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Wednesday, July 30, 2008

A Igreja do Corvo

Reconstituição da História Religiosa de um Santuário do Extremo Ocidente

Resumo de um estudo a apresentar (versão longa!)

Esta comunicação resume partes de um estudo sobre o culto do proto-mártir Vicente de Valência no seu santuário da "Igreja do Corvo", referido nas fontes árabes medievais.
Aborda sobretudo aspectos da assimilação cristã de lugares de culto e crenças anteriores da esfera marítima e, também, da posterior interpretatio islâmica do culto vicentino moçárabe.

Dossiers bibliográficos
A sua realização tornou-se possível a partir da reunião de dossiers historiográficos pertencentes a domínios disciplinares geralmente pouco comunicantes.
Destaca-se entre o corpus bibliográfico a influência determinante dos trabalhos de Philippe Walter e M. Garcia Quintela, Vitor Saxer, J. M. Blázquez, Ramsay Macmullen e M. Asín Palácios.
Destaca-se igualmente a contribuição da historiografia árabe medieval e da tradução directa de originais, realizada para este trabalho por Abdallah Khawli, que também contribui decisivamente com os seus conhecimentos sobre a história do Gharb e a cultura religiosa islâmica na época em estudo.

Síntese

A comunicação apresenta o culto paleocristão e moçárabe de S. Vicente como uma charneira histórico-religiosa entre o paganismo tardo-romano, o sufismo islâmico do Gharb e o catolicismo da "Reconquista".

Aceita-se como provável a existência de um culto de S. Vicente anterior ao séc. VIII no santuário mais tarde designado como "Igreja do Corvo", embora não existam fontes escritas sobre o culto antes de meados do séc. XII, estando as existentes seriamente inquinadas pelo programa político-religioso do novo Estado português.

A Igreja do Corvo nas fontes árabes
Sistematizam-se as referências de cinco fontes árabes sobre a Igreja do Corvo, criando-se um perfil que inclui a topografia local, arquitectura e aspectos religiosos (elementos míticos, crenças funcionais, símbolos e objectos, ritual e organização do culto).

Desse perfil destaca-se neste resumo apenas a localização da igreja numa península montanhosa que entra pelo mar, o ser escavada na rocha, ser coberta por uma grande cúpula com aberturas, já existir assim desde o tempo dos "primeiros cristãos" (ou dos visigodos) e ser famosa entre a gente do mar.

Localização
Reveem-se as hipóteses mais correntes de localização da igreja na literatura recente.
Propõe-se a sua localização mais provável em Sines, a partir da interpretação conjunta dos três roteiros árabes conhecidos.
A consolidação destes indica uma distância de 7 milhas entre o Promontório Sacro (actual Cabo de São Vicente) e a Igreja e de 40 milhas entre esta e a foz do Sado. Na realidade a distância total entre o Cabo e o Sado é de 110 milhas (40+70) e não 47.
Sines fica precisamente a 40 milhas do Sado e a 70 milhas do Cabo. O valor 7 corresponderá a um erro de cópia, em vez de 70, pois o zero árabe medieval representava-se por um ponto simples, facilmente omitido na reprodução manuscrita.

Esta localização ratifica-se complementarmente pela topografia do sítio e pela sua geografia naval, arqueologia visigótica e tradição hagiográfica local sobre a existência de uma grande igreja do início da cristandade.

Santuário pluriconfessional

Conclui-se sobre o carácter essencialmente marítimo e pluriconfessional do santuário até inícios do séc. XII.

A construção da mesquita enquadra-se na regulamentação e separação dos espaços do culto referidas nas fontes árabes.
Esta situação sugere um poder político regional organizado e uma conjuntura marítima e territorial relativamente segura, com ausência de raids de pirataria. Sugere-se assim que a mesquita será posterior ao final das incursões dos vikings na costa atlântica do al-Andalus, conseguida após 972.

Sufismo islâmico
A partir dos elementos do culto muçulmano no perfil da Igreja do Corvo e do sufismo popular, forma histórica da islamização do Gharb nos sécs. X a XI, infere-se a sua adopção islâmica como santuário de Khidr/Al-Khadir, entidade espiritual de primeira grandeza do sistema de crenças sufista, objecto de devoção marítima e interpretatio notável de São Vicente.
Propõe-se uma origem comum para parte dos mitos de Khidr e Vicente, baseada no "Romance de Alexandre".

Hipótese de culto judaico

A proximidade entre Khidr e Elias no mundo judaico-islâmico e as analogias entre Elias e S. Vicente no mito original do santo sugerem poder ter sido um santuário também frequentado por judeus, tendo em conta a função auxiliadora do profeta no culto judaico medieval e o papel deste grupo étnico-religioso no tráfico inter-regional do al-Andalus, nomeadamente naval.

Fontes portuguesas
Analisam-se as fontes portuguesas sobre São Vicente, revelando as suas inconsistências historiográficas quer quanto à proveniência das relíquias de Valência quer quanto ao seu posterior achamento pelos portugueses no séc. XII. Estabelece-se um perfil comparativo entre as sucessivas versões histórico-lendárias e reitera-se a interpolação anacrónica do "pseudo-Rasis" na Crónica de 1344 e no manuscrito de Santa Cruz de Coimbra, há muito denunciada.

