito Vasconcelos, Notícias Históricas de Tavira. 1242/1840, (Notas de Arnaldo Casimiro Anica), Câmara Municipal, Tavira, 1989 (1937).
NNHT      Arnaldo Casimiro Anica, Notas in NHT, 1989
TST1       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico, Câmara Municipal, Tavira, 1993
TST2       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico. Volume II, Câmara Municipal, Tavira, 2001


[1] Estudo inovador na altura, quando a historiografia do urbanismo tavirense tinha ainda um carácter notoriamente pré-científico, com opiniões que o autor rebate justamente, caso a caso. Muitas das suas ilações, assim como a sua aceitação literal das representações, já não podem porém ser aceites hoje.
[2] TST1, p. 286: Data de 1635 a doação das "casas da Calçada que vai de Santa Maria para a Fonte, à mão esquerda" pela viúva de Luis de Aragão de Sousa ao seu filho.

Monday, March 19, 2012

Notas sobre a geografia do subúrbio oriental de Ossonoba


A propósito de uma necrópole romana recentemente descoberta em Faro (Algarve, Portugal)

RESUMO

No trabalho aqui apresentado, a necrópole romana recentemente descoberta junto à pista de atletismo de Faro é integrada no contexto topográfico da sua época. 

Conclui-se que se situava a meio caminho do eixo de acesso directo entre uma aglomeração ribeirinha de certa importância que lhe é coeva (Garganta-Amendoal) e a principal via oriental da cidade (via Ossonoba-Balsa).

Tratar-se-á de mais um exemplo, muito comum, de uma necrópole de gente modesta localizada a uma certa distância (c. 250m) do povoado a que pertenciam, num dos seus acessos principais.

O ponto de junção com a via corresponde a um trivium suburbano cuja memória religiosa se prolongou até à dominação portuguesa, graças a renovação católica do culto viário.

Tudo indica assim que a zona escavada corresponde a uma parte da necrópole norte da referida aglomeração, cujo tipo corográfico permanece no entanto duvidoso: ou uma villa marítima suburbana; ou então uma aglomeração portuária especializada na qual existiu uma domus senhorial numa cronologia romana tardia (séc. III e sobretudo IV).

Este estudo é parte de um projecto de reconstituição da ocupação romana entre Ossonoba e Balsa, que integrará uma monografia sobre Marim Romano, em preparação. Uma versão mais antiga dessa reconstituição pode ser vista aqui.

ABSTRACT

Notes on the geography of the eastern suburb of the Roman town of Ossonoba (Lusitania, Hispania Ulterior).
Regarding a recently discovered necropolis in Faro (Algarve, Portugal).

In the present study, the recently discovered Roman necropolis near the athletics stadium in the city of Faro (old Roman Ossonoba) is set in the spatial context of its time.

It is concluded that the necropolis stood halfway through the axis of direct access between a contemporary riverside agglomeration of some importance (Amendoal-Garganta) and the main Roman road eastward of the city (from Ossonoba to Balsa).

This placement is interpreted as an instance of the (very common) spatial configuration of a necropolis of modest people located at a distance (c. 250m) from the settlement to which they belonged, in one of its main road accesses.

The junction with the main road corresponds to a suburban trivium whose religious memory lasted until (and through) the Portuguese domination (from the 2nd. half of the 13th century), thanks to the Catholic renewal of the travelers cult.

While it seems unproblematic that the excavated zone corresponds to a necropolis of the said agglomeration, the chorographic type of this remains dubious: it could be either a seaside suburban villa; or a specialized port agglomeration, in which there was a gentry's domus in a late Roman date.

This study is part of a forthcoming historical geography of Roman occupation between the tows of Ossonoba and Balsa, included in a monograph on Roman place of Marim. An earlier version of this can be seen
here.



1. A povoação romana da Garganta

A informação sobre a presumida villa romana do Amendoal (Garganta, Faro) provém quase exclusivamente de Estácio da Veiga (EV), com contribuições de Fernandes Mascarenhas e S. Lopes Belchior[1].

A resenha mais completa é de Fernandes Mascarenhas[2], que compila as notícias esparsas e sempre muito incompletas de EV. Este último autor, como é seu costume, nunca localiza com o mínimo de rigor geográfico as estruturas arqueológicas que faz desenhar com bastante cuidado. Faltam também, como é infelizmente frequente na sua obra póstuma publicada, as legendas essenciais dos desenhos das estruturas arqueológicas, forçando os leitores a um ingrato exercício de adivinhação baseado em paralelos formais.

