It takes a great deal of History to produce a little History

Tuesday, May 15, 2007

Balsa, cidade perdida


Posso, enfim, anunciar a publicação do meu livro dedicado à extinta cidade romana de Balsa (Luz, Tavira, Faro, Portugal).

Ficha técnica:
Título: Balsa, cidade perdida
Autor: Luis Fraga da Silva
Edição: Campo Arqueológico de Tavira e Câmara Municipal de Tavira
Ano: 2007
ISBN: 978-972-97648-9-9
Depósito Legal n.º: 258768/07
Produção: Tiragem Lda.
Nº de páginas: 140
Formato: A4
Distribuição (1ª edição): Bertrand
Data prevista de distribuição ao público: 6 Junho 2007

Advertência ao leitor
(pág. 16)
Este é o primeiro livro de divulgação sobre a cidade romana de Balsa, desde a descoberta das suas ruínas em 1866.
Não se sabe quando haverá outro e muito se aprendeu desde então, pelo que se avalizou e seleccionou uma enorme quantidade de informação, correspondente ao estado actual dos conhecimentos, a conjecturas sobre a cidade e a temas ligados à sua história.
O resultado é um livro denso, rico em texto, ilustrações e mapas geográficos, tendo-se dedicado um cuidado especial ao seu aspecto visual.
Aborda oito tópicos, que podem ser lidos separadamente como fichas resumidas e ilustradas, sobre alguns aspectos seleccionados da história, aspecto actual do antigo espaço urbano, cronologia, arqueologia, geografia, economia, população e urbanismo balsenses.
É uma obra dedicada ao público culto, requerendo conhecimentos básicos de história e cultura clássica e de geografi a regional. Recusa explicações infantis, paternalistas ou enganadoramente simples, procurando em contrapartida evitar maneirismos especializados e conceitos obscuros.
Inclui resumos do que se pensa serem as melhores conclusões de diversos estudos sobre Balsa e o seu tempo, de autores consagrados indicados na bibliografia.
Apresenta também uma visão inovadora sobre a história territorial e o urbanismo balsenses, com destaque para este último, sintetizando-se um trabalho original do autor sobre a morfologia urbana e o território da cidade.
Esse estudo incorpora: uma compilação espacial exaustiva da evidência arqueológica conhecida; uma análise sistemática das marcas topográfi cas anteriores às grandes destruições; e uma interpretação e reconstituição da forma urbana, baseada na aplicação de modelos técnicos e urbanísticos da época a esse quadro arqueológico e topográfico.
A novidade e a riqueza deste material, de interesse também para os estudiosos do urbanismo antigo, justificam a sua inclusão como resumo comentado num apêndice autónomo. (Onde estão os monumentos de Balsa?).
O livro fica longe de esgotar o tema de Balsa. Para além dos temas históricos e arqueológicos especializados, que nele não têm lugar, permanece um amplo campo aberto a abordagens alternativas e complementares.
O resultado final corresponde a um compromisso, em que importantes achados e temas tiveram de ser sacrificados às necessidades de espaço, sendo impossível explicitar todos os conceitos, tipos de vestígios e factos históricos referidos.
Apesar destas limitações, resolveu-se incluir uma síntese explicativa sobre as principais características típicas das cidades romanas. Este segundo apêndice, de leitura independente, (A cidade romana típica), destina-se aos leitores menos familiarizados com o tema e que desejem enquadrar o que é dito sobre Balsa numa moldura geral das cidades romanas do seu tempo.

Aspecto do livro (pdf 6.0 4 MB)
Balsa na net

Wednesday, January 10, 2007

Carta da ocupação romana do Sul da Lusitânia

Uma estrutura de conhecimento geográfico da Antiguidade

Pré-apresentação

A Carta da ocupação romana do Sul da Lusitânia é um projecto de geografia histórica, ou história territorial.
Tem como finalidade a reconstituição do território durante a época romana, ba­sean­do-se em mode­los geográficos e históricos. Estes modelos com­binam as notícias literárias e os vestígios materiais da épo­ca com elementos geo-condicionados, físicos e humanos, que evoluíram e se transformaram posteriormente.
Incorpora a informação de diversas fontes: arqueológicas, numismáticas e epigráficas, dos textos clássicos, de documentos e compilações históricas ou corográficas mais modernas e dos fundos topográficos existentes.
Recorre a diversas disciplinas como a geomorfologia, a história do po­voa­men­to, a geografia viária, a geopolítica, a toponímia e a história agrá­ria, religiosa e etnográfica.

Abrange um período de 800 anos, desde o final da Proto-História até ao domínio visigótico, uma longa época que marcou determinantemente a história da região e deixou marcas indeléveis na memória dos lugares.
Engloba a parte sul do antigo Conventus Pacensis da província romana da Lusitânia, que inclui o Algarve e o Baixo Alentejo, e uma faixa limítrofe da antiga província romana da Bética

Pretende ser um projecto estruturante do conhecimento histórico do território para a época de estudo. Formará um dispositivo produtor de cartografia, documentos de síntese e repertórios da geografia e história antiga da região.

É um projecto em amadurecimento desde 2000, tendo servindo de enquadramento conceptual a diversos estudos e reconstituições cartográficas da história territorial do Algarve Romano, na sua maioria já publicados em www.arqueotavira.com.

Será em breve apresentado e desenvolvido pelo Campo Arqueológico de Tavira.