Aceita-se a lição de Vitor Saxer, a única fundamentada documentalmente e historicamente consistente. Elimina-se a sua reticência quanto à Chronica Pseudoisidoriana poder ser a fonte independente mais antiga sobre o culto de Vicente na região, visto sua edição recente indicar uma data da 2ª metade do séc. XII, portanto posterior aos eventos da narrativa portuguesa.

Abordagem comparativista
Propõe-se um modelo conjectural "comparativista" de regressão religiosa para épocas pré-cristãs, a partir de uma grelha de atributos formados pelo perfil religioso da Igreja do Corvo e pelos seguintes factores adicionais:
  • Exegese comparativista do mito e culto de Vicente nos sécs. IV e V, revelando-o como um "Hércules marinho", fusão dos mitos de Andreas, Hércules e Palaimon, vencedor indómito de ordálias sobre os quatro elementos, com apoteose celeste após o afogamento do corpo, curador médico, garante da preservação dos cadáveres e da recuperação das vítimas dos naufrágios com vista à ressurreição da carne e intercessor com a divindade suprema.

  • Crenças associadas à geografia do local, no Extremo Ocidente, como morada do Sol; fim do mundo humano; lugar eminentemente próximo quer do mundo inferior quer do mundo celestial; lugar funerário e de apoteose de personagens/heróis dotadas de poder e atributos solares.

  • Importância regional do culto marítimo de Hércules Gaditano, com características oraculares.

  • Aspectos religiosos da numismática de Ipses e Salacia e da arqueologia de Tróia e Sines.
Reconstituição da cronologia religiosa
Esse modelo considera que os atributos identificados podem relacionar-se com hipóteses alternativas de sistemas de crenças, cultos locais e estruturas religiosas anteriores, de cinco períodos fundamentais:

Nos séc VIII-X
  • Monacato visigodo-moçárabe, reconhecido pelas autoridades muçulmanas.
No séc VII
  • Mosteiro e igreja, muito provavelmente ampliados ou reconstruídos após o reinado de Suintila, vencedor dos bizantinos do Algarve.
  • Possível introdução do culto de São Vicente, talvez com relíquias secundárias.
Nos sécs. IV a VI
  • Possível eremitério cristão com eventuais períodos de abandono.
  • Possível monaquismo místico cristão, pré-visigótico, terreno ideológico para a posterior interpretação sufista.
Nos sécs. III e IV
  • Culto de Hércules solar funerário (estóico) associável ao culto imperial da Tetrarquia e à Teologia Solar posterior a Aureliano: possível mausoléu ou cenotáfio do séc. IV.
  • Mitraísmo, que pode integrar os cultos anteriores: possível antro mitraico.
Antes do séc. I a. C
  • Possível santuário oracular semelhante ao do "Porto dos Dois Corvos" referido por Estrabão
  • Culto de divindades marinhas, cuja iconografia numismática e mito reconstituído possuem grandes afinidades com o mito helenístico de Melicertes/Palaimon/Portuno e Ino/Leucoteia/Vénus Marítima, talvez romanizados regionalmente como Neptuno e Salácia
  • Tradição da existência do túmulo de Melkart/Hércules no Ocidente, provável origem do culto funerário de Hércules já referido.
Igreja do Corvo e Cabo de São Vicente
Desmistifica-se assim a tese da identificação do Promontório Sacro (actual Cabo de S. Vicente) com a Igreja do Corvo e com o culto do santo antes do domínio português, quer em termos geográficos quer em termos das regressões religiosas mais prováveis, pouco compatíveis com o santuário dedicado às divindades infernais no referido Promontório, que Estrabão descreve.

Monday, June 30, 2008

Portos do Sul em 1634

Extracto do Atlas de Pedro Texeira referente à costa e portos do Sul de Portugal

"Descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos", Pedro Texeira, 1634. Edição "El Atlas del Rey Planeta", ed. Felipe Pereda e Fernando Marías, Nerea 2002.
Sobre esta obra, ver
aqui.
O texto da "Descrição Literária" corresponde à transcrição de Luis Zolle na referida edição (pp.340-3, fol. 53r a 57r). A leitura deste post não substitui, de modo nenhum, a consulta do original.

Da Trafaria a Sezimbra
De la punta de la Trafaria camina la costa al mediodía, hia fuera de la barra de Lisboa en el Mar Oçéano.
Seis leguas está vn cauo que llaman de Espichel, sin en toda esta distancia auer surgidero ny plaia de consideraçión.
Queda este cauo de Espichel del de la Roca de Sintra nuebe leguas de distançia, que pareçe ser el reçibimiento que le ase el Oçéano al famoso río Tajo.
Del cabo de Espichel buelue la costa al leuante.

Sezimbra
Vna legua de él se aze vna plaia de arena y por ella se entra / en el mar vn río, en cuia margen está situada la uilla de Sezinbra.
Lugar de buena poblaçión, el puerto no es más que vna plaia de poco abrigo.

Sezimbra a Setúbal
De Sezinbra ba la costa continuando alta asta la barra del río Çadam.
Tres leguas al leuante y junto a ella de la parte del septentrión aze la costa vna punta en la qual está vn castillo que llaman la Torre do Tom, con buena artillería para la defença desta barra, que pasado él se entra en el puerto que es grande y de forma sircular.

