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Monday, April 09, 2012

Gravura de Tavira do século XVII


Gravura de Tavira, de autor desconhecido do século XVII

Notas para o Atlas Histórico de Tavira
Este texto é um esboço incompleto do estudo desta fonte iconográfica, a incorporar no Atlas Histórico de Tavira. O plano desta obra pode ver-se neste blog, aqui: Atlas Histórico de Tavira.

 Imagem de Tavira. Séc. XVII.
Panorama. Jornal Literário e Instrutivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, 2ª Série, vol. 2, nº 80, Julho, 8, 1843

A gravura é uma "quase-paisagem", em que certos elementos são representados com dimensões desproporcionadas ou fora da sua posição real para caberem no enquadramento, e em que o casario secundário é reduzido em número e simplificado na forma.
O único estudo que conheço sobre a gravura é da autoria de António Sebastião e Silva (CGST)[1].
Nunca foi feita uma abordagem analítica sistemática, sem dúvida por não se conhecerem outras representações urbanas suficientemente próximas ou com alçados comparáveis.
Esta situação alterou-se radicalmente com a revelação da planta de Leonardo de Ferrari (FERR) e do "Borrão do alçado de Tavira" de José de Sande Vasconcelos (BAT), ambas previamente desconhecidas pelos estudiosos da história urbana de Tavira.

Estudo analítico
Esse estudo analítico – de que aqui se apresenta uma primeira versão – fica porém muito facilitado a partir das referidas plantas e de um "modelo digital de terreno" do espaço urbano actual.
A sua realização é um exercício didáctico elementar de geografia histórica urbana, cujo enunciado se pode estabelecer do seguinte modo:
- Identificação prévia dos elementos da gravura que servem de marcadores de paisagem
- Determinação do ponto de tirada da vista
- Ajustamento e sobreposição da cartografia mais próxima no tempo à gravura
- Avaliação do rigor topográfico da gravura
- Sistematização dos elementos urbanísticos identificados
- Estimativa de um intervalo de datação da gravura, a partir da datação de elementos já aí representados mas omissos em FERR, com base em fontes documentais e estudos específicos
- Contribuições específicas da gravura para o conhecimento da arquitectura e da forma urbana
Aqui tratarei apenas sumariamente de alguns destes pontos.

Marcadores de paisagem e pontos de tomada de vista
A figura seguinte mostra a selecção de marcadores de paisagem (identificados segundo uma numeração arbitrária sistematicamente usada neste estudo: ver lista mais adiante) e a sua implantação no espaço topográfico real. 
A planta é de um modelo digital de terreno com uma resolução altimétrica de 1m.
Mostra também os alinhamentos dos marcadores da paisagem percepcionados segundo a sequência visual e a profundidade visual da gravura, idealmente convergentes para pontos únicos de tomada de vista, definidos pela sua intersecção.

 Planta e modelo digital de terreno da área urbana de Tavura, com marcadores de paisagem, alinhamentos e pontos de tomada de vista da gravura

O ponto de tomada de vista principal da gravura assim definido (designado por A) situa-se num pontal planáltico sobreelevado sobre todo o vale do Gilão, hoje situado a sul da Rua de Miraflores, junto ao logradouro/largo da Rua Brigadeiro Eduardo José dos Santos. Este ponto de vista define o plano de visão da gravura, paralelo ao eixo do rio.

Os alinhamentos e a sequência visual são quase perfeitos e sistemáticos para todos os marcadores de paisagem seleccionados, com excepção dos eixos da Rua da Porta Nova e da Carreira de S. Lázaro, que surgem grandemente distorcidos no conjunto.

O alinhamento e sequência visual destes eixos extemporâneos correspondem na realidade, não a um erro de desenho, mas sim a um segundo ponto de tomada de vista (assinalado como B). A ponte surge como charneira comum entre ambas as perspectivas.

Tudo indica assim que a gravura se obteve pela composição de elementos de ambos os pontos de tomada de vista, com grande predominância do primeiro.

Implantação e sobreposição da gravura na planta de Ferrari

 1 - Modelo da planta original de Leonardo de Ferrari (c. 1555) cf. FERR.



2 - Modelo da mesma planta rodada e perspectivada de modo a corresponder aproximadamente ao ângulo de visão da gravura

 3- Modelo da mesma planta distorcida para se ajustar aproximadamente à gravura.