Sunday, December 17, 2006

Carta Arqueológica do Algarve- 1883

Carta Archeologica do Algarve
Tempos prehistoricos
Representando o período neolithico, a transição d'este período para a Idade do Bronze, esta Idade e a Idade do Ferro.
Elaborada em 1878, comprovada em 1880 com a fundação do Museo Archeologico do Algarve, apresentada no mesmo anno ao Congresso de Anthropologia e de Archeologia Prehistórica reunido em Lisboa e recentemente muito ampliada pelos descobrimentos feitos em 1882
Por Estácio da Veiga
Sócio correspondente da Academia Real das Sciencias e da Sociedade de Geographia de Lisboa, do Instituto de Coimbra, do Imperial Instituto Archeológico Germânico de Roma, da Sociedade Francesa de Archelogia, etc.
1883
Publicação Official


Uma versão de grande resolução (6816x4946 pix, 300 dpi, RGB 24 bit, 3.2 MB) está disponível em www.arqueotavira.com/Mapas/Estacio/CA-Estacio-1883-web.jpg

Sunday, December 03, 2006

COROGRAFIA I: PORTOS ROMANOS

Os portos de navegação são um dos elementos mais importantes e interessantes do povoamento humano da Antiguidade e constituem um tema recorrente nos estudos regionais.
A sua caracterização é, porém, frequentemente simplista e pouco informativa.
Como alternativa, abordo-os do ponto de vista da geografia humana clássica, que integra perfeitamente os aspectos físicos, económicos, técnicos e geopolíticos da navegação e dos seus assentamentos.
Considero que os portos podem ser melhor explicados a partir de uma nomenclatura factorial. Tendo uma natureza multidimensional, a sua caracterização pode decompor-se em factores (construções descritivas independentes), que se recombinam na descrição de sítios portuários concretos.
Apresento assim uma tipologia operativa que permite a avaliação de um amplo leque de locais e estruturas portuárias, baseada em sete eixos, ou dimensões, distintas:

I. Topologia geográfica de agregados portuários
II. Situação portuária, segundo os tipos de morfologia costeira
III. Funções do porto no sistema de navegação
IV. Valências e infra-estruturas do porto para a navegação
V. Hierarquia do lugar central onde se localiza (específica da Época Romana)
VI. Perfil de especialização das actividade utilizadoras
VII Classificação geopolítica básica dos portos romanos

Esta tipologia pretende ajustar-se aos exemplos conhecidos ou previsíveis na região de estudo (o Golfo de Cádiz), podendo servir como formulário de orientação da pesquisa, descrição e avaliação de estabelecimentos e posições portuárias.
Devido às restrições de edição, as tabelas são apresentadas como imagens.


I - Topologia geográfica de agregados portuários

Agrupamentos geográficos e funcionais de portos


II - Situação portuária, segundo os tipos de morfologia costeira

Enumeração das principais situações portuárias, relativos aos tipos de morfologia costeira existentes na área do Golfo de Cádis, tendo em conta a complexidade recursiva dos sistemas lagunares.

As situações podem ser exclusivas entre si (ex.: 1.1 e 1.2) ou constituir subcritérios inclusivos (ex.: 2.a e 2.b). A recursividade é indicada por (ver item).


III - Funções que o porto desempenha no sistema de navegação

Tipologia técnica dos portos


IV - Valências e infra-estruturas portuárias que oferece aos navegadores

Elementos valorizadores dos portos, do ponto de vista das profissões e interesses ligados á actividade da navegação


V - Hierarquia do lugar central onde se localiza (taxonomia específica da Época Romana)

Classificação dos portos segundo o tipo de assentamento em que se localizam



VI - Perfil de especialização. Nomenclatura de actividades

A combinação do peso local das actividades define o perfil de especialização de cada porto. A existência de portos altamente especializados numa actividade ou em que essa actividade tem um peso determinante permite atribuir-lhes uma designação própria.
A hierarquia taxonómica das actividades (aqui representada num sistema de classificação decimal) pode ser considerada em qualquer nível adequado. A lista abaixo constitui um ponto de partida que articula os sectores pré-industriais de actividade com as particularidades da economia romana e da sua arqueologia.


VII - Tipologia geopolítica elementar

Classificação portuárioa básica a considerar numa análise geopolítica


Saturday, December 02, 2006

A COSMOGRAFIA DO ANÓNIMO DE RAVENNA

A Cosmografia do Anónimo de Ravena, ou Ravennate[1] é uma obra de origem bizantina que descreve a geografia do mundo Clássico Antigo, de modo sistemático e muito condensado.


Planisfério representando a Cosmografia do Anónimo de Ravena, numa versão medieval


Embora escrita no séc. VII, baseia-se fundamentalmente em fontes romanas do Baixo-Império (sécs. III e IV). Acrescenta alguns comentários históricos mais recentes e notas hagiográficas cristãs, empregando uma sistematização geográfica peculiar e uma actualização da ortografia de muitos topónimos para a norma da época em que foi escrita (como Spania por Hispania ou Stacio por Statio).

As sequências de enumeração de sítios indicam uma compilação realizada a partir de informação comum aos Itinerários de Antonino[2] (IA).

O Ravennate é uma compilação pouco cuidada, com numerosas omissões de cidades importantes e erros ortográficos, assim como alguns erros de ordenação geográfica, ou de duplicação.

O seu principal interesse consiste na apresentação de numerosos topónimos únicos, geralmente fiáveis por confirmação arqueológica, toponímica, numismática ou epigráfica. Muitos permanecem no entanto com localização incerta, devido a serem sítios relativamente secundários, não documentdos noutras fontes.

Na Península Ibérica, a sequência descreve primeiro um périplo costeiro no sentido dos ponteiros do relógio (pelas costas do Mediterrâneo, do Atlântico Ocidental e do Mar Cantábrico), seguido de irradiações em torno de alguns centros urbanos preponderantes. Com excepção da costa Cantábrica, a ordem segue aproximadamente troços de percursos viários identificados nos Itinerários Antoninos, porém com alguns saltos e muitos desvios devidos a vizinhanças geográficas.

