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Saturday, August 05, 2006

TEMPLOS PAGÃOS TARDIOS

Os templos-de-galeria de Milreu, Marim e São Cucufate

Extracto do estudo MARIM ROMANO, publicado em www.arkeotavira.com/alg-romano/marim/index.html


Plantas comparadas dos templos de Marim, Milreu e São Cucufate
[i]

Theodore Hauschild revelou as semelhanças entre estes edifícios e os fana de tradição céltica, comuns na Gália e Germânia do Baixo-Império[ii] e caracterizados por um corpo central (rectangular, circular ou poligonal) rodeado por uma galeria períbolar, tendo frequentemente no seu interior uma fonte associada ao culto.

Reconstituição do templo-de-galeria de Milreu, por T. Hauschild

O abside semicircular, muito frequente na arquitectura romana do séc. IV, está porém virtualmente ausente dos exemplos romanos de tradição celtico-germânica[iii], o que poderá significar uma síntese original ao gosto de meados do séc. IV, que constituiu a última geração deste tipo de edifícios[iv].

A hipótese inicial de datar o templo de Milreu da 1ª metade do séc. IV
[v] foi posteriormente revista e atrasada para a a 2ª metade desse século[vi]
De facto, a construção do templo associa-se a uma reconstrução da parte residencial de Milreu em moldes palatinos luxuosos, reflexo evidente do aumento do estatuto do proprietário.

A transformação do templo de Milreu em igreja cristã terá ocorrido durante o séc. V, uma inevitabilidade após os éditos de Teodósio, de 391. No entanto, a piscina baptismal, inicialmente datada do séc. V, e mesmo do IV
[vii] é actualmente atribuída ao séc. VI[viii].

Seria interessante saber o impacto que teve no local o grande sismo que terá ocorrido em talvez em 382
[ix].

A conjuntura administrativa e religiosa da Lusitânia na 2ª metade do séc. IV

O aumento de estatuto do possessor de Milreu pode relacionar-se com a promoção da Lusitânia, de província praesidial a província a consular, que ocorreu no reinado de Constâncio II, provavelmente após a sua vitória sobre Magnêncio (em 353) e como recompensa pelo apoio provincial
[x]. Trata-se, pelo que se sabe, do evento mais importante de meados do séc. IV que poderá estar na origem na magnificência construtiva de que há diversos exemplos deste período.

A promoção da Lusitânia ter-se-á, sem dúvida, reflectido no aumento de nível dos dignitários dos diferentes escalões da administração provincial e, naturalmente, nos sinais ostentatórios da sua hierarquia adquirida.
Esses dignitários estavam nesta época intimamente ligados à aristocracia imperial da Prefeitura das Gálias, com sede em Treveris, de quem dependia o vigário e os governadores provinciais da Hispania assim como os nomeados para os distintos cargos do Estado nas províncias.

Desde 355 que Juliano controla a Gália (e indirectamente a Hispania) como César, sendo o seu édito de tolerância religiosa de inícios de 362. Após a sua morte em 363, Valentiniano e Valente continuaram essa política de tolerância do paganismo.

No Ocidente, até à vitória de Teodósio sobre Eugénio em 391, a aristocracia pagã romana e gaulesa manteve-se sempre no topo da hierarquia política, administrativa e militar, sobretudo nas décadas de 350 a 380, destacando-se o seu desempenho à cabeça da Diocese da Hispânia e da província da Lusitânia. Javier Arce
[xi] assinala que praticamente todos os vicarii são pagãos e provenientes de velhas famílias aristocráticas que encabeçaram a reacção intelectual ao avanço cristão. Como consequência, o paganismo peninsular terá usufruído deste apoio ao mais alto nível.

É de referir o caso do senador e erudito Agorius Praetextus, que foi vir clarissimus consularis Lusitaniae antes de ser proconsul de Acaia em 363 (já no reinado de Valentiniano), protector dos cultos mistéricos, que obteve o privilégio de manter os rituais de adivinhação e de sacrifícios nocturnos nesta última província
[xii]. Já Hauschild, em 1964, colocava a hipótese do construtor do templo ter pertencido à "nobreza romana de espírito pagão conservador"[xiii].