Erros
A gravura só é conhecida através de uma litografia publicada em 1843, em época anterior à reprodução fotográfica generalizada. Não é possível portanto saber-se se alguns erros de omissão e simplificação são originais ou devidos a erros da cópia manual para a matriz litográfica
A gravura apresenta sete erros mais ou menos evidentes:
-  A ermida da Senhora do Loreto e as casas nobres que a incluem são omissas. As casas já são representadas em FERR (e a ermida já existe em 1573, aquando da visita de D. Sebastião à cidade) e o conjunto é destruídas apenas em 1888.  A sua omissão na gravura só se compreende por erro de desenho.
-  A ponte tem uma dimensão desproporcionada e está sobreelevada relativamente ao rio
-  O castelo tem uma altura desmesurada. Todo o andar superior abaluartado é imaginário
-  As torres da cerca da Graça e, sobretudo, o torreão manuelino da porta "nova" da Bela Fria estão sobredimensionados, sobretudo em altura.
-  A muralha almóada entre o muro albarrã da Porta do Mar e a Porta da Vila não está representado, sendo substituído por casas fantasiosas
-  A qualidade artística dos alpendres e arcada das casas da Câmara junto à Alfândega é má, permitindo apenas adivinhar os arcos a quem saiba da sua existência por outras fontes.
Tendência para a distorção "abaluartada" das paredes verticais: é o caso manifestamente exagerado da ponte e do castelo e, em menor grau, da torre do mar e da capela ameada da Igreja de Sant'Ana
Tudo o resto parece ser aceitavelmente rigoroso dentro do esquematismo simplificado seguido, quer quanto às posições relativas na paisagem quer quanto aos detalhes arquitectónicos dos edifícios mais notáveis.
  
Sistematização dos elementos arquitectónicos identificados

 
  1. Convento das Bernardas
  2. Igreja de S. Sebastião
  3. Convento de S. Francisco
  4. Castelo
  5. Igreja de Santa Maria
  6. Convento da Graça
  7. Torre Norte da Cerca da Graça (muralha medieval almóada)
  8. Igreja de S. Roque
  9. Casa de Vaz Velho
  10. Pelames
  11. Torre manuelina da porta da Bela Fria
  12. Barbacã manuelina
  13. Palácio da Galeria
  14. Torre e Porta do Mar
  15. Praça da Ribeira
  16. Alfândega: edifícios e terreiro
  17. Horta do Rei e Horta do Bispo
  18. Edifícios singulares
  19. Ponte
  20. Igreja de S. Lázaro
  21. Porta Nova
  22. Igreja da Sra. da Ajuda e Convento de S. Paulo
  23. Largo da Alagoa
  24. Igreja de Sant'Ana
  25. Rua Direita do Corpo Santo
  26. Rua do Sapal
  27. Estrada para Castro Marim (Carreira de S. Lázaro)
  28. Rua da Porta Nova
  29. Estrada do Cano para Faro
  30. Rua do Sapal de Sant'Ana. Caminho para Vale Formoso
  31. Rua do Alto do Cano e estrada de Loulé
  32. Rua da Praia da Ribeira (Porto de Tavira)
  33. Adro da Porta da Vila
  34. Largo/Terreiro da Corredouras
  35. Torre do canto Noroeste da cerca da Graça
 Tipos de elementos

A    Casas conventuais
B    Igrejas e ermidas
C    Fortificações medievais: castelo e muralhas
D    Portas e cercas fiscais pós-medievais
F    Casas particulares notáveis       
G    Hortas e campos agrícolas
H    Largos e Terreiros
I     Edifícios de comércio e administração local
J    Edifícios de manufacturas (curtumes)
K    Eixos de arruamentos e limites de largos


O sobredimensionamento
O sobredimensionamento referido atribui um estilo "maneirista"  á gravura, em que o desenhador aumenta selectivamente os principais símbolos urbanísticos de prestígio da povoação: a ponte, que é o ex-libris da cidade, e a fortificação medieval, cujo valor é porém meramente simbólico visto ser já completamente anacrónica na época.

A ponte (Nº 19)
A gravura mostra a ponte antes da sua grande reconstrução de 1655-57, que criou a estrutura que permanece até hoje nos seus traços fundamentais (TST1, 300-1).

