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Wednesday, May 24, 2006

MAPAS DAS VIAS ROMANAS (SUL DE PORTUGAL)

Cartografia histórica do Sul de Portugal Romano

Catálogo bibliográfico dos estudos cartográficos sobre a rede viária romana

Conventus Pacensis
Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve, Algarve, partes do Algarve

Introdução
Muito pouca atenção tem sido dada aos mapas de reconstituição do povoamento e, sobretudo, da rede viária na Época Romana.
Têm sobretudo servido como meras ilustrações de estudos, sem que exista uma avaliação sistemática dos seus valores geográfico e semântico, nem uma percepção da evolução historiográfica da representação da ocupação romana do território e do conhecimento sobre a rede viária.
Esse plano menor da cartografia decorre, em grande parte, da iliteracia cartográfica da maioria dos arqueólogos e historiadores, a quem esses mapas geralmente se destinam, e da ausência de geógrafos profissionais na produção científica e no estudo da geografia histórica da Antiguidade.

O catálogo seguinte é provisório, construído rapidamente com os recursos limitados de uma biblioteca doméstica. No entanto, a sua dimensão, escopo temporal e diversidade de perpespectivas permitem já uma abordagem significativa do tema.

Cada mapa identifica-se pelo ano, seguido de um nº de ordem e do nome do autor. Para a publicação na net, todas as imagens foram redimensionadas com 400 pixels de largura e, algumas delas, cortadas de modo a incluir apenas o território de estudo.
O catálogo Inclui as sucessivas versões de reconstituição da rede viária romana, pelos mesmos autores ou por autores distintos, por ordem cronológica.

Espero, com o tempo, ir acrescentando comentários ou pequenas análises sobre cada mapa.


CATÁLOGO
17xx.1 António Ribeiro dos Santos
Tabula veteris Lusitanae celticae
parte do mapa in António Ribeiro dos Santos, Tabula veteris Lusitanae celticae, Lisboa 2ª metade séc. XVIII. Bibl. Nacional Digital [460152] CDU 913.65(084.3)
Âmbito: nacional
Nota: Sem representação da rede viária

1849.1 Alexander G. Findlay
Ancient Hispania
parte do mapa in Alexander G. Findlay. A Classical Atlas of Ancient Geography, Harper and Bros., New York 1849
Âmbito: peninsular
Nota: Sem representação da rede viária


18xx.1 Anónimo inglês
Southern Iberia
Iberia: Map 2; http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Gazetteer/Maps/Periods/Roman/Places/Europe/Iberia/2.html
Atlas escolar do mundo romano (em inglês); finais séc. XIX
Âmbito: peninsular



1948.1 Abel Viana, José Formosinho, Octávio Veiga Ferreira
Caminhos e achados romanos nas Caldas de Monchique
p.4 (Fig. 1) Abel Viana et alii. Restos de caminhos romanos nas Caldas de Monchique. Separata dos nºs 29-30 da "Revista do Sindicato Nacional dos Engenheiros Auxiliares", Lisboa 1948
Âmbito: local



1960.1 Abel Viana
Carta das estradas e caminhos carreteiros principais, antigos e modernos, do Baixo Alentejo e Algarve
p. 217 (Fig. 43) in Abel Viana "Notas Históricas, Arqueológicas e Etnográficas do Baixo Alentejo. Senhora da Cola" in Revista Arquivo de Beja, vol. XVII, Beja 1960; pp 138-231
Âmbito: regional



1960.2 José Garcia Domingues
Estradas romanas e árabes
p. 106 in José Garcia Domingues. "O Garb extremo do Ândalus e «Bortuqal» nos historiadores e geógrafos árabes" in José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andalus, Hugin, Lisboa 1997, pp. 81-116. Edição original em Separata do "Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa", Julho-Dez., 1960.
Âmbito: nacional



1963.1 Mário Sáa
Carta Itinerária ao Sul do Tejo, para os tomos IV e V de As Grandes Vias da Lusitânia
Parte do mapa dobrado na contracapa in Mário Sáa. As grandes vias da Lusitânia. O Itinerário de Antonino Pio, vol. IV, s. ed., Lisboa 1963
Âmbito: regional


1972.1 Maria Luísa Estácio da Veiga Affonso dos Santos

Reconstituição conjectural do traçado de viação romana do Algarve
p. 392-3 (mapa nº 5, 6 no índice) in Maria Luísa Estácio a Veiga Affonso dos Santos. Arqueologia Romana do Algarve, volume II, Associação dos Arqueólogos Portugueses, Lisboa 1972
Âmbito: regional


1979.1 Giuseppe Motta (dir.)
Divisione Augustea della Spagna
Parte do mapa p. 25 in Giuseppe Motta (dir.) Atlante Storico,Instituto Geografico de Agostini, Novara 1979
Âmbito: peninsular



1982.1 Jover Zamora, J. M.
Limites dos conventus da Lusitania
p. 113 in Jover Zamora (dir.). Historia de España romana, tomo 2:1, Espasa-Calpe, Madrid 1982
Âmbito: peninsular



1983.1 Jorge de Alarcão
Mapa das vias e povoações da parte sul de Portugal
p. 73 (Fig. 5) in Jorge de Alarcão. Portugal Romano, 3ª ed., Ed. Verbo, Lisboa 1983
Âmbito: regional



1984.1 Vasco Gil Mantas
Mapa de localização
p. 853 (Mapa 4) in José d'Encarnação. Inscrições romanas do Conventus Pacensis, Univ. de Coimbra, Coimbra 1984
Âmbito: regional


1987.1 Manuel Andrade Maia
Vias romanas
s/n. mapa 25, Vol 2 in Manuel Andrade Maia. Romanização do território hoje português a sul do Tejo, Dissertação de doutoramento, policopiado, Faculdade de Letras, Lisboa 1987
Âmbito: regional



1987.2 Manuel Andrade Maia
Vias romanas
s/n. mapa 26, Vol 2 in Manuel Andrade Maia. Romanização do território hoje português a sul do Tejo, Dissertação de doutoramento, policopiado, Faculdade de Letras, Lisboa 1987
Âmbito: regional



1988.1 Jorge de Alarcão
Estradas romanas do Sul de Portugal
p. 93 (parte da Fig. 20) in Jorge de Alarcão. O Domínio Romano em Portugal, Europa-América, Lisboa 1988
Âmbito: regional



1990.1 Vasco Gil Mantas
Cidades e villas da Lusitânia: os grandes eixos viários e a implantação rural (sécs. I a V d.C.)
A implantação do povoamento é da autoria de J-G. Gorges
p. 104 (Fig. 3) in J-G. Gorge. "Villes et villas de Lusitanie. Interactions-échanges-autonomies" in J-G. Gorges (org.). Les villes de Lusitanie Romaine, CNRS, Paris 1990; pp. 91-113
Âmbito: sub-peninsular



1990.2 Vasco Gil Mantas
Localização e principais vias de comunicação das cidades marítimas lusitanas
p. 153 (Fig. 1) in Vasco Gil Mantas "As cidades marítimas da Lusitânia" in J-G. Gorges (org.). Les villes de Lusitanie Romaine, CNRS, Paris 1990; pp. 149-205
Âmbito: nacional



1991.1 José Manuel Garcia
Povoações e vias de Portugal durante o Império Romano (séculos I a. C. e V d. C.)
p. 201 (Ilustr. VII) in José Manuel Garcia. Religiões Antigas de Portugal. Aditamentos e observações às "Religiões da Lusitânia" de J. Leite de Vasconcelos. Fontes epigráficas, IN-CM, Lisboa 1991
Âmbito: nacional



1993.1 Jorge de Alarcão
Rede viária principal do "Portugal romano"
As linhas a cheiro indicam os traçados devidamente identificados e as quebradas os trejectos conjecturais
p. 258; in Carlos Fabião. "O passado Proto-Histórico e Romano" in História de Portugal, dir. José Mattoso, vol. 1, Ed. Estampa, Lisboa 1993; pp. 77-300
Âmbito: nacional



1993.2 Vasco Gil Mantas
As vias romanas de Portugal
p 220 in Vasco Gil Mantas. "A rede viária romana do território português" in João Medina (dir.), História de Portugal - Dos tempos pré-históricos aos nossos dias, Ediclube, Amadora 1993; pp. 213-230.
Âmbito: nacional