Com base nestas limitações gritantes é no entanto possível definir grosseiramente uma área de "povoação arrasada" isto é, de grande densidade de vestígios à superfície, entre a margem esquerda da ribeira das Lavadeiras e o caminho vicinal da zona da Garganta, troço onde a referida ribeira e o Rio Seco correm paralelamente separadas por um estreito corredor, a Sul da actual EN 125, situação que estará na base do referido topónimo Garganta. Este existe já no séc. XVI, (Ver Visitação da Ordem de Santiago mais adiante), referido como zona de propriedades agrícolas, tal como hoje.

Sem dispor de um modelo digital de terreno de maior resolução da zona (uma equidistância de 1 m seria ideal) não é possível modelizar convenientemente as alterações da orla estuarina desde a Antiguidade. Infelizmente, mesmo com esse modelo, a fisiografia antiga da foz do Rio Seco será impossível de reconstituir devido ao enorme grau aparente de transformação destrutiva: o rio está reduzido a um canal de meandro regularizado por acção antrópica e as margens lagunares na sua vizinhança são demasiado altas (cotas de 4 a 6 m) para um leque expectável de sedimentação natural. Provavelmente só resultados de sondagens geológicas poderiam indicar soluções fiáveis.

Com os pontos cotados da Carta Militar e indícios das aerofotografias só é possível apresentar um esquema de baixa definição, representado na Figura 1 por uma banda de indefinição. A modelização minimalista (ignorando um hipotético estuário aberto do Rio Seco) revela a existência de uma pequena península cujo esteiro ocidental (Ribeiro das Lavadeiras) possui um potencial portuário que sobrevive parcialmente até hoje. Vê-se assim que a posterior Garganta corresponde à colmatação mais recente dessa península.

 Figura 1 – Reconstituição grosseira da costa antiga e localização da aglomeração romana de Garganta-Amendoal

Com a informação de EV é também possível localiza-se aproximadamente e implantar a estrutura edificada desenhada por este autor, imediatamente a nascente do referido caminho vicinal. EV publicou desenhos de mosaicos aí encontrados e noticia também a existência de vestígios de estuques pintados. Esta informação e o que resta do modelo arquitectónico chegam para revelar a existência de uma domus luxuosa de carácter urbano no lugar mais central da península atrás referida.

A Figura 2 reproduz a planta de EV[3]:

 Figura 2 – Amendoal. Planta do edifício romano explorado por EV.

As Figuras 3 a 6 reproduzem as estampas s obreviventes dos mosaicos[4]:



 Figuras 3-6 – Amendoal. Desenhos dos mosaicos dos pavimentos das divisões A,B,C e E da planta

A planta de EV não tem originalmente régua de escala e a escala nela indicada é a do desenho original arquivado no MNA. Segui as dimensões da cópia publicada (ver nota 3), sem hipótese de confirmar se esta corresponde ao original. A sobreposição comparativa com estruturas similares melhor documentadas revela no entanto que as medidas da cópia são as originais ou não se afastam significativamente delas. A Figura 7 ilustra esta sobreposição com o corpo principal da domus de Cerro da Vila (Vilamoura)[5].


Figuras 7 – Sobreposição na mesma escala aproximada  da edificação do Amendoal (a vermelho) sobre a fase 3 da domus de Cerro da Vila-Vilamoura (segundo Felix Teichner)

A dimensão das divisões, a sua pavimentação com mosaico e a sua interligação interior permite identificá-las como cubicula: quartos e salas ou antecâmaras residenciais integradas em aposentos concebidos para gente de uma certa condição.

Infelizmente, a parte desenhada por EV é insuficiente para definir um modelo arquitectónico do conjunto, sendo impossível determinar se estamos perante uma "villa de peristilo" (no sentido arquitectónico do termo villa, em que a série de divisões formaria um dos lados: mais provavelmente o ocidental) ou perante um edifício linear, com pavilhões.