O grande gigante ou quebra-mar central representado na gravura e em FERR, é interpretado por Sebastião e Silva como tendo tido inicialmente um carácter fortificado (FPT, 141).
As "casas" que aí existiram segundo Sarrão (em 1607: SARR, 166) terão tido uma existência efémera pois ainda não existem em FERR e já não sobrevivem na gravura.
Na gravura, os talhamares bem evidentes em FERR conseguem individualizar-se com alguma dificuldade. Os dois primeiros arcos da margem esquerda não estão representados, tapados pela perspectiva do casario. Correndo o risco de sobreinterpretar o desenho muito esquemático parece que o 6º arco, mais próximo da margem pode ter sido sobreelevado, possivelmente para permitir a passagem de barcas de maior calado.
Na reconstrução dos dois pilares aluídos do lado sul (nº 4 e nº 5) o arquitecto decidiu também arrasar o antigo gigante (nº 3), reconstruindo-o de novo e acrescentando mais um arco e um pilar do lado Sul, diminuindo assim os respectivos vãos. Todos os novos pilares têm a forma de castelejo, sendo o 3º ligeiramente maior – provavelmente com uma dimensão semelhante ao original. É fácil distingui-los, comparando a ponte de FERR com a planta da ponte actual.
 Plantas da Ponte aproximadamente na mesma escala e orientação.
Em c. 1555 (FERR), c. 1798 (BAT) e na actualidade (Monumentos Nacionais)

O castelo (Nº 4)
A representação do castelo ultrapassa o simples exagero dimensional: acima do nível real das ameias (bem perceptível na gravura e muito mais baixo do que as torres da Igreja de Santa Maria) o autor inventa uma extensão abaluartada e ameada, em que duas das torres se representam com telhados sobrepostos (um de quatro águas e um de duas águas!).
 Alinhamento comparativo aproximado do Castelo e Igreja de Santa Maria.
Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)
 Relação altimétrica real entre o Castelo e a Igreja de Santa Maria

A gravura, para além de uma base realista indiscutível, pretende difundir uma mensagem de poderio defensivo, tão simbólico quanto anacrónico. Porém, a própria realização da gravura e a invenção do castelo poderão corresponder a um projecto de reconstrução da fortaleza, no sentido de a tornar de novo eficaz no contexto militar da época.
Esta necessidade premente e generalizada colocou-se, como se sabe, ao recém-restaurado Estado português após 1640, o que permitiria datar a gravura logo a seguir à Restauração, isto é, a partir de 1641.

Elementos urbanos que surgem pela primeira vez na gravura

A gravura mostra uma série de elementos que ainda não existiam na planta de Ferrari, sendo portanto posteriores a ela:
 -  Nº 6: Edifícios novos do convento da Graça, iniciados em 1569 e concluídos já no séc. XVII.
 -  Nº 22: Convento de S. Paulo, concluído c. 1605.
 -  Nº 5: Torre sineira da igreja de Santa Maria (a da esquerda na gravura), de data por mim desconhecida. Fica por esclarecer em que medida esta data poderá contribuir para avançar o limite post quem do intervalo de datação da gravura.
 -  Nº 21: Porta Nova, provavelmente coeva da porta do Malforo, já existente em 1573.
·     -  Nº 13: Fachada nobre do Palácio da Galeria, já existente em 1635[2].

As casas de Câmara (Nº 16)
A representação das "casas da Câmara", arcada e alpendres junto à Alfândega revela a ausência de telhados sobre os referidos alpendres, assim como a ausência de um piso superior.

A casa do lado do rio – dos antigos açougues – parece estar também parcialmente destelhada.
Como já disse, os arcos não são explícitos para quem não conheça a sua existência, o que constitui uma dos pontos fracos do desenho.

Tendo em conta a fidelidade geral dos detalhes nos demais edifícios notáveis, é difícil aceitar que o "destelhamento" seja um erro do desenho (embora tal seja obviamente possível, pois o desenhador "esqueceu-se" das casas do Loreto!).

A alternativa mais provável é tratar-se de facto de uma representação fidedigna, de uma fase de obras notórias de reparação/reconstrução dos edifícios. 