1995.1 TIR
Tabvla Imperii Romani - Emerita-Scallabis-Pax Ivlia-Gades - J-29 Lisboa
parte do mapa na bolsa da contracapa in Comité Español (Domingo Plácido, pres.) Tabvla Imperii Romani. Hoja J-29: Lisboa , Inst. Geográfico Nacional de España, Madrid 1995
Âmbito: sub-peninsular



1996.1 F.H. Stanley, Jr. (org.)
Lusitania
Parte do mapa "Map 26 Lusitania-Baetica" in Richard J.A. Talbert (ed.), Barrington Atlas of the Greek and Roman World, Princeton Univ. Press, Princeton 2000
Âmbito: sub-peninsular



1997.1 Vasco Gil Mantas
A rede viária romana do Algarve
p. 313; in Vasco Gil Mantas. "Os caminhos da Serra e do Mar" in Noventa Séculos entre a Serra e o Mar, Maria Filomena Barata e Rui Parreira (concep.), IPPAR, Lisboa 1997; pp. 311-325
Âmbito: regional



1997.2 Raymond Chevallier
Schéma du réseau espagnol
p. 262 (Fig. 168); in Raymond Chevallier. Les Voies Romaines, Picard, Paris 1997
Âmbito: peninsular



1998.1 Helena Catarino
Traçados hipotéticos de algumas vias e caminhos do Algarve Oriental
p. 661 (Fig. 59, vol. II) in Helena Catarino. "O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica" in al'ulyã nº6, 1997/98, Arq. Histórico Municipal de Loulé, Loulé 1998; 3 vols.
Âmbito: sub-regional



2000.1 João Pedro Bernardes
A antiga rede viária e o povoamento
extra p. 24/25 (Mapa 1) in João Pedro Bernardes e Luís Filipe Oliveira. A "Calçadinha" de S. Brás de Alportel e a Antiga Rede Viária do Algarve Central, policopiado, Faro 2000. Impresso em 2002 pela Câmara Municipal de S. Brás de Alportel
Âmbito: sub-regional



2000.2 Gonzalo Arias
Mapa-Indice de vías romanas y caminos milenarios de Hispania
Revisión de enero de 2000
Anexo de El Miliario Extravagante nº 72, Cortes de la Frontera, Fev. 2000
Âmbito: peninsular



2000.3 Luís Fraga da Silva
Rede viária antiga do Algarve Central
Mapa 2 (bolsa na contracapa) in Maria Garcia Pereira Maia, Levantamento da carta arqueológica de Cachopo, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira 2000
Âmbito: sub-regional



2002.1 Vasco Gil Mantas
Vias romanas de Portugal
p. 408 (Fig. 4: Mapa de situação) in António Nunes Pinto. "A propósito dos pequenos bronzes figurativos romanos: itinerários difusores" in J-G. Gorges et alii (eds.) V Mesa Redonda Internacional sobre Lusitania Romana (Cáceres-2002) : Las comunicaciones, Min. Cultura, Madrid 2004; pp. 391-408
Âmbito: nacional



2002.2 Vasco Gil Mantas
Principais vias e portos da Lusitânia
p. 430 (Fig. 1) in Vasco Gil Mantas. "Vias e portos na Lusitânia romana" in J-G. Gorges et alii (eds.) V Mesa Redonda Internacional sobre Lusitania Romana (Cáceres-2002) : Las comunicaciones, Min. Cultura, Madrid 2004; pp. 427-453
Âmbito: nacional



2002.3 Salinas de Frias e Rodriguez Cortés
Las vias romanas en Lusitania
p. 279 (Fig. 1) in Manuel Salinas de Frias e Juana Rodriguez Cortés. "Corrientes religiosas y vías de comunicación en Lusitania durante el Imperio Romano" in J-G. Gorges et alii (eds.) V Mesa Redonda Internacional sobre Lusitania Romana (Cáceres-2002) : Las comunicaciones, Min. Cultura, Madrid 2004; pp. 277-292
Âmbito: sub-peninsular



2002.4 Luís Fraga da Silva
A rede viária do Sul da Lusitânia
p. 135 (Mapa 4) in Luís Fraga da Silva. São Brás de Alportel na Antiguidade, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira 2002
Âmbito: regional



2004.1 Sandra Rodrigues
As Vias Romanas do Algarve - Mapa Geral
p. 29 in Sandra Rodrigues, As vias romanas do Algarve, Univ. Algarve e CCDRA, Faro 2004
Âmbito: regional



2004.2 Gonzalo Arias
Mapa-Indice de vías romanas y caminos milenarios de Hispania
Revisión de diciembre de 2004
Anexo de El Miliario Extravagante nº 91, Cortes de la Frontera, Dez. 2004
Âmbito: peninsular



2005.1 Luís Fraga da Silva
Algarve Romano. Síntese do povoamento e rede viária
Mapa D (anexo) in Luís Fraga da Silva. Tavira Romana. A ocupação da zona de Tavira na ÉpocaRomana, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira 2005
Edição digital em http://www.arqueotavira.com/balsa/tavira/Mapa-Dr.pdf (revisão de Maio 2006)
Âmbito: regiona
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2005.2 Luís Fraga da Silva
Sul da Lusitânia. Síntese corográfica e viária
Mapa 24 in Luís Fraga da Silva. Geografia urbana da cidade romana de Balsa (Atlas digital), Campo Arqueológico de Tavira, Tavira 2005
Edição digital em http://www.arkeotavira.com/alg-romano/geral/sul-lusitania.pdf (revisão de Maio 2006)
Âmbito: regional

Monday, May 22, 2006

NOMENCLATURA E TIPOLOGIA VIÁRIA


O principal aspecto caracterizador da função viária é, naturalmente, a existência de vias onde se processa o trânsito.
Outros aspectos relevantes são as estruturas viárias edificadas, os meios de transporte e as actividades relacionadas com a presença de estradas.

A toponímia reflecte frequentemente esta realidade através da nomeação dessas entidades territoriais, quer como designações quer como designados.
Os termos escolhidos pela selecção natural milenária dos nomes de lugar revelam aspectos que são privilegiados na sua identificação.

A tabela seguinte, em modo imagem, apresenta uma tipologia de termos viários em Português e respectiva nomenclatura. Esta será oportunamente completada.

Actividades

Associados aos caminhos estabelecem-se locais de actividades sobre ou na vizinhança de pontos de passagem. Estas actividades definem-se como pontos de referência, através de:

1. Designação da actividade ou situação
2. Lugar
2.1. Sítios, estabelecimentos
2.2. Estruturas
2.3. Transformações resultantes da actividade
3. Agentes associados à actividade
3.1. Profissões
3.2. Etnias
3.3. Estatutos
3.4. Situações pessoais
3.5. Grupos sócio-religiosos
4. Meios
4.1. Objectos, instrumentos
4.2. Substâncias, materiais e matérias-primas
4.3. Produtos e desperdícios da actividade
5. Acções
5.1. Operações
5.2. Eventos
5.3. Datas e períodos do calendário
6. Signos
6.1. Marcas, Gravuras
6.2. Atributos e qualidades associados à actividade
7. Dedicações religiosas próprias (para actividades não religiosas)
7.1. Entidades
7.2. Signos
7.3. Propriedades sagradas
7.4. Contextos identificadores

Wednesday, May 10, 2006

CÓNIOS ?

Os etnónimos KUNETAS/KOUNEOUS/KONIOIS e os corónimos CONISTORGIS, CINETUM e CUNEO.
Uma revisão das fontes greco-romanas (430 a. C. a 370 d. C.).

Sobreviveram 25 referências em fontes da Antiguidade, correspondentes a 15 autores.
Apresenta-se neste post a sua compilação exaustiva, referindo o autor, época, bibliografia, étimo (transliterado e em caracteres gregos quando necessário) e contextos literários originais, em grego ou latim e respectiva tradução portuguesa.

Devido às limitações da formatação dos blogs as tabelas apresentam-se como imagens.

