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Monday, February 21, 2011

TAVIRA ROMANA

TAVIRA NO TEMPO DOS ROMANOS
ROMANOS EM TAVIRA

Materiais para um Atlas Histórico de Tavira

Síntese actualizada do estudo "Tavira Romana", publicado em http://www.arkeotavira.com/balsa/tavira/[1]. Os apêndices referidos no texto incluem-se apenas na versão pdf deste post, mais completa e melhor acabada, que está aqui.

Tavira na Época Romana
Tavira teve uma ocupação pouco importante na Época Romana. O centro urbano da região nesta época localizava-se em Balsa, a 6 km para Sudoeste, entre Luz de Tavira e a Ria.

O sítio de Tavira permaneceu obscuro durante 1300 anos, entre o abandono do povoado turdetano da Idade do Ferro, em finais do séc. IV a.n.e., e o nascimento da alcaria de Tabira em finais do séc. XI, numa fase já muito avançado do domínio islâmico.
Está por esclarecer a não utilização do porto de Gilão durante o domínio romano, assim como a baixa densidade relativa do povoamento estuarino, comparativamente com outros sítios do Algarve. Provavelmente o porto de Balsa apresentaria então melhores condições de barra, para além das excelentes infra-estruturas já conhecidas[2], gozando de um eventual monopólio económico por razões administrativas e fiscais.

Os estuários – verdadeiros braços de mar - que então existiam desde a barra de Tavira até ao Paul da Asseca e até ao Cerro do Almargem, seriam utilizados essencialmente como fontes de subsistência de aglomerados rurais ribeirinhos e como meios de comunicação entre o mar e os fundos dos esteiros, onde existiam centros de olaria local e explorações agrícolas.

Alteração da fisiografia costeira

A zona baixa de Tavira sofreu grandes mudanças desde a Antiguidade, devido às alterações naturais e artificiais das margens do rio e das zonas limítrofes de sapais inundáveis. A reconstituição da ocupação humana da actual área urbana em diferentes épocas históricas exige assim também reconstituições, mais ou menos rigorosas, das respectivas fisiografias costeiras.


Nível do mar

O nível do mar na Época Romana correspondia, na zona de Balsa, aproximadamente à cota actual dos 4 m (1.16 cm acima dos 2.84 m que se fazem corresponder convencionalmente ao nível da preia-mar actual, com altimetria relativa ao marégrafo de Cascais).

Esta diferença reparte-se entre a subida devida à segunda fase da transgressão marítima dunkerquiana (mal estudada no Algarve em contextos arqueológicos e provavelmente responsável por uma subida de 50±20cm do nível isostático do mar) e à sedimentação litoral, provocada sobretudo por derrubes e arrastamentos das encostas.

Esta cota de 4 m coincide com a de Tavira, correspondendo ao nível útil do cais turdetano (sob o pavimento do antigo B.N.U., datável do séc. V a. C.) no antigo esteiro da Praça da República e às estratigrafias do Gilão observadas na área da moderna ponte de Santiago.

Os leques sedimentares formados posteriormente nos esteiros, desaparecidos ou muito colmatados, elevam essa cota para um valor entre 5 a 7 metros (e talvez mesmo mais em vales muito profundos) nos fundos e partes superiores, valores ajustados aproximadamente por dados arqueológicos,  topográficos e toponímicos em Castro Marim, Ludo, Vilamoura, Arade, Aljezur e  Lagos.

A presença de linhas de água nos antigos esteiros da área urbana de Tavira, alimentadas por mananciais activos, e a dinâmica de assoreamento da ria na zona da foz do Gilão permitem considerar um processo de sedimentação precoce na zona, compatível com achados arqueológicos da Época Romana (necrópole da Atalaia e moedas na Rua Alexandre Herculano).

Estabeleci assim na restituição costeira uma linha na cota 3 m, definindo o limite inferior de uma banda de sapalização, correspondendo a zonas periodicamente ou sazonalmente submergidas.

O modelo digital de terreno utilizado nos mapas tem diversos aperfeiçoamentos e correcções de pormenor, relativamente ao por mim publicado em FRAGA 2003a e 2003b.


Aterros urbanos e fixação das margens do rio

O crescimento histórico de Tavira fez-se em grande parte à custa de aterros dos sapais do rio em ambas as margens, processo que prossegue até aos dias de hoje na zona do novo Mercado. Limito-me aqui a esboçar um quadro simplificado dos seus aspectos mais relevantes:

Vestígios arqueológicos (séc. VI- IV a.n.e.) e geológicos associados permitem identificar os páleo-esteiros da Praça da República e da Bela Fria, então com valor portuário. Este último estaria já colmatado e drenado aquando da conquista portuguesa.

O contexto geológico da Rua Alexandre Herculano – em cujo subsolo foram encontradas moedas romanas – é compatível com uma zona de sapal inundável nesta Época.

Na 2ª metade do séc. XIV aterra-se o resto do sapal da Praça da República, transformado na nova Praça da Vila.

Entre os sécs. XIV e meados do XVI aterra-se e urbaniza-se o grande esteiro da Alagoa (até aí caldeira de moinho de maré) e regularizam-se as margens do rio, tal como as conhecemos hoje, permanecendo porém ainda instável toda a ribeira da margem esquerda, inundável até à actualidade apesar dos aterros sucessivos.

A história deste processo a partir de meados do séc. XVI é reconstituível com rigor a partir da cartografia urbana existente.

A via romana Baesuris-Balsa

O elemento mais importante e assinalável de Tavira na Época Romana terá sido a via pública que ligava Baesuris (Castro Marim), na margem do Guadiana, às cidades de Balsa e Ossonoba (Faro). Esta via é identificada em duas fontes documentais: no Itinerário de Antonino[3] e na Cosmografia do Anónimo de Ravena[4].
Via romana de Baesuris a Balsa, 1ª etapa do Itinerário de Antonino hispânico XXI. Povoamento romano da região.

Infelizmente, o crescimento muito posterior de Tavira propriamente dita e as profundas alterações da margem do rio e do trânsito local eliminaram todos os vestígios materiais dessa via.
É porém possível reconstituir o seu eixo com razoável precisão a partir de três fontes complementares: o carácter muito geocondicionado da função viária na zona; a informação da Crónica da Conquista do Algarve; e a notícia de numerosos marcadores arqueo-topográficos, registados em documentos dos sécs. XVI-XVIII.

De um modo geral a via romana evitava ambas as margens do rio (então muito mais largas do que hoje) assim como a íngreme colina de Santa Maria (Calçada de D. Ana).
De poente para nascente teria o seguinte percurso: Mato do Santo Espírito, Poço de Vaz Varela, Ermida de São Brás, Alto de Sant'Ana, travessia do Gilão no seu sítio mais estreito, Horta da Bela Fria pela base da colina até à Rua dos Mouros, Estação de Caminho de Ferro, Estação Agrária/Lidl e Calçada da Cafurna até Balsa.


A ponte velha de Tavira não é romana

A tradição de uma origem romana da "Ponte Romana" de Tavira não tem fundamento arqueológico, segundo se concluiu nas prospecções efectuadas durante as grandes reparações de 1991-93. Estas vieram confirmar a total ausência de traços arquitectónicos e materiais romanos nas estruturas da ponte actual.
Ponte velha de Tavira. Planta da antiga D.G.Portos
 A ponte velha descende de outras que tiveram a sua origem durante o domínio islâmico, quase certamente na 2ª metade do séc. XII.
Ela enquadrava-se então no sistema defensivo da cidade, que fez desviar o percurso da estrada romana inicial. Este tema será desenvolvido num post futuro sob o tópico Tavira islâmica e a defesa da passagem do Gilão.

Vestígios e sítios romanos


Bela Fria = Vila Fria = Villa Frigida

No sítio da cidade de Tavira o povoamento romano mais importante situar-se-ia na zona do Convento da Graça e encosta da Bela Fria, onde têm aparecido diversos vestígios: fustes de colunas; materiais de construção; sigillata e cerâmica comum; e materiais reaproveitados, já fora desta zona, tais como a parte inferior de uma mó romana de forma cónica, reaproveitada numa parede medieval islâmica na zona do B.N.U. e, mais recentemente, um provável capitel de pilastra em mau estado de conservação, encontrado em níveis islâmicos da escavação de Corte-Reais.

Estes materiais terão rebolado anteriormente pela encosta ou sido expressamente transportada pois surgem isolados numa larga área (informação de Maria Maia).

Toda a zona apresenta hoje uma topografia muito diferente da original, devido à rampa e às terraplanagens originadas pela construção da porta medieval da Bela Fria e aos sucessivos aterros do recinto do Convento da Graça, iniciado em 1569 nos terrenos da Judiaria e Sinagoga, já ocupados pelos frades de Santo Agostinho desde 1542[5].

O planalto e escarpa formados pelos aterros e muralha não existiam, como demonstraram as intervenções da obra da Pousada, havendo uma encosta de baixo gradiente para Leste, sem vestígios romanos.