Tal permitiria datá-las numa data imediatamente anterior a 1645, altura em que as casas sobre os alpendres (já com piso superior) são usadas como aposentadoria do Corregedor, sendo essa a razão mais plausível para a realização das obras.
 

Datação

Em conclusão, a datação mais provável da gravura é, em graus crescentes de precisão mas também de incerteza:
   - Primeira metade do século XVII
   - Entre 1605 e 1645, sempre antes de 1657.
   - O intervalo pode ser encurtado tentativamente para 1641-45, considerando o que acima foi dito sobre o eventual projecto de modernização da fortaleza posterior à Restauração portuguesa.

Elementos arquitectónicos inéditos

   - Abside ameado da igreja de Sant'Ana (Nº 24)
   - Casa de Vaz Velho (Nº 9).
   - Edifícios singulares junto ao porto (Nº 18), ainda inexistentes em c. 1555 (FERR) e já omissos em c. 1797 (BAT).

Comparação muda de elementos urbanísticos seleccionados

Comparação gráfica de elementos urbanos da gravura com as respectivas plantas e alçados nas cartas de Leonardo de Ferrari (c. 1555) e Sande de Vasconcelos (c. 1798). A explicação e a sinalização das alterações relevantes, decorrentes da evolução histórica dos locais, serão incluídas numa versão posterior. 

Em c .1555 (FERR), na gravura e em c. 1798 (BAT)

  Conventos das Bernardas (Nº 1)

 
  Convento de S. Francisco (Nº 3)


Igreja de Sant´Ana (Nº 24)


 Porta e Torre do Mar (Nº 14) e Adro da Porta da Vila (Nº 33)

 Torre da Porta "Nova" da Bela Fria (Nº 11) e torres da cerca da Graça (Nº 7 e Nº 35)


Bibliografia

ACA        Catarina Almeida Marado, Antigos Conventos do Algarve. Um percurso pelo património da Região, Colibri, Lisboa, 2006
BAT         José Sande de Vasconcelos: ver neste blog Alçado da Planta de Tavira. Finais séc. XVIII http://imprompto.blogspot.pt/2010/01/alcado-da-planta-de-tavira-finais-sec.html
CGST       António Sebastião e Silva, " Considerações sobre a gravura seiscentista de Tavira" in Tavira do Neolítico ao Século XX. Actas das II Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1993; pp. 135-143.
CNSG      Daniel Santana, "O convento de Nossa Senhora da Graça de Tavira", Monnumentos, 14, D.G.E.M.N., Lisboa, 2001, 124-133.
CRA        Frei João de São José, "Corografia do Reino do Algarve", 1577, in DDA21-132.
DDA        Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães (Edição, estudo e notas), Duas descrições do Algarve do Século XVI, Sá de Costa, Cadernos da Revista de História Económica e Social, 3, Lisboa, 1983        
FERR       Leonardo de Ferrari: ver neste blog Uma planta inédita de Tavira, do séc. XVI  http://imprompto.blogspot.pt/2008/04/uma-planta-indita-de-tavira-do-sc-xvi.html
FPT         António Sebastião e Silva, "As Fortificações Pós-Medievais em Tavira", in Actas das III Jornadas de História, Clube de Tavira, Tavira, 1997; pp. 207.
HRA        Henriques Fernandes Sarrão, "História do Reino do Algarve", 1607, in DDA, 133-170.
JAA         João Cascão, (Ed., estudo e notas de Francisco de Sales Loureiro), Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve (1573), Livros Horizonte, Lisboa, 1984.
NHT        Damião A. de Brito Vasconcelos, Notícias Históricas de Tavira. 1242/1840, (Notas de Arnaldo Casimiro Anica), Câmara Municipal, Tavira, 1989 (1937).
NNHT      Arnaldo Casimiro Anica, Notas in NHT, 1989
TST1       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico, Câmara Municipal, Tavira, 1993
TST2       Arnaldo Casimiro Anica, Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico. Volume II, Câmara Municipal, Tavira, 2001


[1] Estudo inovador na altura, quando a historiografia do urbanismo tavirense tinha ainda um carácter notoriamente pré-científico, com opiniões que o autor rebate justamente, caso a caso. Muitas das suas ilações, assim como a sua aceitação literal das representações, já não podem porém ser aceites hoje.
[2] TST1, p. 286: Data de 1635 a doação das "casas da Calçada que vai de Santa Maria para a Fonte, à mão esquerda" pela viúva de Luis de Aragão de Sousa ao seu filho.