Etnónimos, por ordem alfabética

  • Cunienses......Cronografo de 354
  • Curetes........Pompeu Trogo (em Justino)
  • Cynetas........Avieno
  • Koniois........Políbio
  • Konnioi........Hipólito de Roma
  • Kouneous.......Apiano
  • Kunesioi.......Herodoro de Heracleia (em Estevão de Bizâncio)
  • Kunesioisi.....Heródoto
  • Kunetas........Heródoto
  • Kunetes........Heredoro de Heracleia (em Estevão de Bizâncio e Constantino VII)

Povoações

  • Conisturgim....Salústio
  • Konistorgei....Apiano
  • Konistorgin....Apiano
  • Konistorgis....Estrabão

Corónimos

  • Cuneo..........PompónioMela
  • Cuneus.........Pompónio Mela, Plínio
  • Cyneticum......Avieno
  • Cynetum........Avieno
  • Kouneon........Estrabão
  • Kuneticon......Heredoro de Heracleia (em Estevão de Bizâncio)

pág. 1

pág. 2

pág. 3

Conjectura de evolução linguística
O diagrama seguinte apresenta um modelo conjectural da evolução cronológica e linguística do etnónimo KUNETAS/KUNESIOI e dos corónimos associados, a partir das formas registadas nas fontes greco-romanas.
Chama-se a atenção dos leitores para o facto de ser um modelo experimental, não validado por filólogos credenciados.



Não sobreviveu nenhuma forma latina do etnónimo nas fontes. Apenas do corónimo CUNEUS, CUNEO, já do Império, mas compatível com a forma grega do etnónimo KOUNEOUS.
A forma CONII e a sua tradução CÓNIOS são uma invenção moderna baseada na forma grega KONIOIS.
De facto, a tradução de KUNETAS/CUNEUS em latim, sobretudo no plural, levanta delicados problemas aos autores latinos e posteriores latinistas, devido à enorme semelhança com cunni, no sentido obsceno de orgão sexual feminino (e, simultaneamente de coelho, dualismo semântico que ainda se mantém hoje em espanhol).
Avieno transforma o u grego em y, alterando o valor da vogal (CUNETAS > CINETAS).
O "Cronógrafo de 354" é mais cauteloso e traduz KONNIOI (em Hipólito) por CUNIENSES.
Os latinistas modernos preferem as formas CONII e CUNAEI, não documentadas nas fontes.
É possível que a forma indígena corrente no início da dominação romana fosse semelhante a *COUNEUS, o que justificaria as vocalizações CO-, COU- e CU- assim como os plurais helenizados em -IOIS e -EOUS e as formas latinas CUNE-US,-O.

Monday, May 08, 2006

O papiro de Artemidoro de Éfeso

Parte do manuscrito de Artemidoro, relativa à Península Ibérica

Le tre vite del Papiro di Artemidoro
Voci e sguardi dall'Egitto greco-romano
org. Claudio Gallazzi e Salvatore Settis
cat. exposição Palazzo Bricherasio; 8 fev-7 mai 2006; Torino
Electa, Milano 2006
p. 157

Tradução do italiano, não corrigida pela consulta da versão crítica (il Papiro de Artemidoro, C. Gallazzi, B. Kramer, S. Settis e G. Adornato, Milano LED 2006)

A versão do catálogo peca sobretudo pela tradução dos topónimos e corónimos, o que retira à obra uma importantíssima informação linguística e geográfica. Ainda por cima o critério de tradução não é consistente, umas vezes mantém formas do original grego (Gadeira), outras não (Ebro), outras ainda indesculpavelmente anacrónicas (Espanha). A revisão do texto também não é muito cuidada (Alacer por Alcácer, Gorbera por Gorbea...).

Mais graves são os erros de ignorância e preguiça bibliográfica. É o caso de Maria Patrizia Gulletta, que escreve sobre a Península Ibérica, (pp. 88 a 109), ao afirmar que Ipsa e Cilibe são apenas conhecidos pelas suas cunhagens monetárias, que a Lusitânia corresponde ao Portugal actual (por duas vezes), que Onuba Aestuaria se situa "na vizinhança" da moderna Huelva e continuando a confundir o Promontório Sacro com o Promontório Cuneo! (p. 91).

Enfim, após estes desabafos, eis o famoso texto, que terá sido escrito entre 106 e 102 a.C.

[Nota: A separação de linhas e a numeração não existe no texto original, sendo da minha responsabilidade. Destina-se a estruturar a informação e facilitar o seu comentário. O texto entre [] é meu.]




01. Partindo dos Pirenéus até à zona de Gadeira, incluindo as áreas mais interiores, todo o território é chamado indiferentemente, ou Ibéria ou Hispania.

02. Este território está dividido pelos Romanos em duas províncias:

03. A primeira [Citerior] compreende toda a região que vai dos Pirenéus a Carthago Nova, a Castulo e às nascentes do Baetis.

04. A segunda [Ulterior] compreende, por sua vez, as terras até Gadeira e a totalidade da Lusitânia.

05. O contorno completo do território, é o seguinte:

06. Os Pirinéus dividem a Gália e a Ibéria.

07. Uma das suas duas extremidades, voltada a Sul, estende-se até ao Mare Nostro [Mediterrâneo];

08. a outra extremidade, voltada para o Setentrião, avança sobre o Oceano.

09. Quanto às suas vertentes, uma está voltada para Oriente e dela se avista um sector bastante amplo da Gália;

10. a outra, por sua vez, está voltada para Ocidente e dela se vê uma parcela correspondente da Ibéria.

11. Com isto estabelecido é necessário pensar nos outros três lados que delimitam a Ibéria.

12. Um dos lados vai dos Pirenéus a Gadeira: é o que se estende ao longo do Mare Nostro [Mediterrâneo], isto é, o mar no interior das Colunas de Hércules, e que é paralelo às terras voltadas a Sul.

13. O segundo lado, que se banha nas águas do Oceano e que se orienta a Norte, estende-se para Oeste e junta-se ao

14. terceiro lado, que está a Ocidente, onde se situam a Lusitânia, o supracitado Promontório Sacro e a inteira região de Gadeira.

15. Naqueles sectores que são limítrofes aos Pirenéus, uma parte da Ibéria prolonga-se para Oriente e delineia parte de um golfo de amplitude considerável, que se desenvolve no extremo dos supracitados montes; este golfo une-se com o Golfo Gálico.

16. Tal é a forma completa de Ibéria.

17. Reassumiremos agora o trajecto por mar ao longo da sua costa, de modo a permitir adquirir um conhecimento geral das distâncias que separam as várias localidades.

18. Do promontório de Afrodite Pirenaica até à cidade de Emporion, colónia dos focenses, [são] 332 estádios [stadia. Um stadium mede cerca de 185 m].

19. Desta à cidade de Tarrakon, 1808 [estádios].

20. De ali ao rio Ebro, menos de 92.

21. Deste ao rio Sukron, 1048.

22. De ali a Carthago Nova, 1240.

23. De Carthago ao monte Calpe, 2020.

24. Deste a Gadeira, 544.

25. No total, dos Pirenéus e do Aphrodision até Gadeira são 7084 estádios.

26. De Gadeira à torre e porto de Menesteo, em conjunto, são 7170 estádios.

27. Destes até à segunda foz do rio de Asta, 120 [estádios].

28. Desta até ao rio Baetis, 684.

29. Deste até Onoba, 280.

30. De ali a Mainoba...

31. Desta até à cidade de Ipsa, 24.

32. Desta até ao estuário do Anas, em linha recta até ao ponto em que se situa a cidade de Cilibe, 70 estádios.

33. Depois da foz do Anas vem a extremidade do Promontório Sacro; até à [sua] ponta são 992 estádios.

34. Dobrado o promontório, até à torre e porto de Salacia, 1200 estádios.

35. E dali até à foz do rio Tagus, 320.

36. Desta ao rio Durio, 1300.

37. Depois deste, a 180 estádios, fica o rio Oblivio, que é também chamado Lethe e Limia.

38. Depois deste, até ao Benis ou Minion, 110.

39. Deste até ao Promontório dos Artabri, menos de ...

40. Deste a Megas Limen, cerca de 98.

41. Da parte restante da costa ainda ninguém fez o reconhecimento.


Mapa do Périplo Ibérico de Artemidoro


Alguns comentários rápidos.

  • Os numerais são, em princípio, suspeitos e alguns poderão corresponder a erros tipográficos do catálogo. Seria importante comparar os valores com os da edição científica.

  • Certas números (com erros de uma ordem de grandeza, isto é, cerca de 10 vezes maiores ou menores) são claramente erros de transcrição. É o caso evidente das linhas 26 e 31. Os restantes valores são mais aceitáveis, embora o total da linha 25 (7084 stadia) não corresponda à adição das parcelas das linhas 18 a 24 (que dá 6540).