Pode, portanto, concluir-se que o renascimento pagão que se seguiu à vaga repressiva de Constâncio em 341-345 tornou perfeitamente viável não só a vinda de altos dignitários pagãos de Itália e da corte de Treveris para o Algarve mas também a edificação de templos privados nas suas luxuosas residências.
Muitos desses cargos tornaram-se, nesta época, sinecuras hereditárias, sem ocupação efectiva de um posto oficial, criando uma classe de potentiores provinciais de estatuto senatorial.

A sub-capitalidade de Ossonoba

Embora nada se saiba em concreto da sediação em Ossonoba de officia sub-provinciais nem das suas atribuições, essa hipótese tem sido avançada, podendo ter existido já no séc. III, desde o reinado de Diocleciano, ou mesmo de Galieno.

Existe também a hipótese de Milreu ter sido uma residência oficial dessa magistratura
[xiv], quiçá uma residência temporária do governador provincial, no séc. IV[xv] e, anteriormente, de um possível praefecto estatal relacionado com a actividade mineira[xvi].

Estas hipóteses ganham relevância pela própria localização da Milreu, no limite exterior da pertica centuriada de Ossonoba
[xvii], o que indicia uma autonomia (e consequente imunidade) relativamente à jurisdição territorial da civitas. A transformação da pars fructuaria de Milreu a partir do séc. III, em zonas residenciais secundárias[xviii] é igualmente compatível com um processo de palatização, isto é, de transformação da residência privada num complexo de serviços e residências administrativas próprios de um centro de poder sub-provincial.

A hipótese ajusta-se também à construção muito tardia, nos últimos anos do séc. IV ou inícios do V, do "Mosaico do Oceano" em Ossonoba, no que pode ter sido o bairro administrativo estatal na periferia norte da cidade.
[xix]

Notas

As referências bibliográficas estão em www.arqueotavira.com/pleiades/marim/marim-romano-texto.pdf

[i] Segundo Teichner (2003), p. 108
[ii] Hauschild (1964/1990), p. 148-9
[iii] P. Gros (1996), pp. 199-203; R. Chevalier (1988), pp. 124-131
[iv] Outro templo "romano-céltico" da Britannia, em Caerwent (Gales do Sul), datado de c. 330 d. C., apresenta um pequeno ábside adossado a um dos lados da cella, mantendo porém ainda uma galeria exterior rectangular, rodeada por um precínto exterior, também ractangular (LA BÉDOYÈRE 2006: p. 243).
[v] Hauschild (1964/1990), pp. 146-7
[vi] Hauschild e Teichner (2002): 55, Teichner (2003), p. 107
[vii] Hauschild (1964/1990), p. 147
[viii] Hauschild e Teichner (2002), p. 55
[ix] Responsável pela destruição irreversível de Baelo Claudia (Sillières 1995: p.57), pela ruína de Gades, referida por Avieno (Ora Maritimia 265-268) e talvez pela submersão de três pequenas ilhas em frente do Promontório Sacro (Moreira 1991 apud COSTA e ABREU 2005: p. 20). Este sismo, originador de um tsunami, terá sido também responsável pela obliteração do porto de Balsa e pela destruição de incontáveis edifícios em todo o Algarve Romano, nomeadamente o estabelecimento da Boca do Rio (Budens).
[x] F. Salmonte 2002 p. 28
[xi] J. Arce (1982), p. 61-62
[xii] A.H. M. Jones (1966), p. 64
[xiii] Hauschild (1964/1990), p. 150
[xiv] Alarcão (1985), p. 105-106; Mantas (1990), pp. 183-184
[xv] Encarnação (1985), p. 126
[xvi] Mantas (1997), p. 296; Fraga da Silva (2002), p. 35
[xvii] Fraga da Silva (2002), p. 19. Ver a representação das perticas de Ossonoba e Balsa no mapa 3 em apêndice.
[xviii] Hauschild (1997), p. 408
[xix] É inexplicável a sua datação na transição do séc. II com o III, por LANCHA (1985): p. 120, seguida por muitos autores, sabendo-se já desde a época da sua escavação, terem sido descobertos debaixo do nível do mosaico cacos de cerâmica sigillata clara africana e uma moeda não identificada (e entretanto desaparecida) mas datada do séc. V, provavelmente de Teodósio.

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