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Monday, December 06, 2010

DE VIIS MARIS (1ª parte)


Ver a segunda parte deste post aqui

DE VIIS MARIS ET DE COGNITIONE TERRARUM ET MONTIUM ET DE PERICULIS DIVERSIS IN EISDEM.
Das vias marítimas e do conhecimento da terra e dos montes e dos perigos diversos que neles há.
(Obra inédita, datada de 1191-93 e atribuída a Roger de Howden)

Transcrição da parte correspondente à Península Ibérica e tradução comentada à parte da costa entre Lisboa e o Estreito de Gibraltar, baseada na edição de 
Patrick Gautier Dalché (ed.); "De viis maris" in Du Yorkshire a L'Inde. Une «Géographie» urbaine et maritime de la fin du XIIe siècle (Roger de Howden?), Droz, Genève, 2005; pp. 173-229 (texto) + pp. 253-286 (comentários).
Edição crítica baseada em dois manuscritos inéditos do séc. XV: P: Paris, BN(F), latin 3123, f. 126r-155v;  V: Valenciennes, Bibl. mun. 453, f. 52va-74rb.

A edição de Dalché corresponde a um conjunto de três textos independentes, compilados em manuscrito, de que se conhecem as duas apenas cópias tardias acima referidas. Esse textos são:
  1. Expositio Mappe Mundi
  2. Liber Nautorum
  3. De Viis Maris
À publicação da transcrição anotada e comentada destes textos e outras análises, o editor acrescenta dois capítulos de especial interesse e utilidade para um geógrafo histórico, que podem ser lidos como ensaios independentes:
  • Décrire le monde et situer les lieux (pp. 49-82).
  • Espaces maritimes et techniques nautiques (pp. 83-121).
O seu comentário sai fora do âmbito deste post.
O terceiro texto original "De Viis Maris" apresenta uma descrição da geografia naval de uma viagem entre a Inglaterra e a Terra Santa, com elementos de informação geográfica que alcançam a Índia. O texto transcreve numerosas partes da Chronica Magister Roger Houedone, escrita um ou dois anos antes pelo que se presume ser o mesmo autor.
A parte respeitante à Península Ibérica é a que nos interessa aqui, pelas novidades que apresenta relativamente à Chronica.
Sou da opinião que, de um modo geral, o trabalho de Dalché é desigual: por um lado a transcrição parece ser irrepreensível, por outro é um autor que não domina o corpus bibliográfico histórico-geográfico ibérico, nem conhece as línguas regionais, recorrendo a fontes terciárias, sobretudo francesas. As suas anotações são escassas, incompletas e superficiais relativamente à identificação e à toponímia dos lugares. A sua leitura é um balde de água fria após o estudo das obras similares de Charles Wendel David e de Jaime Ferreiro Alemparte.

Em contrapartida, e no melhor sentido, os seus ensaios de síntese relativamente aos usos das fontes históricas no estudo da navegação medieval e na percepção do conhecimento geográfico coevo são de grande qualidade e representam avanços reais na crítica e teorização desta problemática.

NOTA IMPORTANTE: Este post e os documentos aqui apresentados não substituem a leitura do original!
Link para o catálogo da editora

Uma nova fonte de geografia costeira e naval peninsular 
Não é todos os dias que nos cai diante dos olhos uma fonte documental histórica quase inédita e virtualmente desconhecida da historiografia portuguesa medieval de temática geográfica. Sobretudo quando essa fonte acrescenta dados importantes e constitui a primeira atestação escrita da existência, em finais do século XII, de vários lugares da costa hoje portuguesa e espanhola, nomeadamente (mas não só) da costa portuguesa do Alentejo e do Algarve.

Parte correspondente à Península Ibérica

Publico aqui uma versão por mim digitalizada em texto, de uma parte do original latino da edição de Dalché, com exclusão das notas à margem e de rodapé e dos comentários deste autor. Deixo porém a numeração original das notas de rodapé, que correspondem a variantes ortográficas dos dois manuscritos usados na edição crítica.