Fólio 69: "Barra y puerto de Setubal" Aqui versão pdf

Setúbal
Vna legua está la famosa villa de Setúbal, así por su anteguedad y poblaçión como por el muncho trato que en su puerto tiene.
Está situada la uilla de Setúbal junto a la mar de su puerto, estendida por su ermosa plaia.
Es esta uilla la más antigua y noble deste reyno de Portugal.
Es sercada de buenos muros con muy altas torres y grandes ydefiçios.
Tiene vn castillo a la parte del poniente.
Distante de la uilla está, tiro de mosquete, el castillo de San Felipe con muy buena artillería para la defença del puerto.
Fabrican en esta uilla munchos nauíos y dellos y otros munchos que bienen de munchas partes cargan de sal, de que esta villa abunda en gran cantidad.
El puerto es capaz de munchos nauíos, aunque la barra es algo deficultoza por el poco fondo que tiene.
Dentro en el puerto se entra vn río cuia barra es la de Setúbal que, como queda dicho, se llama río Çadam. Nauegan nuebe leguas por él asta la uilla de Alcáçar de la Sal.

De Setúbal a Melides

Y de la parte del mediodía deste puerto es toda tierra baxa y alagadiza.
Quédale enfrente a la uilla vna punta de tierra baxa que llaman de Faro.
Se veen vnas ruynas de grandes ydefiçios y se tiene aueren sido de vna gran ciudad que fue fundada de los troianos a devoçión de su Troia.
Y se conserua este mismo nonbre en estas ruinas, llamándole Troia. Adelante, fuera desta barra y puerto de Setúbal, ba la costa / al mediodía toda de arena y alagadiza.

Fólio 70: "Entrada a Melides" Aqui versão pdf

De Melides a Sines
Nueue leguas está la uilla de Milides, en la orilla septentrional de hun río cuia barra no es de menos deficultad que las dichas, antes de muncha más por ser de muy poco fondo y tan angosta que van los nauíos dando en la arena con los laos de las entenas.

Es esta uilla çercada y,aunque con tan mala barra, no dexa de ser de trato.
Della trez leguas sirue la costa alta y sin en esta distançia auer desenbarcadero ny plaia donde poderlo yntentar.

Fólio 71: "Bhaia de Sines" Aqui versão pdf

Sines e ilha do Pessegueiro
Está la uilla de Odesines en vna caleta, donde dan fondo munchos nauíos y con abrigo y siguridad, así de los bientos como de los ynemigos, por tener a la entrada del puerto, de la parte del mediodía, vn castillo con seis pieças de artillería.
Es esta villa de muy grande poblaçión y trato, murada toda de muy fuertes muros.
Desta uilla vna legua aze la costa vna ensenada que da fin con vna punta, junto a la qual está vna ysla que llaman del Pesigueiro, donde se abrigan los nauíos en vna caleta que tiene a la parte del mediodía.
En lo alto tiene hun castillo con artillería para la defença de su puerto.
De la ysla y cabo dicho se entra la mar y aze huna grande ensenada donde está, a la parte del septemtrión, vn lugar que llaman San Giraldo.

Fólio 72: "Villa nueva de mil fuentes" Aqui versão pdf

Da ilha do Pessegueiro ao rio Mira e foz do Mira
De él continúa la costa trez leguas, toda alta y despoblada, azia donde se entra en la mar vn río cuia barra no es de consideraçión para más que pequeños barcos y, quando muncho, carauelas.

Llámase este puerto de Eldemira, por vna villa que de é1 dista dos leguas, situada en la orilla del dicho río, çercada y de muy buena poblaçión.
Quedando poco distante de la dicha barra, de la parte del septemtrión, vna villa que llaman Villanueba de Milfuentes.
Y de la parte del mediodía, casse sobre la barra, otra villa que llaman Villafremosa.

Do rio Mira à ribeira de Odeceixe e ao Sardão
De aquí trez leguas al mediodía, como sienpre ba la costa, siendo toda alta y sin plaia, / en el fin della eztá otra barra que ase vn pequeño río.
Tiene a la parte del mediodía vn lugar que llaman Odexeixa.
Pasado este río ba la costa alta y al cauo de dos leguas aze vna cala, enfrente de la qual, vn tiro de mosquete, está vna ysla despoblada que llaman la Arrifana.
Y adelante della, en la costa, se aze vn puerto a vna legua de la ysla donde no entran sino barcos.
Y de él media legua está el lugar que llaman Carapeteira.
Pasado esta barra vna legua adelante aze la costa vna plaia de arena y en ella el lugar do Çerdao, cercado y de buena poblaçión.
En la plaia dan algunos nauíos fondo aunque sin abrigo por ser abierta.
En este lugar o villa do Serdao da fin la costa del reyno de Portugal y se sigue la del reyno del Algarue.

Fólio 73: "Albufeira [sic!]" Aqui versão pdf

Do Sardão ao cabo de São Vicente
Por el lugar del Serdam, por donde queda dicho en la relación de la costa de Portugal se diuide la deste reyno del Algarue y, començando de él al mediodía trez leguas, ba la costa alta y despoblada asta el selebrado cauo de San Viçente, ansí de los antiguos, que le ueneran por santo llamándole Sacrum Promontorium, y de los modernos en las nauegaciones que azen.
Y de buelta dellas para España le uienen sienpre a buscar y le conocen por cauo de San Viçente, teniendo con su uista sifradas las esperanças de su buena nauegaçión.
En él da fin la costa oççidental de España y prinçipio la meridional.