O total corresponde a 25 conjuntos de enumerações de lugares que seguem percursos viários e périplos costeiros. Noutras zonas do antigo Império Romano (por exemplo a Britannia) há também enumerações de ilhas e de lugares por zonagem geográfica, ignorando eventuais vias .


O mapa seguinte apresenta a parte do périplo correspondente às costas mediterrânica e atlântica ocidental.


A tabela (sob a forma de imagem) compara as enumerações do Ravennate e dos IA, na parte correspondente ao Atlântico Ocidental, que inclui o Algarve.
A ordem da Cosmografia, entre Serpa e Braga, segue sempre vias já descritas nos IA, formando assim um novo itinerário "corográfico", isto é, que identifica as localidades segundo a ordem geográfica geral de Sul para Norte.

O ajustamento entre ambas as fontes sugere que a Cosmografia foi coligida a partir de um mapa, que continha não só nomes de lugares como também algumas vias, correspondentes às dos IA.

A semelhança entre a Cosmografia e mapa esquemático conhecido por Tabula Peutingeriana (original do séc. III-IV d.C.) é interpretada, por muitos autores, como sendo esta a fonte do Ravennate, ou um documento semelhante.

Infelizmente, a folha da Tabula relativa à Península Ibérica perdeu-se, existindo apenas uma recriação baseada precisamente no Ravennate, realizada por Conrad Miller em 1887, apresentada no mapa seguinte:

As numerosas omissões de mansiones identificadas nos IA revelam que a fonte original foi um mapa imperfeito ou de pequena escala, ou que o compilador fez um mau trabalho, pois são omitidas cidades importantes (como Scallabis, por exemplo) e, simultaneamente, são referidas mansiones que devem ter sido bastante secundárias (como Abbona, a actual Coina-a-Velha).

Não se deverá dar muita importância à variação ortográfica da toponímia entre o Ravennate e os IA, pois a taxa de erros de transcrição e abreviação na cartografia antiga é muito elevada (vejam-se os numerosos exemplos da cartografia do Sul de Portugal entre os sécs. XVI e XIX)[3]

Surgem dois novos lugares no Ravennate: a Statio Sacra e Ceno Opido, intercalados entre povoações bem localizadas e relativamente próximas, os quais devem ser interpretado como estações das respectivas vias ou sítios da sua vizinhança.

A ausência destes topónimos nos Itinerários Antoninos não é significativa. De facto, segundo Van Berchem[4] , os IA são essencialmente itinerários fiscais e administrativos, que definem os principais percursos oficiais da administração estatal romana, com destaque para a recolha da annona e o planeamento de viagens dos Imperadores. Identificam apenas mansiones, isto é centros populacionais ou viários correspondentes a comunidades de contribuintes e pontos nodais da logística administrativa (capitais, cidades e portos que são termos de itinerários).

O Ravennate, pelo contrário, é uma Corografia Universal que, embora de má qualidade e cheia de omissões, descreve todo o tipo de pontos corográficos importantes, não só povoações como montanhas, mares, ilhas e rios. A maioria dos seus lugares inéditos correspondem a pontos da orla marítima, usados para definir perímetros costeiros, mas incluem também algumas povoações intermédias entre mansiones identificadas nos IA.
Estas seriam lugares secundários, como vici, santuários, estações viárias ou outros povoamentos especializados.

A toponímia páleo-cristã, que só se começa a divulgar a partir do séc. VII, está ausente no Ravennate, com uma única excepção, que é Christopolis, referida como sendo o novo nome de Neapolis (hoje Kavála, na Grécia, prov. Macedónia).
A renomeação é apenas de finais do séc. VI ou inícios do séc. VII, após a destruição da cidade vizinha de Philippi (sede da 1ª igreja cristã na Europa fundada por Paulo c. 49-50 e importante centro cristão) por um terramoto e transferência da sua sede episcopal para Neapolis. Será assim quase contemporânea do Ravennate, datado por Schnetz entre 638 e 678 .
É, tanto quanto sei, o primeiro topónimo cristão registado nas fontes escritas.

Abundam em contrapartida os topónimos "pagãos". Indicam-se os principais e o respectivo nº de ocorrências: Afrodite (5), Apolo (14), Asclépio (1), Diana (5), Dioníso (3), Hércules (18), Hades (1), Jano (2), Isis (2), Júpiter (1), Minerva (4), Neptuno (1), Príapo (1), Saturno (2), Vénus (2).

As partes hispânicas do Ravennate e da Tabvla Peutingeriana estão publicadas em
http://www.arqueotavira.com/fontes/Ravenate/



--------------------------

[1] Ravennatis Anonymi Cosmographia. Edição crítica de Joseph Schnetz, Lipsia 1940.
[2] Ver http://www.romanmap.com/htm/ravcosm/rav.htm, que ilustra cartograficamente a enumeração de I. A. Richmond and O. G. S. Crawford (1949): 'The British Section of the Ravenna Cosmography', Archaeologia*, XCIII, 1-50
[3] Alguns exemplos publicados em www.arqueotavira/Mapas/index.html
[4]
Denis van Berchem. la annona y el Itinerario Antonino. Anexos de El Miliario Extravagante, 4. Dez. 2002, pp. 19-26

Friday, December 01, 2006

VIAS ROMANAS DA HISPANIA

Mapa da rede viária romana principal da Península Ibérica, na sua fase amadurecida (inícios do séc. IV).

Mostra as cidades e aglomerações secundárias mais importantes, assim como as capitais (da diocese da Hispania, das províncias do Baixo-Império e dos Conventos Jurídicos do Alto-Império).
A rede viária representada corresponde aos principais eixos, sobretudo os que se pensam estar ligados a rede do cursus publicus e à cadeia da hierarquia administrativa territorial.
Não se representa a rede inter-urbana complementar nem os numerosos troços de ligação.

