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Wednesday, November 11, 2009

Carta Agrícola e Corográfica



A
Carta Agrícola e Corográfica
, dita de Gerardo Pery, seu organizador, constitui um documento geográfico insubstituível na reconstituição do território pré-industrial do nosso país, nomeadamente na região do Alentejo, onde se localizam a maioria das cartas publicadas.
O momento do seu levantamento (última década do século XIX) corresponde a um período de relativa divisão da propriedade alentejana, em que, aos compradores dos morgadios extintos e dos bens de mão morta, se juntam grandes quantidades de enfiteutas e proprietários, lavradores independentes.
O resultado traduz-se cartograficamente por uma riquíssima divisão fundiária e, sobretudo, por uma numerosa toponímia de courelas e herdades. Grande parte desta toponímia desaparece ou transforma-se durante os cinquenta anos seguintes graças a uma progressiva concentração da propriedade. A sua presença permitirá identificar numerosos locais de origem romana-moçarabe, islâmica-árabe e próprios dos diferentes períodos da ocupação portuguesa. Fornecerá igualmente importantes informações sobre a ocupação coeva do território e os seus sistemas sociais, económicos e culturais.
Trata-se dum período anterior à grande extensão da cultura cerealífera, que teve o seu apogeu na primeira metade do século XX. Como consequência, representam-se ainda as manchas culturais anteriores a esta monocultura, susceptíveis de permitir uma reconstituição da ocupação do solo dos séculos imediatamente anteriores. São sobretudo relevantes as áreas de incultos, matos, pastagens naturais e pousios e de essências florestais. Por outro lado, o carácter da ocupação do solo perto dos assentamentos populacionais fornecerá importantes elementos para o conhecimento do povoamento e dos sistemas agrícolas.
Mais importante ainda, a rede viária representada é ainda fundamentalmente a herdada do período medieval e mesmo anterior, com excepção de zonas bem caracterizadas. Nem os caminhos e estradas da mecanização e da cerealicultura foram ainda abertos nem as próprias do trânsito automóvel, todas elas características da primeira metade e, por vezes, do início da segunda metade do século XX. São especificamente valiosos os cruzamentos, passagens fluviais e portelas, que representarão muitas vezes pontos notáveis de eixos viários muito anteriores. Os percursos rectilíneos - garantidamente antigos porque anteriores ás rectificações próprias da motorização - poderão também ajudar à identificação de traçados do período romano.
Para além da sua importância histórica, arqueológica, geográfica, económica, agronómica e antropológica, a carta é constituída por folhas de grande valor estético e técnico, que serão indiscutivelmente do agrado dos amantes e profissionais da cartografia.
A Carta Agrícola e Corográfica de Gerardo Pery tem permanecido desconhecida e sobretudo inacessível a gerações de investigadores do território e ao público culto e interessado.
À indisponibilidade associa-se a sua pouca maleabilidade. Tratando-se de documentos relativamente raros e frágeis, não é possível manipulá-los directamente e é dispendioso e difícil reproduzi-los eficazmente. A junção de folhas para visões de conjunto torna-se assim praticamente impossível, para além de serem raros os locais que possuem ou disponibilizem a sua colecção completa.
Trata-se porém de um documento histórico essencial, que faz parte do património do país e, sobretudo, das privilegiadas zonas que tiveram a sorte de ter sido contempladas com uma folha publicada. É sobretudo o caso da Região do Alentejo (com 34 folhas) e, em muito menor grau, do Alto Douro (4 folhas), do Algarve (2 folhas parciais) e a Beira Litoral (1 folha).

Ficha técnica

Título

Carta agrícola de Portugal na escala de 1:50.0000 e outras.
Também designada por Carta Agrícola e Corográfica de Portugal

Editor

Direcção geral de Agricultura.

Data de publicação

Entre 1890 e 1908

Apresentação original

Folhas com 40 x 50 cm, a cores.
As cartas na escala 1:50.000 representam uma superfície de 20 km de largura por 25 km de altura.
As cartas na escala 1:25.000 representam uma superfície de 10 km de largura por 12.5 km de altura.
A qualidade do papel e, sobretudo das cores, varia muito conforme as folhas.

