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Monday, October 31, 2005

LACOBRIGA

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Povoado de localização problemática


Reconstituição da laguna de Lagos na Antiguidade (clique para aumentar)
Lacobriga surge nas fontes clássicas em Pompónio Mela (In Sito Orbis: Lacobriga), Ptolomeu (Geografia: Laccobriga, com coordenadas erradas) e Plutarco (Sertório: Lacobrigenses, sem localização).
O topónimo e a referência de Ptolomeu indicam tratar-se de povoado de origem celta, localizando-se portanto no Ocidente. Não se confunde com Alvor/Ipses ou Rocha Branca/Kilibe, que são povoados turdetano, ficando assim para ocidente destes.
Ficaria igualmente a ocidente de Portus Hannibalis, segundo Mela, na zona do Barlavento algarvio (Sacro)
No entanto apenas a tradição, iniciada por André de Resende identifica Lacobriga com Lagos, não havendo quaisquer elementos epigráficos ou numismáticos conhecidos que refiram ou localizem a cidade romana.
O nome Lacobriga configura um povoado indígena num assentamento elevado, na margem ou numa ilha de um lago. No Barlavento existem apenas duas localizações mais prováveis que cumprem esses requisitos: Aljezur e Lagos.

Reconstituição da Ria da Aljezur na Antiguidade (clique para aumentar)
Aljezur
Pequena península rochosa que na Antiguidade se rodeava de água por três lados, situação que ainda existia durante a época islâmica, originando o seu topónimo árabe الجزر (ilhas ou penínsulas, segundo A. Khawli). O seu nome anterior é desconhecido.
O lugar teve ocupação na Idade do Ferro e na época romana. Há notícia de um cais de atracagem na parte baixa do povoado, revelando o seu carácter portuário. O vale da ribeira de Cerca seria então um braço de mar navegável.
O aspecto corresponde a um oppidum, sem dúvida céltico devido à localização nesta parte do Sacro. A topografia terá tornado o lugar menos próprio para uma ocupação romana de tipo urbano.

Lagos
A zona de Lagos merece um estudo monográfico de geografia histórica, que está por fazer. Limitamo-nos aqui a esboçar alguns pontos que nos parecem relevantes a priori.
A páleo-fisiografia costeira mostra que a zona Norte da actual cidade de Lagos é a única que possuiu um verdadeiro lago, que se manteve mais ou menos alagado até aos tempos portugueses (daí os topónimos antigos Lago e Lagoa e modernos de Paúl e Sargaçal, para além do próprio nome Lagos).
A grande extensão do antigo lago e do seu longo canal de acesso, permite definir geograficamente diversos lugares de assentamento potencial, para além destas ilhas:

No canal:
Em ambas as margens do canal de Lagos, sobretudo na área da cidade actual, entre as antigas ribeiras do Touro e das Naus, têm aparecido vestígios de estabelecimentos de conservas de peixes e material anfórico em grandes quantidades, indicando tratar-se de um provável vicus industrial.
Desconhece-se o estado de sedimentação da margem esquerda na Antiguidade, havendo a hipótese da existência de um porto ou praia de varamento a Sul do Monte Molião.
Molião. Tem sido apontado como o lugar do assentamento céltico ou romano de Lacobriga. De facto, a sua posição no limite da via terrestre oriental e a cavalo sobre o cotovelo do canal, num promontório bem visível e na margem oposta do porto, indicia tratar-se antes de um lugar sagrado, funerário e/ou defensivo.
Descobertas recentes na fachada SO de Molião mostraram a existência de um fosso na base do monte, colmatado com grandes quantidades de cerâmicas romanas republicanas (séc. II a.C.), revelando a presença de populações itálicas pelos seus hábitos de consumo. Terá sido certamente um destacamento militar, revelando a função do local como um castellum ou pequena castra romana, até ao séc. I a.C.
Porto exterior (São João-Horta do Trigo). Lugar onde têm sido encontrados vestígios romanos. Localiza-se no sítio mais provável de destino do aqueduto que estaria ligado à barragem romana da Fonte Coberta, sugerindo a presença de uma fábrica de conservas e, talvez, de uns balneários.

No lago:
Porto interior (Paúl-Portelas). Encontraram-se nesta zona vestígios romanos importantes, reconhecidos como tais desde há séculos, entretanto dispersos ou destruídos pelo que é impossível localizar a sua origem. A tradição da localização de Lacobriga provém de narrativas fantasiosas baseadas nesses achados, desenvolvidas por André de Resende, Frei Vicente Salgado e Silva Lopes.
Península de Garrôcho-Bemparece. Posição estratégica entre o canal marítimo e o lago interior, entre os portos interior e exterior referidos. Possui uma geografia muito semelhante à páleo-península de Tavira, definindo o lugar como modelo de uma possível ocupação fenícia.
Ilhas. Existem indícios topográficos de terem existido nesse lago pelo menos duas ilhas: Casteleja e Paúl, em que pelos menos a primeira apresenta vestígios romanos, para além do seu topónimo de habitat fortificado.

Nos montes próximos:
Alto da Cerca (Cordeira). É o ponto mais dominante a Poente do lago interior, com uma fisiografia e um topónimo que sugerem a hipótese de localização de um oppidum, de consideráveis dimensões.