Recorrendo aos numerosos paralelos do Algarve e não só, pode propor-se sem grande audácia a existência de um balneário na vizinhança, por ser impensável a sua ausência num complexo com estas características, sobretudo se situado numa zona portuária. Ainda segundo esses paralelos (que concordam de um modo geral com os preceitos teóricos dos agrónomos-arquitectos clássicos[6]) esse balneário dever-se-ia situar do lado mais ocidental e voltado a Sul, isto é, algures do lado do porto.

A correspondência espacial entre a margem mais edificada e o único esteiro com potencialidade portuária leva naturalmente a sugerir ter sido esta a funcionalidade principal da aglomeração ou, pelo menos, um dos critérios fundamentais da sua fixação.

Estaremos assim perante mais um caso dos muitos já identificados no Algarve em que um aglomerado portuário especializado e de dimensões relativamente modestas se associa a uma mansão senhorial de características urbanas aparentemente excessivas, sendo característico o desenvolvimento em expansão e luxo decorativo destas residências durante o séc. IV, nomeadamente em seus meados.

A possível lista, com alguns casos duvidosos, inclui: Boca do Rio, Senhora da Luz, Paul/Jardim-Lagos(?), Abicada, Cerro da Vila, Loulé Velho(?), Ludo, Garganta-Amendoal, Torrejão, Marim, Pedras d'El-Rei, Cacela-a-Velha, Álamo, Montinho das Laranjeiras.

Penso no entanto que este critério de uniformidade esconde importantes distinções funcionais, organizativas, estatutárias e de nível de lugar central, que não permitem agrupar todos estes lugares num tipo simplista e rudimentar, como villas marítimas! (Ver nota no final do texto).

Na caracterização tipológica do habitat da Garganta-Amendoal, do qual praticamente nada se conhece, permanece portanto a dúvida de se tratar de villa suburbana marítima, ou então de uma aglomeração secundária de cariz portuário com uma residência senhorial.


2. A via romana oriental de Ossonoba e as transformações posteriores da rede viária

Na época Romana o antigo caminho entre Faro e Olhão pelo Alto de Santo António e a margem do sapal não era ainda viável devido a submersão da margem do Sapal do Fialho e à potência do esteiro das Lavadeiras, aparentemente mais importante que o do Rio Seco.

Este caminho desapareceu sob o eixo da linha de caminho de ferro entre Faro e Olhão, concluída em 1904. (Inexistente portanto aquando da exploração de EV em 1878).


Não é possível estabelecer uma data precisa para a construção das Pontes das Lavadeiras e do Rio Seco, no eixo da actual EN 125. A ponte do Rio Seco aparece referida, penso que pela primeira vez, na Visitação da Ordem de Santiago de 1517-18 (fl. 183, p. 137)[7]. Será provavelmente uma obra já da época portuguesa e deve articular-se com a construção da Ponte de Quelfes, redefinindo o trajecto viário entre Faro e Tavira com o abandono ou despromoção da antiga via romana, que se revela fossilizada, tal como direi mais adiante.
São Cristovão
Nas "Visitação" surge também a ermida de São Cristóvão (fl. 196, p. 157), descrita como sendo de uma só nave com um pilar no meio, uma pequena capela abobadada e um pequeno adro em frente da entrada, construída em pedra e taipa. Sendo "tão antiga que não há aí memória de que a edificou", tal significa uma mais que provável origem pré-portuguesa[8].

A dedicação a S. Cristovão deve ser relativamente moderna, já portuguesa. Ela assinala lugares à beira da estrada, frequentemente associados a passagens de rios ou linhas de água. É muito provável a existência aí de um culto viário mais antigo, moçárabe ou misto, ainda sobrevivente nos primeiros séculos do domínio português, o que justifica a manutenção funcional da dedicação apesar da alteração do orago.


Figuras 8 – Parte do mapa de 1832 mostrando o caminho de S. Cristóvão

O mapa de Faro de José Gualdim Ferreira (1832)[9] (representado parcialmente na Figura 8) mostra perfeitamente o antigo caminho por São Cristovão até ao Rio Seco. As edições da Carta Militar, mais modernas, são ainda mais detalhadas: a situação da ermida e os troços fósseis de caminhos alinhados que lhe estão associados são determinantes para definir o traçado do eixo da antiga via romana oriental de Ossonoba, usada posteriormente até à construção das pontes das Lavadeiras e Rio Seco. (Figura 9).