LINK AQUI 

Parte correspondente à costa entre Lisboa e o Estreito de Gibraltar

A tradução
O texto original é bastante estereotipado e repetitivo, tal como em muitos outros documentos de descrições geográficas por enumeração. Porém isso facilita a elaboração da estrutura da sua informação geográfica, assim como a tradução. Está escrito num Latim muito simplificado e pobre em vocabulário, com algumas palavras inglesas, o que facilitou muito a tradução livre que aqui se apresenta, feita sem nenhumas pretensões. Nela mantiveram-se os topónimos originais em caixas altas e eliminaram-se os aspectos mais repetitivos do original, que pode ser sempre cotejado na coluna da esquerda.

Sinais convencionais
Sublinhado:  Texto inédito da Viis Maris. Corresponde à parte mais importante da informação histórico-geográfica deste documento, desconhecida antes da sua publicação.
Não sublinhado:  Texto de ligação ou repetido na Chronica Magister Roger Houedone, Stubbs (Ed.), vol. III, 1870. (CH)
Entre { }:  Texto de CH omitido em VM. Não incluído na tradução.
Entre ( )    Topónimos actuais na tradução e respectivas notas.
Entre [ ]:   CH: Forma toponímica correspondente na CH.
NIN: Forma toponímica  correspondente na Narratio de Itinere Navali, C. W. David (ed.), 1939. Apenas nos casos omissos em CH.
VM: Notas de P. G. Dalché na edição de De Viis Maris.
Notas minhas

Original
Tradução livre
1
V.5[...]
Deinde in terra eiusdem regis est mons magnus protensus in mari qui dicitur Spicel [CH: Spichel], distans a portu Vlixbone per XVIII miliaria.
Depois, na terra do mesmo rei, está uma grande montanha, que entra pelo mar dentro, chamada SPICEL (Cabo Espichel), a 18 milhas do porto de VLIXBONE (Lisboa).
2
V.6 Deinde in terra eiusdem regis est portus de Alkaz [CH: Dalchath] distans a Spichel per XVIII miliaria, et ibi est bonus portus profundus et securus, et ad introitum portu est quedam rupis que dimittenda est a sinistris intrantium,
Depois fica o porto de ALKAZ (Alcácer do Sal), à distância de 18 milhas de SPICHEL, que é um bom porto, profundo e seguro, e na sua entrada  há uma rocha que fica (se deixa) à esquerda do acesso.
3
et in ascendendo per eumdem flumen est uilla Alchaz distans a portus introitu per XX miliaria.
e subindo por este rio fica a vila de ALCHAZ (Alcácer do Sal), à distância de 20 milhas da entrada do porto.
4
Deinde in terra eiusdem regis est quedam forlande basse que dicitur Sines [CH: Sinnes] {terram quandam arenosam protensam in mari} distans a portu de Alchaz per XL miliaria, et ibi est bona anchoratio per uentum del north, del northwest et del west.
Depois fica uma saliência de terra baixa chamada SINES (Sines), distante de 40 milhas do porto de ALCHAZ e que é um bom ancoradouro protegido dos ventos do Norte, do Noroeste e do Oeste.
5
Deinde in terra eiusdem regis est fluuius recens descendens de montibus qui dicuntur Iunckere, et ibi fuit tempore paganorum uilla que similiter dicitur Iunckere.
Depois há uma ribeira recém-descida do monte chamada IUNCKERE (Ribeira da Junqueira), onde foi em tempos uma vila de pagãos, também chamada IUNCKERE (!?).
6
Deinde est mons magnus qui dicitur Muntaga in cuius summitate est castellum, et distat a Cisnes per quatuor miliaria.
Depois fica o monte grande chamado MUNTAGA (Cerro da Águia?), em cujo cume há um castelo, que dista de SINES quatro milhas.
7
Deinde in terra eiusdem regis est bonus portus qui dicitur Ordunne [CH: Deordimire  > portus De *O(r)dimire > Wadi Mira ], sed introitus eius periculosus nisi cum mare plus medio fuerit ascensum.
Depois está o bom porto chamado ORDUNNE (Porto de Odemira: Vila Nova de Milfontes) cuja entrada é perigosa a não ser que a maré esteja subida (acima do nível médio do mar).
8
Et ibi est fluuius dulcis aque qui dicitur Ordunne qui distat a Persekere per VIII miliaria.

