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Saturday, September 29, 2007

Um projecto de prospecção geofísica de Balsa



A Câmara Municipal de Tavira (CMT) declarou recentemente a sua intenção de proceder a prospecção geofísica na zona da antiga cidade romana de Balsa.

http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/archport/msg02007.html

Trata-se de um projecto já antigo e há muito esperado, que finalmente se vai concretizar.

A CMT afirma que o fará com o intuito de contribuir para o aumento do conhecimento sobre a cidade, o que é um objectivo muito louvável , que conta sem dúvida com o total apoio da comunidade científica e do público civilizado.

Quero querer que o título "desmistificar a cidade de Balsa" se trata de um lapso. Penso que o relator deve ter querido dizer "desmitificar" e que o infeliz erro alterou significativamente o sentido. De facto, desmistificar através de prospecções poderá ser entendido como a intenção prévia de pôr fim aos erros e enganos sobre a alegada (como agora de diz...) existência de ruínas no local!

30 anos de destruições na Torre d'Aires

Vem isto a propósito de se comemorar no próximo ano (2008) o 30º aniversário do início da destruição radical das ruínas enterradas, pelos proprietários da Quinta da Torre d'Aires, iniciada em 1978. Essa destruição teve episódios mais selvagens em 1980 e 1996 e continua esporadicamente ainda hoje, embora o essencial já tenha sido eliminado.

Quinta da Torre d'Aires. Destruição do solo arqueológico 1

Quinta da Torre d'Aires. Destruição do solo arqueológico 2

Quinta da Torre d'Aires. Destruição do solo arqueológico 3

Quinta da Torre d'Aires. Escombreira de remoção clandestina de materiais romanos
Fotografias aéreas de Lúcio Alves - 1996
Dos cerca de 42 ha da quinta foram subsolados talvez mais de 30, deixando apenas escarpas e bosque, zonas marginais, logradouros, caminhos e a área urbana. Embora subsista aparentemente intacta a zona do casario (da maior importância arqueológica!) e de haver esperança que o fundo do porto interior possa estar intacto sob nível de destruição, de resto já não sobreviverá muito.


As zonas excluídas de Balsa

A limitação de Balsa à Quinta da Torre d'Aires constitui um erro arreigado, que tem sido perpetuado por publicações sobre materiais da cidade.

Não se trata de um mero detalhe mas de um erro com graves consequências, pois fundamentou a exclusão das zonas do Rato, Arroio e da maior parte das Antas do perímetro classificado de Balsa, apesar da sua conhecida ocupação arqueológica (já para não falar das Pedras d'El-Rei, onde ainda recentemente foi descoberta mais uma fábrica de salgas, a 3ª registada no local).

É sobretudo nestas zonas, quintas parceladas há 30 anos ou mais, que se verifica um escandaloso crescimento urbanístico em plena zona arqueológica, associado a fascinantes histórias "off-the-record" sobre achados e destruições.

De facto, as moradias, piscinas e a jardinagem paisagística têm sido os principais factores da destruição recente e continuada dos vestígios de Balsa. Essa destruição prossegue com grande vigor na actualidade (2007) devido ao mercado imobiliário, que transformou a zona numa área de grandes moradias, de elevado preço.

Uma análise elementar sobre os prédios urbanos definidos no cadastro elaborado na década de 1980, contrapostos às casas efectivamente construídas, assim como a evolução do crescimento das áreas implantadas, constitui um exercício revelador da metástase imobiliária em acção.

Tratam-se, naturalmente, de obras e construções legais e devidamente licenciadas e haverá certamente substanciadas razões para a CMT assim proceder!

Na maioria desta área não há porém indícios de destruições tão profundas como na Torre d'Aires, permanecendo uma zona de eleição para prospecções não invasivas.


A parte submersa de Balsa

Devo sublinhar também a importância da zona da ria limítrofe à antiga cidade. Como se sabe, as dragagens no canal norte, junto à margem, revelaram por duas vezes materiais de construção de muros, não muito longe do local onde, também no canal, foram descobertos vestígios de estruturas e as célebres lápides referentes ao circo de Balsa.

Conhece-se em termos gerais o processo de evolução do sistema dunar e das ilhas-barreira, mas aqui a prospecção geofísica é uma técnica insubstituível para tentar reconstituir a barra, o canal e a ilha-barreira antigas e tentar localizar as estruturas que, sem dúvida, existiram nesta última e sob as dunas da margem. Isso para além do bónus de eventuais descobertas do âmbito da arqueologia naval.


Uma intervenção científica ou perversa?

Sou da opinião, portanto, como estudioso dedicado de Balsa desde 1999, que a CMT, para cumprir o seu objectivo declarado de contribuir para o conhecimento de desaparecida cidade, deve desenvolver um criterioso plano científico de prospecções, baseado no conhecimento fino do terreno arqueológico e que articule as perspectivas de retorno de conhecimento com as disponibilidades financeiras existentes.

Limitar a intervenção a uma prospecção cega e sistemática do terreno da Quinta da Torre d'Aires não tem fundamentação científica e pode, pelo contrário, ser interpretado de duas maneiras perversas:



  • Como um bodo aos proprietários da Quinta da Torre d'Aires, que após estarem 30 anos a destruir uma parte enorme da cidade romana, vêm recompensados os seus esforços com um relatório oficial que vai revelar não existirem ruínas (ou quase), podendo assim accionar o pedido de desclassificação de um terreno de c. 42 ha numa situação única no Algarve, com um valor imobiliário incalculável e para o qual há muito que correm rumores sobre interesses milionários. Neste cenário, um canteirinho de ruínas romanas providencialmente descobertas daria imenso sainete ao “Balsa resort”!
    Neste contexto é significativo referir que os proprietários, aquando do processo de classificação arqueológica realizada pelo IPPAR, salvo erro em 2005/6, protestaram contra a classificação por não haver provas da localização de Balsa ou existiram ruínas significativas no terreno!
  • A exclusão das Antas, Arroio e demais zonas limítrofes pode também ser interpretada como uma manobra de ocultação/desvalorização da sua importância arqueológica, tendo com objectivo o livre prosseguimento da actual política de urbanizações e consequente destruições.

Perante estes dilemas estou seguro que Tavira, através da Câmara Municipal, saberá tomar a melhor decisão para honrar o seu compromisso histórico perpétuo com a memória de Balsa e dos malogrados balsenses.



Para obter uma versão vectorial dos mapas ver

http://www.arkeotavira.com/balsa/destr-balsa.pdf

Este post tem uma actualização aqui.

3 comments:

  1. É, de facto, de se louvar a atitude da Câmara de Tavira em querer aprofundar esta temática de importância vital para a Arqueologia.

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  2. como de habito muita gente se apropria para fims proprios um patrimonio cultural incalculavel .A cultura da maioria dos portugueses esta a baixo do nivel minimo . porque aquela zona nao è classificada patrimonio nacional ???? ainda ha la muita coisa que descubrir

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  3. ´E´de bradar aos céus como na altura em que se comemoram 150 anos de JLVascocelos e 100 anos do MNA se poem dilemas destes ! Um país onde se destroi e despreza o seu passado não tem de facto o direito de existir! Apenas merece ser protectorado de quem o saiba conservar e estudar devidamente, punindo severa e eficazmente, de forma exemplar responsáveis por tais actos.

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