Figuras 9 – Vestígios fósseis da via romana (e do caminho medieval que lhe sucedeu, anterior à construção das pontes das Lavadeiras e do Rio Seco)

Próximo da ermida (e muito provavelmente justificando a sua localização primitiva) é possível reconstituir por interpolação o trivium (entroncamento) onde a estrada vinda de Ossonoba se dividia em duas:

1) Para Estoi e Bicalto por Galvana (outra villa romana identificada pelo topónimo e, mais recentemente, por prospecção arqueológica);
2) Para Balsa, por Contenda, João de Ourém e Quatrim.

O culto viário (S. Cristóvão) associado ao caminho fóssil sobrevivente revela a memória da função viária importante deste eixo ANTES da época portuguesa e ANTES da construção das pontes das Lavadeiras e do Rio Seco, que puxaram o eixo viário principal mais para sul. Isso levou à despromoção e obliteração parcial da via antiga, que surge quebrada em troços de caminhos secundários desconexos mas alinhados, como se pode ver na Figura 9. As interrupções correspondem tipicamente à apropriação de troços caídos em desuso pelos proprietários circundantes.

No palimpsesto viário visível nas Cartas Militares nota-se também o modo como a abertura de novas estradas modernas (como a para Pechão-Quelfes e a EN125) levou ao surgimento de novos caminhos de ligação entre pontos nodais da antiga via e os novos eixos.

A reconstituição da rede viária mostra-se na Figura 16.

A situação da antiga via romana evita a travessia das Ribeira das Lavadeiras e do Rio Seco, numa zona onde historicamente mais se fazem sentir as marés, impedindo a travessia sem pontes ou obrigando à reparação permanente destas quando existentes. Naturalmente, nas conjunturas de avaria das referidas pontes o antigo trajecto mais a norte deveria ser obrigatoriamente retomado.
As passagens antigas faziam-se facilmente por pontões (portus) sem necessidade de grandes infra-estruturas, tal como se verifica ainda hoje no porto de passagem do Rio Seco.
Tudo indica assim que esta linha de água já fazia jus ao seu nome desde a Antiguidade, com o seu carácter de arroio temporário e torrencial, seco ou quase seco a maior parte do ano mas intransponível na estação chuvosa.

É ainda de notar que o trivium de S. Cristóvão é o segundo entroncamento notável da via Ossonoba-Balsa após a saída da cidade. O primeiro corresponde ao actual Largo d S. Luis, onde a função viária também se manifesta na associação a um culto hagiológico medieval no limiar da cidade, neste caso protector da peste e das doenças contagiosas trazidas pelos viajantes.
Considerando o percurso reconstituído da via e uma origem das distâncias no Largo da Palmeira em Faro (presumíveis portas de Ossonoba no Alto-Império), o trivium de S. Cristovão fica a c. 1950m (aproximadamente 1.3 m.p.). Trata-se portanto de um lugar claramente suburbano em termos urbanísticos romanos.


3. A necrópole da pista de atletismo de Faro

A necrópole conhece-se, por enquanto, apenas pelo pouco que veio nos jornais. Aguarda-se com expectativa que se concluam os trabalhos arqueológicos e se publiquem os respectivos resultados, afim de se poder fazer um balanço rigoroso do local.

A Figura 10 localiza a necrópole na área urbana de Faro.


 Figuras 10 – Localização da necrópole romana da pista de atletismo de Faro

A Figura 11 mostra aproximadamente os limites da área escavada onde existem sepulturas. É perfeitamente possível que a área original tenha sido consideravelmente mais vasta do que a parte posta a descoberto, sobretudo para sul, para nascente (até a estrada) e para poente (sob o muro e os logradouros da pista de atletismo).

 Figuras 11 – Limites aproximados da área intervencionada da necrópole onde se acharam sepulturas

Pelo que pude ver pessoalmente, a parte descoberta corresponde a uma pequena necrópole com uma baixa densidade de enterramentos, orientados segundo dois eixos: OSO e ONO, que correspondem grosseiramente ao pôr-do-sol respectivamente nos solstícios de Inverno e de Verão. Com excepção de de duas sepulturas aparelhadas com blocos dispostos horizontalmente, as restantes são muito pobres, formadas e cobertas com pedaços de contentores cerâmicos e tégulas. As lajes de cobertura parecem ser raras. A sepultura estruturalmente mais importante é representada na figura 12.