E aí existe um rio de água doce chamado ORDUNNE (Rio Mira) que fica a oito milhas de PERSEKERE (Ilha do Pessegueiro!) .
9
V.7 Deinde per XXXV miliaria sunt fontes aque dulcis qui dicuntur Arisfane.
Et ibi est mons in cuius summitate est castellum de Alinzur, et sunt ibi tria maumieria [VM n. 115: mammeria em ambos os manuscritos!] Sarracenorum deserta que in lingua Sarracenica dicuntur meskites.
35 milhas depois estão as fontes de água doce chamadas ARISFANE (Arrifana). E aí há um monte em cujo cume fica o castelo de ALINZUR (Aljezur), e existem aí três MAMMERIA (morabitos: edificações de tecto abobadado, em forma de mamas?) abandonadas pelos sarracenos que na língua árabe se chamam MESKITES (mesquitas!).
10
Deinde in terra eiusdem regis per XX miliaria est mons magnus {magnum et excelsum} qui dicitur caput Sancti Vincentii [CH: idem], longe protensus in mari, in quo reliquie sancti Vincentii martiris sepulte fuerunt per multa tempora, donec per diuinam reuelationem translate fuerunt usque ad ciuitatem Vlixbone.
Depois, a 20 milhas, situa-se um grande monte chamado CAPUT SANCTI VINCENTII (Cabo de São Vicente) que entra no mar numa grande extensão, onde as relíquias do mártir São Vicente estiveram sepultadas durante muito tempo, até que, por revelação divina, foram trasladadas para a cidade de VLIXBONE.
11
In monte autem illo inuenitur copia lapidis Damasci qui datur egrotis contra fluxum uentris, sed non est ibi portus nec anchoratio.
No monte acham-se porém muitas Pedras de Damasco (!?) que se dão aos doentes contra o fluxo do ventre (diarreia). Não existe aí nem porto nem ancoradouro.
12
Deinde in terra eius dem regis est portus bonus qui dicitur Sanguis[NIN: Sagris], et sunt ibi putei multi dulcis aque, et distat a capite Sancti Vincencii per V miliaria.
Depois fica o bom porto chamado SANGUIS (Sagres) onde há muitos poços de água doce e que dista cinco milhas do Cabo de São Vicente.
13
V.8 Deinde in terra eiusdem regis per V quasi miliaria est mons magnus qui dicitur Lages [NIN: Lagus], in cuius summitate est castellum paganorum quod Colonienses et Frisi et Angli et alii peregrini Iherosolimitani per mare euntes destruxerunt.
Depois, a quase cinco milhas, fica o grande monte chamado LAGES (Lagos!), em cujo cume fica o castelo dos pagãos destruído pelos Colonienses, Frísios e Anglos e outros peregrinos a Jerusalém vindos por mar. (Confusão com Alvor e talvez com os castelos de Monchique ou Alferce).
14
Deinde est portus de Siluis[CH: idem], et aqua illius portus dicitur Portinunt [*Portimunt, NIN: Porcimunt], distans a capite sancti Vincentii per XL miliaria.
Depois fica o porto de SILUIS (Silves), cujo rio se chama PORTINUNT (Portimão), que dista 40 milhas do Cabo de São Vicente.
15
Et introitus illius portus distat a ciuitate de Siluis per V miliaria, et predicti peregrini expugnauerunt eam, et expulsis inde Sarracenis fecerunt eam christianam, et quemdam clericum qui cum illis uenerat in nauigio constituerunt ibidem episcopum et fecerunt consecrari, et tradiderunt ciuitatem illam in manu Sancci [sic!] regis Portugalensis.