Monday, June 30, 2008

Portos do Sul em 1634

Extracto do Atlas de Pedro Texeira referente à costa e portos do Sul de Portugal

"Descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos", Pedro Texeira, 1634. Edição "El Atlas del Rey Planeta", ed. Felipe Pereda e Fernando Marías, Nerea 2002.
Sobre esta obra, ver
aqui.
O texto da "Descrição Literária" corresponde à transcrição de Luis Zolle na referida edição (pp.340-3, fol. 53r a 57r). A leitura deste post não substitui, de modo nenhum, a consulta do original.

Da Trafaria a Sezimbra
De la punta de la Trafaria camina la costa al mediodía, hia fuera de la barra de Lisboa en el Mar Oçéano.
Seis leguas está vn cauo que llaman de Espichel, sin en toda esta distancia auer surgidero ny plaia de consideraçión.
Queda este cauo de Espichel del de la Roca de Sintra nuebe leguas de distançia, que pareçe ser el reçibimiento que le ase el Oçéano al famoso río Tajo.
Del cabo de Espichel buelue la costa al leuante.

Sezimbra
Vna legua de él se aze vna plaia de arena y por ella se entra / en el mar vn río, en cuia margen está situada la uilla de Sezinbra.
Lugar de buena poblaçión, el puerto no es más que vna plaia de poco abrigo.

Sezimbra a Setúbal
De Sezinbra ba la costa continuando alta asta la barra del río Çadam.
Tres leguas al leuante y junto a ella de la parte del septentrión aze la costa vna punta en la qual está vn castillo que llaman la Torre do Tom, con buena artillería para la defença desta barra, que pasado él se entra en el puerto que es grande y de forma sircular.

Fólio 69: "Barra y puerto de Setubal" Aqui versão pdf

Setúbal
Vna legua está la famosa villa de Setúbal, así por su anteguedad y poblaçión como por el muncho trato que en su puerto tiene.
Está situada la uilla de Setúbal junto a la mar de su puerto, estendida por su ermosa plaia.
Es esta uilla la más antigua y noble deste reyno de Portugal.
Es sercada de buenos muros con muy altas torres y grandes ydefiçios.
Tiene vn castillo a la parte del poniente.
Distante de la uilla está, tiro de mosquete, el castillo de San Felipe con muy buena artillería para la defença del puerto.
Fabrican en esta uilla munchos nauíos y dellos y otros munchos que bienen de munchas partes cargan de sal, de que esta villa abunda en gran cantidad.
El puerto es capaz de munchos nauíos, aunque la barra es algo deficultoza por el poco fondo que tiene.
Dentro en el puerto se entra vn río cuia barra es la de Setúbal que, como queda dicho, se llama río Çadam. Nauegan nuebe leguas por él asta la uilla de Alcáçar de la Sal.

De Setúbal a Melides

Y de la parte del mediodía deste puerto es toda tierra baxa y alagadiza.
Quédale enfrente a la uilla vna punta de tierra baxa que llaman de Faro.
Se veen vnas ruynas de grandes ydefiçios y se tiene aueren sido de vna gran ciudad que fue fundada de los troianos a devoçión de su Troia.
Y se conserua este mismo nonbre en estas ruinas, llamándole Troia. Adelante, fuera desta barra y puerto de Setúbal, ba la costa / al mediodía toda de arena y alagadiza.

Fólio 70: "Entrada a Melides" Aqui versão pdf

De Melides a Sines
Nueue leguas está la uilla de Milides, en la orilla septentrional de hun río cuia barra no es de menos deficultad que las dichas, antes de muncha más por ser de muy poco fondo y tan angosta que van los nauíos dando en la arena con los laos de las entenas.

Es esta uilla çercada y,aunque con tan mala barra, no dexa de ser de trato.
Della trez leguas sirue la costa alta y sin en esta distançia auer desenbarcadero ny plaia donde poderlo yntentar.