Fólio 75: "Cabo de S. Vicente" Aqui versão pdf

Cabo de São Vicente e promontório de Sagres
Es este cauo de San Viçente alto y peinado.
Tiene en lo rods yminente vna yglezia didicada al glorioso y santo mártir y al pie, en la mar, vna ysla o gran peña. Buelto este nonbrado cauo de San Viçente ba la costa al leuante.
Vna legua, en vna punta de tierra alta que buelta ella se entra en el puerto de Sagres, está vn castillo moderno con muy buena artillería de bronze para la guarda del dicho puerto.

Sagres
Esta punta se aze vna gran plaia y en ella está situada la villa de Sagres, siendo toda çercada de muy fuerte muro y de grande poblaçión.
Tiene muelles para el abrigo de los nauíos, acudiendo de ordinario munchos por la facilidad deste puerto y su trato.


Fólio 76: "Puerto de Sagres" Aqui versão pdf

De Sagres a Lagos
Vna legua desta villa se entra en el mar vna punta que llaman de la Estada.

Della adelante se entra la mar y aze vna ensenada de más de vna legua a que llaman puerto del Soncal.
Tiene dentro esta ensenada dos ysletas altas.
Y adelante remata la ensenada con vna punta que della que [sic] queda a la parte del leuante que llaman de la Bordeira, siendo toda esta tierra despoblada asta la çiudad de Lagos.
Adelante desta dicha punta forma la costa vna ensenada o plaia que llaman de Santa María.
Poco adelante della, cosa de media legua, se puede dezenbarcar / y as í lo ysieron los ynglezes el año de 1597.
Vna legua adelante deste desenbarcadero se entra en la tierra vn bravo de mar a que llaman la Almadraua.
Boluiendo la costa a la mar forma vna punta donde en lo alto della está vna torre o atalaia a que llaman la Torre Allina.
Y boluiendo della a la parte del septemtrión se aze vna plaia. Al prinçipio della ay hunas peñas y adelante está situada la çiudad de Lagos.


Fólio 78: "Costas de Villa nueva de Portiman" Aqui versão pdf

Ria de Lagos: Lagos
Dista la çiudad de Lagos del cauo de San Viçente siete leguas al poniente, como por menor queda dicho.

Es esta çiudad la prinçipal deste reyno.
Está situada junto a la plaia de su puerto que queda mirando a la parto del leuante.
Es toda çercada con muy fuertes muros y adornada de ermosos ydifiçios.
Asiste en ella el gouernador del reyno y su obispo.
El puerto no es, por set plaia, de muncho fondo y así no asisten en ella nauíos de muncho porte.

De Lagos a Portimão
Desta çiudad y su puerto adelante continúa la costa toda de arena.

Vna legua se entra en el mar vn río donde está vna villa que llaman Aluor.
De la barra deste río sale la tierra de la parte del leuante y aze dentro en el mar vna punta.
En lo alto della está vna ermita de Santa Catalina.
En este mar se pescan munchos atunes.
Buelta esta punta de la parte del leuante della se entra en la barra de Villanueba de Portimán.

Rio Arade: Portimão
E
s la uilla de Villanueba de Portimán la mejor de todas las desta costa, así por su buena poblaçión como por ser el puerto el más seguro y capaz de toda ella.
Su barra es la de más fondo de las desta costa.
Éntrase en ella por quatro braças y dentro tiene trez.
Y dan en el puerto los nauíos en sinco de fondo.
Es toda esta villa çercada de buenos muros.
Y de la parte del río, enfrente del puerto y villa, está vn lugar que llaman Ferrudo.
Y de la misma / parte del leuante, en la barra en vn alto, está vna ermita que llaman Nuestra Señora la Blanca.

Do rio Arade a Faro
De aquí ba la costa aziendo vnas caletas, donde se sulían esconder munchas fustas de moros, asta vn cauo que queda de la barra de Villanueba vna legua, que llaman cauo Caruonero, adelante del qual tiro de mosquete, en vna punta alta, está vna torre que llaman La Caruonera.

Della se entra la costa y ase vna ensenada toda descubierta donde arman a los atunes.
A una legua de la dicha torre está vn lugar que llaman Porches.
Adelante de él se entra el mar y aze vna cala que llaman de Pera, donde se puede dar fondo.
Della a una legua se entra en el mar vn río del mismo nonbre.
Tiene esta caleta a la entrada dos peñas que llaman peñas de la Galera.
El río no es nauegable, ny en su margen tiene poblaçión ninguna.
Pasado adelante huna legua deste río en vna punta que sale a la mar está otra torre.
Adelante della aze la costa vna plaia en la qual está la villa de Albufeira.
Tanbién en esta ensenada ay muncha pesca de atunes, que en toda esta costa los ay en gran número, rematándose esta dicha plaia con vna punta por junto a la qual se entra en el mar vn riachuelo.
Y en la orilla de la parte del leuante de el se sigue la costa baxa y con vnas yslas junto a ella que sólo se diuiden de la tierra por vnos angostos canales de agua.
Son todas estas yslas que uan seguiendo toda esta costa al leuante de arena.
Y la punta de la primera que queda referido se llama Piedras Negras.
Vna legua por entre la ysla y la tierra está vna torre que llaman Torre de la Quarteira. Della a otra legua se entra en la barra y puerto de la çiudad de Faro.