A edificação romana que gerou os vestígios conhecidos, que escorreram pela encosta ao longo dos séculos, devia situar-se sob ou junto da parte norte do Convento da Graça, muito perto da zona onde se escavaram as grandes fundações da nova ala monstruosa da Pousada.

Infelizmente, as sondagens arqueológicas efectuadas então no local, revelaram que toda a terra já tinha sido remexida e reposta até à rocha na época da fundação do convento (informação de Sandra Cavaco e Jaquelina Covaneiro).

 O carácter do povoamento romano da zona é-nos dado exclusivamente pela toponímia: "Vila Fria" ainda em 1570[6], tendo o nome posteriormente evoluído para Bela Fria. O seu nome latino original seria portanto villa Frigida. 
Tratar-se-ia assim de uma villa romana com sobrevivência toponímica na sua fase mais tardia, condição sine qua non para a transmissão posterior do nome durante a Alta Idade Média.

Todo o resto da colina de Santa Maria não teve ocupação romana conhecida, sendo notáveis em diversos locais os alicerces islâmicos do séc. XII directamente construídos sobre as ruínas do povoado turdetano, abandonado séculos antes da chegada dos romanos!

Na Época Romana o sítio teria ainda o aspecto de um grande povoado abandonado, com ruínas bem evidentes.


O busto da dama balsense

O achado romano mais notável de Tavira é o conhecido busto da dama balsense, objecto de extensa bibliografia museográfica e actualmente guardado no Museu Municipal de Évora.

A primeira notícia da escultura é dada por Frei Vicente Salgado em 1786: "Na esquina de umas casas ao poente do Convento da Graça desta Cidade de Tavira, eu vi um Busto Romano de dois palmos, que me pareceu muito bem.".[7] O busto encontrar-se-ia assim num nicho ou sobre um cunhal de uma casa da actual Rua de António Viegas.

Frei Vicente Salgado era discípulo e protegido do bispo Frei Manuel do Cenáculo, a quem dedica encomiasticamente a sua obra. Foi graças à biblioteca e à influência do seu patrono que conseguiu levar a cabo a investigação necessária e as autorizações para a sua publicação. Destaca também o gosto do bispo pelo coleccionismo de objectos da Antiguidade Romana[8].

Nada mais natural, portanto, que levar o busto "de dois palmos" que lhe "pareceu muito bem" como oferta ao seu protector.
De facto, não se ouve falar mais do busto de Tavira mas surge, pela mesma altura, o busto da dama nossa conhecida na colecção do bispo Cenáculo[9], em que se refere a sua proveniência de Tavira e com os mesmos dois palmos (56 cm, incluindo a peanha, segundo NOGALES 2003), colecção essa que transitou posteriormente para o Museu de Évora.
Trata-se evidentemente da mesma peça!

Os arqueólogos contemporâneos têm afastado a peça de Tavira, apesar da informação do catálogo já referido, revelando como as ideias pré-concebidas pode fazer mover objectos: (SANTOS 1971: 292-3) fala no seu achamento nos arredores de Tavira, situando-o em na Torre d'Aires ou nas Antas; (ALARCÃO 1988: 205, nº 8/286), embora referindo (SIMÕES 1869), prefere afirmar que não se sabe se a peça veio da cidade ou do concelho, talvez de Balsa; (GONÇALVES: 2007[10]: v. 2, p. 184-187, nº 63) limita-se a dizer que foi descoberta na "área da civitas de Balsa"; (NOGALES: 2003 e 2005[11]: 84, nº 26) afirma já peremptoriamente que a peça veio de Balsa!
Dama Balsense. 2º terço do séc. II.
 É um busto de uso doméstico ou funerário, que pelo estilo aristocrático da personagem e o acabamento deveria corresponder a alguém de substância da ordo local ou de uma família de estatuto equiparado.

O busto faria parte assim, quase certamente, ou da galeria da domus familiar ou de um mausoléu familiar com alguma importância arquitectónica.

O aspecto mais interessante da escultura é o estilo de penteado que permite datá-la no 2º terço do séc. II, muito semelhante ao de Annia Galeria Faustina (Major), mulher do imperador Antonino Pio (138-161). Foi imperatriz apenas entre 138 e 140, data da sua morte, sendo então divinizada como DIVA FAUSTINA.
Annia Galeria Faustina (Major)
A difusão da moda feminina pelas províncias a partir do modelo imperial ter-se-á devido à proliferação da iconografia da imperatriz ainda em vida ou após a sua divinização, associada à imitação pessoal directa entre mulheres de meios sociais relativamente elevados.

Considerando tratar-se de um busto funerário, é impossível determinar se o presumível mausoléu a que pertencia se situava originariamente em Tavira ou em qualquer outro local da região balsense, nomeadamente em uma das necrópoles de Balsa.

Os mausoléus monumentais de famílias mais abastadas seriam comuns em lugares favorecidos não muito longe das estradas, ou junto das próprias residências rurais dos proprietários, não sendo difícil trazer para Tavira um busto encontrado em qualquer desses locais.

A proximidade dos vestígios da Vila Fria e da antiga estrada romana sugere porém, em princípio, poder ser um busto proveniente da própria villa ou de um mausoléu na sua proximidade.

A sobrevivência tardia em bom estado (com excepção do nariz!) num lugar exposto à visão e às delapidações públicas na época de Frei Vicente Salgado sugere tratar-se de um achado recente dessa época, possivelmente proveniente das grandes remodelações da judiaria ou da expansão urbana sobre o antigo cemitério judaico, em plena zona da velha via romana.

Quer seja de uso doméstico ou funerário, a presença do busto aristocrático pode pois ser interpretada como indício da existência de uma domus no local, sendo um achado de carácter mais específico nesse sentido que a mera presença de fustes de colunas.

A posição da domus e respectiva villa não é porém vulgar, a Norte do cume de uma colina defensável (então talhada a Norte, Poente e Sul e definindo posteriormente um extremo do primitivo recinto amuralhado de Tavira[12]) e junto a um extensa área de ruínas já antigas, apesar de o seu abastecimento de água poder estar facilitado por um hipotético aqueduto proveniente da nascente de Santa Maria, situada a umas dezenas de metros, numa cota mais elevada.

Pode-se conjecturar ter sido a residência de um notável associado a uma função oficial relacionada com a passagem da via, sendo a exposição a Norte uma defesa eficaz contra a canícula.


Horta da Caiada

Já distante do centro histórico da cidade, no campo da Atalaia (Horta da Caiada), descobriu-se uma necrópole rural com cerca de cinquenta sepulturas de inumação, a c. 900 m da núcleo da Bela Fria.

A distância excessiva e a posição extrema junto da antiga margem do sapal indicam ter pertencido à parte rústica de uma provável villa mais próxima.

As sepulturas, muito modestas, pertenciam muito provavelmente à familia rustica desta villa[13]. Não se conhece o período de utilização da necrópole, sabendo-se apenas que estava activa na 2ª metade do séc. I d. C., graças a uma moeda de Cláudio I aí encontrada. O tipo de cerâmicas pode fazer supor uma continuidade até ao séc. III[14].

A necrópole situava-se junto a um caminho que seguia pela margem do sapal, podendo talvez entroncar no caminho litoral para Balsa[15].

Não sobreviveram vestígios das edificações que sem dúvida existiriam. Segundo um modelo comum, elas localizar-se-iam a umas centenas de metros da necrópole, na encosta virada a Sul, a uma cota adequada para ser abastecida de água corrente por intermédio de um aqueduto proveniente da nascente termal de Santo António[16].

A localização mais provável será assim no eixo da R. de Santo António, quiçá sob o próprio convento homónimo.

Esta zona, juntamente com os campos das futuras hortas[17], constituía já, sem dúvida, uma importante área agrícola da pertica[18] balsense, naturalmente irrigável pela referida nascente.

O desenvolvimento posterior de Tavira e a sua intensa reocupação agrícola eliminaram localmente os prováveis vestígios das marcas cadastrais romanas, ainda visíveis num extenso raio em torno de Balsa, substituídas por um característico padrão radial perí-urbano de origem medieval.


Moedas e sepultura

Encontrou-se também uma colecção de moedas num local que era então margem do rio, sob o pavimento da Rua Alexandre Herculano nos anos 50 do séc. XX.
Desconhecem-se mais detalhes assim como o seu actual paradeiro[19].

O sítio de achamento das moedas, num nível de sapal ou de zona permanentemente submersa, sugere tratar-se de uma perda, ou eventualmente, de uma oferenda.

Achou-se também (Maria Maia) uma modesta sepultura de incineração sobre o cais pré-romano do B.N.U., na margem do esteiro que então ocupava a actual Praça da República.
A sepultura resumia-se a uma urna cinerária formada por tégulas, tendo como único espólio um pequeno pendente de madeira com a forma de figa (mão fechada), símbolo ancestral contra o mau-olhado.