  • Gadeira (linhas 24 e 26) pode corresponder talvez ao Herakleion e não à cidade. Os 7170 stadia da linha 26 são um erro óbvio. Se a Torre de Menesteo foi o Castillo de D. Blanca e a segunda foz do rio de Asta (linha 27) a Enseada da Punta de Huete então as medidas das linhas 27 e 28 ajustam-se razoavelmente.

  • As linhas 30-32 estão intercaladas

  • A linha 30 é um mistério pois dificilmente seguirá após a linha 22, onde geograficamente deveria estar. A sequência Onoba > Mainoba faz lembrar Estrabão III,2,5.

  • As linhas 31-32 correspondem aparentemente a uma descrição da costa do Algarve no sentido oposto, de Ocidente para Oriente.

  • Se na linha 31 a distância fosse 240 em vez de 24, seria a distância real do Promontório Sacro a Ipses.

  • Os 70 stadia da linha 32 correspondem à realidade, da distância marítima entre as fozes da ria de Alvor e do Rio Arade. O fraseado da linha mostra que Cilibe se situa afastada da costa, o que corresponde à localização do povoado da Rocha Branca, no fundo Norte do estuário do Arade.

  • Falta uma linha após 29, a indicar a distância de Onoba ao Anas

  • A linha 34 parece corresponder exactamente a uma parte perdida do texto de Estrabão, a intercalar antes de III,3,1:

    "Agora, se começarmos de novo no Promontório Sacro, seguindo a costa na outra direcção, nomeadamente, para o Rio Tagus, há primeiro um golfo e depois um promontório, Barbarium, e perto dele, as bocas do Tagus; e a distância até estas bocas em linha recta é 10 stadia. Aqui, também há estuários; um deles estende-se para o interior desde a supramencionada torre, durante mais de 400 stadia, e ao longo deste estuário o território é banhado até Salacia."
    (Tradução da versão de H. L. Jones: Harvard University Press, 1917 thru 1932 (Loeb), minimalista, que não procura recriar partes desaparecidas do original.)

    Comentários sobre o texto de Estrabão:

    É de notar que Estrabão considera o Sado um estuário e não um rio, até Salacia.
    Na foz do Sado refere-se uma torre, que corresponderá à explicitamente identificada por Artemidoro como Torre de Salacia, na linha 34.
    Esta torre terá sido um farol, de modo semelhante à Torre de Cipião, descrita em III, 1, 9 (Kaipiónos pyrgos, ou seja *Caepionis Turris, hoje Chipiona). Localizar-se-ia ou na então ilha de Tróia (entre os estuários do Sado e o da Comporta, correspondendo ao plural do número de estuários em Estrabão) ou na escarpa sul da Serra da Arrábida, ou no próprio Cabo Espichel. ( o promontório Barbarum).
    O estuário do Sado, entre Tróia e Setúbal é assim considerado por Artemidoro o porto marítimo de Salacia.

    A distância entre as fozes do Tejo e do Sado variam imenso entre Artemidoro (320 stadia) e Estrabão (10 stadia), sendo a primeira muito mais próxima da realidade (67 km= 360 stadia).
    A extensão do estuário do Sado, ou seja, da parte navegável do rio, é indicada por Estrabão como sendo de 400 stadia, o que é uma boa aproximação da realidade (cerca de ??? stadia da Foz a Alcácer do Sal).
    As bocas do Tejo, no plural, corresponderão provavelmente aos braços de rio em torno do banco de areia da Cabeça Seca (hoje submerso com excepção do forte -farol do Saõ Lourenço do Bugio).

Wednesday, February 22, 2006

OSSONOBA


A laguna de Ossonoba

O cabo dedicado a Zéfiro, chamado depois Cúneo e hoje de Santa Maria.

A primeira referência ao actual Cabo de Santa Maria provém da fonte literária desconhecida, seguramente grega, do séc. V ou VI a.C., utilizada por Avieno (séc. IV d.C.) no seu poema geográfico Ora Maritima.
Segundo este autor, o Cabo e o Monte Figo (Cerro de São Miguel) seriam dedicados ao vento Zéfiro divinizado, isto é o vento do quadrante dominante na região (Oeste), ainda hoje.

De facto, o cabo, o vento e o monte sempre tiveram papeis fundamentais no sistema de navegação regional, tema desenvolvido no post
monte-figo-ii-navegao-no-golfo.
Um esboço da história religiosa do monte, importante santuário na época romana devido à via que unia o seu cume a Moncarapacho e Balsa, faz parte da monografia "São Brás de Alportel na Antiguidade" (Luís Fraga da Silva, Tavira 2003), disponível aqui.


Na época romana o cabo é identificado com o nome Cúneo por Pompónio Mela e por Plínio. Este nome surge também como corónimo, que abrange a região adjacente ao Promontório Sacro (Kouneon em Estrabão) e a retroterra costeira do Sotavento, até Mértola (Mela).

O corónimo não terá a improvável etimologia latina de cuneus=cunha (contra o que Estrabão e Plínio afirmam) mas será, pelo contrário, pré-romano, associando-se ao étnico Kouneus (Apiano, c. 165 d.C., baseado em fontes anteriores) sendo impossível saber se deriva deste ou vice-versa.
Este étnico (que existe também sob a forma Koníois, em Políbio, c. 130 a.C.) surge em latim apenas numa fonte tardia (Cronographus de 354 d.C.), como Cunienses, numa tradução do texto grego de Hipólito (c. 230 d.C.), que, por sua vez, usa o termo Konnioi. Trata-se de um texto cristão, baseado no Génesis, que enumera os povos do Ocidente descendentes de Jafé, após a queda da Torre de Babel!
É espantoso que as designações "Conii" e "Konii", (donde provém a tradução portuguesa Cónios) largamente utilizadas na literatura, não sejam senão invenções historiográficas de latinistas, sem nenhuma abonação nas fontes!

O cabo de Santa Maria é formado por uma extensa laguna, fechada a sul por uma linha de ilhas-barreira. A sua extremidade é constituída por uma ilha de areia, de topografia muito variável devido ao regime anual das marés e do estado do mar, sendo impossível reconstituir a sua forma e extensão na Antiguidade.
Forma um conspícuo e perigoso acidente na navegação costeira, bem conhecido de todos os navegadores da zona, obrigando, a partir de Tavira ou Balsa, a uma ampla manobra de contorno pelo largo (cerca de 6 milhas náuticas na actualidade) para evitar os ventos de Oeste junto à restinga do cabo, susceptível de provocar naufrágios.
A perpendicular do Monte Figo com a costa marca aproximadamente a barra velha de Marim, que daria acesso a Ossonoba pelo lado Ocidental, através da laguna de Olhão.
Um vento de Levante conduziria rapidamente as embarcações para a costa algarvia a partir do Estreito. Porém, a ondulação que quase sempre o acompanha, inviabilizaria todos as barras do Sotavento com excepção da do Guadiana e, no Barlavento, inviabilizaria Lagos e Sagres (Balieira). No estado actual dos conhecimentos, o melhor porto-de-abrigo durante o Levante, para além da laguna de Baesuris, parece ter sido o de Farrobilhas-Ludo, hoje desaparecido, protegido pelo Cabo de Santa Maria.

É de lamentar o atrevimento grosseiro de certos comentadores das fontes clássicas, sem competência geográfica e absolutamente ignorantes da história territorial local, que colocam em questão a própria existência do cabo Cúneo nas fontes e a sua identificação com o cabo de Santa Maria, baseando-se na insignificância geográfica deste!




Reconstituição da laguna de Ossonoba na Antiguidade

Legenda
O - Ossonoba e implantação urbana de Faro
L - Esteiro do Ludo
F - Farrobilhas
Mi - Milreu e Estoi
MF - Monte Figo (Cerro de São Miguel)
M - Marim
Ol - Implantação urbana de Olhão
BF - Antiga barra de Farrobilhas/Ludo
BM - Antiga barra de Marim

Ludo-Farrobilhas
Ao longo dos séculos a colmatação sedimentar deslocou progressivamente o porto do estuário do Ludo progressivamente para a foz, até à sua extinção funcional. Na Época romana, a zona portuária situava-se ainda na área da quinta do Ludo, ao longo da linha onde a encosta primitiva se ligava ao estuário, havendo vestígios de cais romano, uma grande necrópole e de estabelecimentos de salga em terraços sobre a margem.