Friday, October 13, 2006

O TESOURO DE MARIM, NO FINAL DO IMPÉRIO

solidus de Honório, idêntico aos descobertos em Marim
© www.dirtyoldcoins.
com

Entre os achados arqueológicos de Marim destaca-se um tesouro de cem moedas de ouro, de Honório, que é noticiado pela primeira vez em 1786:

Descrição das cem medalhas de ouro que se acharam ultimamente no sitio de Marim. Termo de Faro no Algarve.
Cada uma das medalhas tem na parte principal esta inscrição: - D.N. HONORIVS P. F. AUG. com o busto do imperador coroado do Diadema: no reverso uma figura militar com o estandarte dos romanos chamado lábaro na mão direita e, na esquerda, a figura da Vitória, pondo-lhe uma coroa; debaixo do pé esquerdo, a figura de um cativo; e a inscrição - VICTORIA. AUGGG. COMOB e na área - M.D.
Todas estas medalhas se acham perfeitamente conservadas e parecem feitas na mesma fábrica.

Por esta descrição é possível identificar as moedas como solidii (valor facial de 1/72 libra=4.54 g de ouro) correspondentes às referências numismáticas RIC 1206 e Depeyrot 16/2, cunhados em Mediolanum (Milão) entre 395 e 402.

O facto das moedas serem todas idênticas e estarem em condição prístina significa que nunca circularam, tendo chegado a Marim directamente da oficina de cunhagem ou de um depósito intermediário.

Tratar-se-á assim, não de uma quantia privada acumulada pelo possessor local, mas de uma dotação financeira estatal, revelando o carácter oficial e público das instalações de Marim em inícios do séc. V e o seu valor logístico estratégico na política territorial de Honório. O achado constitui uma confirmação importante do carácter público do assentamento no Baixo-Império, já revelado pela sua organização topográfica.

A ocultação terá provavelmente ocorrido entre 407 e 409, na sequência da usurpação de Constantino III na Britannia e na Gália, durante a sua tentativa de conquista da Hispania. Constantino nomeou então uma nova leva de governadores e administradores provinciais, obrigando a hierarquia fiel a Honório à demissão.

Esta situação foi aceite de um modo geral com obediência, com excepção da Lusitânia, onde o a família Teodosiana, ligada á casa imperial, estabeleceu uma resistência armada ao usurpador, primeiro com os eventuais restos do exército regular e depois financiando e formando um exército privado com as suas clientelas e dependentes. Este facto obrigou Constantino a reforçar a sua força hispânica com um exército de auxiliares bárbaros proveniente da Gália, comandado por Gerontius, que finalmente derrotou a força lealista em 409.

O tesouro terá sido ocultado ou como consequência das nomeações do usurpador ou pela confrontação que se lhe seguiu. A derrota do partido de Honório, a quem sem dúvida pertencia o prócere de Marim, terá impedido a sua recuperação, assinalando uma descontinuidade político-administrativa nesta época, que na realidade veio corresponder ao final do poder regular do Estado Romano na região, devido á invasão da Hispania por uma confederação de Alanos, Suevos e Vândalos.

É impossível determinar se os 100 solidii terão sido parte da dotação financeira regular devida pelo Império à manutenção da estrutura administrativa-portuária do officium de Marim, ou se revelam já as consequências da usurpação de Constantino, constituindo parte de verbas extraordinárias destinadas a garantir a lealdade local á casa imperial.

texto completo em http://www.arqueotavira.com/alg-romano/marim/
-----------------------------------

Segundo suppl. à Gazeta de Lisboa nº LXIII, de 27 de Outubro de 1786. Transcrição de Pedro A. de Azevedo em "Archeologia do século passado" in o Arch. Port., Lisboa , IV, 1898, p. 102; apud ARA II, p. 276, com actualização ortográfica do autor do presente estudo.

dirty old coins: http://www.dirtyoldcoins.com/natto/id/honorius.htm

Sobre esta fase da história peninsular veja-se ARCE (1982 e 2005)

Wednesday, August 30, 2006

ITINERÁRIOS DE ANTONINO

Mapa da ocupação romana do Sul da Lusitânia com a implantação dos trajectos dos Itinerários de Antonino sobre a rede viária principal reconstituida.
Em numeração romana a designação do itinerário na edição de Otto Cuntz (in El Miliario Extravagante)
Em numeração árabe, o número de ordem das etapas de cada itinerário

Itinerário
XIII Ossonoba - Salacia (ou Salaria)
XXI Esuri - Pace Iulia
XXII Esuri - Pace Iulia
XXIII Ostio Fluminis Anae - Emeritam

POPULI

Carta Etnológica dos Povos Pré-Romanos da Península Ibérica, circa 200 a.C.



Apresentação

Fazer um mapa da Hispânia pré-romana é uma tarefa ingrata e interminável, por diversas razões, em que se destacam:

- A inconsistência no ajustamento dos distintos levantamentos regionais
- A incerteza nas identificações e localizações
- Questões taxionómicas e conceptuais de fundo como, por exemplo, os limites cronológicos e geográficos do urbanismo pré-romano e do mundo céltico
- O risco de anacronismo, pela necessidade de recorrer a elementos apenas documentados posteriormente.

Tive assim, de cortar a eito relativamente a numerosas e difíceis opções, esperando que o formato digital utilizado permita ir fazendo correcções e aditamentos progressivos.

Plano e notas

Geografia de base

Linha costeira

Rios principais

Grandes grupos linguísticos existentes em 200 a.C., nas zonas em que são maioritários.

Celta

Consideram-se os celtas no sentido estrito, definidos desde finais da I Idade do Ferro. Neste sentido, não se distinguem os celtas hispânicos, resultantes da evolução local de estratos pré-célticos, dos celtas gauleses recém-migrados.