Fólio 79: "Cabo de S. Maria" Aqui versão pdf

Faro
Está situada la çiudad de Faro de la parte del poniente de su puerto.

Es lugar de muy grande población, murada de fuertes muros.
Tiene munchos nauíos que deste lugar se aprestan para munchas partes y otros que al puerto bienen a cargar de vinos, pasas y ygos que la tierra produze en gran cantidad.
Su barra no es de las mejo/res ny tanpoco de las peores desta costa.
Entran los nauíos por quatro braças en ella y ba diminuhiendo asta en medio, donde no tiene más que braça y media de fondo, y dentro ban los nauíos dar fondo enfrente de la çiudad en siete braças.

De Faro a Tavira
Desta çiudad y su puerto vna legua y media al leuante, como sienpre ba la costa, en la punta de la parte del leuante de la ysla que aquí le está frontero está hun lugar que llaman Villamarín. situada en la arena, de que es toda esta ysla, junto a un canal que entra azia la tierra que llaman Genaro.

Y pasado éste está luego otro que llaman Bias. De Villamarín dos leguas y media está la barra del puerto de la siudad de Tauira.

Fólio 80: "Puerto de Tavila" Aqui versão pdf

Tavira
Es esta ciudad de Tauira de mejor poblaçión y puerto que Faro, aunque su barra es tan trabaxosa como las demás.

La siudad es toda muy bien çercada de buenos muros.
Está situada de la parte del poniente de su puerto, tan junto a él que con la marea le baxa sus murallas.
Dan fondo los nauíos muy cerca de la siudad en siete y seis braças.
Está distante de la barra vna legua y en ella de la parte del leuante, en vna ysla de arena, tiene vn fuerte castillo que llaman de Tauira, con muy buena artillería de bronze.
La barra es muy larga y angosta. Entran los nauíos en ella por seis braças y ba en diminuysión asta dentro della se allar en dos y, pasada dentro hia en el puerto, buelue a creçer el fondo asta siete braças que, como arriba queda dicho, dan fondo los nauíos.

De Tavira a Castro Marim

Seis leguas desta ciudad y su puerto ba la costa caminando al leuante, como asta aquí sienpre seguida y acompañada de las dichas yslas de arena, y cazi toda despoblada sin más que en casi media distancia auer vna yglezia junto a un arroio que llaman Nuestra Señora de Caçela.
Al fin de las dichas seis leguas se entra en el mar el caudaloso río Guadiana, que diuide con su corriente este / reyno del Algarue del de Andaluzía, quedando por vltimo de la parte del Algarue la uilla de Castromarín que está situada de la parte del poniente del río Guadiana.

Fólio 83: "Barra del rio Guadiana" Aqui versão pdf

Rio Guadiana: Castro Marim
Es la uilla de Castromarín lugar muy antiguo y fuerte por su sitio.

Es toda murada de fuertes muros y en lo más yminente de su poblaçión tiene vn fuerte castillo, como frontera que era a los moros antiguamente de Andaluzía.
Y en aquel tienpo fue bailía de la orden militar de Cristo que después se paçó a la uilla de Tomar.
Dista media legua de la uilla de Aiamonte, primer lugar de la parte oççidental del reyno de Andaluzía, diuidiendo a estas dos villas la anchura del río Guadiana con su puerto, que se dirá de su capacidad en la tabla de Andaluzía, por le tocar a Ayamonte y ser esta uilla de maior trato que la dicha de Castromarín.

Rio Guadiana: Ayamonte
De la margen de la parte del leuante del caudaloso río Guadiana, donde está situada la uilla de Ayamonte, da prinçipio la costa del reyno de Andaluzía.
El primer lugar y más oççidental de la costa de Andaluzía es la uilla de Aiamonte que está situada en la orilla oriental del famoso río Guadiana.

Es lugar sercado y de grande poblaçión. Su puerto no es de tan poco fondo que no fuera capaz de gruesas armadas si la barra fuera más fácil de tomar, porque la diuide en dos vn banco de arena.
Y la [barra] por donde entran los nauíos de maior porte es por la que queda más a la parte del poniente, por ser más ancha que la otra.
Tiene esta barra en su entrada trez braças, y en medio vna, y adelante ba cresiendo asta diez braças, donde dan los lauíos [sic] fondo enfrente de la uilla y su plaia.

Sunday, June 08, 2008

BALSA: An encyclopaedic entry

This text intends to be a scholarly resume about the Roman town of BALSA, for general reference in the internet.
Base of
http://en.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Roman_town)

Raw English version

© Luis Fraga da Silva

BALSA was a Roman coastal town in Hispania, province of Lusitania, Conventus Pacensis. The modern location is in the rural estates of Torre d'Aires, Antas and Arroio, parish of Luz de Tavira, county of Tavira, district of Faro, in Algarve, Southern Portugal.

Name origin
BALSA is a pre-Roman place-name with a probable Phoenician etymology: B'LŠ..., possible theonym originated with the older Phoenician occupation of neighbouring Tavira.

References in Classic Authors and Archaeology
It is mentioned by Pomponius Mela (DC III 1, 7), Pliny (HN IV 35, 116), Ptolemy (GH: II 5, 2) and Marcianus of Heracleia (PME: II, 13).