Reutilizações de materiais romanos

Os demais vestígios estão incluídos em construções medievais e modernas e devem, pelas suas dimensões e características, ter sido trazidos de Balsa muitos séculos após o desaparecimento desta cidade:
·   Grande cantaria talhada, com marcas de fórceps, inserida num cunhal da torre medieval portuguesa que ladeava pela esquerda a entrada da Porta de Alfeição.
· Fuste maciço de grandes dimensões encontrado no tardoz de uma casa de raiz seiscentista, junto à torre albarrã poligonal existente na base do castelo.
Com este fuste foi encontrado um capitel não romano, talhado numa única peça juntamente com o lintel. Segundo Lídia Fernandes trata-se de um capitel de ordem toscana, datável do séc. I n.e.[20]
O conjunto está exposto na recepção do edifício onde foi encontrado, com a particularidade de se apresentar invertido, com o capitel-lintel no chão!
·    Mais recentemente foi descoberta outra coluna semelhante nos aterros do antigo esteiro da praça, em lugar próximo da ponte.

 

O vau do Gilão-Séqua. Lugar sacralizado

Na Época Romana, toda a zona entre a colina de São Brás e o rio estaria ainda completamente alagada, impedindo qualquer trânsito.

O Alto de Sant'Ana formava então uma península entre o Gilão e o esteiro da Alagoa, sendo o ponto de maior proximidade com a margem oposta e lugar de eleição para uma travessia.

O local de passagem estabelecia-se assim cerca de 130 metros a montante da ponte actual, onde o rio era e ainda é consideravelmente mais estreito.[21]

O vau do Gilão seria habitualmente transitável sem grande dificuldade na baixa-mar e nas estações secas, através de "passadeiras", isto é, de uma calçada submergível no fundo do rio.
A travessia na preia-mar necessitaria já de um portus (pontão sobreelevado), de uma ponte flutuante ou uma barcaça de vaivém, podendo tornar-se impossível durante as estações chuvosas.

A passagem de uma via do Itinerário de Antonino obrigaria sem dúvida à existência e manutenção de uma infra-estrutura de travessia permanente. Desconhece-se porém a existência de quaisquer vestígios dela, o que sugere ter sido de madeira, facilmente destruída pelas enxurradas periódicas mas também facilmente reposta enquanto existisse um poder fiscal e edilício.

Na margem direita, perto do local da travessia, situa-se a nascente submarina e a fonte sobre o rio (Fonte da Praça ou das Bicas, que na época se localizaria uma dezena de metros mais distante da margem) onde nasce o rio Gilão propriamente dito, tendo mais a montante o nome de Séqua.

A sacralização do rio e da sua passagem na Época Romana (com uma origem anterior, pré-romana) infere-se da análise da toponímia cristianizada e fóssil de épocas posteriores, até à conquista portuguesa de Tavira, tema abordado em seguida.


Gilão = Sancti Iuliani

O nome Gilão será resultante da arabização do antropónimo moçárabe *Gilano, evolução do latim (Sancti) Iuliani, nome associado primitivamente ao vau e, posteriormente, ao povoado da foz e ao troço final do rio, que surge em português com a ortografia Gilaon[22], hoje Gilão.

A zona limítrofe ter-se-á arabizado de forma regular com o sufixo –ā, passando a chamar-se Gillā, de modo semelhante à evolução Jullà < Julianum, registada na Catalunha[23].

A manutenção da consoante intervocálica assinala uma origem anterior à colonização linguística galaico-portuguesa, isto é, corresponde a um termo moçárabe.

A arabização de topónimos paleocristãos é comum, sobretudo na época em que um extracto significativo das elites cristãs se converteu ao Islão, transformando-se em mulladis.

Os locais dominados por este grupo social caracterizam-se pela arabização da toponímia latina e moçárabe anterior, significando uma continuidade de ocupação com mudança da língua dominante.
A arabização da toponímia paleocristã  acompanha-se normalmente pela extinção do culto cristão primitivo, associada à conversão ao Islão.

No Algarve, para além de Gillā, documentam-se outros exemplos, como Santa Maria, São Brás e  Nexe:
·     Faro < Santa Maria de Faro < SANCTA MARIA DE PHARUM < Šantamaryia Ibn Harum < Šantamaryia al-Gharb < SANCTA MARIA < Uksûnuba < OSSONOBA
·     São Brás < Šanbrās < *SANCTI BLASI (KHAWLI 2002: 36). Exemplo que configura uma notável continuidade e sobrevivência toponímica (e do culto hagiológico) até à actualidade de um lugar referido nas fontes árabes como sítio de nascimento do poeta e cortesão Ibn-Âmmar (1031-1084).
·     Nexe < Tartāniš < *SANCTA AGNES (KHAWLI 2002: 36 e Alice Fernandes)
A dedicação a Santa Inês ter-se-ia extinguido antes do domínio português, tendo sido substituída já durante este pela de Santa Bárbara.

A situação é distinta nos sítios de colonização árabe e berbere (onde os topónimos tardo-romanos desapareceram, substituídos por outros nessas línguas) e nas comunidades que se mantiveram moçárabes (onde sobreviveram os topónimos e os cultos paleocristãos, após a conquista cristã de 1249)[24].


São Juliano = S. Julião = S. Gião

Dos numerosos mártires do culto paleocristão de nome Juliano, destacam-se dois, Juliano de Anazarbus e Juliano e Basilissa, pelo seu culto precoce e pela sua ampla difusão.
Juliano de Anazarbus ou de Antioquía
Mártir morto em 304, durante as perseguições de Diocleciano. O seu culto tornou-se muito popular desde o último quartel do séc. V graças a uma conhecida homilia de João Crisóstomo (349-407), patriarca de Constantinopla.
Atirado ao mar num saco cheio de serpentes e escorpiões após demoradas torturas para renegar a sua fé. Representado com um saco ou um caixão flutuante, acompanhado de anjos[25].
Juliano e Basilissa
Marido e mulher que fizeram voto de castidade e fundaram um mosteiro-hospital. Após a morte de Basilissa, Juliano é martirizado durante as perseguições de Diocleciano.
A sua hagiologia é confusa e mistura-se com a de outros mártires paleocristãos também chamados Juliano. O seu culto, muito reputado, estava bem estabelecido já antes do séc. VIII[26].
São Juliano e Basilissa
Igreja de Saint-Julien-le-Pauvre, Paris, séc. XIII 
O culto transformou-se na Europa Ocidental a partir do séc. XII com incorporação de outras hagiografias ou de fundos etnográficos pré-cristãos, dando origem à figura de S. Julião Hospitalário, invenção hagiológica compósita que recolhe elementos das vita de Juliano de Anazarbus e de Juliano e Basilissa[27].

A associação óbvia do culto de Juliano de Anazarbus a um contexto de sacrifícios aquáticos torna-o o santo privilegiado para substituir um culto congénere pré-cristão e justifica a sua associação a um hidrónimo.
O culto da divindade aquática anterior é substituído pela celebração do martírio marítimo de Juliano, exemplo de mártir heróico na defesa das suas convicções cristãs.

O topos da travessia de um rio por uma entidade sobrenatural em que é testada a força do santo pertence originariamente a hagiografia de Juliano/Basilissa.
Essa entidade é identificada como Cristo já em plena Idade Média mas corresponde a uma tradição mitológica pré-cristã muito mais antiga, em que uma personagem protectora dos passantes (e recebedor de culto local) revela o seu poder sobre o espírito destrutivo do rio.

É portanto significativo que estes São Julianos compostos tenham sido o padroeiro dos barqueiros dos vaus e das albergarias/mosteiros nas suas imediações, situação que se adapta perfeitamente ao sítio do Gilão, de travessia da velha estrada romana, indiciando uma ausência de ponte, pelo menos na Antiguidade Tardia[28].


O bispo moçárabe Juliano

Esta hipótese de um culto local de São Juliano reforça-se também pela existência no séc. X do bispo moçárabe Iulianus (†991), cuja luxuosa lápide funerária foi descoberta na Fonte Salgada, perto de Tavira[29].

A presença de uma comunidade cristã no local é já atestada anteriormente, ainda no séc. VIII, pela lápide de Adulteus, clérigo criança falecido em 729.[30]
Lápide do bispo Iulianus. Fonte Salgada.
+ HIC REQVIESCVN[T]
M 'EBRA IVLIANI EPISCOPI
QVI OBIIT DIE XII KLS APRLS
ERA XXVIIII POST .T.A
QVESO LECTOR PRO EO ORARE
NON ABNVAS .SIC X PM D'NM
PROTECTOR 'E HABEAS
(P.A.F. 2003; Tavira Território e Poder, nº 169 p. 297)

Séqua

O nome do rio (ou mais propriamente, do esteiro) de Tavira é dado alternativamente como Séqua, Asseca ou Gilão.[31] O apêndice 2 lista cronologicamente atestações destes étimos desde o séc. XIII, revelando as alterações de grafias e das localizações ocorridas ao longo dos séculos.