A foz do dito porto fica a cinco milhas da cidade de SILUIS, e os referidos peregrinos conquistaram-na e, após expulsarem os sarracenos, tornaram-na cristã e fizeram bispo  dela um clérigo que vinha com eles nos navios, e consagraram a cidade e entregaram-na nas mãos do Sacro Rei de Portugal.
16
Cum autem mare plus medio ascendit, naues possunt applicari sub menibus ciuitatis et, cum mare retractum fuerit, naues remanent in sicco.
Com a maré crescida os navios podem estacionar sob as muralhas da cidade mas na maré vazia os navios ficam em seco.
17
Sed dicitur quod predictus rex Portugalensis infra triennumproximum sequens amisit ciuitatem de Siluis et totam terram que est inter illam et Vlixisbonam per expugnationem Boyac [Abu-Yuçuf Yakub Al Mansur Bifadl Allah] almiramimoli [ar. emir-almuminin: califa] Affricanorum imperatoris.
Mas diz-se que o dito rei de Portugal perdeu a cidade de SILUIS antes de passarem três anos, assim como toda a terra que fica entre ela e Lisboa, conquistadas pelo imperador Africano BOYAC ALMIRAMIMOLI (Almansor).
18
VI. Incipit terra paganorum quam habent in Hyspania que dicitur Sarracenica sub domino imperatore Affrice.
Começa a terra que os pagãos (muçulmanos, sinónimo de sarracenos) têm em Hispânia, chamada SARRACENICA (al-Andalus), sob o domínio do Imperador de África
19
VI.1 A ciuitate de Siluis quasi per X miliaria secus mare est quedam ciuitas regis de Cosdres, id est Cordubra, que dicitur Sancta Maria de Harun, clausa muro, que distat ab introitu  portus sui per III miliaria.
A quase dez milhas da cidade de SILUIS, pela costa, fica  uma cidade do reino de COSDRES, isto é de CORDUBRA (Córdoba), que se chama SANCTA MARIA DE HARUN (Faro), cercada por muralhas, que dista três milhas da entrada do seu porto.
20
Et in portu illo sunt duo introitus, unus uersus ciuitatem Siluie et alter uersus Sibillam, et inter illos introitus est arena magna, et magne naues non possunt intrare portum illum nisi cum mare fuerit ascensum, et tune possunt applicari sub menibus, et cum mare retractum fuerit naues remanent in sicco.
E no seu porto existem duas entradas: uma na direcção da cidade de SILUIE e outra na direcção de SIBILLAM (Sevilha), e entre essas entradas há um grande areal, e os navios maiores não podem entrar no porto excepto com a maré alta, podendo então chegar junto das muralhas, mas com a maré baixa os barcos ficam em seco.
21
Et est sciendum quare hec ciuitas dicitur Sancta Maria de Hayrun [CH: idem], cum sit in manu paganorum.
E deve explicar-se a razão de esta cidade se chamar SANCTA MARIA DE HAYRUN, uma vez que está na mão dos pagãos.
22
Est itaque notandum quod tempore Karoli regis edificauerunt eam Christiani et appeliauerunt eam Sanctam Mariam de Hayrun, et post modum expulsis inde Christianis per expugnationem paganorum pagani optinuerunt et uolentes delere memoriam beate Dei matris semperque uirginis Marie a ciuitate illa, amputauerunt caput et pedes {et brachia} cuius yconie quam Christiani statuerant super murum ciuitatis in memoria beate Marie, et proiecemnt longius in mare in contemptum {fidei Christianae et beatae Mariae} beate uirginis, et statim facta sunt tellus et mare sterilia.