Mints bronze asses and its lead divisors (semis, quadrans, triens, sextans) about mid 1st century BCE, in Latin alphabet with marine motives (tunas, dolphins, several kinds of boats). The name BALSA, recorded in these coins is the oldest attestation of the toponym.

According to Mela (DC III 1, 7) Balsa was situated in the Cuneus Ager, a Roman geographical region corresponding to modern Central and Eastern Algarve.

It was one of the stipendiary oppida of Lusitania, siege of the balsenses (Pliny: IV 35, 118), people belonging to the ethnical group of the Turdetani (Ptolemy: II 5, 2).

Stage of via XXI of Antonine Itineraries, between [B]Esuri and Ossonoba (IAA: 426,1) . Referred as civitas in the Ravennate between Besurin and Stacio Sacra (RAC: IV 43, 30).

It was considered by Marcianus of Heracleia the polis at the Southmost limit of Lusitania (PME: II, 14).

Place Identification is attested by epigraphy found in the local, where Balsensium appears three times, qualifying persons CIL II 5161.5164 and the political/civic community IRCP 75.

Pre-Roman past

The Late Bronze and Early Iron Age oppidum of Tavira (7 km from Roman BALSA) stands as the genetic regional urban place, first as a Phoenician maritime colonial settlement with a strong religious character (mid 8th to end of 6th centuries BCE) and later as a Turdetani town (5th and 4 th centuries BCE).

It was abandoned and replaced by the near oppidum of Cerro do Cavaco (1 km North of Tavira, occupied from the late 4th to late 1st centuries BCE), a better defensible site that was the central place of the balsenses during the Carthaginian and Roman Republican periods.

Cerro do Cavaco, the pre-Roman BALSA, did not survive the epoch of August, being then replaced by Roman BALSA.

Status, society and economy

Epigraphic inscriptions reveals BALSA as a Latin Right Municipality (ius Latii Municipium) during the 2nd century CE, most probably promoted by Domitian (81-96 CE).

All main aspects of provincial Romanisation are documented locally: A res publica with a ordo decurionica IRCP 75, local prominence of the gens Manlia CIL II 5161.5162, magistrates (duunvir belonging to the QUIRINA tribe CIL II 5162), sexvir CIL II 13, public slaves (balsensium dispensator, CIL II 5164), evergetism (spectacle of naumachia and pugilate CIL II 13, collective construction of a circus CIL II 5165.5166 and other unidentified monuments CIL II 5167), imperial cult IRCP 90 and a large proportion of Greek and North African names. A Roman citizen of Neapolis (Nabeul, Tunisia) with a daughter in Pax Iulia (Beja, Portugal) countryside, declares himself an incola of BALSA! CIL II 105

The level of Romanisation in BALSA can also be inferred from the known personal names (39 men and 16 women): 58% have tria nomina or are women with Latin dua nomina. 71% have a Roman nomen and the remaining 27% a single cognomen, these being mostly Greek names. Native name words in all forms (Celtic or Turdetanian) are a small minority (9%).


From the 3th century comes a rare funerary monument in Greek, considered by some to be Christian CIL II 5171, and a hoard of coins of Claudius Gothicus (268-270 CE) discovered in a bath sewer.

Imported terra sigillata and glassware form a continuous series between late Augustan wares (early Hispanic) and late African D, late Gallic and Focean, with the latest pieces dated from the 7th century. The overwhelming volume peak corresponds to South Gallic wares of the 1st century CE but the studied material is much limited topographically.

Fish preserve factories are well documented in the town and neighbourhood, as well as amphorae factories. Six garum producers are known in BALSA by their industrial brands: AEMHEL, OLYNT, LEVGEN, IVNIORVM, IMETVS F and DASIMVSTELI

Urbanism and territory

Several testimonies describe the existence of very extensive and dense Roman building remains before 1977. The archaeological terrain has been being heavily destroyed since then to the present days (2008) by agricultural works and the building of suburban villas.

Archaeological exploration has been very limited to two necropolises, two bath buildings, three fish factories and a few structures. The larger part has been done in the 19th century, with pre-scientific standards. On the other hand, a total of sixty places with Roman findings are known in the archaeological perimeter of BALSA.

Archaeotopography revealed important and extensive urban structures: a theatre, a pier and internal harbour, a hippodrome, large hippodamic quarters and several others.

The urban centre had an extraordinary size for a municipal town without a capital status: the urban limits spawned no less than 116 acres and the peri-urban area occupied at least 266 acres. Its plan reveals a double town, or a massive development juxtaposed in two urban moments.

The civitas territory corresponded to modern Eastern Algarve, bordering the province of Baetica and with an approximate area of 585 square miles, mostly occupied by hills then rich in forests and minerals.

Significant remains of Roman agrarian centuriations can still be traced in modern surveys, limited to the littoral plains where olive groves, vineyards and dry orchards are historically best adapted. The coast was formed by lagoons and estuaries, whose agro-maritime capacities were extensively exploited in Roman times.


The major fluvial road of river Anas (modern Guadiana) was controlled from BALSA territory along its better navigable part, draining several mining districts south of Myrtilis (Mértola, Portugal).
Several better known villae or vici like "Pedras d'el-Rei", "Paul da Asseca", "Cacela", "Manta Rota", "Vale do Boto", "Álamo", "Montinho das Laranjeiras" and many others belonged to the territory of BALSA.