Para além das zonas de predomínio linguístico representam-se as principais áreas de complexos do celta com outras línguas, nomeadamente com o indo-europeu atlântico (Galaico-Lusitano), com o proto-Basco e com o Ibérico. Representa-se ainda o principal núcleo contíguo de imigração céltica na Turdetânia, como uma trama de sobreposição.

Indo-europeus pré-celtasta

Representa-se a área dos Lusitanos e Vetões, assim como a maioria da área montanhosa da cultura castreja, em que o substrato pré-céltico coexistiria ainda com os aportes célticos posteriores que se generalizam por toda a Gallaecia. Não se representam zonas de línguas indo-europeias pré-celticas, eventualmente ainda existentes, na área pirenaica e na época de estudo.

Proto-Basco

Representam-se os principais complexos geográficos com os grupos céltico e ibérico.

Tartéssico

Área primitiva da língua tartéssica, já residual ou desaparecida em 200 a. C, sobretudo nas zonas célticas. O tartéssico poderá ter evoluído para a variante linguística falada na Turdetânia ocidental.

Ibérico

Inclui as variantes levantina e meridional. Representam-se os complexos principais formados com o Proto-Basco e com o celta, já no Sul da Gália.

Entidades etno-políticas

Principais, com topónimos a preto, dimensionados segundo a dimensão geográfica estimada do grupo:

Grupos étnicos principais com topónimo e expressão regional delimitada.

Formações sociais multiétnicas e multilingues que partilham um contexto geográfico, sociopolítico e cultural comum (Turdetanos e, eventualmente, zonas da área ibérica não assinaladas).

Secundárias. Correspondentes a gentes isoladas ou integradas em grupos étnicos ou formações sociais principais.


Notas

- Os Cónios e os Túrdulos da Betúria são assinalados sobre o limite da área turdetana, destacando o seu carácter tampão, etnicamente célticos mas integrados politicamente na charneira do mundo turdetano.

- Ainda na Turdetânia, os líbio-fenícios das fontes clássicas fazem-se corresponder com a área de colonização cartaginesa sobre o território dos Bástulos.

- Os Túrdulos do litoral atlântico são assinalados como uma faixa contínua entre o Douro e o Tejo, correspondendo aos Turdulii Veteres e aos Turdulorum oppida das fontes e da Arqueologia.

Geografia da colonização pré-romana

- Domínio geopolítico cartaginês, diferenciado em área de colonização, área de domínio territorial e área de influência política e militar.

- Fundações coloniais principais e sobreviventes em 200 a.C. Excluem-se as colónias fenícias e gregas já desaparecidas ou muito decaídas assim como as feitorias e portos logísticos. Representa-se a potência colonizadora e o topónimo da cidade

- Zona do “Círculo do Estreito”, koiné costeira, económica e cultural centrada em Gadir , assinalada esquematicamente.

Geografia das cidades indígenas e fundações coloniais menores

- Consideram-se como urbanos apenas os povoados que emitiram moedas indígena antes de César.

- Não se consideram como urbanas, circa 200 a.C., as largas centenas de oppida que não cunharam moeda, na sua grande maioria pertencendo à zona céltica ou integrados nas “cidades-estado” polinucleares, turdetanas e ibéricas.

- Assinalam-se toponimicamente alguns centros indicados nas fontes, com funções de capitalidade política e militar mas que desapareceram durante as Guerras de conquista e civis dos séculos II e I a.C. (Conistorgis, Munda e Numancia). Identificam-se ainda Sagunto e Keition (forma que aceitamos como nome pré-romano de Salacia/Alcácer do Sal).

Romanização

- Frente militar romana em 194 a.C. e 156 a.C.

- Limites das províncias romanas após a 2ª reorganização de Augusto (antes de 7 a.C.).

Exclusões e inconsistências

- Não se incluem corónimos, isto é, nomes de regiões e de acidentes fisiográficos, mesmo quando são derivados de etnónimos.

- Não se incluem gentílicios derivados de nomes de núcleos urbanos peregrinos, preexistentes ou formados a partir de oppida, já na época romana.

- A designação dos populii não é consistente. Nos casos mais comuns usam-se termos em português (geralmente idênticos ao castelhano) e nos restantes, menos conhecidos e susceptíveis de alguma confusão devida à tradução, usam-se os termos no plural latino, retirados ou reconstituídos das fontes.


Bibliografia
No documento PDF indicado acima, que inclui o mapa

Saturday, August 26, 2006

Conquista Romana da Hispania

Esboço da evolução cronológica e geográfica da conquista romana da Hispania.
13 mapas esquemáticos, destacando os principais eventos, personagens e sítios da história militar, nomeadamente na zona do Algarve.
Materiais para um possível atlas didático da história regional.

I 205 a.C. - 187 a. C.
Conquista da Hispania mediterrânica. Guerras ibérica e turdetana