O nome Gilão, de origem tardo-antiga e moçárabe, é aplicado apenas ao troço final do rio. Desconhece-se porém o nome pré-islâmico da parte restante do esteiro, entre a cidade e a zona da Asseca.

Aceca
aparece referido desde a conquista portuguesa, como corónimo ("molendinos da Aceca"[32]), revelando já existir na época islâmica, sendo a sua origem árabe , significando provavelmente acéquia (do andaluz assāqya, proveniente do árabe clássico sāqiyah[33])  ou então estrada  ou estação viária (do árabe sikka[34]).
O étimo aplica-se ao actual vale da Asseca e ambas as etimologias se ajustam ao local, não sendo infelizmente possível optar por nenhuma delas.

A forma Cequa/Séqua está atestada desde o séc. XVI e mantém-se persistentemente em alternativa a Asseca, gerando uma notória incerteza e confusão em diversos autores que, ou enumeram as alternativas ou procuram delimitar os troços do rio de modo a eliminá-las[35].

A sua adaptação ao troço inicial do rio de Tavira só é claramente explicitada por Silva Lopes em 1841, autor que afirma porém ser Séqua o nome antigo!

A sobrevivência simultânea de ambos os termos pode corresponder à manutenção de uma versão popular (Asseca) e de uma versão erudita transmitida pela grafia (Séqua), que se terão entretanto confundido[36].

Porém, esta confusão persistente, invulgar numa linha de água quase insignificante, pode também dever-se à contaminação com um étimo independente, *SEQUA, que seria o nome primitivo do rio, antes da sua cristianização parcial, e que se teria mantido no troço a montante após a cristianização do vau.

Neste caso Asseca seria um topónimo posterior, desenvolvido autonomamente a partir de uma das etimologias árabes acima referidas ou por analogia com o hidrónimo anterior, entretanto moçarabizado.
Ter-se-iam assim mantido ambas as formas (árabe e moçárabe) com o predomínio progressivo da primeira, transformada em corónimo dominante na época da conquista portuguesa.

O nome *SEQUA, não latino, possui uma aparente etimologia céltica, comum a Sequana, divindade fluvial gaulesa com culto nas nascentes do Sena[37], surgindo noutros locais da península (como na Cantábria)[38] em zonas ribeirinhas e alagadas, e portanto semelhantes a Tavira.

É de notar que o referido culto gaulês tem um carácter principalmente medicinal, abundando os ex-votos em madeira com orgãos e partes do corpo humano, podendo conjecturalmente o nome generalizar-se a nascentes (como a de Tavira) onde tenha existido um culto de funcionalidades semelhantes.

Pouco se sabe porém sobre eventuais influências religiosas de tipo "céltico" no panteão turdetano algarvio, embora elas sejam perfeitamente possíveis do ponto de vista histórico regional no final da Idade do Ferro[39].
Poder-se-ia apenas especular sobre uma eventual adopção de uma nomenclatura religiosa Indo-Europeia, em período incerto, a um culto fluvial ancestral que já terá tido expressão nos períodos fenícios e tartéssico.


Conjectura da história do culto do rio

Gilão será assim um hidrónimo cristianizado por sincretismo, num local geocondicionado onde terão existido cultos pré-cristãos associados à presença de um manancial e a rituais de passagem do rio.

De facto, a relevância da sacralidade pré-romana do sítio do vau destaca-se pela sua localização junto a um antigo local central dos balsenses (o povoado turdetano de Tavira, já referido) e no acesso obrigatório entre o oppidum turdetano do Cerro do Cavaco (a Balsa pré-romana) e o mar.

A hipótese desse culto ancestral toma corpo quando se nota que a nascente do Gilão constituía a principal fonte de aguada do porto fenício  e que o seu caudal se alimenta, através de um aqueduto, de outra nascente situada no cume da colina de Santa Maria[40].
Esta nascente foi certamente usada nos banhos da mesquita que aí existiu até à conquista portuguesa e sobrevive ainda hoje sob a sacristia da igreja matriz.

Pensa-se ter existido neste lugar o templo principal do povoado fenício de Tavira. Nele não faltaria, segundo os cânones semitas, um manancial sagrado voltada a nascente no dia do solstício de Verão[41] como é precisamente o caso de Santa Maria!

O culto ter-se-á mantido sem dúvida na época romana, não só pela relevância da via pública que atravessava o rio como pela posterior dedicação paleocristã, que configura uma apropriação de um lugar sagrado pré-existente.

Não se conhece porém a divindade indígena objecto desses cultos nem o grau da sua posterior romanização.
A dedicação a São Juliano pode ser reveladora neste sentido, pois a vita do santo indica que ele se tornou orago de passagens onde até aí existiam sacrifícios a divindades das águas, através de oferendas diversas, que incluíam flores, alimentos simbólicos e vítimas vivas.

Sabe-se o temor religioso que as travessias de rios ocasionavam na Antiguidade e a necessidade de expiar a travessia com um sacrifício, a fim de evitar a própria morte. Segundo um padrão mitológico Indo-Europeu muito difundido, o rio personificava uma divindade viva, havendo notícias em que o seu culto primitivo exigia "um fôlego por dia", isto é sacrifícios diários de vítimas, que, em certas culturas e em certas ocasiões podiam ser humanas[42].

A cristianização dos vaus associa-se por um lado à erradicação destas práticas mas por outro à manutenção de um apoio canónico perante os perigos sobrenaturais (agora demoníacos) e reais da travessia do rio, idênticos aos do paganismo.

Estar-se-á assim, provavelmente, na presença de um "Neptuno" pré-romano ou de uma divindade feminina de cariz indo-europeu, pouco romanizada, habituais em hidrónimos, o que poderia justificar o já referido e inexplicável topónimo Séqua, nome do rio no percurso a montante.


Para além deste culto de travessia fluvial não podemos ignorar a tradição funerária proto-histórica de enterramentos aquáticos, associada a oferendas ctónicas de armas e objectos preciosos, afundados ritualmente, geralmente acompanhado por sacrifícios humanos.

Esta tradição, também compatível com o culto posterior a São Juliano, tem diversos exemplos na Gália céltica e está atestada de modo extraordinário no esteiro de Huelva[43], grande centro tartéssico próximo de Tavira.

Rituais semelhantes (de características consideradas por muitos autores como célticas, de tradição arcaica indo-europeia ou do substrato cultural do Bronze Atlântico) seriam então de esperar em centros coevos da mesma área geocultural, como é o caso de Tavira turdetana.


Época Islâmica: Gilão e Gillā. Ibn Qassî.

A lápide de Adulteus e o tipo de culto de São Juliano, já referidos, permitem propor a existência de um mosteiro/albergaria junto à passagem do rio, o que se enquadra bem no padrão de localização destes estabelecimentos desde (pelo menos) o séc. VII e até (no máximo)  à 2ª década do séc. XII[44].

A partir da topografia e de indícios posteriores  é possível estabelecer a localização desse mosteiro na pequena península-colina de Sant'Ana, sobre o vau do rio e pela qual passava a antiga via romana.

Aqui foi encontrada uma sepultura antropomórfica escavada na rocha, possivelmente tardo-antiga ou moçárabe. Infelizmente, por decisão da C.M.T. a intervenção arqueológica que a revelou foi muito limitada.
A sepultura foi apenas parcialmente descoberta, acompanhada de outras localizadas em níveis superiores, de forma oval e igualmente escavadas na rocha. Nenhuma delas produziu espólio[45].

*Sancti Iuliani deveria designar tanto o rio como o mosteiro. Na Época Islâmica o provável nome arabizado seria *Šangilan e o mosteiro  terá sido provavelmente assimilado a um habitat com o carácter de aldeia moçárabe, após o eventual desaparecimento do culto cristão, provavelmente extinto com a fundação Almorávida de Tavira. Como se disse acima, ter-se-á arabizado de forma regular com o sufixo –ā, passando a chamar-se Gillā.

A posição do Alto de Sant'Ana num cruzamento marítimo e terrestre estratégico ; o seu carácter de elevação peninsular isolada e fortificável ; e a sua separação da povoação de Tavira pelo rio, definem uma topografia adequada e arqueologicamente compatível com um ribat Almorávida, na zona do antigo mosteiro.

De facto a origem islâmica ou anterior da primitiva ermida de Sant'Ana é-nos indicada na Visitação da Ordem de Santiago de 1517-18, onde se afirma "que a dita Irmida hé tam antigua que non há hy memoria de quem a edificou"[46], termos idênticos aos aplicados a todas as antigas mesquitas visitadas.
Páleo-península de Sant'Ana e sítio de passagem da via romana e das estradas posteriores, antes da construção da ponte islâmica e dos seus acessos sobre-elevados sobre o sapal.
A partir de meados do séc. XII o sítio integrará o sistema defensivo de Tavira, com o objectivo de controlar o acesso ao vau do rio a partir da margem esquerda.