Seria um excelente porto de abrigo, profundo e abrigado de todos os ventos, e que, pelo menos na preia-mar, devia dar acesso a embarcações de maior tonelagem. É possível que a enseada e o porto pré-romanos se articulassem com núcleos de povoamento situados mais a montante junto dos cabeços de São Lourenço, ainda usados na Idade Média como pontos fortificados, defensivos do porto de Farrobilhas. Este topónimo parece ter-se também deslocado para Sul, acompanhando o porto, até se estabelecer já no termo de Faro, junto da antiga falésia onde hoje se encontra o aeroporto, na margem norte da antiga barra oriental da cidade. O topónimo Ludo é aparentemente moçárabe ou mesmo anterior, proveniente do latim LUTUM (lama, lodo), revelando uma tendência precoce para a colmatação do esteiro.


Ossonoba (Faro)
O nome OSSONOBA surge em Estrabão, Mela, Plínio e Ptolomeu, assim como nos Itinerários Antoninos e na Cosmografia de Ravena.

Possui cunhagens indígenas, já sob dominação romana, da 1ª metade do séc. I a.C., em que o topónimo surge em alfabeto latino sob as formas OSO, OSSO e OSVNBA.
O estudo "Novas moedas hispânicas de Balsa e Ossonoba", de Rosa e Mário Varela Gomes, Porto 1983, pode ser lido em

http://www.arqueotavira.com/Classicos/MoedasRR.pdf

O nome OSSONOBA, através de seus derivados, está igualmente abonado em cinco inscrições romanas de Faro, recolhidas em "Inscrições romanas do Conventus Pacensis" (IRCP), José d'Encarnação, Coimbra 1984:

·
RES P(ublica) OSSON(obensis)
IRCP 3, Forte da "Mesa dos Mouros", 254-255 d.C., Homenagem da cidade ao imperador Valeriano

· R(es) P(ublica) OSSONOB(ensis)

IRCP 4, Faro, sem localização, 274 d.C., Homenagem da cidade ao imperador Aureliano

· CIVITAS OSSONOB(ensis)

IRCP 7, Largo da Sé, séc. I d.C., Homenagem da cidade a um seu patrono, flâmine provincial da Lusitânia

· [O]SSONOB(ensi)

IRCP 8, Faro, sem localização, s/d, Homenagem a um flâmine e duúnviro

· [OS]SONOBENSIVM

IRCP 10, Muralha do castelo, junto à Porta Nova, final séc. II d.C., Remata um grupo numeroso de dedicantes


Etimologias

A etimologia de Ossonoba é, no mínimo, polémica, para não dizer desconhecida

1 Uma origem fenícia
A hipótese mais antiga, do séc. XVII, atribui-lhe uma etimologia semítica, ou seja, fenícia, transcrita pelo autor em caracteres hebraicos:
In Lusitania non procul ab Ana ostio maritima urbs Ossonoba: quae composita videtur ex nomine לעב Baal suppresso finali L Ossonoba לעבונשועUssanobaal, vel לעבונסה Hassanobaal (nota: necessita ter instalados caracteres hebraicos no seu computador para os visualizar!).
Na Lusitânia, não muito distante da foz do rio Ana, a cidade marítima chamada Ossonoba, cuja palavra parece ser composta do nome Baal, suprimido o L final: Ussanobaal ou Hassanobaal.
Cl. Bochart, "Chanaan", 1692, p. 603. Citado por Frei Vicente Salgado ("Memórias eclesiásticas do reino do Algarve", 1786, p. 73 e n. 16)


O Pe. José Cabrita, distinto erudito e estudioso de temas farenses, apresentou em 1970 outras hipóteses etimológicas fenícias para os topónimos Baesuris (Bait Teur), Balsa (Baal Ishã) e Ossonoba (Ossón Ebá), este último com o significado de "armazém do juncal" (jornal "Correio do Sul", Jan. e Fev. 1970).

2 Uma origem ibérica
A escola filológica mais reputada, de Adolf Schülten, Alberto Tovar e Jürgen Untermann (a apresentação de uma bibliografia, mesmo sumária, excede as pretensões deste modesto post, pelo que me limito a indicar um fio condutor: Juan García Alonso, "La Península Ibérica en la Geograf ía de Claudio Ptolomeo", Univ. del País Vasco, Vitoria 2003) atribuem a Ossonoba, assim como a todos os topónimos terminados em -OBA/-UBA uma origem ibérica, ou mais especificamente turdetana devido á sua concentração geográfica exclusiva na área da antiga Turdetânia, tendo o sufixo o significado provável de "cidade".
De facto, já Estrabão tinha chamado a atenção para a ocorrência do sufixo, ao enumerar algumas cidades estuarinas da Turdetânia: "Entre estas cidades estão Asta, Nabrissa, Onoba, Ossonoba, Maenoba e várias outras" (Geografia III,2,5).

Certos autores colocam a hipótese de ser um sufixo da língua tartéssica (falada no Sudoeste entre os séc X e VI a.C.), isto é, pré-turdetano (período este que se convenciona entre o séc. V e a conquista romana). Outros autores negam esta hipótese, pois o sufixo -OBA não surge nos topónimos registados em fontes pré-romanas, nomeadamente gregas, contemporâneas da época tartéssica.
Sendo o turdetano uma língua desconhecida, não existem traduções nem propostas etimológicas para o topónimo Ossonoba.

A semelhança assim como a proximidade geográfica costeira entre ONVBA (Onuba Æestuaria, hoje Huelva) e OSSONOBA permite conjecturar designações contemporâneas relacionadas, podendo o prefixo OSS- significar uma derivação geográfica ou fundacional.
Sabe-se que Huelva foi um grande centro tartéssico, desde o Bronze Final até ao séc. VI a.C., posteriormente abandonado ou muito reduzido em tamanho. Muitos autores associam essa cidade a TARTESSOS propriamente dita ou, pelo menos, a HARBIS descrita por Avieno (Ora Maritima 241-244) como tendo sido assolada pela guerra e abandonada após ter sido uma cidade importante.
Os nomes em -UBA/OBA podem ser assim relativamente recentes (c. séc. V a.C.) procedentes de uma ocupação turdetana das margens do Golfo (povos que surgem nas fontes greco-romanas como Bastetanos, Cilibicenos e Túrdulos, curiosamente diferenciados dos turdetanos propriamente ditos, situados mais no interior).
Esta ocupação poder-se-ia associar ao grande desenvolvimento económico da região nesta época, período de apogeu do chamado "Círculo do Estreito", centrado em Gadir e baseado no crescimento da indústria da pesca e das conservas de peixe, na abundância de cerâmicas gregas importadas em todos os pequenos portos costeiros e no uso generalizado de tipos cerâmicos e anfóricos comuns, "gaditanos" e "turdetanos".
Sem dúvida que a riqueza proporcionada por esse indústria, destinada à exportação mediterrânica, multiplicou e desenvolveu os assentamentos dispostos ao longo da rota dos atuns, designadamente no Algarve, graças à sua posição previlegiada de 1ª etapa pesqueira do atum "de direito", mais valioso, na sua migração anual do Atlântico para o Mediterrâneo.
A existência de um cimento étnico costeiro, obtido ou não por colonização pesqueira, reforçaria a coesão desta formação social dispersa, que nos surge nos sécs. II e I a.C. impregnada de símbolos culturais gaditanos nas suas emissões monetárias.
São desta época os primeiros vestígios importantes de Ipses e Cilpes (a muralha do povoado da Rocha Branca parece ser deste período) e o grande desenvolvimento urbanístico de "Tavira turdetana" após o abandono da "Tavira fenícia".

Os vestígios arqueológicos mais antigos de Faro são também do séc. V a.C. No entanto, as estratigrafias mais profundas do centro histórico (perímetro amuralhado) estão destruídas por afundamento isostático da antiga ilha e correspondente elevação relativa do nível freático subterrâneo, tendo sido até agora impossível determinar uma ocupação proto-histórica mais antiga, nomeadamente vestígios da lendária ocupação fenícia.

3 Uma origem páleo-indoeuropeia
O reputado linguísta Francisco Villar ("Indoeuropeos y no indoeuropeos en la Península Ibérica", Salamaca 2001) apresentou mais recentemente a teoria que os topónimos em -UBA/-OBA teriam uma origem indo-europeia antiga, não se limitando à Turdetânia mas tendo uma segunda área de implantação na bacia do Ebro e correspondências noutros pontos da Europa. Com o devido respeito ao autor, penso que os seus argumentos estão longe de ser convincentes pois baseiam-se na pouco fundamentada introdução de outros sufixos como equivalentes a Uba/Oba (o que lhe permite incluir o Ebro) e no muito desacreditado recurso à homofonia toponímica entre zonas geográficas distantes e não relacionadas historicamente.