II 186 a.C. - 179 a. C.
Penetração na Celtibéria e Sudoeste

III 178 a.C. - 154 a. C.
Guerras Lusitanas 1: Púnico

IV 153 a. C.
Guerras Lusitanas 2: Caisaros e Cauceno

V 152 a.C. - 151 a. C.
Guerras Lusitanas 3: Campanha de Galba

VI 150 a.C. - 139 a. C.
Guerras Lusitanas 4: Viriato

VII 140 a. C.
Campanha contra os Cúneos

VIII 155 a.C. - 115 a. C.
Expedição de Décimo Júnio Bruto e Guerra Celtibérica

IX 114 a.C. - 100 a. C.
Fim das Guerras Lusitanas

X81 a.C. - 80 a. C.
Campanha de Cecilio Metelo contra Sertório

XI 67 a. C.
"Guerra dos Piratas" comandada por Pompeu Magno

XII 61-60 a. C.
Campanha de Júlio César na Lusitânia

XII 27 a .C. - 19 a. C.
Guerras Cantábras, de Augusto

Saturday, August 19, 2006

MONTE FIGO II: A navegação no Golfo Gaditano

O Monte Figo no sistema regional de navegação

Para se compreender a grande relevância marítima do santuário do Monte Figo (Cerro de São Miguel) na Proto-História e Antiguidade, é necessário traçar um quadro do seu significado funcional no sistema antigo de navegação regional.
Apesar da sua elevação relativamente modesta, o
Monte Figo constitui o sinal de navegação mais conspícuo do Algarve Oriental, tendo uma visibilidade marítima útil de cerca de 60 km de raio, que abrange desde a Praia da Luz, entre Sagres e Lagos, à barra de Huelva, chegando a ser visível da encosta de Mazagón, já na costa ocidental do Golfo.
Como farol diurno controlava assim o tráfego de cabotagem ao longo de 120 km de costa, sendo a sua visibilidade mais aparente a Leste do meridiano de Faro. Controlava igualmente o tráfego mais ao largo das rotas do Guadalquivir para o Atlântico e das rotas do Atlântico para o Mediterrâneo.
Servia igualmente como farol de aproximação dos portos da laguna algarvia entre Quarteira e Tavira. Em termos locais, a laguna de Faro-Olhão e o estuário do Gilão constituiriam as opções portuárias mais directas para a navegação referenciada pelo Monte Figo, embora a foz do Guadiana também possa ser referenciada, embora indirectamente, recorrendo a um alinhamento presumivelmente definido pelo rasto oceânico da corrente do rio e pelas ilhas que existiam então na boca do delta.

Foto de satélite da corrente de sedimentos do Guadiana, na actualidade.
Uma marca de localização para os navegadores da Antiguidade:

Ana amnis illic per Cynetas effluit
sulcatque glaebam. panditur rursus sinus
cavusque caespes in meridiem patet.
memorato ab amni gemina sese flumina
scindunt repente perque praedicti sinus
crassum liquorem (quippe pinguescit luto
omne hic profundum) lenta trudunt agmina.


Avieno, Ora maritima; 202-8


O regime dos ventos no Golfo de Cádis e as técnicas da navegação na Antiguidade são temas complexos, que transcendem largamente o âmbito deste post. A compreensão das suas tendências principais é porém indispensável para se poder ter uma ideia das condicionantes da navegação marítima na Antiguidade, na nossa zona de estudo. Os barcos atlânticos recorriam então ao vento e às velas como força motriz principal e utilizavam os remos como propulsão suplementar mas essencial, em casos de acalmia, travessia de barras e para vencer ventos ou correntes contrários durante períodos limitados. Bolinavam mal e tinham uma capacidade de manobra limitada, relativamente aos veleiros modernos.
Nada indica que as condições climáticas marítimas se tenham alterado significativamente desde o século VIII a.C. Os ventos dominantes variavam (e variam) segundo a zona do Golfo, segundo o esquema seguinte, grosseiramente simplificado:
1. Na costa atlântica ocidental a Norte e até ao Cabo de São Vicente predominam os ventos de Norte junto à costa.
2. Na costa norte (algarvia) predominam os ventos do quadrante Oeste, sobretudo do Sudoeste, com períodos do quadrante Leste (Levante).
3. Ao largo predominam igualmente os ventos do Oeste, sobretudo do Noroeste, com períodos de Sudeste.
4. Ao longo da costa africana predomina o vento do Sudoeste.
5. No canal do Estreito e no corredor atlântico que o continua para Oeste predominam os ventos de Leste.
6. Na costa ocidental (andaluza) predominam os ventos do Oeste com importantes períodos de ventos Leste, no canal do Guadalquivir e de origem térmica, junto à costa.

Estes ventos determinavam os percursos das principais rotas navais, abordadas mais adiante.

Os calendários naval, agro-pecuário e piscatório

A sazonalidade do clima mediterrânico originou desde muito cedo a inclusão da época navegável no calendário e no ritual religioso anual. Na Época romana a estação de navegação prolongava-se de 5 de Março a meados de Outubro, seguindo um velho ritual egípcio, provavelmente partilhado por todos os povos levantinos de navegadores, com destaque para os fenícios.
A celebração do isidis navigium, inicia a estação de navegação, dedicada a Isis, procedimento semelhante à Ploeaphesia grega, em que os navios ficam autorizados a fazer-se ao mar e este declarado como aberto à navegação.[1]
Esta data, adaptada ao Mediterrâneo, é no entanto um pouco precoce para a costa Atlântica, em que as condições de invernia ainda permanecem, pelo menos até meados de Abril.
No circuito anual da navegação fenícia, o calendário ritual dos portos atlânticos deveria assim definir uma estação de navegação mais curta. Os primeiros barcos coloniais provenientes do Mediterrâneo Levantino só chegariam por finais de Abril e os últimos partiriam ainda em Setembro.

Existia assim uma conjugação regional entre o calendário da navegação e o calendário agro-pecuário, que tem os seus pontos altos nas comemorações da fertilidade Primaveril em Maio, no solstício de Verão, auge das solenidades de ambos os ciclos, e nas festas de redistribuição de Setembro.
Este calendário conjuga-se ainda com o da pesca do atum, provavelmente o fenómeno periódico de maior importância económica e social dos povoados litorais da costa do Golfo de Cádis. O período da pesca do atum de direito decorria desde princípios de Maio a fins de Junho. A partir desta altura e até meados de Agosto decorria a pesca do atum de revés, a que sucederiam as celebrações do fim desta faina, cristianizadas sob diversas formas de culto mariano marítimo.
Esta sintonia de calendários e de auge de actividades estivais relacionadas com a abastança económica, constitui, na nossa opinião, a base sócio-económica da integração dos rituais e cultos coloniais mediterrânicos na esfera local e a base da identidade e coesão religiosa das comunidades que se estendiam entre a Serra e a Beira-Mar.
Será também a justificação da prevalência secular das tradições religiosas de origem fenícia, durante as épocas Turdetana e Romana, até à implantação do Cristianismo.