Conteúdo corográfico

Curvas de nível com equidistância de 25 metros e pontos cotados
Marcos topográficos de 1ª e 2ª ordem
Toponímia corográfica e fundiária
Fisiografia
  • Rochedos e escarpas
  • Areais
  • Lodos
  • Marinhas de sal
Hidrografia
  • Rios, ribeiras e linhas de água
  • Lagoas
  • Canais e levadas
  • Aquedutos
Recursos hídricos
  • Fontes e nascentes
  • Águas minerais
  • Estabelecimentos termais
Transportes e comunicações
  • Pontes de pedra ou de ferro
  • Pontes de madeira para carros
  • Pontes para cavalgaduras
  • Estradas construídas
  • Caminhos
  • Caminho de ferro
  • Faróis
Povoados
  • Cidades e vilas fortificadas
  • Cidades, vilas e aldeias
  • Casas isoladas
Estabelecimentos industriais
  • Azenhas
  • Moinhos de vento
  • Fornos de cal
  • Mina em exploração
Igrejas
  • Sedes de freguesia em povoação
  • Sedes de freguesia isoladas
  • Capelas e ermidas
Estabelecimentos militares
  • Redutos e torres
  • Castelos e fortes
  • Entrincheiramentos
  • Muralhas e muros
Divisão administrativa
  • País
  • Distrito
  • Concelho
  • Freguesia
Limites de propriedades
Limites e zonas de culturas
Culturas arvenses
Culturas hortícolas
Culturas industriais
Hortas e pomares
Arrozais
Vinhas
Vinha com olival
Vinha com pomar
Pomares de sequeiro
  • Olivais
  • Olivais novos, sem produção
  • Figueiras
  • Alfarrobeiras
  • Amendoeiras
  • Arvoredo frutífero diverso
  • Alfarrobeiras com oliveiras
  • Figueiras com amendoeiras
Montado
  • Chaparral
  • Azinho
  • Azinho com sobro
  • Sobro
  • Azinho com olival
  • Azinho com sobro e olival
Essências florestais
  • Carvalhais
  • Soutos de castanheiros
  • Pinhais
  • Matas de diversas essências
Pastagens
  • Prados artificiais
  • Prados naturais
  • Pastagens naturais em pousios
Incultos
  • Charnecas e matos
  • Terrenos improdutivos

Folhas publicadas conhecidas

Na escala 1:50.000
159 Setúbal
160 Cabrela, Vendas Novas
161 Montemor-oNovo
163 Évora
164 Redondo
167 Cabo Espichel
168 Sesimbra
169 Estuário do Sado (Comporta)
170 Alcácer do Sal
171 Torrão
172 Alcáçovas,(Viana do Alentejo
173 Oriola
176 Granja (Mourão)
177 Melides
178 Grândola
179 São Mamede
180 Ferreira do Alentejo
181 Cuba
182 Marmelar, Brinches
183 Moura
184 * Amareleja
185 * Barrancos
186 Sines
187 São Domingos, São Bartolomeu
188 Alvalade
189 Aljustrel
190 Beja
191 Serpa, Baleizão
192 Aldeia Nova de São Bento, Pias
193 Vila Verde de Ficalho
194 Vila Nova de Mil Fontes
196 Garvão
201 São Teotónio, Odeceixe
206 Vaqueiros, Martinlongo
* Ainda não disponível na presente colecção
Na escala 1:20.000
39-50 * Mesão Frio
Por a folha não estar disponível e ser o único exemplar publicado nesta escala, desconhecem-se as sua dimensões e localização.
* Ainda disponível na presente colecção
Na escala 1:25.000
40 D Pinhão
51 A Adorigo, Armamar
51 B Ervedosa, Tabuaço
52 A São João da Pesqueira
84 C Alfarelos, Granja (Montemor-o-Velho)
Sem escala
Folha de legenda

Mapa de Junção das Folhas

Localização das folhas publicadas
As folhas a cinzento não estão ainda disponíveis. A folha 39-50 não está representada.