As Figuras 12-15 foram retiradas do blog "Turismo do Algarve", da Região de Turismo do Algarve[10].

Figuras 12-15 – Aspectos da necrópole (Cortesia da Região de Turismo do Algarve)

Tem de se aceitar a informação jornalística sobre o período de uso da necrópole pelo seu valor facial, à falta de melhor alternativa: sécs. III a V, o que corresponde a uma necrópole do Baixo-Império. Esta precisão não é suficiente para sugerir uma ocupação desde o "Médio-Império" (grosso modo a 1ª metade do séc. III), tal como sucede em Marim. Nada do que se vê permite sugerir haver uma fase de ocupação tardo-antiga/páleocristã, de acordo com os paralelos existentes em Marim, Mértola, Moncarapacho e muitos outros lugares.

Existe assim uma concordância satisfatória entre o uso da necrópole e a datação conhecida da domus da Amendoeira, sendo desconhecidos quaisquer detalhes do resto da aglomeração da Garganta.

Porém, mais relevante do que esta concordância cronológica circunstancial (isto é, necessária mas insuficiente para estabelecer um vínculo contingente) é a disposição espacial única dos dois elementos, bem manifesta na Figura 16, que permite associar a necrópole a esta aglomeração: situa-se imediatamente a norte do istmo da antiga península, na zona de acesso directo entre esta e a via Ossonoba-Balsa, que passa umas duas centenas de metros mais a norte. Tudo indica portanto que a necrópole se dispunha aproximadamente a meio do diverticulum (caminho de acesso com uns 480m de extensão) que uniria a aglomeração à via no sítio do trivium ou muito próximo dele, e cujo descendente actual é a estrada municipal M518.

 Figuras 16 – Reconstituição da topografia do subúrbio oriental de Ossonoba, mostrando os limites aproximados da cidade romana, a via oriental e as suas principais ramificações, a aglomeração da Garganta-Amendoal com a localização do edifício nobre e a necrópole junto ao acesso conjectural entre o povoado e a via. 

Esta disposição das necrópoles entre o núcleo de povoamento a Sul, junto à margem, e um caminho principal mais a norte parece ser comum na zona, verificando-se também na necrópole-casa do núcleo portuário de Marim e, muito provavelmente, em Belamandil, cuja necrópole se poderá relacionar com o núcleo litoral do Torrejão, conforme se pode ver no mapa de reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Antiguidade, onde a nova necrópole já está representada (Figura 17).

(Esta figura será incluída oportunamente)
Figuras 17 – Reconstituição geográfica da região entre Ossonoba e Balsa na Época Romana


ANEXOS

Transcrição das fontes arqueológicas

Estácio da Veiga:
Amendoal – Este sítio, mui próximo da obstruída foz do antigo Rio Seco, onde explorei parcialmente uma opulenta villa ou granja romana, cujos edifícios tinham excelentes pavimentos de mosaico, que felizmente foram desenhados...
AMA II = Antiguidades Monumentais do Algarve, vol. 2, Imprensa Nacional, Lisboa, 1887, p. 389-90

O sítio do Amendoal até ao flanco direito da Ribeira do Rio Seco fica a nordeste de Faro e de Santo António do Alto em distância superior a 1 quilómetro.
Tem assentamento de povoação extinta desde a margem esquerda do ribeiro das Lavadeiras até à linha da estrada vicinal da Garganta.
Em frente da portada da quinta do Fonseca tentei um reconhecimento nas ruínas que o solo quase totalmente encobria, e pus à vista um famoso edifício com oito pavimentos de mosaico, havendo no terreno muitos fragmentos de louças finas e grosseiras, de vasos de vidro, quinários do Baixo-Império, e muitos ossos de diversos animais...
AMA II, p. 575-6

O emblema da cruz e a swastika foram sempre aparecendo como símbolos de antigas traduções... pois um e outro emblema achei eu , perto de Faro, no sítio do Amendoal, figurados nos pavimentos de mosaico de uma villa romana, onde conjuntamente coligi alguns pequenos bronzes do Baixo-Império...
AMA III = Antiguidades Monumentais do Algarve, vol. 3, Imprensa Nacional, Lisboa, 1889, p. 35.