Fólio 71: "Bhaia de Sines" Aqui versão pdf

Sines e ilha do Pessegueiro
Está la uilla de Odesines en vna caleta, donde dan fondo munchos nauíos y con abrigo y siguridad, así de los bientos como de los ynemigos, por tener a la entrada del puerto, de la parte del mediodía, vn castillo con seis pieças de artillería.
Es esta villa de muy grande poblaçión y trato, murada toda de muy fuertes muros.
Desta uilla vna legua aze la costa vna ensenada que da fin con vna punta, junto a la qual está vna ysla que llaman del Pesigueiro, donde se abrigan los nauíos en vna caleta que tiene a la parte del mediodía.
En lo alto tiene hun castillo con artillería para la defença de su puerto.
De la ysla y cabo dicho se entra la mar y aze huna grande ensenada donde está, a la parte del septemtrión, vn lugar que llaman San Giraldo.

Fólio 72: "Villa nueva de mil fuentes" Aqui versão pdf

Da ilha do Pessegueiro ao rio Mira e foz do Mira
De él continúa la costa trez leguas, toda alta y despoblada, azia donde se entra en la mar vn río cuia barra no es de consideraçión para más que pequeños barcos y, quando muncho, carauelas.

Llámase este puerto de Eldemira, por vna villa que de é1 dista dos leguas, situada en la orilla del dicho río, çercada y de muy buena poblaçión.
Quedando poco distante de la dicha barra, de la parte del septemtrión, vna villa que llaman Villanueba de Milfuentes.
Y de la parte del mediodía, casse sobre la barra, otra villa que llaman Villafremosa.

Do rio Mira à ribeira de Odeceixe e ao Sardão
De aquí trez leguas al mediodía, como sienpre ba la costa, siendo toda alta y sin plaia, / en el fin della eztá otra barra que ase vn pequeño río.
Tiene a la parte del mediodía vn lugar que llaman Odexeixa.
Pasado este río ba la costa alta y al cauo de dos leguas aze vna cala, enfrente de la qual, vn tiro de mosquete, está vna ysla despoblada que llaman la Arrifana.
Y adelante della, en la costa, se aze vn puerto a vna legua de la ysla donde no entran sino barcos.
Y de él media legua está el lugar que llaman Carapeteira.
Pasado esta barra vna legua adelante aze la costa vna plaia de arena y en ella el lugar do Çerdao, cercado y de buena poblaçión.
En la plaia dan algunos nauíos fondo aunque sin abrigo por ser abierta.
En este lugar o villa do Serdao da fin la costa del reyno de Portugal y se sigue la del reyno del Algarue.

Fólio 73: "Albufeira [sic!]" Aqui versão pdf

Do Sardão ao cabo de São Vicente
Por el lugar del Serdam, por donde queda dicho en la relación de la costa de Portugal se diuide la deste reyno del Algarue y, començando de él al mediodía trez leguas, ba la costa alta y despoblada asta el selebrado cauo de San Viçente, ansí de los antiguos, que le ueneran por santo llamándole Sacrum Promontorium, y de los modernos en las nauegaciones que azen.
Y de buelta dellas para España le uienen sienpre a buscar y le conocen por cauo de San Viçente, teniendo con su uista sifradas las esperanças de su buena nauegaçión.
En él da fin la costa oççidental de España y prinçipio la meridional.

Fólio 75: "Cabo de S. Vicente" Aqui versão pdf

Cabo de São Vicente e promontório de Sagres
Es este cauo de San Viçente alto y peinado.
Tiene en lo rods yminente vna yglezia didicada al glorioso y santo mártir y al pie, en la mar, vna ysla o gran peña. Buelto este nonbrado cauo de San Viçente ba la costa al leuante.
Vna legua, en vna punta de tierra alta que buelta ella se entra en el puerto de Sagres, está vn castillo moderno con muy buena artillería de bronze para la guarda del dicho puerto.

Sagres
Esta punta se aze vna gran plaia y en ella está situada la villa de Sagres, siendo toda çercada de muy fuerte muro y de grande poblaçión.
Tiene muelles para el abrigo de los nauíos, acudiendo de ordinario munchos por la facilidad deste puerto y su trato.


Fólio 76: "Puerto de Sagres" Aqui versão pdf

De Sagres a Lagos
Vna legua desta villa se entra en el mar vna punta que llaman de la Estada.