Segundo este autor UBA/OBA sería um hidronímico fluvial ou marítimo, o que também não satisfaz a explicação de casos concretos como OBA (Jimena de la Frontera, Cádis), povoado de montanha sem associação hidrográfica significativa.

A origem de Ossonoba. Uma questão em aberto
O silêncio arqueológico anterior ao séc. V a.C., já referido, e o possível topónimo turdetano "recente" são parcialmente contrabalançados pelas evidências numismáticas:

· A grafia OSSVNBA, anterior às fontes escritas greco-romanas e, portanto, mais próxima da forma indígena original, sugere tratar-se de um falso topónimo em OBA, o que deixa em aberto a possibilidade de uma etimologia fenícia. De facto, casos como MENOBORA (topónimo recolhido em Hecateu, sécs. VI-V a.C.) que terá originado posteriormente MAENOBA e da própria OSSVNBA que produziu OSSONOBA na época romana, sugerem que, pelo menos, alguns topónimos em -OBA são resultado de uma convergência tardia, podendo ter uma origem anterior, proveniente de outros fundos linguísticos.

· A simbologia das moedas, que é muito variada e a mais rica dos povoados algarvios. Entre as formas conhecidas destacam-se duas de presumível origem fenícia arcaica, não gaditana, que fazem supor ou uma tradição religiosa colonial anterior ao séc. V a.C. ou, mais provavelmente, devido à abundância da símbologia, a uma importação de símbolos de outras comunidades, quiçá devida a contingentes imigrantes mais recentes:
- O touro com os luminares (com paralelos em cidades da zona do Estreito, de fundação fenícia)
- A árvore embarcada (com o único paralelo conhecido em Balsa, de que constituí uma réplica idêntica)
A interpretação destes símbolos poderá, talvez, vir a ser matéria para um futuro post e a questão da origem de Ossonoba continua entretanto em aberto, a aguardar evidências mais significativas.

A polémica sobre a localização de Ossonoba
Diversos autores consagrados, desde Garcia de Resende até ao séc. XX, localizaram Ossonoba em Milreu (Estoi) devido aos importantes vestígios romanos desde sempre aí conhecidos.

O texto de Adolf Schulten (Paulys realencyclopäedia der classischen Altertumswissenchaft, 1942), baseado numa localização epigráfica errada, teve uma grande influência na adopção internacional desta teoria.
Certos dos seus defensores (em que se destaca Ataíde de Oliveira, na sua Monografia de Estoi, 1914) não hesitaram perante as justificações mais delirantes para a ajustar às fontes literárias e à evidência arqueológica conhecida em Faro.
Assim, como Ossonoba era um porto de mar, Milreu também o seria na Antiguidade graças à navegabilidade do Rio Seco, apesar de este se situar a uma cota de mais de 50 metros e ser um riacho de regime torrencial, cujo leito dificilmente terá mais de 10 m de largura!
O comentário de Ibn Alabar (séc. XIII) sobre Xantamaria ser o porto de Ucsunuba foi também alvo de numerosas confusões e distorções, de modo a localizar a primeira em Faro e a segunda em Estoi. A colecção de lápides epigráficas e os numerosos elementos arquitectónicos romanos encontrados em Faro, como reaproveitamentos da muralha medieval, teriam sido roubados a Estoi pelos Mouros, por inveja e malvadez!
Outros autores defenderam, porém, a localização de Ossonoba em Faro, nomeadamente Leite de Vasconcelos, mas é apenas na década de 1950 que o assunto fica definitivamente esclarecido, graças a Abel Viana, baseado nas descobertas de Lyster Franco e nas suas próprias, identificando no Largo da Sé, parte do templo e edifícios do antigo fórum.

O trabalho fulcral de Abel Viana, "Ossónoba. O problema da sua localização", pode ser lido on-line em
http://www.arqueotavira.com/Estudos/Ossonoba.pdf
Entre estas descobertas destaca-se uma lápide cívica, de homenagem da civitas ossonobense a um seu patrono, acima referida, encontrada na área da sua localização original.
A aceitação final da localização em Faro por parte dos medievalistas é posterior, estabelecida por Garcia Domingues no seu importante trabalho "Ossónoba na Época Árabe", publicado como separata dos "Anais do Município de Faro"=AMF em 1972.

As descobertas sucedem-se desde então a um ritmo crescente: várias necrópoles, numerosos elementos arquitectónicos, um grande mosaico tardio e estruturas edificadas in sito. Com o actual regulamento de obras no centro urbano, as novas descobertas, devidamente registadas, ocorrem todos os anos.

Paralelamente Milreu começou a ser estudado em bases científicas (por Theodore Hauschild e, posteriormente, por Félix Teichner), revelando ser não uma cidade mas uma luxuosa villa palatina, com um extenso complexo edificado, multifuncional.
Estes dois autores publicaram recentemente uma óptima monografia de síntese divulgativa sobre o local (Milreu. Ruínas, IPPAR,
http://www.ippar.pt/pls/dippar/build_page.build_proddetail?code=9011572)


Planta da villa romana de Milreu (Estoi, Faro), levantada por Estácio da Veiga em 1877

Surgem também os primeiros trabalhos sobre Ossonoba romana, na pista do trabalho precursor de Abel Viana: José d'Encarnação, Vasco Mantas e Teresa Gamito, sendo esta autora a primeira a elaborara uma carta arqueológica da área urbana ("Um prato da oficina de CN Ateius achado em Faro", AMF-1976), já incompleta na data da sua publicação. Uma versão mais recente foi apresentada por Rui e Frederico Paula em "Faro- Evolução Urbana e Património" (Faro, 1993), livro que é, até hoje (2006), a mais importante obra sobre a história do urbanismo desta cidade.

Vasco Mantas é o autor do primeiro modelo de restituição da forma urbana ("Arqueologia urbana e fotografia aérea. Contributo para o estudo do urbanismo antigo de Santarém, Évora e Faro"; 1986, seguido de "As cidades marítimas da Lusitânia"; 1990 e de "As civitates: Esboço da geografia política e económica do Algarve romano", 1997), discutido e completado pontualmente por outros autores, em que se destacam J Bernardes e L Oliveira na sua demonstração do percurso da via romana que saía de Ossonoba na direcção a Estoi e São Brás de Alportel ("A 'Calçadinha' de São Brás de Alportel", C.M. São Brás de Alportel 2002).

Deve ainda referir-se que, apesar da localização de Ossonoba ser hoje uma das poucas indiscutíveis certezas do Algarve Romano, não faltam ainda caturras locais e neo-ignorantes que insistem nos velhos erros. É também de lamentar a preguiça bibliográfica de certos autores espanhóis contemporâneos, que continuam a repetir teses há muito ultrapassadas (localizando Ossonoba "nos arredores de Faro" e em "Olhão"!!) , o que desabona a qualidade da sua investigação.


O sítio de Ossonoba
Ossonoba desenvolveu-se num arquipélago de ilhas junto à margem continental, correspondendo a maior ao núcleo do actual centro histórico medieval. A Norte, situavam-se dois cabeços localmente importantes, Alto de Rodes e Alto (Santo António), que separavam o povoado proto-histórico insular, da Campina que se estende até à Serra do Monte Figo.
É provável que o Alto de Santo António tenha constituído um oppidum elevado, em complemento do povoado insular portuário, menos defensável.
Parte do seu sucesso como porto-seguro provém do labirinto de canais por entre o sapal, que protegia o acesso ao povoado, tornando difícil a navegação sem piloto e facilitando a instalação de um sistema defensivo contra as abordagens marítimas. A existência de duas barras independentes, a Ocidente (de Ludo-Farrobilhas) e a Oriente (de Marim), melhorava consideravelmente as condições portuárias, aproveitando as conjunturas de ventos e as correntes dominantes.

Junto à cidade, o porto interior dividia-se em duas enseadas: uma ocidental, na foz da ribeira do Patacão, na área da actual marina e jardim e outra, oriental, no estuário do rio Seco, sobretudo na enseada hoje ocupada pelo largo de São Francisco.
Esta configuração portuária e territorial permite propor uma existência e aproveitamento contemporâneos do povoado fenício de Tavira, embora, como já disse, não se conheçam vestígios arqueológicos desse período (sécs. VIII a VI a.C.).