Referência a materiais inventariados por EV:
Doze fragmentos de estuque pintado.
28 fragmentos de terra sigillata, frag. de vasilha de barro, peso de rede, cinco tijolos, grande número de objectos de metal, dois anzóis, frag. de vidro, dois cadinhos, objectos de osso e cornalina.
ARA II, p. 174-6.

Gravuras com desenhos dos mosaicos reproduzidas de
ARA II, figs. 248 a 251.
Fernandes Mascarenhas:
Não obstante a ausência [actual] de tais vestígios à superfície, tivemos conhecimento directo que, nos campos junto ao Rio Seco e Ribeiro das Lavadeiras – ribeiro por onde as águas do mar avançam em marés vivas, ainda hoje se encontram muitos restos de contruções e moedas de vários imperadores romanos, três das quais nos foram oferecidas pelo Sr. Francisco Tomaz, caseiro da quinta do Amendoal.
Dizia-nos esse senhor que em redor das casas da propriedade se torna por vezes difícil lavrar a terra, pois o ferro da charrua vai esbarrar constantemente com bocados de tijolo e paredes.
Mascarenhas, op. cit., p. 24-5.

 

Nota sobre o uso da categoria villa

Considero que há um uso excessivo da categoria "villa", aplicada a esmo a sítios rurais da época romana com edifícios de formas arquitectónicas aparentemente urbanas. Parece haver por parte de certos arqueólogos uma sofreguidão em produzir classificações corográficas instantâneas e simplistas sem dominar a complexidade das formas e escalões dos tipos de povoamento romano.

Infelizmente, este primarismo numa matéria que dominam mal (a geografia humana do povoamento) acompanha-se frequentemente por uma notável falta de detalhe arqueológico, reveladora de desinteresse pelas tipologias específicas da sua própria disciplina (que muita falta fazem e que ninguém doutras áreas poderá desenvolver) respeitantes à classificação multidimensional de sítios romanos segundo os achados que aí ocorrem[11].

De facto, enquanto estas tipologias de sítios arqueológicos não forem suficientemente elaboradas num quadro regional apropriado não será possível produzir modelos de mapeamento com carácter científico entre o universo dos vestígios modernamente registados e o universo das categorias de povoamento da geografia antiga.
Até lá temos de nos ir sujeitando a regras heurísticas de valor incerto ou, pior, a receitas dogmáticas e aos seus degenerados epítomes sebentinos.

Como se sabe o conceito de villa aplica-se a um espaço tipológico relativamente complexo de povoamentos rurais da época romana e tardo-antiga.
Muito sucintamente, configura um domínio edificado associado a propriedades fundiárias de usufruto e frequentemente integrado por residências abastadas de carácter urbano.
As finalidades do seu usufruto, o tipo de paisagem da sua situação geográfica, as actividades económicas e os tipos de produções eventualmente presentes, as formas de organização social do trabalho existentes, os tipos de propriedade e as formas de exploração qualificam as villas segundo um quadro multifactorial de geometria variável.

O problema está precisamente em que estas residências rurais abastadas de carácter urbano não são, por um lado, indispensáveis para definir uma villa nem a sua presença corresponde, por outro lado, obrigatoriamente a uma villa.
Apesar de de facto serem muito mais comuns em villas, elas existem igualmente noutros contextos de povoamento especializado, sempre que aí haja residentes abastados.
É o caso de meios portuários muito diversos, de aglomerações residenciais secundárias, de centros notáveis do sistema viário, militar ou administrativo, ou de certas zonas de produção especializada.

Pior no entanto é categorizar uma villa apenas por vestígios de materiais de construção ou componentes arquitectónicos decorativos, ou pela presença de estruturas arquitectónicas funcionalmente especializadas como é o caso conspícuo dos balneários. Na realidade não se pode afirmar nestes casos que se tratem sequer de domus no sentido exposto acima e muito menos de povoamentos do tipo villa.

O uso do termo villa nestes contextos devia ser assim, quanto a mim, evitado a priori, podendo a residência ser designada por domus ou por outro termo de carácter descritivo que assinale uma casa de carácter urbano. Tenho porém plena consciência que este modo de ver (de geógrafo do povoamento) não é fácil de aplicar à cultura arqueológica esmagadoramente dominante, pois vai contra a norma da literatura arquitectónica da especialidade que define as nomenclaturas tipológicas destes espaços edificados, designando-os sempre como villas.