Assim é de referir que no tempo do rei KAROLUS (Carlos Magno?: 768/800-814) ela foi edificada por cristãos, que lhe chamaram SANCTA MARIA DE HAYRUN, mas depois de serem expulsos pela conquista dos pagãos, estes conseguiram e quiseram extinguir na cidade a memória da abençoada mãe de Deus, a sempre virgem Maria.
Com esse objectivo cortaram a cabeça e os pés da imagem que os cristãos tinham posto no cimo das muralhas em memória da abençoada Maria e atiraram-nos bem longe no mar, em sinal de desprezo pela abençoada Virgem, e assim que o fizeram a terra e o mar ficaram estéreis.
23
Et cum fames preualuisset super terram {homines et animalia fame interirent}, pagani prouincie illius clamauerunt ad Dominum, et recordati iniquitatis quam fecerant in detruncatione supradicte yconie,
{Tunc seniores populi et juvenes omnes, a maximo usque ad minimum, die ac nocte plorantes}
induerunt se sacco et cilicio, aspergentes capita sua cinere, fortiter ad Dominum clamauerunt
{dicentes, "Peccavimus, injuste egimus, iniquitatem facimus, quando caput et manus et pedes amputavimus. Quid enim male fecit? Queramus ergo illa, et apponamus ea in locis suis, ut sic saltem avertat Deus iram Suam a nobis, et a civitate ista."}
et miserunt sagenas suas in mare in loco ubi proiecerunt supradictum caput et pedes et manus yconie,
E quando a fome dominou na região, os pagãos da província rogaram a Deus e lembraram-se da iniquidade da mutilação que tinham feito à referida imagem. Vestiram-se com sacos e cilícios, aspergiram a cabeça de cinzas, rogaram a Deus com veemência e lançaram as suas redes no mar, no local onde tinham atirado a cabeça, os pés e as mãos da imagem.
24
et inuenientes ea traxerunt in terram et solidauerunt caput collo et manus brachiis et pedes tibiis cum auro et argento primo et purissimo.
{et deinde statuerunt yconiam illam in loco honorabili, et habetur in magna veneratione usque in hodiernum diam}
E encontraram-nas e trouxeram-nas para terra e soldaram a cabeça ao pescoço e as mãos aos braços e os pés às tíbias com ouro e prata virgens e puríssimos. 
25
Et statim misertus illorum Dominus qui numquam despicit cor contritum et humiliatum dedit eis habundantiam frumenti, uini et olei et carnium et piscium, et sic tellus et mare redierunt in pristinum habundantie statum.
{et statim cessavit fames, et terra dedit fructum suum}
E imediatamente Deus, que nunca despreza um coração contrito e humilde,  teve piedade deles e deu-lhes cereais, vinho e azeite e carne e peixe com abundância, e assim a terra e o mar voltaram ao seu estado primitivo de abundância.
26
Locus uero in quo est ciuitas illa dicitur Hayrun.
Isto passou-se de facto na cidade que se chama HAYRUN (Faro).
27
VI.2 Deinde in terra paganorum in Hyspania est ciuitas que dicitur Lonle [NIN: Lole].
Depois, em terra de pagãos na Hispânia, fica a cidade chamada LONLE (Loulé).
28
Deinde in eadem Hyspania super littus maris est ciuitas clausa muro que dicitur Tauire distans a Sancta Maria de Hayrun per XV miliaria, et ibi est portus bonus.
Depois, na mesma Hispânia, na costa marítima fica a cidade cercada de muralhas chamada TAUIRE (Tavira), distante 15 milhas de SANCTA MARIA DE HAYRUN, e aí há um bom porto.
29
Deinde in eadem Hyspania prope mare est ciuitas magna et castellum, clausa muro, distans a Tauire per quinque miliaria, que dicuntur Mertel [CH: castellum q.d. Mertel],
Depois, perto do mar, fica uma grande cidade e castelo, cercada de muralhas, a cinco milhas de TAUIRE, chamada MERTEL (Mértola).
30
ibi est bonus portus qui dicitur Castane [NIN: Castala'] in portu Dyane [NIN: Odian-a,-um].
Aí há um bom porto chamado CASTANE (Cacela), situado no porto de DYANE (Guadiana).
31
Deinde in eadem Hyspania est portus latus et profundus qui dicitur Hodiene [NIN: Odian-a,-um], distans a Mertel per VIII miliaria.
Depois fica um porto largo e profundo chamado HODIENE (Guadiana), a oito milhas de MERTEL.
32
Deinde in eadem Hyspania est bonus portus qui dicitur Calite [CH: Calice], distans a portu Hodiene per x miliaria, et ad introitum illius portus est castellum quod similiter dicitur Calite.
Depois fica um bom porto que se chama CALITE (Isla Cristina?), a dez milhas de porto HODIENE, e na entrada deste porto fica um castelo também chamado CALITE.
33
Deinde in eadem Hyspania secus mare est monticulus {monte} qui dicitur Montalue [CH: Muntalve] qui distat a Calite per XII miliaria.
Depois, junto ao mar, está uma colina chamada MONTALUE (Cabezo de la Bella?), à distância de 12 milhas de CALITE.
34
Deinde quasi per XX miliaria est arena longe protensa in mare que dicitur caput Almilan [CH: idem],
Depois, quase durante 20 milhas, fica um areal que se estende para o mar chamado cabo ALMILAN (Punta Úmbria?).
35