O quadro toponímico e corográfico acima descrito permite fundamentar a proposta de  identificação do sítio de Sant'Ana com a qaria Gillā, referida nas fontes árabes medievais como terra natal e lugar de propriedades familiares de Ibn Qassî[47], que aí fundou um ribat antes do inicio da sua sedição anti-Almorávida (iniciada em 1144)[48].

Esta identificação na zona de Tavira, integrada na kura de Silves[49], reforça-se pelo facto de Ibn Qassî ter como aliado de primeira hora o rais de Tavira, Âmir Ibn Mahîb (ou Wahîb)[50] e de Tavira ter sido posteriormente um centro de difusão do sufismo popular (a ideologia religiosa de Ibn Qassî) no Norte de África[51].


A ascendência de Ibn Qassî e os Cássios balsenses

Ibn Qassî pertencia a uma família abastada da elite mulladi. O seu nome, que significa "filho de Cássio"[52], confirma-o. A manutenção de um patronímico latino indicia ter pertencido a uma das primeiras gerações islamizadas da Qaria Gillā.

Tal parece significar que o lugar permaneceu um núcleo de população moçárabe até à conquista Almorávida ou talvez antes (segundo Khawli), convivendo com o novo povoado muçulmano de Tabira, fundado na outra margem em finais do séc. XI[53].

Khawli propõe a hipótese do patronímico Cássio ser reminiscente da gens romana homónima Alto-imperial, testemunhando uma continuidade de linhagem. Trata-se, no nosso entender, de uma hipótese difícil mas aliciante:
·    Tem a favor o facto de os dois únicos Cassii conhecidos a Sul de Beja serem precisamente de Balsa, do Séc. II d.C.[54] e de o velho gentilício ter sobrevivido na estirpe local da família do mahdi até finais do Séc. XI.   Ora uma família moçárabe da zona de Tavira, abastada, de nome romano e não visigótico, poderá bem ter sido o ramo final de uma linhagem de honestiores balsenses do Baixo Império, com origens no Séc. IV ou mesmo antes!
·     Tem contra si o facto do período de tempo é demasiado longo e o número de achados onomásticos demasiado escasso, sem atestações intermédias. Falta-nos, infelizmente, a sobrevivência de um topónimo local (como *Cassana < Cassiana < VILLA CASSIANA ou *Caçim < VILLA CASSIANI), para poder validar territorialmente a hipótese.

Embora perfeitamente secundária relativamente à temática deste estudo, a apresentação e fundamentação da hipótese da origem tavirense de Ibn Qassî  representa um aspecto importante da história de Tavira islâmica.

As "pegadas" de Tavira

Na região de Tavira existe uma quantidade invulgar de referências a podomorfos, gravuras na pedra representando um ou mais pés. A tabela seguinte sintetiza os dados conhecidos, localizando-se os últimos quatro sítios na actual zona urbana de Tavira.

Nome
Tipo de informação
Manancial
Hagiónimo paleocristão
Tipologia viária
Local
Fonte
Fonte do Bispo
Notícia de pegada gravada numa rocha junto à fonte antiga, com estado de conservação desconhecido.[55]
Fonte que sobreviveu até à actualidade

Estação

Via
secundária
Manuel Maia
Quinta da Pegada
Notícia de pegada gravada na rocha, já destruída
Provável nascente

Vizinhança

Via
secundária
Manuel Maia,
Repertório toponímico IGEOE
Pegada
Referência toponímica sem mais informação
?

Estação

Caminho ancestral
Repertório toponímico IGEOE
Pezinhos
Referência toponímica sem mais informação
?

Estação

Caminho ancestral
Repertório toponímico IGEOE
Pegada de Deus
Referência toponímica
Provável fontanário
São Brás
Ermida
Cruzamento
Via
principal x caminho
VASCONCELOS 1937: 272

É a única concentração conhecida no Algarve, que inexplicavelmente nunca atraiu a atenção dos investigadores! Nada se conhece sobre as figuras, sendo apenas possível especular quanto à sua datação, tendo em conta os exemplos estudados noutras regiões. Pertencerão assim ao longo período, de mais de um milénio, que abrange a Idade do Bronze e do Ferro[56].

A sua proximidade dos centros turdetanos de Tavira e do Cerro do Cavaco e a sua integração na a rede viária posterior, relacionada com esses centros, permite atribui-lhes uma datação mais tardia, entre os sécs. V e II a. C.

Os podomorfos são considerados símbolos religiosos (ver o Apêndice 3) e a sua associação a mananciais é talvez a mais comum, combinando-se com a simbologia específica da água. Consistiam então numa sinalética de "águas santas", quer como etapa de um périplo definido pela divindade, quer pelas suas propriedades milagrosas, quer ainda como porta de ligação com o outro mundo, geralmente ctónico ou com outro plano de existência.

Em termos quotidianos da religiosidade popular devem ser interpretados como lugar de águas medicinais ou veterinárias ou de água potável para os viajantes e gados, associado a práticas sacrificiais de retribuição, expiação e pacificação.

Pode postular-se o seu enquadramento numa sociedade rural em que os trânsitos pecuários estão integralmente ritualizados pelas necessidades de dessedentação do gado e pela sazonalidade das passagens e dos caudais. Enquadram-se também numa sociedade em que as funções terapêuticas e profilácticas estão intimamente associadas ao uso da água e aos respectivos cultos.

A inclusão das "pegadas" no estudo da rede viária romana de Tavira provém da sua articulação perfeita com a via romana de Balsa a Baesuris e as suas ramificações locais, devendo-se também à sua associação com lugares de culto cristãos muito posteriores, sugerindo uma continuidade mantida durante a Época Romana.

Elas definem uma malha de pontos numa rede de caminhos, que pode ser completada por outros sítios que, embora não tendo vestígios conhecidos de "pegadas", possuem localizações determinantes, uma natureza de manancial e/ou uma função de marco viário.

Estes pontos são identificados na tabela seguinte, associando as suas características religiosas, aquáticas, viárias e arqueológicas:



Nome
Hagiónimo paleocristão
Manancial
Tradição ou dedução antropológica pré-cristã
Tipologia viária
Local
Tipo arqueológico
São Pedro
São Pedro


Estação/sítio

Via principal
Calçada romana
Fonte das Bicas

São Juliano
Fonte e nascente submarina
Provável culto sacrificial associado ao vau
Cristianizado, desaparecido
Vau

Via principal
Provável sítio de aguada portuária dos povoados fenício e tartéssico
São Marcos
(Senhora da Saúde)
São Marcos
Ermida
Fonte
Culto de fertilidade agro-pecuário e medicinal
Cristianizado,  sobrevivente
Cruzamento

Via secundária x caminho

Poço de Vaz Varela

Poço
Lenda ctónica
Islamizada e convertida em narrativa popular
Cruzamento

Via principal x caminho

Pego do Inferno

Cascata e lagoa profunda
Lugar do banquete ritual do dia de Maio
Lenda de lagoa sem fundo, origem do topónimo
Estação
Bebedouro
Via pecuária principal

Alto do Cano

Fonte/nascente

Cruzamento

Via principal  x secundária

Fonte
Salgada

Fonte

Cruzamento

Via secundária x caminho
Sepultura moçárabe (bispo s. X)
Guomeira

Fonte

Estação/sítio

Via principal

Santa Maria

Nascente



Certamente a nascente do templo fenício que existia no local.
Provável abastecimento
do sítio romana da  Bela Fria
Santo
António

Nascente termal



Provável abastecimento do sítio romano da Atalaia

 

O povoamento rural romano nos arredores de Tavira


Cadastro romano

As marcas cadastrais atribuídas à Época Romana e registadas nesta zona (Vale Formoso e, sobretudo, planície de Cacela) têm uma orientação distinta da zona centuriada centrada em Balsa, sugerindo tratar-se ou de uma demarcação posterior ou de uma unidade administrativa distinta, provavelmente centrada em Cacela ou São Bartolomeu.[57]

O padrão do cadastro actual dos vales da Asseca e da sua continuação para Nascente, na orla meridional da Serra, de cardines compatíveis com o provável decumanus de Vale Formoso, sugere uma divisão de grande escopo que transcende totalmente o sistema de propriedade moderno e  cuja origem medieval é desconhecida e pouco provável.

Esta divisão estabelece-se perpendicularmente ao eixo do vale, correspondendo a tractos de terra de pastos húmidos ou de maior qualidade agrícola. Propomos uma origem romana para esta divisão fundiária, que corresponderá, pela sua forma, ao processo de divisão cadastral em strigae e scamnae, descrito pelos gromáticos. [58]

O termo striga poderá estar na etimologia dos lugares de Estiramantens (no limite norte das centúrias balsenses) e Estraga Mantens (na Serra), topónimos moçárabes provenientes do latim tardio, quiçá já com o sentido de tiras de terra, longas e estreitas.