Em resumo e conclusão:

O termo villa tem um duplo sentido, o que tende a constituir uma fonte permanente de mal-entendidos e de usos indevidos.
1.    É um tipo de povoamento rural específico, integrado numa nomenclatura corográfica do povoamento, isto é, numa conceptualização do espaço característica da geografia humana histórica.
2.    É um tipo de morfologia de edificação rural, integrado numa nomenclatura arquitectónica das edificações e espaços edificados, isto é numa conceptualização própria da arqueologia da arquitectura e da história da arquitectura.

Os dois conceitos intersectam-se mas não são equivalentes, o que obriga a uma qualificação terminológica: há inúmeros habitats-villa com edificações-villa (essa é a razão primitiva de partilharem o mesmo nome) mas há também habitats-villa sem edificações-villa assim como edificações-villa sem habitats-villa. Embora uma edificação pertença sempre a um tipo de habitat ela raramente é específica de um dado tipo. A edificação-villa pode integrar assim outros tipos de habitat para além do seu tipo homónimo.
Um raciocínio indutivo do tipo estrutura material =>;(implica)  tipo arquitectónico =>; tipo de habitat deve ser evitado no que respeita a villas sempre que possível.


[1] Este último é, tanto quanto sei, autor de um único artigo (a que ainda não pude ter acesso): Estudos acerca de Ossónoba e Faro, "O Algarve", Faro, 31 de Março de 1982)  referido na bibliografia da Carta Arqueológica de Portugal (Coord. Teresa Marques, "Faro, Olhão-Tavira, Vila Real de Santo António, Castro Marim-Alcoutim", IPPAA, Lisboa, 1995; p. 50), onde assinala a presença de vestígios cerâmicos no local.
[2] J. Fernandes Mascarenhas, "De Ossónoba a Balsa. Subsídios para o estudo da via romana que ligava as duas cidades e localização de Ossónoba" in Elementos de arqueologia sobre o Algarve (dos romanos aos árabes, na zona central da província), pp. 7-25, Col. Por Terras do Algarve, Ed. Autor, Tavira 1967: sobre o Amendoal ver pp. 23-5.
[3] ARA II = Maria Luísa Santos, Arqueologia Romana do Algarve. (Subsídios), Associação dos Arqueólogos Portugueses, Lisboa, vol. 2, 1972: Planta com o nº 28 na numeração de EV, hors-texte desdobrável após p. 176.
[4] ARA II: Figs. 248 a 251 hors-texte após p. 176.
[5] Segundo Felix Teichner, Entre Tierra y Mar. Zwischen Land und Meer, Museu Nacional de Arte Romano, Mérida, 2008; p. 290.
[6] Ver "Preceitos dos agrónomos latinos sobre villas rurais" em http://imprompto.blogspot.pt/2010/07/preceitos-dos-agronomos-e-arquitectos.html.
[7] Manuel Pedro Serra (Coord.), Fernando Calapez & António Viegas (Transcrição), "Visitação da Ordem de Santiago ao Algarve. 1517-1518". Suplemento da Revista al-ulyã, nº 5, Câmara Municipal, Loulé, 1996.
[8] Em 1517-18 a memória pessoal, colectiva e administrativa das construções religiosas desde a conquista portuguesa estava ainda bem viva, sobretudo tendo em conta que as construções rurais são raríssimas antes de 1400 e os edifícios construídos são demasiado notórios para ser esquecida a sua origem em pouco mais de 200 anos. As "Visitações" fazem uma distinção geralmente clara quanto ao tipo de fundadores (ou reconstrutores) portugueses: por iniciativa real ou senhorial, por ordens religiosas, por associações de âmbito municipal, por privados locais e por comunidades rurais de vizinhos. Quanto às construções anteriores ao domínio português o texto usa expressões com "mui antiga" e "não há aí memória de quem a edificou".
[9] Publicado por João Baptista da Silva Lopes em "Memórias para a história eclesiástica do Bispado do Algarve", 1848.
[10] http://blog.turismodoalgarve.pt/2012/03/cemiterio-romano-descoberto-em-faro.html, acedido em 13-Mar-2012
[11] Refiro-me aos perfis temporais e tipológico-funcionais dos achados, integrados nas suas estruturas espaciais subjacentes perceptíveis nas escalas arquitectónica e topográfica, isto é, integrados nas morfologias das edificações e nas morfologias dos povoamentos.