Della adelante se entra la mar y aze vna ensenada de más de vna legua a que llaman puerto del Soncal.
Tiene dentro esta ensenada dos ysletas altas.
Y adelante remata la ensenada con vna punta que della que [sic] queda a la parte del leuante que llaman de la Bordeira, siendo toda esta tierra despoblada asta la çiudad de Lagos.
Adelante desta dicha punta forma la costa vna ensenada o plaia que llaman de Santa María.
Poco adelante della, cosa de media legua, se puede dezenbarcar / y as í lo ysieron los ynglezes el año de 1597.
Vna legua adelante deste desenbarcadero se entra en la tierra vn bravo de mar a que llaman la Almadraua.
Boluiendo la costa a la mar forma vna punta donde en lo alto della está vna torre o atalaia a que llaman la Torre Allina.
Y boluiendo della a la parte del septemtrión se aze vna plaia. Al prinçipio della ay hunas peñas y adelante está situada la çiudad de Lagos.


Fólio 78: "Costas de Villa nueva de Portiman" Aqui versão pdf

Ria de Lagos: Lagos
Dista la çiudad de Lagos del cauo de San Viçente siete leguas al poniente, como por menor queda dicho.

Es esta çiudad la prinçipal deste reyno.
Está situada junto a la plaia de su puerto que queda mirando a la parto del leuante.
Es toda çercada con muy fuertes muros y adornada de ermosos ydifiçios.
Asiste en ella el gouernador del reyno y su obispo.
El puerto no es, por set plaia, de muncho fondo y así no asisten en ella nauíos de muncho porte.

De Lagos a Portimão
Desta çiudad y su puerto adelante continúa la costa toda de arena.

Vna legua se entra en el mar vn río donde está vna villa que llaman Aluor.
De la barra deste río sale la tierra de la parte del leuante y aze dentro en el mar vna punta.
En lo alto della está vna ermita de Santa Catalina.
En este mar se pescan munchos atunes.
Buelta esta punta de la parte del leuante della se entra en la barra de Villanueba de Portimán.

Rio Arade: Portimão
E
s la uilla de Villanueba de Portimán la mejor de todas las desta costa, así por su buena poblaçión como por ser el puerto el más seguro y capaz de toda ella.
Su barra es la de más fondo de las desta costa.
Éntrase en ella por quatro braças y dentro tiene trez.
Y dan en el puerto los nauíos en sinco de fondo.
Es toda esta villa çercada de buenos muros.
Y de la parte del río, enfrente del puerto y villa, está vn lugar que llaman Ferrudo.
Y de la misma / parte del leuante, en la barra en vn alto, está vna ermita que llaman Nuestra Señora la Blanca.

Do rio Arade a Faro
De aquí ba la costa aziendo vnas caletas, donde se sulían esconder munchas fustas de moros, asta vn cauo que queda de la barra de Villanueba vna legua, que llaman cauo Caruonero, adelante del qual tiro de mosquete, en vna punta alta, está vna torre que llaman La Caruonera.

Della se entra la costa y ase vna ensenada toda descubierta donde arman a los atunes.
A una legua de la dicha torre está vn lugar que llaman Porches.
Adelante de él se entra el mar y aze vna cala que llaman de Pera, donde se puede dar fondo.
Della a una legua se entra en el mar vn río del mismo nonbre.
Tiene esta caleta a la entrada dos peñas que llaman peñas de la Galera.
El río no es nauegable, ny en su margen tiene poblaçión ninguna.
Pasado adelante huna legua deste río en vna punta que sale a la mar está otra torre.
Adelante della aze la costa vna plaia en la qual está la villa de Albufeira.
Tanbién en esta ensenada ay muncha pesca de atunes, que en toda esta costa los ay en gran número, rematándose esta dicha plaia con vna punta por junto a la qual se entra en el mar vn riachuelo.
Y en la orilla de la parte del leuante de el se sigue la costa baxa y con vnas yslas junto a ella que sólo se diuiden de la tierra por vnos angostos canales de agua.
Son todas estas yslas que uan seguiendo toda esta costa al leuante de arena.
Y la punta de la primera que queda referido se llama Piedras Negras.
Vna legua por entre la ysla y la tierra está vna torre que llaman Torre de la Quarteira. Della a otra legua se entra en la barra y puerto de la çiudad de Faro.