A delimitação cadastral nas formas strigae/scamnae aplica-se a vales planos, de valor agro-pecuário, encaixados entre terrenos montanhosos e pobres. A centuriação clássica é impossível nestas topografias, devido à estreiteza e mudanças de direcção da faixa de terra útil.

Este processo, consistiria na divisão em talhões perpendicularmente a um eixo que pode mudar de direcção (striga em talhões verticais ao longo de um eixo horizontal e scamna, vice-versa).
O vale da Asseca estaria assim submetido a um cadastro strigatum, em contraste com o restante território litoral, em que são notáveis os vestígios de centuriações ortogonais clássicas.
Região dos estuários do Séqua e de Almargem na Época Romana

Paul da Asseca

O sítio romano do Paul da Asseca ultrapassa, pela sua extensão e quantidade dos achados[59], a dimensão habitual destes estabelecimentos, configurando-se como um vicus estuarino e o mais importante povoado secundário de Balsa nesta zona.

O sítio nunca foi convenientemente estudado, sendo impossível definir elementos da sua topografia.
Os achados continuam a aparecer até hoje, numa extensão de alguns quilómetros, sem qualquer controlo, havendo notícias recentes de sepulturas, moedas e materiais de construção, que têm surgido em diversos locais aquando da plantação dos pomares de citrinos que actualmente cobrem a maior parte do terreno.

Não é clara porém a proveniência do grande capitel coríntio aí localizado há alguns anos, sem contexto nem outros vestígios de colunas[60]. Poderá tratar-se de um dos desaparecidos capiteis de Balsa, trazido por um proprietário local.

Perto do local de achamento do capitel existe uma importante mina (poço horizontal) escavada na rocha, constituída por uma abertura, onde foi reaproveitado um grande lintel de cantaria talhada, e por uma galeria transitável com cerca de duas dezenas de metros, terminando num manancial interior junto ao veio de água.

Há notícia de fortes muros de alvenaria impermeável situados a uma cota mais elevada na área dos Moinhos da Rocha. Poderão ter pertencido ao dispositivo desses moinhos hidráulicos, que já existiam no período islâmico, ou a uma barragem romana mais antiga.

O Pego do Inferno, com a sua profunda lagoa e cascata naturais situa-se dentro do perímetro de achados arqueológicos. Foi usado, tradicionalmente, como um dos mais importantes bebedouros de gado da zona, com água corrente em toda a estação estival.

É também o local mais importante, na área de Tavira, da celebração do banquete ritual do dia de Maio.
Corresponderá assim ao lugar de um primitivo santuário aquático e silvestre, associado às passagens de gados aos festivais comemorativos do Verão e propiciatórios da fertilidade humana, dedicados naturalmente a Diana e Silvano na Época romana e com uma provável origem anterior.

A dispersão de achados funerários indicia terem existido pelo menos duas necrópoles de dimensões consideráveis, para além de outras mais pequenas ou sepulturas isoladas.

Descobriu-se recentemente na encosta Sul do vale, numa cota elevada e distante dos habitats humanos, um conjunto de covas horizontais escavadas na rocha e com abertura voltada a nascente, sem espólio arqueológico[61]. Poderá corresponder a uma necrópole, pilhada ou nunca utilizada, de época indeterminada.

Provém do Paul uma significativa lápide da época romana, datada de finais do séc. II ou inícios do III[62], dedicada a Salianus pelo seu pai Romulensis.

Segundo a leitura de Alexandre Cesário[63], seriam uma família proveniente da Bética, sendo o pai de Sevilha (colonia Iulia Romula Hispalis) e o filho de Singilia Barba, (arredores de Antequera, Málaga), provavelmente ligados à industria de olaria ou cerâmica. Indígenas romanizados, imigrantes na região de Balsa, ter-se-iam localizado no vicus do Paul, onde existem barros de qualidade.

Embora não se tenham encontrado até à data vestígios de fornos ou produção cerâmica da época romana, estes indícios ajustam-se à sua localização industrial óptima, sobre uma via de comunicação entre os filões de matéria prima e o cais de embarque ligado aos portos litorais e ao mar aberto.

De facto, o sítio dispõe-se ao longo do vale da ribeira da Asseca, a meio caminho entre a margem do antigo esteiro navegável (São Domingos da Asseca) e os filões argilosos das Hortas e Fonte do Bispo.

Situa-se junto à via interior da orla serrana, tendo também uma ligação directa a Balsa por um caminho secundário, que seguiria por Prego (topónimo de raiz latina *PRÆCUM, significando oratório ou pequeno lugar de culto na berma da estrada) e Igreja (Santo Estêvão).

Seria portanto, em síntese:
·      Um centro agrícola multinucleado, com provável irrigação artificial dos campos e mais que provável abastecimento de água às casas mais importantes.
·      Uma estação viária sacralizada, associada a trânsitos pecuários.
·      Um centro oleiro local, de cerâmica comum e materiais de construção.


Santo Estêvão

A primeira referência à igreja e freguesia de Santo Estêvão parece ser de 1597[64]. A igreja ainda não é referida na Visitação de 1517-18 da Ordem de Santiago, mas o hagiónimo já o é, relativo a uma herdade[65].  O culto ao santo será assim anterior à criação da igreja e da freguesia, desconhecendo-se porém a sua origem:
§  Poderá ser paleocristã, devido à presença do topónimo local Igreja, com importantes vestígios romanos, a cerca de um quilómetro do templo actual, sem memória religiosa associada[66].

    O culto de Santo Estêvão difunde-se com o domínio bizantino (A imperatriz Eudóxia dedica-lhe uma igreja em 444[67] e está atestado no panteão bizantino norte-africano[68]) e é assim provavelmente introduzido no Sul da Península Ibérica no séc. VI[69].
As cavalhadas no dia do santo (a 26 de Dezembro, tradição mantida localmente até aos dias de hoje) são um elemento habitual  associado ao seu culto e de incontestável origem pré-cristã[70], integradas nas festividades do Solstício de Inverno. Esta é uma data nodal das festividades cíclicas celebradas em virtualmente todas as religiões pré-cristãs da área de influência greco-romana.

O Cristianismo dos sécs. V e VI neutralizou as festividades pagãs mais importantes dessa data através da sua associação ao culto de santos específicos, celebrados em dias próximos.

Uma delas foi a de Epona, divindade feminina guerreira e equina, de origem celta e com grande difusão nos meios militares romanos, celebrada no calendário romano a 18 de Dezembro[71]. As corridas de cavalos que a caracterizavam foram um dos elementos integrados no culto de Santo Estêvão, nomeadamente em meios militares cristianizados.

Esta tradição pode ter-se facilmente mantido no cristianismo moçárabe, na sua faceta naturalista agro-pecuária, bem atestada nas proibições das autoridades eclesiásticas pós-trentinas e nas reminiscências do cristianismo popular do Sul.

Resta dizer que Santo Estêvão de Tavira se localiza muito próximo da grande charca ou albufeira que abastecia a cidade romana de Balsa[72], zona em cujas margens deveria ser mais abundante o pasto e água apropriada para a criação estival de equinos.

§  A presença nos arredores de Tavira deste culto hagiográfico e da sua tradição equestre terá no entanto, mais provavelmente, uma origem posterior à conquista portuguesa, correspondendo a uma devoção do séc. XV associada à actividade das milícias de defesa das praças de Marrocos.

   A criação de cavalos e os exercícios de treino militar são suficientes para justificar uma dedicação ao santo, importada de zonas galaico-portuguesas. Sabe-se de facto que a zona da Luz de Tavira, em que o território de Santo Estêvão então se incluía, foi nessa época uma área de colonização rural associada à defesa das fortalezas africanas[73].

Abandono ou ruralização da zona de Tavira. Uma hipótese interpretativa

A multiplicidade de podomorfos, acima referidos, num espaço geográfico muito limitado revela a persistência, durante a época Romana, de um culto anterior localmente muito difundido. Este culto estará ligado, como se disse, a percursos e mananciais, tendo mantido uma simbologia indígena.

A reconstituição complementar da rede viária local e doutros pontos geocondicionados notáveis permite propor a existência de uma sacralização sistemática das nascentes e cruzamentos em moldes semelhantes, que se manteve parcialmente até à actualidade, através de dedicações paleocristãs e rededicações posteriores.

Não há contudo, para nenhum deles, notícias de uma romanização formal, seja através de intervenções arquitectónicas ou estilísticas ou de objectos de culto.

Contrasta de facto a baixa densidade dos sítios romanos conhecidos em torno da laguna do Séqua-Almargem, relativamente à conhecida fertilidade estuarina e agrícola do local e, sobretudo, comparativamente às elevadas densidades de povoamento verificadas noutros habitats estuarinos do Algarve, como os de Lagos, Alvor e do antigo delta do Guadiana, considerando o número elevado de sítios arqueológicos conhecidos.[74]

A rarefacção de vestígios arqueológicos romanos poderá, porém, dever-se apenas à sua eliminação precoce, provocada pela intensificação da ocupação agrícola originada pelo desenvolvimento do aro de Tavira, após o séc. XI.