Bibliografia
A utilização do solo, das cartas de G.Pery (fins do século XIX) a meados do século XX
Mariano Feio
in A evolução da agricultura do Alentejo meridional, pp. 9 a 70.
Edições Colibri, Lisboa, 1998
Bibliografia geográfica de Portugal
Hermann Lautensach
Adaptação e complementos de Mariano Feio
Instituto para a Alta Cultura, Centro de Estudos geográficos, Lisboa, 1948
Pág. 23
Boletim da Direcção Geral de Agricultura, VI, nº 13
Lisboa, 1894
Le Portugal Méditerranéen à la fin de l'Ancien Régime
Albert Silbert
Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1978
A evolução agrária no Portugal Mediterrâneo
Orlando Ribeiro
Centro de Estudos Geográficos, Lisboa, 1970
O espaço medieval da Reconquista no Sudoeste da Península Ibérica
João Carlos Garcia
Centro de Estudos Geográficos, Lisboa, 1986
Através dos campos. Usos e costumes agrícolo-alentejanos (concelho de Elvas)
José da Silva Picão
Elvas, 1903
Materiais para a história da questão agrária em Portugal - Séc. XIX e XX
Selecção, prefácio e notas de Manuel Villaverde Cabral
Inova, Porto, 1974
Estatística agrícola no Districto de Beja
Parte I - Concelho de Beja, 1883
Parte II - Concelho de Cuba, 1883
Parte III - Concelho de Alvito, 1885
Parte IV - Concelho de Vidigueira, 1885
Gerardo Augusto Pery
Imprensa Nacional, Lisboa
Le Portugal Inconnu I: Paysans, Marins et Mineurs
Léon Poinsard
La Science Sociale Nº 67-68, Bureaux de la Science Sociale, Paris, 1910

Versão Digital

Resolução 300 dpi
Cor 24 bits
Folhas clarificadas para permitir a leitura da toponímia sobre manchas mais escuras
Orto-rectificação gráfica: ajustamento do ângulo de digitalização (rotação inferior a 0.01graus) e da distorção do papel (flecha na maior aresta inferior a 1 mm)
Geo-referenciação sobre a carta militar 1:25.000 em coordenadas Hayford-Gauss referentes ao centro geográfico de Portugal Continental (erro médio inferior a 1 mm nos três quartos centrais das folhas, equivalente a 50 m no terreno).
Dimensão normalizada das folhas: 3152 x 3940 pixels
Formato gráfico: GEO-TIFF não comprimido com World File associado.
Folha de legenda com cores e sinais convencionais

4 comments:

  1. Muito interessante - no artigo todo só falta mesmo indicar onde se encontra disponível esta cartografia digital...

    Agradecido antecipadamente pela informação.

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  2. Infelizmente este é um dos projectos do malogrado "Corpus Territorial do Sul", que jaz - com muitos outros - na necrópole do Campo Arqueológico de Tavira. O fundo documental pertence-me e ficará à espera sine-die por uma oportunidade de publicação!

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  3. Obrigado pela resposta.

    Citando as primeiras palavras desta entrada do blog (ênfase da minha autoria)

    "A Carta Agrícola e Corográfica, dita de Gerardo Pery, seu organizador, constitui um documento geográfico insubstituível na reconstituição do território pré-industrial do nosso país, nomeadamente na região do Alentejo, onde se localizam a maioria das cartas publicadas.
    "


    É assim triste que tal esteja "enterrado" e, apesar de algumas folhas aparentemente já se encontrarem georrefenreciadas (conforme se constata noutras entradas do blog), as mesmas aguardem "oportunidade de publicação" ao contrário de servirem as necessidades da investigação científica.

    Posso sugerir a disponibilização online dessas mesmas folhas, de forma gratuita, como forma a cumprir o seu "insubstituível" desígnio?

    Desde já agradecido

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  4. Terei todo o gosto em discutir as hipóteses de acesso às cartas digitais, assim como a outros fundos documentais de índole geográfica.
    Caso esteja interessado pode enviar-me um e-mail para o endereço indicado no perfil deste blog.
    Cumprimentos

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