A zona de Lagos apresenta uma densa ocupação rural romana, disposta ao longo da antiga orla estuarina mas também nas encostas do Barrocal. Esta ocupação manifesta-se sobretudo através de materiais de construção e de sepulturas. Alguns desses locais corresponderão a villae. Existem também extensos vestígios topográficos de uma grande centuriação rural na área de Espiche, menos bem conservada que a de Balsa, mas melhor que a de Ossonoba.
A Divisio Wambae
O documento designado como Divisio Wambae, que define as delimitações das dioceses visigóticas, refere-se à diocese de Ossonoba nos seguintes termos:
OXONOBA TENEAT DE AMBIA USQUE SALLAM, DE IPSA USQUE TURREM
Sendo uma fonte já muito tardia e de inferior qualidade devido à dificuldade em identificar grande parte dos topónimos, sujeita provavelmente a manipulações nos Sécs. XI ou XII, ela tem por base uma descrição anterior verosímil, datável do Séc. VII, representando assim uma fonte indispensável sobre a toponímia Tardo-Antiga.
A definição de IPSA, nesta época, como território ocidental limítrofe da diocese de Ossonoba significa que Ipses (Alvor) centralizava então todo o Barlavento, desde o Arade ao Cabo de São Vicente e, certamente, desde o mar aos cumes de Monchique. Uma das ilações a retirar é a omissão de Lacobriga.
Lacobriga terá provavelmente desaparecido como cidade, algures a partir do Séc. III ou IV. A ignorância sobre este povoado é total, incluindo a sua localização precisa. Desconhecem-se também as causas do seu desaparecimento, podendo apenas especular-se sobre um eventual paralelismo com Balsa: perda de privilégios marítimos da ordo a partir dos Severos, colmatação da laguna interior, fazendo desaparecer o porto primitivo e graves destruições produzidas por sismos e eventuais maremotos. A ocupação tardo-romana sofreria assim uma profunda alteração, no sentido da desurbanização e eventual abandono dos núcleos Alto-Imperiais, deslocação dos assentamentos rurais no sentido em se ajustarem às novas condições portuárias e estuarinas e, posteriormente, às novas necessidades defensivas.


BALTUM

Uma possível má leitura de uma moeda balsense


"Baltum" surge pela primeira e única vez em Silva Lopes (Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa 1841), como primitivo nome romano de Albufeira. Porém, e ao contrário do que lhe é habitual, este autor não indica nem a fonte nem uma justificação.
É provável que Silva Lopes tenha conhecido o termo por um seu informador de Albufeira, cuja identidade seria talvez possível indagar, no sentido de se tentar aprofundar o assunto.
Trata-se de um topónimo desconhecido nos corpora relativos ao Algarve, à Península Ibérica ou ao Império Romano.
Não existe nas fontes latinas ou medievais, na toponímia fóssil, na epigrafia ou na numismática.
A identificação de "Baltum" com Albufeira seria também uma situação anómala, pois não há conhecimento de vestígios romanos com carácter urbano na área da povoação, nem de materiais tardo-republicanos no contexto de uma ocupação indígena posterior ao séc. III a.C., tal como sucede nos restantes povoados proto-históricos do Algarve que cunharam moeda sob domínio romano (Ipses/Alvor, Cilpes/Rocha Branca, Ossonoba/Faro, Balsa/Cerro do Cavaco e Baesuris/Castro Marim).
Na realidade, nada se sabe da ocupação pré-islâmica da antiga península, correspondente ao actual centro histórico. A configuração natural, definindo um pequeno oppidum naturalmente fortificado na orla marítima, com um porto interior no divertículo estuarino hoje desaparecido, sugere no entanto um lugar com uma possível ocupação Proto-Histórica.
O facto de "Baltum" não ser referido por André de Resende (1597) nem por Sarrão (1607) nem por Vicente Salgado (1786) significa também tratar-se de um termo desconhecido pelo menos até finais do séc. XVIII, não pertencendo portanto à tradição historiográfica anterior
Os autores posteriores (Bonnet, Pinho Leal, etc.) limitam-se a copiar Silva Lopes, sem nada mais acrescentar, não podendo servir como fontes comprovativas ou independentes.
Poder-se-ia assim considerar "Baltum" um outro exemplo de invenção mais ou menos fraudulenta, produzida para nobilitar origens locais desconhecidas.
No entanto, a seriedade que Silva Lopes revela em toda a sua obra corográfica leva-nos antes pensar tratar-se, muito provavelmente, do resultado de uma leitura deficiente de um numisma antigo, encontrado algures na zona, nomeadamente de Balsa:
  • São conhecidos exemplares da cunhagem de Balsa (meados séc. I a.C.) em que o canto inferior direito é pouco legível. O "S" só apresenta o ramo superior (ficando semelhante a um "T") e o "A" praticamente desaparece.
  • É assim possível que o informador anónimo tenha lido BALT e que, com os seus conhecimentos latinos, tenha verificado tratar-se de uma palavra incompleta. Teria assim resolvido acrescentar o sufixo -UM, típico das terminações toponímicas romanizadas.
  • Sabe-se hoje da difusão regional das moedas balsenses, que têm aparecido em Faro e em Lagos (Molião), pelo que não seria extraordinária a sua ocorrência em Albufeira.
Note-se que esta hipotética leitura terá ocorrido antes de 1840, e portanto antes das moedas de Balsa serem conhecidas, o que só viria a suceder após 1866. Nesse ano, Estácio da Veiga identifica Balsa no extenso campo de ruínas romanas existente perto d Luz de Tavira e descreve algumas das moedas aí encontradas. Até essa data pensava-se que Balsa se localizaria sob a própria cidade de Tavira.





Exemplo de moeda balsense com legenda incompleta
Um exemplar semelhante pode ter originado a leitura BALT