Fólio 79: "Cabo de S. Maria" Aqui versão pdf

Faro
Está situada la çiudad de Faro de la parte del poniente de su puerto.

Es lugar de muy grande población, murada de fuertes muros.
Tiene munchos nauíos que deste lugar se aprestan para munchas partes y otros que al puerto bienen a cargar de vinos, pasas y ygos que la tierra produze en gran cantidad.
Su barra no es de las mejo/res ny tanpoco de las peores desta costa.
Entran los nauíos por quatro braças en ella y ba diminuhiendo asta en medio, donde no tiene más que braça y media de fondo, y dentro ban los nauíos dar fondo enfrente de la çiudad en siete braças.

De Faro a Tavira
Desta çiudad y su puerto vna legua y media al leuante, como sienpre ba la costa, en la punta de la parte del leuante de la ysla que aquí le está frontero está hun lugar que llaman Villamarín. situada en la arena, de que es toda esta ysla, junto a un canal que entra azia la tierra que llaman Genaro.

Y pasado éste está luego otro que llaman Bias. De Villamarín dos leguas y media está la barra del puerto de la siudad de Tauira.

Fólio 80: "Puerto de Tavila" Aqui versão pdf

Tavira
Es esta ciudad de Tauira de mejor poblaçión y puerto que Faro, aunque su barra es tan trabaxosa como las demás.

La siudad es toda muy bien çercada de buenos muros.
Está situada de la parte del poniente de su puerto, tan junto a él que con la marea le baxa sus murallas.
Dan fondo los nauíos muy cerca de la siudad en siete y seis braças.
Está distante de la barra vna legua y en ella de la parte del leuante, en vna ysla de arena, tiene vn fuerte castillo que llaman de Tauira, con muy buena artillería de bronze.
La barra es muy larga y angosta. Entran los nauíos en ella por seis braças y ba en diminuysión asta dentro della se allar en dos y, pasada dentro hia en el puerto, buelue a creçer el fondo asta siete braças que, como arriba queda dicho, dan fondo los nauíos.

De Tavira a Castro Marim

Seis leguas desta ciudad y su puerto ba la costa caminando al leuante, como asta aquí sienpre seguida y acompañada de las dichas yslas de arena, y cazi toda despoblada sin más que en casi media distancia auer vna yglezia junto a un arroio que llaman Nuestra Señora de Caçela.
Al fin de las dichas seis leguas se entra en el mar el caudaloso río Guadiana, que diuide con su corriente este / reyno del Algarue del de Andaluzía, quedando por vltimo de la parte del Algarue la uilla de Castromarín que está situada de la parte del poniente del río Guadiana.

Fólio 83: "Barra del rio Guadiana" Aqui versão pdf

Rio Guadiana: Castro Marim
Es la uilla de Castromarín lugar muy antiguo y fuerte por su sitio.

Es toda murada de fuertes muros y en lo más yminente de su poblaçión tiene vn fuerte castillo, como frontera que era a los moros antiguamente de Andaluzía.
Y en aquel tienpo fue bailía de la orden militar de Cristo que después se paçó a la uilla de Tomar.
Dista media legua de la uilla de Aiamonte, primer lugar de la parte oççidental del reyno de Andaluzía, diuidiendo a estas dos villas la anchura del río Guadiana con su puerto, que se dirá de su capacidad en la tabla de Andaluzía, por le tocar a Ayamonte y ser esta uilla de maior trato que la dicha de Castromarín.

Rio Guadiana: Ayamonte
De la margen de la parte del leuante del caudaloso río Guadiana, donde está situada la uilla de Ayamonte, da prinçipio la costa del reyno de Andaluzía.
El primer lugar y más oççidental de la costa de Andaluzía es la uilla de Aiamonte que está situada en la orilla oriental del famoso río Guadiana.

Es lugar sercado y de grande poblaçión. Su puerto no es de tan poco fondo que no fuera capaz de gruesas armadas si la barra fuera más fácil de tomar, porque la diuide en dos vn banco de arena.
Y la [barra] por donde entran los nauíos de maior porte es por la que queda más a la parte del poniente, por ser más ancha que la otra.
Tiene esta barra en su entrada trez braças, y en medio vna, y adelante ba cresiendo asta diez braças, donde dan los lauíos [sic] fondo enfrente de la uilla y su plaia.

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