Essa obliteração arqueológica é muito provável em primitivos habitats rurais que se tenham posteriormente: ou urbanizado; ou submetido a uma exploração agrícola continuada; ou mantido reocupações sucessivas. Os modestos vestígios romanos característicos desses povoamentos tendem a desaparecer rapidamente nessas circunstâncias.

A ausência de grandes estruturas, estátuas, lápides escritas e elementos arquitectónicos clássicos também não terá atraído a atenção de antiquários e arqueólogos até à década de 60 do Século XX, altura em que se iniciaram as maiores e mais radicais destruições agrícolas e urbanísticas.

Salvo raras excepções de sobrevivências toponímicas e etnográficas, apenas permanecem neste tipo de locais fragmentos cerâmicos isolados e dispersos e eventuais vestígios de metalurgia, somente identificáveis por prospecções sistemáticas e cuidadosas, que nunca foram realizadas. 

Contudo, a hipótese do registo arqueológico reflectir uma efectiva "ruralização desertificada" numa zona naturalmente fértil, pode ter tido causas patogénicas (epidemias), políticas (deslocação mais ou menos compulsiva da população para a cidade de Balsa ou dispersa por outras regiões) ou agrárias (monopolização da terra impedindo a sua colonização e exploração).

O modo da refundação municipal Flávia de Balsa[75] e a presença de um significativo contingente de cidadãos de origem alógena sugere a confirmação de um sério défice demográfico anterior na região e no próprio centro urbano. As causas deste fenómeno, que corrobora a raridade de sítios romanos já referida, permanecem desconhecidas.

A sacralização sistemática atrás referida traduz, no meu entender, um elevado grau de domínio do território, uma familiaridade e um sentido de identificação só possível pela manutenção de uma memória cultural continuada através de gerações.

A densidade da malha resultante revela também uma ocupação intensa e permanente, sedentária e/ou com ritmos bem assentes de circulação sazonal.

A transparência das formas de culto pré-romanas parece significar assim a manutenção da identidade cultural e da apropriação do território pelas populações indígenas rurais, sendo também de esperar uma continuidade toponímica, hoje infelizmente desaparecida, para além do possível caso de Séqua, já referido.

Esta apropriação pré-romana do território seria a existente na fase final de Balsa pré-romana, correspondente ao predomínio do oppidum do Cerro do Cavaco, podendo no entanto ter raízes anteriores.

Pode-se assim postular que nesta zona do território balsense se tenha mantido uma população de extracto indígena, habitantes rurais de pagi, sem direitos de cidadania municipal e pertencendo aos níveis sociais mais inferiores, não tendo  por isso de fazer nenhum esforço especial para se romanizar.

A aparente ausência de povoados com características indígenas mais ou menos romanizadas sugere que essa população indígena não estaria organizada em comunidades peregrinas, sob a forma de vici.

Por outro lado, a presença de sítios e de marcas cadastrais romanas na vizinhança indica que a terra terá sido efectivamente dividida e distribuída segundo o modo Romano clássico.

Esta aparente contradição leva a crer na manutenção das relações fundiárias anteriores, enquadradas no sistema administrativo romano, em que as terras foram assignadas aos descendentes de próceres indígenas, entretanto romanizados e urbanizados, provavelmente no processo de mudança de estatuto de Balsa, de comunidade peregrina estipendiária para município de direito latino.

Esses próceres terão porém continuado a utilizar as relações de clientela e dependência rural pré-existentes, mantendo os sistemas de exploração e de ocupação do território e a continuidade populacional e cultural referidas, num quadro de habitat rural disperso, de pequenas dimensões e, muito provavelmente, com uma densidade populacional muito baixa, sem expressão arqueológica romanizada.

Em termos formais, terá sido assim uma zona em que se verificou a manutenção da formação social turdetana original, articulada com o modo de produção tributário instituído pela municipalização romana do território.

No entanto, esta provável não romanização rural não se pode nem deve generalizar à  totalidade do território balsense. Não existia certamente nem nas áreas centuriadas, apropriadas por colonos-cidadãos urbanos, nem muito menos, nas villaefundi romanizados, demarcados no exterior da pertica, das quais sobreviveram por vezes notícias através da manutenção da toponímia dos possessores[76] (embora estas possam ser mais tardias, constituídas sobre terras primitivamente centuriadas e posteriormente desvinculadas dos agri sob administração curial). 



