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Thursday, January 13, 2011

Rede viária histórica do Sul de Portugal - I

Elementos geográficos geocondicionados
As redes viárias são um dos elementos geográficos mais representativos de persistência funcional geocondicionada, no âmbito de um quadro histórico pré-industrial. No Sul de Portugal este quadro milenário prolonga-se desde a Proto-História até meados do séc. XIX e muitos dos seus elementos fósseis sobreviveram até c. 1980.

A continuidade de uso e a manutenção das suas marcas tornam estas uma fonte insubstituível de informação histórica sobre as redes viária de um passado muito mais antigo.


Perfil funcional
Em cada época é teoricamente possível atribuir um perfil funcional aos itinerários mais significativos da rede viária então activa, segundo uma tipologia comum a toda a longue durée pré-industrial. 

Esta é caracterizada no Sul de Portugal por: 
- Conjunturas políticas de periferia tributária relativamente a Estados Centrais;
- Formas de organização administrativa territorial com três ou quatro níveis: "provincial", "municipal", "paroquial" e "comunidade rural". 

A tabela seguinte apresenta uma classificação funcional dos itinerários segundo os seus usos dominantes. As redes viárias
em que os itinerários se realizam podem então assumir um perfil factorial, segundo o tipo ou tipos de itinerários mais importantes:
GeopolíticaEstabelecimento de soberaniaInvasão. Conquista
Resistência a invasões
Controlo territorial interno
Defesa do perímetro territorial
GeoeconomiaPolaridades sub e supraregional de economias de vizinhança: agricultura, pecuária, pesca, materiais básicos
Escoamento de recursos geocondicionados que marcam os termos de troca regionais e definem nodos e interfaces de trânsito em determinadas épocas
Administração CentralFiscal. Redes de centralização e de exportação de massa tributária em espécie ou géneros
Judicial e política. Itinerância sazonal de funcionários e condenados. Rotas regionais de trânsito judicial
Sistemas de informações do Estado e infra-estruturas de serviços de comunicações
Itinerância religiosaPeregrinações
Rede de lugares centrais regionaisAcessos entre lugares centrais: centros de poder urbano e de agências do Estado Central
Acessos intermunicipais e equiparados
Acessos dos núcleos de povoamento rural e lugares de produção de nível sub-municipal.
Economias de subsistênciaRedes cadastrais, do parcelário coercivo de culturas e das passagens de gados



Fases históricas. Sistemas viários.
No Sul de Portugal pode definir-se uma sequência de fases históricas, segundo a existência de sistemas viários específicos  quanto às hierarquias e fluxos de usos, relacionadas com quadros particulares de poder político:

REDE VIÁRIAFontes essenciais
Cronologia
ÉPOCA
Pré-Romana-
200 a.n.e.
Proto-História
Romana (Conquista)-
200-70 a.n.e.
Romana e pós-romana
Romana (Pacificação)-
70a.n.e.-14 n.e.
Romana (Administração Provincial)Itinerário de Antonino
Ravennate
14-410
Islâmica pré-Almorávida-
410-1100
Medieval Islâmica
Islâmica tardia Idrisi
1100-1300
Da colonização portuguesa-
1300-1570
Medieval e Renascentista
Pré-pombalina Baptista de Castro
Allard
1570-1755
Antigo Regime
Pré-Liberal Sande Vasconcelos
Carpinetti
Neele, etc.
Silva Lopes
1755-1850
Liberal CCP (Filipe Folque)
1850-1920
Liberalismo e Estado Novo
(Rede tradicional)
Estado NovoCMP 1ª Edição
1920-1960
Rede modernizada antes da UECMP 2ª Edição
1960-1985
Contemporânea
Rede modernizada depois da UECMP 3ª Edição
1985-2010

O Antigo Regime.
A documentação especializada sobre as redes viárias pré-contemporâneas do Sul de Portugal não é anterior à 2ª metade do séc. XVII. As fontes existentes entre esta época e 1950 permitem reconstituir com bastantes rigor a rede viária articulada com o povoamento paroquial em meados do séc. XVIII, antes das transformações pombalinas.

Essa rede corresponde à maturação da rede formada como resultado da colonização rural portuguesa – cujas marcas viárias não deverão ser anteriores a c. 1400 – acrescentada pelos eixos geopolíticos e administrativos desenvolvidos a partir da restauração da independência.

Sob a rede da colonização jaz o palimpsesto das redes islâmicas, em que se podem identificar apenas as directrizes dos eixos das redes provincial, interurbana e –em alguns casos - dos territórios de encastelamento.

A problemática da reconstituição das redes viárias romanas será tema de outros posts.

As necessidades técnicas de transporte alteram-se progressivamente a partir do séc. XVII, com aumento crescente da importância dos trens atrelados, em detrimento dos animais de carga, que contudo continuam a ser utilizados em grande escala nos trânsitos rurais e trans-serranos. São sobretudo as novas necessidades militares (transportes de artilharia e de trens de abastecimento ) e administrativas (correio de informações político-militares e circulação de agentes) que fomentam a modernização e sistematização das redes viárias num novo quadro moderno e iluminista, característico do apogeu do Antigo Regime.

Vulgarizam-se assim nesta época os investimentos públicos em infraestruturas viárias ao longo de eixos estratégicos e de ligações entre centros urbanos principais. Pela primeira vez desde a Época Romana reintroduzem-se extensivamente perfis e pavimentos adequados ao trânsito carroçável pesado, assim como pontes, pontões e passadeiras que permitem a passagem regular em todas as estações.


Fontes documentais históricas
Uma consequência destas políticas foi o aparecimento de documentação de uso oficial, sob a forma de roteiros e cartas geográficas, fundamentais para o seu conhecimento e reconstituição históricas.

O diagrama seguinte sintetiza as fontes geográficas principais sobre a rede viária do Sul de Portugal, mostrando as suas relações bibliográficas, o seu tipo e o nível de detalhe e precisão do seu conteúdo:


Álvaro Seco

Pedro Texeira Albernaz

Karel Allard

Johann Baptiste Homann

João Baptista de Casto
Ver mapa e roteiro aqui



João Silvério Carpinetti, sobre base geográfica de Charles de Granpré

João Silvério Carpinetti, sobre base geográfica de Charles de Granpré

Tomás López de Vargas y Machuca

Samuel John Neele

Willian Faden

João Baptista da Sliva Lopes

Filipe Folque

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