No Algarve desenvolvem-se, desde inícios do séc. XVI, formas de culto mariano associados à faina bacalhoeira sazonal na Terra Nova e Gronelândia (inícios de Abril, finais de Setembro), que se sobrepoem a formas anteriores.

Rotas de navegação no Golfo

1 Rota de cabotagem, atlântica, na Primavera

Esta rota era sobretudo utilizada no percurso de saída para o Atlântico, contrário à direcção dos ventos dominantes, do quadrante Oeste. As escalas de cabotagem, de Sul para Norte, ao longo da costa andaluza, permitiam negociar o avanço segundo o estado dos ventos térmicos, correntes e marés, tendo como consequência viagens mais longas. Processar-se-ia sobretudo na Primavera, quando estado do mar permite iniciar a estação da navegação atlântica.

A navegação a partir de Onoba (Huelva) para Ocidente era particularmente problemática por ser contrária aos ventos dominantes. As soluções técnicas mais prováveis seriam ou fazer largos bordos, em que o Monte Figo servia de importante referencial, ou utilizar os remos, negociando eventuais brisas. O Guadiana surgia como a primeira marca costeira facilmente perceptível, através do rasto marítimo deixado pela sua corrente, já referido por Avieno[2] e o Monte Figo como o segundo marco, delimitando a entrada da ou das barras de Tavira, que na Antiguidade se poderiam estender desde Cacela ou Cabanas.

A partir de Tavira ou Balsa, o cabo de Santa Maria obriga a uma ampla manobra de contorno pelo largo (cerca de 6 milhas náuticas na actualidade) para evitar os ventos de Oeste junto à restinga do cabo, susceptível de provocar naufrágios. A perpendicular do Monte Figo com a costa marca aproximadamente a barra velha de Marim, que daria acesso a Ossonoba pelo lado Ocidental, através da laguna de Olhão.

Um vento de Levante conduziria rapidamente as embarcações para a costa algarvia a partir do Estreito, porém a ondulação que quase sempre o acompanha inviabilizaria todos as barras do Sotavento, com excepção do Guadiana, e no Barlavento, inviabilizaria Lagos e Sagres (Mareta). No estado actual dos conhecimentos, o melhor porto-de-abrigo durante o Levante, para além da laguna-delta de Baesuris, parece ter sido o de Farrobilhas-Ludo, hoje desaparecido, protegido pelo Cabo de Santa Maria.

A travessia do Promontório Sacro poderia obrigar, como sucedeu até aos tempos modernos, a longas esperas num porto do Barlavento, até que os ventos permitissem um contorno do cabo pelo largo, não só evitando o Oeste contrário, antes do cabo, como o Norte logo após a sua travessia. Fontes renascentistas[3] indicam esta situação e a criação de infra-estruturas pelo Infante D. Henrique no sítio de Terçanabal, hoje associado à baía de Sagres-Mareta (ou de Belixe, em caso de Levante) junto a Sagres. O uso deste local na Antiguidade para o mesmo efeito é muito provável, não só pelas suas condições portuárias únicas junto do Cabo como pelo próprio topónimo, de origem árabe, cuja etimologia proposta é *dársena'Hanibal, isto é, uma tradução literal de Portus Hannibalis (referido por Pomponius Mela III, 1) (ver post http://imprompto.blogspot.com/2005/11/portus-hannibalis.html)

2 Rota directa pelo largo, de retorno ao Mediterrâneo, em meados do Outono

Nas rotas de retorno, do Atlântico para o Mediterrâneo, os barcos que contornavam o Cabo de São Vicente deviam forçosamente procurar uma escala de abastecimento, antes de se aventurarem à travessia do Golfo. De facto, mesmo provindos de escalas relativamente próximas na costa Ocidental (como o Sado, Melides, Sines ou a Baía do Pessegueiro), a sua autonomia limitada obrigá-los-ia a uma nova paragem. Os ventos do quadrante Oeste, dominantes após o cruzamento do Cabo, empurravam naturalmente as embarcações para um dos diversos portos disponíveis na costa algarvia. A escolha dependeria tanto de factores geopolíticos como do maior ou menor alongamento da rota no sentido Oriental, dependente da orientação do vento.

É de realçar que com um Sudoeste forte e a respectiva ondulação, situação bastante comum no Outono, os portos de Barlavento tornam-se perigosos ou difíceis, o mesmo sucedendo com o corredor da laguna de Olhão. Nestas condições Lagos/Lacobriga e Tavira surgiriam como os portos mais adequados.
Independentemente do porto-de-escala utilizado, o meridiano de rumo ao Sul devia estabelecer-se pelo Cabo Cuneo e pelo Monte Figo, de modo a aproveitar os ventos do Oeste e do Norte, mais ao largo, no sentido do Estreito.
Avieno é explícito sobre isto, constituindo a primeira abonação literária duma realidade conhecida por todos os navegadores do Golfo: A partir do Cabo de Santa Maria, os ventos dominantes do Norte e Oeste permitem uma rota directo ao Estreito[5], pelo largo acrescentaríamos nós, com uma passagem directa ao Mediterrâneo que evita as correntes costeiras contrárias.