Uma reconstituição do povoamento romano, da zona de centuriação rural e da rede viária de Ossonoba, (Luís Fraga da Silva 2003), já um pouco ultrapassada mas ainda a mais completa, pode ser vista em

http://www.arqueotavira.com/Sao-Bras/SBA-MapasPDF/Mapa5.pdf

Reconstituição da geografia costeira dos arredores de Ossonoba, na Antiguidade


A cidade romana de Ossonoba
O mapa seguinte constitui uma primeira versão de reconstituição inédita do urbanismo romano de Ossonoba, sobreposto à estrutura urbana actual de Faro. O tema será desenvolvido, em breve, no site
www.arqueotavira.com, do Campo Arqueológico de Tavira (Tavira, Algarve, Portugal).





Marim e laguna de Olhão
A relevância portuária de Marim provém da sua proximidade da melhor barra natural que dava acesso à laguna de Olhão e, através dela, ao canal oriental de Ossonoba. A sua existência como pequeno embarcadouro está documentada na Época Romana, com actividade industrial e provavelmente piscatória, servindo igualmente de porto à villa palatina ou vicus de Marim. A actividade conserveira, manifestada sob a forma de cetárias, devia estender-se ao longo da margem interior, até Olhão, pois têm surgido os seus vestígios neste percurso.

No século XVII o sítio aparece documentado ainda como villa Marim e situado na ilha-barreira (Pedro Texeira, minuta e mapa do Sul de Portugal, 1634) , que entretanto se colmatou e fundiu com o Continente:

Desta çiudad [Faro] y su puerto vna legua y media al leuante, como sienpre ba la costa, en la punta de la parte del leuante de la ysla que aquí le está frontero está hun lugar que llaman Villamarín. situada en la arena, de que es toda esta ysla, junto a un canal que entra azia la tierra que llaman Genaro. Y pasado éste está luego otro que llaman Bias. De Villamarín dos leguas y media está la barra del puerto de la siudad de Tauira.

O mapa de Pedro Texeira, de 1634, com o topónimo, é visível em http://www.arqueotavira.com/Mapas/Texeira/Sul-Portugal-300dpi-web.pdf
Marim corresponde a um importante sítio arqueológico romano, grande villa marítima que sobreviveu para além do séc. IV, sendo aí identificado um templo páleo-cristão, situação pelos vistos comum nas grandes villae tardo-romanas do Algarve.

O topónimo corresponderá ao nome do possessor no Baixo-Império ou Antiguidade Tardia. (segundo Maria Alice Fernandes seria provavelmente Marini, genitivo do cognome Marinus).

A laguna de Olhão, que se prolonga entre Ossonoba e a Fuzeta, tem sido sede de numerosos pequenos povoamento piscatórios, que originaram outros tantos varadouros pouco importantes. As condições climáticas do canal da ria são propícias a raros mas muito violentos temporais de Sudoeste, o que, com a ausência de portos-de-abrigo naturais, fez com que nunca se desenvolvessem estruturas portuárias apreciáveis até muito recentemente.
O seu povoamento Proto-Histórico é desconhecido, embora as condições lagunares e a sua riqueza produtiva proponham uma ocupação sazonal contínua.

Wednesday, November 16, 2005

QUARTEIRA



O mito de Carteia
A descoberta de moedas com a legenda Carteia em Quarteira, associada à semelhança dos topónimos, gerou uma falsa etimologia, apoiada por deficientes leituras e más interpretações dos autores latinos.
Essa identificação de Carteia com Quarteira foi desenvolvida e divulgada por Frei Vicente Salgado com aliciante fantasia (Memórias Eclesiásticas do Reino do Algarve, Lisboa 1786, pp. 48-57) e, apesar das relativas reticências deste autor, tornou-se dominante com a vulgata romântica de finais do séc. XIX.

As moedas de Carteia
Às duas moedas descobertas em Quarteira, bem descritas por V. Salgado, junta-se uma terceira, identificada por Afonso do Paço e José Ferrajota, na sua comunicação "Subsídios para uma carta arqueológica do concelho de Loulé", de 1964. Estes autores referem igualmente uma moeda idêntica a uma das descritas por Salgado, podendo ser a mesma.

Todas são fáceis de identificar através do excelente catálogo de José A. Saez Bolaño e José M. Blanco Villero,
Las monedas de la Betica romana, vol. I, Conventus Gaditanus, pp. 257-292:

  • V. Salgado nº 1 - Semis da 7ª cunhagem da 2ª metade do séc. II a.C., correspondente ao magistrado L. Marc. (nº 13 catálogo)
  • V. Salgado nº 2/A. do Paço nº1 - Quadrante da 6ª cunhagem da 2ª metade do séc. I a.C. (nº 46 do catálogo).
  • A. do Paço nº 2 - Semis da 2ª cunhagem de finais do séc. I a.C. a princípios do séc. I d.C. (nº 48 do catálogo).
A verdadeira Carteia
Sabe-se há muito (desde, pelo menos o séc. XVI) que Carteia se situava no Cortijo de El Rocadillo, em São Roque (Cádis), então no fundo navegável da Baia de Algeciras. O tema ficou definitivamente assente desde 1888, graças a E. Hübner. (L. Roldán Gómez et alii, Carteia, Junta de Andalucia e CEPSA, 1998).

A c
olonia libertinorum Carteia foi a primeira colónia de direito latino estabelecida fora do território itálico, fundada em 171 a.C. para criar um quadro urbano e cívico aos descendentes de soldados romanos e de mulheres indígenas, de condição escrava. A cidade notabilizou-se graças à narrativa da sua história por Tito Lívio (Lívio, XLIII, 3).
O assentamento romano teve uma origem anterior, fenícia ou cartaginesa, segundo se depreende do topónimo, que tem como raiz o étimo fenício QRT-, significando cidade. Foi um porto importante até meados do séc. I d.C., graças à sua proximidade de África e posição no trânsito do Estreito, tendo sido posteriormente suplantada nessa função por Baelo Claudia (Bolonia, Cádis).
É hoje um sítio arqueológico de grande importância, parcialmente explorado e aberto ao público, associado a um interessante museu monográfico (http://www.ffil.uam.es/carteia/museo/).

Quarteira ?
Apesar dos factos acima descritos serem do conhecimento universal, o bairrismo semi-culto continua ainda a invocar Carteia como origem mítica de Quarteira, ou a vender a ideia como uma "teoria" válida entre muitas outras, forma demagógica de titilar os egos locais.

Não é, porém, clara a origem do nome Quarteira, que surge pela primeira vez em 1282, na forma latina erudita de quartaria (J. Pedro Machado, Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, Livros Horizonte, Lisboa 2003, vol. III, p. 1222,, verbete Quarteira).
O corónimo distribui-se numa região relativamente extensa, com vários designados (Torre, Armação, Praia, Quinta, Morgado) e localiza-se a alguns quilómetros do lugar hoje designado por Sítio dos Quartos.
Poderá tratar-se ou de uma designação relacionada com o sistema fiscal posterior à conquista portuguesa, tema que sai fora do âmbito deste post.
Poderá, porém, tratar-se de um topónimo moçárabe, podendo assim ter-se gerado durante a dominação islâmica ou ter uma raiz romana. Existem várias hipóteses, que são, infelizmente, ou problemáticas ou totalmente conjecturais. Entre elas destacamos:
  • Segundo paralelos conhecido algures, a etimologia relacionaria o topónimo com um marco miliário de quatro milhas romanas, sendo porém impossível determinar um ponto significativo para o início de tal distância (quatro m.p. = 5916 m).
  • Poderia também designar um território com quatro m.p. de raio, com centro em Quarteira Velha, que abrangeria efectivamente o antigo morgado de Quarteira, desde a Ponte do Barão ao Garrão, por Pedra de Água, Cabeço da Câmara e Corgo da Zorra. Esta área poderia corresponder ao território administrativo da mansio (ver adiante), demarcado do município Ossonobense.
  • Poderia, finalmente, designar a quarta mansio fiscal portuária desde o Anas (Baesuris, Balsa, Ossonoba e Quatraria!).
Uma mansio industrial
Não há porém dúvidas sobre a grande importância da ocupação romana da zona Quarteira-Vila Moura na Época Romana.
Constituía então um lugar secundário (vicus) na provável periferia do território de Ossonoba, um dos portos notáveis do Algarve Central, uma mansio do Itinerário Antonino e um complexo industrial de grandes dimensões.
Destaca-se uma luxuosa e enorme domus palatina (sítio arqueológico de Cerro da Vila), um porto interior, uma grande fábrica de tinturaria (baphium), pelo menos um bairro residencial modesto e um ou mais estabelecimentos conserveiros.
Estas descobertas recentes são da autoria da equipa de Félix Teichner (F. Teichner, "Cerro da Vila - aglomeração secundária e centro de produção de tinturaria no sul da Província Lusitânia" in Xelb nº 5 (2005), Actas do 2º Encontro de Arqueologia do Algarve, 17-18 Outubro de 2003, C. M. Silves, Silves 2005, pp. 85-100.).