Archaeology and heritage

Archaeological collections of BALSA are scattered by several museums and private collections. The best preserved objects are from funerary spoils (good collections of sigillata, glassware, lucernes and personal objects such a complete surgeon kit), an Antonine female bust, 17 civic and funerary epigraphed stones, statuettes, coins, architectonic elements, etc.

In the present day there is practically nothing to be seen of BALSA. Almost all land became fenced private property, cutting most accesses to the public lagoon-shore, and the few known and visible archaeological remains are kept more or less hidden. With the present total lack of protection and real menace of total destruction it is better they remain like that for the time being.

However, notwithstanding the brutal destructions of the last 30 years, BALSA still has a major archaeological potential: the foundations of about 1/5 of the town extension, including maritime suburbs, ought to be still basically preserved, either buried, silted or submerged.


Location of Roman BALSA


View Larger Map

Public museums with collections of BALSA
Museu Nacional de Arqueologia, Lisbon
Museu Municipal de Faro, Faro
Museu Paroquial de Moncarapacho, Moncarapacho (Olhão)


Images
A large collection of pictures, graphics and maps of BALSA, its territory and the most important archaeological findings can be browsed at the on-line bibliographical references below, marked with (PIC).


Bibliography (in development)
Practically all bibliography is in Portuguese.

A growing number of studies below are being published on-line at www.arqueotavira.com (site of Associação Campo Arqueológico dre Tavira).

- Synthesis studies

Vasco Gil Mantas: 1990, “As cidades marítimas da Lusitânia”, in Les Villes de Lusitanie romaine, CNRS, Paris
Vasco Gil Mantas: 1997, “As civitates: Esboço da geografia política e económica do Algarve romano”, in Noventa séculos entre a serra e o mar, IPPAR, Lisboa
Vasco Gil Mantas: 1997, “Os caminhos da serra e do mar”, in Noventa séculos entre a serra e o mar, IPPAR, Lisboa
Jeannette U. Smit Nolen: 1997, “Balsa, uma cidade romana no litoral algarvio”, in Noventa séculos entre a serra e o mar, IPPAR, Lisboa
Vasco Gil Mantas: 2003, “A cidade de Balsa”, in Tavira, Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia/C. M. de Tavira, Lisboa
Luís Fraga da Silva: 2005, Tavira Romana, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira
Luís Fraga da Silva: 2007, Balsa, cidade perdida, Campo Arqueológico de Tavira e Câm. Mun. de Tavira, Tavira (PIC)

Luís Fraga da Silva: 2008, Balsa, cidade perdida, Exposição. Campo Arqueológico de Tavira e C. M. de Tavira, Tavira (PIC)

- Archaeology

General

Sebastião Estácio da Veiga: 1866, Povos balsenses, Livraria Catholica, Lisboa
Augusto Teixeira de Aragão: 1868, Relatório sobre o Cemitério Romano encontrado próximo da cidade de Tavira, Imprensa Nacional, Lisboa
Abel Viena: 1952, "Balsa y la necrópolis romana de As Pedras de el-Rei",Archivo Español de Arqueologia, 25, Madrid, p. 261-285
Maria Luísa Estácio da Veiga A. dos Santos: 1971-2, Arqueologia Romana do Algarve, Associação dos Arqueólogos Portugueses, Lisboa

Maria Maia, Manuel Maia et alii: 1977,
Relatórios de prospecção e escavação, Arquivo do Instituto.Português de .Arqueologia., Lisboa
José Fernandes Mascarenhas: 1978, Alguns subsídios arqueológicos sobre a antiga cidade de Balsa, Por Terras do Algarve, Ed. Autor, Lisboa

Cristina T Garcia.: 1989, Estação arqueológica da Luz (Tavira), Parque Natural da Ria Formosa, Olhão


Numismatics

Rosa V. Gomes e Mário V. Gomes: 1983, “Novas moedas hispânicas de Balsa e Ossonoba”, Nummus, 2.ª Série, Vol. IV a VI, Soc. Portuguesa de Numismática, Porto
Alexandre V. Cesário: 2005, Moedas de Balsa, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira

Materials and objects

Vasco de Souza: 1990, Corpus Signorum Imperii Romani. Corpus der Skulpturen der Römischen Welt. Portugal, Universidade de Coimbra, Coimbra. Balsa: 115, 119, 125. Balsa territory: 113, 114, 118
Jeannette U. Smit Nolen: 1994, Cerâmicas e vidros da Torre de Ares (Balsa), Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa
José Luis de Matos (coord.): 1995, Inventário do Museu Nacional de Arqueologia. Catálogo de esculturas romanas, Lisboa: Several references
VVAA:2002, Exhibition catalogue. Loquuntur saxa. Religiões da Lusitânia, Museu Nacional de Arqueologia; Lisboa: Several references
VVAA: 2003: Exhibition catalogue, Tavira, Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia/C.M.Tavira, Lisboa: p 268-291
Catarina Viegas: 2006, A cidade romana de Balsa (1) A terra sigillata, C. M. de Tavira, Tavira
Alimentary industries
L. Lagóstena Barrios, La producción de salsas y conservas de pescado en la Hispânia Romana (II a. C.-VI d. C.), Barcelona 2001: many references
Pre-Roman
Maria Maia: 2003, “Fenícios em Tavira”, in Tavira, Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia/C. M. de Tavira, Lisboa
Maria Maia: 2003, “O culto de Baal em Tavira”, Huelva Arqueológica (20). Actas del III Congreso Español de Antiguo Oriente Próximo, Huelva
Maria Maia: 2004, “Tavira Turdetana, porto do ‘Círculo do Estreito’ nos finais do séc. V a.C.”, in Conferencia Internacional: Historia de la Pesca en el Ámbito del Estrecho, Puerto de Santa Maria