sed prouidendum est, antequam perueniatur ad Montalue, elongetur nauis ad minus per XX miliaria a terra uersus mare ad euitandum arenam, et postea reuertatur in obliquo uersus terram, et sic tenere rectum cursum non longe a terra uersus districtas Affrice.
Deve ter-se em atenção que, antes de chegar a MONTALUE, se deve alinhar o navio a direito pelo menos durante 20 milhas, entre a terra e o mar e evitando o areal, e depois rumar obliquamente para terra e em seguida manter uma rota a direito, não muito longe da terra, no sentido de África.
36
VI.3 Et est sciendum quod inter districtas Montalue et Affrice est fere siglatura unius diei.
E deve saber-se que entre as regiões de MONTALUE e de África há quase uma jornada de navegação.
37
Estque notandum quod introitus districtorum Affrice non habet in latitudine ab una ripa in alteram plus quam VII miliaria ad estimationem nautarum, et semper eundum est prope terram Hyspanie, ne incauri perdant introitum districtarum Affrice quia, si preteriissent, a recto cursu deuiarent.
Deve notar-se que a entrada do Estreito de África (Estreito de Gibraltar) não tem de largura entre uma margem e outra mais do que sete milhas, na estimativa dos navegantes, e que se deve navegar sempre próximo da terra de Hispânia, de modo a não arriscar perder a entrada do Estreito, porque se a ultrapassarem desviam-se da rota directa.
38
Quia sciendum est quod duo introitus sunt in mari illo Mediterraneo, quorum unus est ad districtas Affrice, alter apud Constantinopolim qui dicitur brachium Sancti Georgii.
Interessa saber que há dois estreitos no mar Mediterrâneo: um que é o Estreito de África e o outro perto de CONSTANTINOPOLIM (Constantinopla), chamado BRACHIUM SANCTI GEORGII (Dardanelos).
39
Qui autem per mare in terram promissionis ire uolunt, per unum istorum aditum uel per portus qui inter illos duos sunt intrare oportet.
Quer quiser ir por mar à Terra Prometida, tem necessariamente de entrar em cada um destes acessos e nos portos que ficam entre eles.
40
VI.4 Sequitur.
Continuação
41
Post caput Almilan portus et castellum quod dicitur Saltis[CH: idem].
A seguir ao cabo ALMILAN fica o porto e o castelo chamados SALTIS (Saltés).
42
Deinde in eadem terra Sarracenica est bonus portus Sibille [CH: Sibillae]qui dicitur Godelkeuir, uel Vdelkebir [CH: Wudelkebir].
Depois fica o bom porto de SIBILLE (Sevilha) chamado GODELKEUIR, ou VDELKEBIR (Guadalquivir). 
43
In ascendendo superius per eumdem fluuium itur ad Cordebam [CH: Corduba] ciuitatem in qua Lucanus natus fuit.Vnde idem Lucanus dixit: 
Cordeba me genuit, rapuit Nero prelia dixi.
Que gessere pares, hinc socer inde gener.
Subindo-se este rio viaja-se até à cidade de CORDEBAM (Córdoba), na qual nasceu Lucano (M. Annaeus Lucanus).
O mesmo Lucano que disse (epitáfio presumido):
Cordeba me genuit, rapuit Nero prelia dixi
Que gessere pares, hinc socer inde gener.
44
Portus Sibilie distat a Saltis per VIII miliaria.
O porto de SIBILIE dista oito milhas de SALTIS.
45
Et ciuitas Sibilie distat ab introitu portus sui per XL miliaria.
E a cidade de SIBILIE dista 40 milhas da entrada do porto.
46
Et in medio uie inter introitum illius et ciuitatem Sibilie est castellum quod dicitur Captal [CH: idem].
E a meio caminho entre essa entrada e a cidade de SIBILIE fica o castelo chamado CAPTAL (ar. Kābtal, lat. Captel: Isla Menor).
47
VI.5 Sequitur.
Continuação
48
Post portum Sibilie est Cadis portus,
A seguir ao porto de SIBILIE fica o porto de CADIS (Cádiz).
49
deinde Sanctus Petrus portus,
Depois o porto de SANCTUS PETRUS (Sancti Petri).
50
deinde introitus districtarum Affrice ubi in Hyspania Sarracenica est ciuitas que dicitur Tele uel Becke, et ibi est copia galearum.
Depois o Estreito de África e aí, na Hispânia Sarracena (Al-Andalus) fica a cidade chamada TELE ou BECKE (?), onde há muitas galeras (navios de guerra).
51
Et est notandum quod ad introitum districtarum Affrice est tantus aque impetus quod, nisi uis uenti fortior fuerit ad impellendum impetus aque, negabit naui ingressum.
E deve referir-se que, na entrada do Estreito de África, a força da corrente é tal que nem os ventos mais fortes conseguem contrariar o ímpeto da água e impedir a entrada dos navios.
52
Cum autem nauis ingressa fuerit districtas Affrice, non declinabit se neque a dextris neque a sinistris, sed in medio ibit tutissima donec preterierit spatium X miliarium ad estimationem nautarum, et tunc declinandum est in sinistra nauigii parte et sic tenere cursum iuxta Hyspaniam et terras illi coniunctas, donec perueniatur ad Marsiliam [CH: idem].
Uma vez os navios entrados no Estreito de África não se deve desviar a rota nem para a direita nem para a esquerda, mas sim manter-se em segurança no meio, durante dez milhas segundo a estimativa dos navegantes, e então virar a bombordo e manter a rota próxima da costa de Hispânia e terras vizinhas, até chegar a MARSILIAM (Marselha).