[1] A bibliografia referida na versão original apresenta-se em apêndice, na versão pdf. A outra é explicitada em nota, na sua primeira referência.
[2] FRAGA 2005a: Restituições topográficas III, Mapa 11.6 e FRAGA 2005b: O porto, 33
[3] A 1ª etapa do Itinerário XXI, de Esuri Pace Iulia (Wess. 425.6; CUNTZ 1929: 66).
[4] Incluído num grande itinerário entre o Estreito de Gibraltar e Braga, que aproveita troços de Itinerários Antoninos anteriores (SCHNETZ 1940: 79, IV 43).
[5] SÃO JOSÉ 1577: 52-53 e ANICA 1989: 226, nº 4.
[6] CASTRO 1751: IV, 568 e ANICA 1993: 73.
[7] SALGADO 1786: 128-9.
[8] SALGADO 1786: dedicatória e p. 129-130, nota 6.
[9] Catálogo de SIMÕES 1869: 12.
[10] GONÇALVES 2007: Gonçalves, Luis R.; Escultura romana em Portugal: uma arte do quotidiano, Studia Lusitana (2), 2 vols., Merida, 2007. Este autor faz a descrição mais completa da peça e do seu contexto e compila a respectiva bibliografia mais actualizada.
[11] CAETANO, João. O. & NOGALES Basarrate, Trinidad. (coords.) Imagenes y mansajes. Escultura romana del Mvsev de Évora, Évora, 2005.
[12] M MAIA 2003 e FRAGA 2003b.
[13]  PEREIRA 1992.
[14] ANICA 1993: 81-82 e PEREIRA 1992
[15] PEREIRA 1992: 78-79. É também a opinião de Maria Maia.
[16] Sobre as nascentes da Atalaia ver SARRÃO 1607: 167 e LOPES 1841: 357-8
[17] SARRÃO 1607: 167 e ANICA 1993: 228-239
[18] Parte da terra pertencente à civitas, cadastrada e distribuída aos seus cidadãos.
[19] VAZ 1992: 162
[20] FERNANDES, LÍDIA 2010: nº 25, p. 170: "Plástica decorativa do Sul da Lusitânia: a propósito dos capitéis romanos da região algarvia" in XELB (10), Actas do 7º Encontro de Arqueologia do Algarve (Silves, 22-24 Out. 2009, Silves; 155-189
[21] Contra (RODRIGUES E BERNARDES 2003: 140), repetido em (RODRIGUES 2004: 43), que coloca a passagem provável no sítio da ponte medieval.
[22] SECCO 1560
[23] COROMINES 1965: vol. 1, p. 14.
[24] FRAGA 2002a:  61-65.
[25] ST. PATRICK 2005b.
[26] Difusão no Noroeste a partir do séc. VII segundo (MENÉNDEZ, J. 2000: A construção do território. Mapa Histórico do Noroeste da Península Ibérica, Fundação Rei Afonso Henriques & Lunwerg Eds., Barcelona e Madrid: 165).
[27] ST. PATRICK 2005b.
[28] Moisés Espírito Santo indica outros exemplos no território português do culto portuário-fluvial de São Juliano. (SANTO, M. E. 2004: Cinco mil anos de cultura a Oeste. Etno-história da religião popular numa região da Estremadura, Assírio & Alvim, Lisboa: 303)
[29] HÜBNER 1871: 69, nº 210 e FERNANDES 2003.
[30] MACIEL 2003: 123-4
[31] PROENÇA 1927: 255
[32] AFONSO III 1266
[33] CORRIENTE 1999: 85, verbete acequia
[34] SÁNCHEZ 1995: 62
[35] As folhas 599 e 600 da Carta Militar, de 1951, fazem doutrina neste sentido, como se pode ver na tabela.
[36] Informação de Alice Fernandes.
[37] OLMSTED, Garret S. 1994: The gods of the Celts and the Indo-Europeans, Archaeolingua, Budapest: 157 e 366.
                LACROIX, Jacques 2007: Les noms d'origine gauloise. La Gaule des dieux, Errance, Paris: 50-1, 78.
                GREEN, Miranda 1986: The gods of the Celts, Sutton Publ., Stroud, ed. 2004: 139-40.
[38] Um documento de 1082, do Cartulário de Santillana del Mar, diz: in illo loco que vocitant Sequas, iusta riba mare... (Léxico hispánico primitivo, Ed. Manuel Seco, R.A.E./Espasa Calpe, Madrid 2003 verbete barqueria p. 86)
[39] MAIA, Manuel 1987, Romanização do território hoje português a Sul do Tejo, F.L.L., Lisboa, 12-78.
                idem 1990, "Povos do Sul de Portugal nas fontes clássicas – Cónios", Arqueologia e História (Sér. X-Vol I/II (1)-1984/88), Lisboa, 73-79.
                GAMITO, Teresa J. 1984, “Celtic culture in Portugal. The Archaeological Evidence”, Celtic Cultures Newsletter, Dublin, 23 s.
                idem 1989, “Paleoetnologia do Centro e Sul de Portugal”, Paleoetnologia de la Península Ibérica, Reunión de 13-15 diciembre, COMPLUTUM 2-3, Madrid, 329-337.
                idem 1991, “The Celts in western Iberia”, EC XXVIII, 173-194.
                idem 1994, “Les celtes et le Portugal”, Aquitania XII, 415-430
                ALARCÃO, J. 1992, "Etnogeografia da Fachada Atlântica Ocidental daPenínsula Ibérica" , Complutum (2/3), 339-45
                MACIAS, J.A. Pérez 1996, “La transición a la Edad del Hierro en el suroeste penínsular. El problema de los celtici”, SPAL 5, Sevilla, 101-114.
                VILATELA, L. Pérez 2000, Lusitania. História e Etnologia, R.A.H., Madrid, 203-258.
                KOCH, JOHN T. 2010, "Paradigm shift? Interpreting Tartessian as Celtic" in (Cunliffe, B. & Koch J. T. eds.) Celtic from the West, Oxbow, Oxford: 185-301.
[40] LOPES 1841: 361.
[41]             CARRASCO 2002: 48-49, 68-70
[42] E SANTO 1990: 35-38.
[43] BLÁZQUEZ 1997.
[44] O exemplo mais conhecido na região é o da Igreja do Corvo, santuário pluriconfessional até esta última época.
[45] Segundo a informação das arqueólogas Sandra Cavaco e Jaquelina Covaneiro, da C.M.T., a quem agradeço a possibilidade de divulgação destes dados antes da publicação dos resultados da intervenção. Foram posteriormente publicados em (CAVACO, S. & COVANEIRO, J. & Candón, A. M. 2006: "O cemitério da "ermida de Santa Ana, Tavira" in XELB (6), Actas do 3º Encontro de Arqueologia do Algarve: Silves, 20-22 Out 2005, Silves: 93-102), artigo que, infelizmente, não acrescenta dados relevantes: nem uma planta das sepulturas nem uma datação mais precisa do que serem do séc. XVIII ou anteriores.
[46] SERRA 1517: 198.
[47] KHAWLI 2001:71 e KHAWLI 2002: 36.
[48] PICARD 2000: 92-94.
[49] A localização tradicional de Gillā em Arrifana, da autoria de David Lopes, foi posta em causa por Christophe Picard (PICARD 2000: 94, nota 45) e abandonada posteriormente pela maioria dos arabistas, tendo António Rei produzido uma excelente síntese do assunto (REI 2002).
Este autor localiza Gillā no Monte Júlia (ou na Azinhaga da Júlia), lugares da freguesia de Alte (Loulé) a partir da sua proximidade de Silves e da homofonia dos topónimos. Porém Júlia é uma antropónimo corrente e transparente, de origem portuguesa provavelmente moderna. A sua associação a Monte e Charneca, comum a outros antropónimos semelhantes, reforçam esta conclusão.
Para além da ausência de um perfil arqueo-topográfico próprio de um ribat, penso que o erro consiste essencialmente em procurar-se um lugar dos arredores de Silves, condicionado pelo anacronismo territorial dos limites do concelho actual ou mesmo do termo medieval. Segundo a própria leitura de Rei (REI 2002: 54, nota 10) Gillā é um dos povoados de Silves. Ora "Silves" surge habitualmente nas fontes árabes como referente do território ou da esfera do domínio político sediado na cidade (tal como sucedera com Uksunuba em séculos anteriores), ou seja, da totalidade da província, territorialmente mais extensa do que o Algarve moderno.
Abdallah Khawli colocou também a hipótese de associar Gillā ao topónimo GiãoGiões (Giões, Alcoutim). Sendo um antropónimo também derivado de Juliano (Gião < Julião < Juliano), é contudo uma forma onomástica galaico-portuguesa, que surge no Algarve apenas como consequência do povoamento português posterior à conquista (A. FERNANDES 1999: 254-255 e informação complementar desta autora). A transformação Gião < Gillā é assim virtualmente impossível por razões histórico-linguísticas. 
Khawli considerou ainda a localização referida como "Gilão" na zona de Santa Clara-a-Nova (Almodôvar), originalmente surgida nos mapas de Tomás Lopez de Machuca (c. 1780) e reproduzida posteriormente em numerosa cartografia dela copiada até c. 1830, com destaque para os mapas militares da Guerra Peninsular. Na realidade tal identificação é impossível pois o topónimo é um dos numerosos erros de designação de lugares e de implantações de caminhos do mapa de Tomás Lopez, não correspondendo a nenhuma realidade corográfica conhecida noutras fontes coevas nem na cartografia da 2ª metade do séc. XIX, muito mais rigorosa e detalhada.
[50] KAHWLI 2003: 133-4 (KAHWLI, Abdallah 2003: "Tavira Islâmica. Novos dados sobre a sua História" in  (Maia, M. & Fernandes, C. com.) Tavira, Território e Poder, Câmara Municipal de Tavira, Tavira: 131-146).
[51] TAHIRI 2003: 151-3 (TAHIRI, Ahmed 2003: "Tavira Islâmica. Una entidad urbana de Ukšunuba en Gharb al-Andalus" in  (Maia, M. & Fernandes, C. com.) Tavira, Território e Poder, Câmara Municipal de Tavira, Tavira: 147-154).
[52] Informação de Abdallah Khawli.
[53] M MAIA 2003: 156.
[54] MERIDA 2003: 135 e ENCARNAÇÃO 1988: 128-9, nº 76 e 134-7, nº 80.
[55] Esta notícia deve associar-se à lenda fundacional da igreja de Santa Catarina, que relata a história da imagem encontrada numa rocha junto à Fonte do Bispo, que, quando deslocada para o sítio da nova igreja, regressava ao lugar inicial, até à realização de um ritual de pacificação.
                Este estereótipo bastante comum (Senhora da Piedade de Loulé, São Brás de Alportel, etc.) revela geralmente um lugar de culto pré-cristão e a sua continuidade moçárabe, até à obliteração pós-Trentina destes locais, que foi sistemática no Algarve, acompanhando-se habitualmente da mudança do lugar de culto, da dedicação e da base do ritual, com repressão formal dos seus aspectos pagãos, ainda muito vivos no século XVII.
[56] GOMES E MONTEIRO 1977: 162
[57] Estudo do autor,  inédito.
[58]CHOUQUER e FAVORY 2001: 115-124.
[59] SANTOS 1972:  297-300.
[60] MARQUES 1995: 111,133
[61] Informação de Sandra Cavaco.
[62] ENCARNAÇÃO 1984: 146-148, nº 88
[63] CESÁRIO 2000. Transcrevemos, com a devida vénia, a leitura e respectiva tradução deste autor: D(iis) M(anibus) [S(acrum)] / SALIANVS V(i)X(it) / ANNIS XXXIII (trigintatribus) M(ensibus) / II (duobos) ROMVLE(n)SIS PATER /POS(uit) ILIO PIENTISS(imo) SIT(o) / BARB(a)E //
                Consagrado aos Deuses Manes. Salianus, natural de (Singilia) Barba, viveu trinta e três anos e dois meses. O pai, Romulensis, colocou ao filho, modelo de piedade, (que aqui está) sepultado.
[64] ANICA 1993: 37.
[65] SERRA 1517: 195.
[66] SANTOS 1972: 297.
[67] ST.PATRICK 2005e.
[68] FREND  2000: 325,328.
[69] No Noroeste, mais afastado da influência bizantina, o culto de Santo Estêvão é atestado desde o séc. VI (MENÉNDEZ, J. 2000:165).
[70] VASCONCELOS, J. Leite 1982: Etnografia Portuguesa,  vol. VIII, INCM, Lisboa: 507.
[71] OLMSTED 1994: 158.
[72] FRAGA 2007: 117-8, mapa 11.
[73] OLIVEIRA 1913: 88-93.
[74] FRAGA 2005a: Mapa 24, Síntese corográfica e viária do Sul da Lusitânia
[75] A restituição da forma urbana de Balsa revela a existência de uma nova cidade acoplada à anterior, constituindo uma dípolis, forma que se poderá associar a refundações que unissem uma comunidade pré-existente com um novo grupo imigrante (FRAGA 2005 b: hipótese de evolução urbana).
[76] De que sobreviveram, na toponímia do Algarve Litoral, a Leste de Faro, Galvana, Sambada, Jordana, Marim, Fajana e Caiana (estudo inédito de Alice Fernandes).

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