Tratava-se assim de uma rota de retorno, a efectuar portanto em meados do Outono, com os barcos cheios, numa viagem mais rápida e sem escalas até depois das colunas de Hércules, embora haja a hipótese de uma escala junto da boca atlântica do Estreito, em porto-de-espera, devido à instabilidade provocada pelo vento Levante. O porto de Lixus (Larache) e Zilil (Arzila), na costa marroquina e ambos de fundação fenícia, seriam os locais mais prováveis.

3 Rota de retorno, pela costa da Mauritania

As rotas efectivas dependeriam porém, então tal como hoje, da resultante de forças entre Boreas (a Nortada) e Zéfiro (o Poente):

- O Poente empurra as embarcações directamente para Estreito, situação correspondente à descrição de Avieno.

- O Norte empurra-as para o largo da costa mauritana, tão a Sul quanto Mazagão/El-Jadida, onde tendem a apanhar os ventos Sudoeste aí dominantes, fazendo-as subir ao largo da costa em direcção ao Estreito.

Os estabelecimentos fenícios da costa africana atlântica têm sido sempre estudados no contexto da sua ligação bilateral directa com o Mediterrâneo, ou então, como entrepostos dependentes de Gadir. Independentemente destas realidades, devemos assinar a forte probabilidade de eles terem feito parte do sistema de escalas do comércio peninsular atlântico, devido à sua localização no percurso das rotas de navegação acima descritas.
Embora se não se conheçam referências explícitas a esta relação no período fenício, excepto a das datas coincidentes da sua fundação e extinção (entre os Sécs. VIII e VI a.C.), a sua relevância geográfica e realidade histórica posterior justifica plenamente a hipótese.
De facto o Algarve Oriental, sobretudo através dos portos de Tavira e, posteriormente, de Olhão, constitui a escala perfeita na navegação à vela para o cruzamento do Golfo de Cádis de e para a parte da costa africana actualmente marroquina.

As hipóteses desta relação entre as duas margens do Golfo durante a Época romana são ainda parcialmente conjecturais:

  • As diversas notícias sobre a “pirataria” nas duas margens do Golfo desde o final da II Guerra Púnica até Cláudio, com destaque para os episódios da viagem de Sertório, da Guerra dos Piratas de Pompeu, da “limpeza” das margens por Agripa e de um historial recorrente de invasões de lusitanos, maurii e bárbaros através do Golfo, até à Antiguidade Tardia, revela a extraordinária facilidade da navegação entre as duas margens do Golfo pelas populações ribeirinhas, desde um período indeterminado da Proto-História.
  • O desenvolvimento urbanístico de Balsa, medido pela riqueza do seu espólio arqueológico, acelera-se a partir do reinado de Cláudio I (41-54 d.C.), o que é interpretado como consequência, primeiro do apoio logístico, fornecido por Balsa e outros povoados do Algarve, aquando da revolta mauritana e, segundo, pela inclusão da Mauritânia Tingitana no Império a partir desta época. A criação e desenvolvimento de cidades romanas no litoral africano (como Salla) influenciaram sem dúvida o crescimento do tráfico bilateral no Golfo, contribuindo significativamente para o apogeu económico de Balsa e para a influência africana manifestada na epigrafia desta cidade, que não deve ser procurada apenas na província de Bizacena[6].
  • Mais tarde, no século III, a invasão dos maurii que atinge Italica, Baelo e quase seguramente a costa algarvia, exemplifica a fragilidade sentida ao longo da História pelas cidades e povoamentos costeiros da orla do Golfo, em conjunturas de insegurança ou guerra declarada.

Posteriormente, o próprio desenvolvimento da Tavira islâmica, a partir do século XI, terá estado certamente associado ao aumento de tráfego marítimo e de intercâmbios populacionais entre as duas margens do Golfo, posteriores ao acesso ao poder na Península pelas dinastias berberes.
Esse papel de Tavira reforça-se posteriormente já sob domínio português, como principal centro fornecedor das praças ocupadas pelos portugueses no Norte de África, nos sécs. XV e XVI, sendo a grande facilidade de contactos ilustrada pela presença de milícias defensivas dessas praças, habitando no Algarve português, nessa mesma época. Estas milícias, provenientes de sítios tão remotos como Estoi, em caso de ataque acorriam por barco à defesa das praças africanas, cujos fornecimentos mais elementares provinham igualmente das bases algarvias.
Os inúmeros episódios de corso entre as duas margens, até finais do séc. XVIII, e o permanente fluxo piscatório e humano que se manteve até à actualidade, sobretudo na zona de Larache, sendo comuns os filhos de pescadores nascidos em Marrocos, são um rol de situações, que ilustram mais recentemente, a grande importância e facilidade desta rota ao longo dos séculos.

Esta realidade permite colocar hipóteses que relacionem os assentamentos fenícios do Algarve, nomeadamente de Tavira, com os da costa ocidental Norte Africana, cuja criação, sobrevivência e destruição ou abandono parecem ter sido paralelos. É portanto perfeitamente plausível que a região cunea constituísse o vértice de uma rota triangular entre a Costa Africana e o Estreito, utilizada quando as condições adversas impedissem uma navegação directa.

NOTAS

[1] Apuleio (Metamorphoses XI) e Joannes Lydus (De mensibus IV, 45)
[2] O.M. 205-211. O rasto é ainda observável na actualidade. Ver, por exemplo http://eol.jsc.nasa.gov/scripts/sseop/QuickView.pl?directory=ESC&ID=ISS006-E-9576
[3] IRIA, Alberto. Itinerário do Infante Dom Henrique no Algarve, Faro 1960: 36, 49
[4] Proposta de Adel Sidarus, com a grafia de CORRIENTE, Federico. Diccionario de arabismos y voces afines en iberorromance, Gredos, Madrid 1999: 231, verbete arsenal
[5] Os versos de Avieno acima transcritos
[6] Na costa Oriental da Tunísia, a Sul de Cartago.

Print Friendly and PDF