 Este post será seguido por outro, com comentários sobre esta tabela.


NOTA: Sobre a corografia costeira da costa ibérica nesta época ver também http://imprompto.blogspot.com/2010/11/narratio-de-itinere-navali.html

Síntese das referências inovadoras do De Viis Maris no conhecimento da geografia da costa entre o Tejo e o Guadiana, na 2ª metade do séc. XII.
  • Medição sistemática original das distâncias entre estações portuárias ou entre as cidades e os respectivos portos, em milhas inglesas
  • Cuidados a ter na entrada da foz do Sado
  • Condições do porto de abrigo de Sines segundo os ventos
  • 1ª referência à Ribeira da Junqueira (como se sabe, tradicionalmente associada ao culto de S. Torpes).
  • 1ª referência a uma antiga povoação muçulmana perto dessa ribeira, também designada Junqueira
  • 1ª referência ao Castelo de MUNTAGA a 4 milhas a Sul de Sines (Cerro da Águia?)
  • 1ª referência à Ilha de Pessegueiro (PERSEKERE)
  • Contingências da entrada no porto do Mira (Vila Nova de Milfontes)
  • 1ª referência em fontes cristãs a Arrifana, como nome das fontes de água doce aí existentes
  • Três morabitos abobadados em Arrifana, identificados como "meskitas", em estado de abandono em 1191
  • 1ª referência conhecida a Aljezur, como castelo nas proximidades de Arrifana
  • Referência à ausência de porto ou ancoradouro no Cabo de São Vicente
  • Referência à existência no Cabo de "Pedras de Damasco" usadas como medicamento contra a diarreia
  • Muitos poços de água doce na zona do porto de Sagres
  • 1ª designação explicita do porto de Silves como rio chamado Portimão (PORTIMUNT)
  • Barras do porto de Faro e acesso de embarcações segundo as marés
  • Porto de Faro localizado a 3 milhas da cidade
  • Atribuição do milagre de Santa Maria de Faro ao tempo de Carlos Magno
  • Enumeração dos bens alimentares respeitantes ao dito milagre: cereais, vinho, azeite, carne e peixe
  • O porto de Tavira é classificado como bom
  • Mértola designada por cidade grande
  • Cacela classificada como bom porto e integrada no porto do Guadiana (antigo delta)
  • A foz do Guadiana é descrita como porto largo e profundo

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