A imagem seguinte é extraída deste artigo, p. 90, com a devida deferência ao autor e editor, mostrando uma versão parcial do assentamento.



Geografia costeira antiga
A ribeira de Quarteira terminava então num enorme páleo-estuário interior, limitado a Ocidente pela falésia do Outeiro do Casão e a Oriente pelo Cerro da Vila, que formava uma pequena península interior. O fundo do estuário atingia a área da actual quinta de Quarteira e a transgressão marítima ocupava a Oriente as áreas arenosas até Quarteira-Velha.
Uma notícia do Séc. XVII, refere uma séria de ilhas entre Albufeira e Faro, destacando uma cuja ponta se chama Pedras Negras, ao largo (Pedro Texeira, Descripción de las costas y puertos de España, 1634):

Adelante della aze la costa vna plaia en la qual está la villa de Albufeira. Tanbién en esta ensenada ay muncha pesca de atunes, que en toda esta costa los ay en gran número, rematándose esta dicha plaia con vna punta por junto a la qual se entra en el mar vn riachuelo. Y en la orilla de la parte del leuante de el se sigue la costa baxa y con vnas yslas junto a ella que sólo se diuiden de la tierra por vnos angostos canales de agua. Son todas estas yslas que uan seguiendo toda esta costa al leuante de arena. Y la punta de la primera que queda referido se llama Piedras Negras. Vna legua por entre la ysla y la tierra está vna torre que llaman Torre de la Quarteira. Della a otra legua se entra en la barra y puerto de la çiudad de Faro.
(in El Atlas del Rey Planeta, Ed. Felipe Pereda et alii, Nerea, San Sebastián 2002, p. 342, fol. 56r)

Vestígios de estruturas portuárias submersas encontradas ao largo de Quarteira, a 8-10 metros de profundidade (A. do Paço e J. Ferrajota 1964, idem, pp. 78-89), com materiais de construção romanos, também indicam que se iniciava aqui o sistema de ilhas-barreira, a cerca de 700 m da linha de costa actual (Maria C. Simplício e Pedro Barros, "'Quarteira submersa': resultados da campanha de 1998" in al'Ulyã, nº7 (1999/2000), C.M.Loulé, Loulé 2000, pp. 55-76)

Desde então tem prosseguido a erosão da linha costeira, sendo notório o desabamento do cabeço litoral do Forte Novo e o recuo anual da linha da falésia, periodicamente noticiado nos meios de comunicação.
Uma análise geológica e fisiográfica superficial parece indicar que a actual Avenida Sá Carneiro se situa parcialmente sobre um esteiro colmatado e que o porto inicial se estabeleceria no sopé da colina de Quarteira-Velha. A actual mole de betão marginal assenta sobre um cordão dunar cuja época de formação nos é desconhecida.

Reconstituição da costa de Quarteira-VilaMoura na Época Romana
Assinala-sa a evolução moderna da área urbana de Quarteira e a zona explorada do complexo arqueológico do Cerro da Vila

A ocupação romana
Na orla do antigo estuário interior existiam igualmente assentamentos romanos e, entre as ribeiras de Ludo/São Lourenço e de Quarteira, estendiam-se baterias de cetárias associadas a villae marítimas e assentamentos piscatórios, em que se destaca a villa de Loulé Velho.
Nesta última zona sucediam-se esteiros perpendiculares à costa, hoje identificados por páleo-lagoas vestigiais (Loulé Velho, Quinta do Lago e Tejo do Praio).
Topónimos da vizinhança indiciam habitats romanos ou tardo-antigos desaparecidos (Semino), mananciais sacralizados pré-cristãos (Fonte Santa, junto à antiga via), lugares de passagem da antiga via (Passil, Vale de Carros e, talvez, Corgo da Zorra) e a existência de actividade mineira (Ferraria), que muito provavelmente já existiria na época romana.
Deve ainda nota-se que toda a zona era primitivamente coberta por uma densa floresta de pinheiro manso, cujo uso como combustível industrial (mineração, conservas e tinturaria) e material de construção, nomeadamente naval, representava um importante recurso. Já no séc. XIII, Al-Himyari ainda refere o pinhal no litoral de Xantamaria al-Gharb, onde existiam estaleiros navais (Himyari,105).
Explorações recentes na villa de Loulé Velho fundamentam um trabalho de síntese sobre este local (Isabel Luzia, "O sítio arqueológico de 'Loulé Velho'" in al'Ulyã, nº10 (2004), C.M.Loulé, Loulé 2004, pp. 43-131), revelando uma ocupação continuada entre o séc. I a.C. e o séc. VI ou VII d.C., em que se destaca uma basílica páleo-cristã na fase final de ocupação.

O Itinerário XIII de Antonino: Salacia ou Salaria
A sua associação à primeira e única etapa (conhecida) do itinerário Antonino XIII, Ossonoba - Salaria (ou Salacia) não oferece dúvidas. A distância indicada de 16 m.p. corresponde exactamente ao comprimento da estrada Ossonoba a Quarteira por Marchil, Pontal, Ludo, Fonte Santa, Passil e Quarteira.
Salaria (ou Salacia, nome comum em estabelecimentos litorais) poderia ser assim o primitivo nome romano de Quarteira.
A via romana proveniente de Ossonoba prosseguia para Ocidente através da Ponte do Barão, Vale de Carros e Lajeado, na direcção de Guia e Pêra.
Outras estradas ligavam o local a Messines e a Salir-Touriz, os nós viários mais importantes do Algarve Central na sua ligação através da Serra.

Uma praefectura annonaria?
A sua função como mansio do Itinerário Antonino, associada à presença de um estabelecimento industrial de dimensões assinaláveis permite sugerir que a fábrica de tinturaria (e talvez parte das de conservas) fossem estabelecimentos estatais, ou sob controlo estatal, ligados à annona. (A. H. M. Jones, The Decline of the Ancient World, Longman, London 1966, pp. 314-15)
A grandiosa domus do Cerro da Vila não seria assim uma mera villa maritima privada mas a residência oficial da superintendência da estação annonária, o que justificaria o seu luxo, sofisticação e dimensões, muito acima dos recursos naturais da zona.

Segundo Denis van Berchen (
La annona y el Itinerario Antonino (1937), anexos de El Miliario Extravagante, 4, ed. Gonzalo Arias, Ronda 2002), A. H. M. Jones (idem) e outros autores, este sistema fiscal terá tido iniciado por Séptimo Severo (193-211 d.C.) e teve o seu apogeu no Baixo-Império, após as reformas de Diocleciano (284-305 d.C.).
De facto, apenas com a pequena colecção de moedas reunidas por A. do Passo e J. Ferrajota no artigo já referido, não deixa de ser notável a ausência de espécies Alto-Imperiais. Para além das duas moedas de Carteia já referidas, do Período Republicano, são descritas mais 18 moedas, todas do Baixo-Império, desde Maximino I (235-238 d.C.) a Teodósio I (379-395 d.C.).
As villae e casais privados das redondezas formariam uma periferia articulada com o centro annonário, fornecendo sobretudo produtos piscatórios e florestais e, eventualmente, contentores cerâmicos.

De acordo com esta teoria, o lugar teria um estatuto superior ao de uma vulgar mansio não urbana do Itinerário de Antonino (estação de pernoita e posto de colecta e armazenamento fiscal, associado a uma comunidade de contribuintes), sendo possivelmente uma praefectura directamente ligada ao governo provincial e à administração das manufacturas estatais. A domus do Cerro da Vila justifica esta ilação, pois o seu luxo e dimensões colocam o estatuto do seu possessor muito acima de um simples beneficiarium (superintendente de uma mansio, com funções militares).

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