-
Epigraphy and social studies
CIL: Corpus Inscriptionum Latinarum, Berlin-Brandenburg Academy of Sciences and Humanities, Berlin
IRCP
: José d’Encarnação: 1984, Inscrições romanas do Conventus Pacensis, Universidade de Coimbra, Coimbra
E. Hübner: 1887, "Monumentos de Balsa (perto de Tavira", Revista Archeolgica e Histórica, Lisboa, p.33-38
José d’Encarnação: 1987, “A população romana do litoral algarvio”, in Anais do Município de Faro,XVII, C. M. de Faro, Faro
Maria Alves Dias: 1989, “A propósito de duas inscrições romanas da Quinta deTorre d’Ares (Luz, Tavira)”, in O Arqueólogo Português, IV s. nº 6/7, Lisboa

José d’Encarnação: 2003, “Quão importantes eram as gentes!...”, in Tavira, Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia/C. M. de Tavira, Lisboa

- Archaeotopography
Luís Fraga da Silva: 2005, Atlas de Balsa e Metodologia arqueo-topográfica, Campo Arqueológico de Tavira, Tavira (PIC)

Sunday, May 11, 2008

Planta da cidade de Tavira em finais do séc. XVIII (actualizada)

Materiais para um Atlas Histórico de Tavira

Este post, juntamente com o anterior, descrevem elementos do projecto "Atlas Histórico de Tavira e das cidades da sua região". A versão antiga deste projecto pode ser vista em
http://www.arkeotavira.com/arqueologia/tavira/atlas/.

1. Introdução
A Planta da cidade de Tavira, de José de Sande Vasconcelos, foi levantada e desenhada por este engenheiro militar entre 1795 e 1800.
Representa Tavira nos finais do Antigo Regime, numa época em que a cidade tomou um segundo alento como sede do Governo Militar do Algarve, substituindo Lagos nessa função desde a destruição desta cidade pelo terramoto de 1755.
O seu carácter recém adquirido de "cidade-guarnição" é patente nos elementos referenciados e identificados na planta, em que se destacam os quartéis, as numerosas residências de militares, a sede do Governo e a respectiva Secretaria, a enorme área ocupada pelo palácio do Governador, a casa e bateria do registo fiscal do porto e a respectiva portagem ou alfândega.

O autor
José de Sande VAsconcelos (1730?-1808)
Engenheiro militar que desenvolveu vários trabalhos cartográficos ligados à representação do Algarve.

Datas relevantes:
1758 Ajudante de engenharia com exercício de engenheiro
1762 Capitão de infantaria com exercício de engenheiro
1771 Sargento-mor, i. é, major com exercício de engenheiro
1772 Colocado no Algarve
1784 Tenente -coronel
1790 Coronel
1796 Lente da cadeira de engenharia do Regimento de Infantaria de Faro, com quartel em Tavira
1797 Brigadeiro.

Nos seus mapas aparecem, frequentemente, dedicatórias aos governadores do Algarve, que, durante a sua estadia no Algarve, foram, respectivamente, os seguintes:
- Tomás da Silveira e Albuquerque Mexia, entre 1765 e1773
- 2.º Visconde de Mesquitela, entre 1773 e 1782
- 1.ºconde de Resende, entre 1782 e 1786
- 6.º conde de Val de Reis, entre 1786 e1795
- 1.º conde e 1º marquês de Castro Marim entre 1795 e 1808

DataçãoA representação Quartel da Atalaia e a sua designação como "Quartel que se está fazendo", subentende uma data igual ou posterior a 1795, ano em que começou a ser construído (pela Rainha D. Maria I, conforme se lê na lápide colocada por cima do portão principal.
Esta data define o terminus post quem da produção da carta.
O exemplar que chegou até nós (guardado no Instituto Geográfico Português) é uma cópia manuscrita realizada em 1800 para o Real e Geral Depósito das Cartas Marítimas (segundo consta em anotação na bordadura inferior do documento), sendo assim esta data o terminus ante quem da produção do original.

QualidadeIndependentemente da sua importância histórica insubstituível para a reconstituição do urbanismo de Tavira em finais do Antigo Regime, a planta de Sande Vasconcelos é de qualidade sofrível ou medíocre, quer no rigor topográfico quer sobretudo nos detalhes do parcelário edificado.
Os erros são grandes nas larguras e rumos dos arruamentos. As muralhas são omitidas, assim como, de um modo geral, a estrutura dos quarteirões construídos ou os seus limites periféricos.
A implantação das igrejas é convencional e os grandes complexos edificados (castelo, conventos, palácio do governador) são apenas definidos pelos arruamentos exteriores.
O estudo fino da informação urbanística da planta obriga a um trabalho sistemático prévio de reimplantação da planta sobre uma planta actual rigorosa.


Bibliografia
Brabo, F. A. D. (2004) "José de Sande Vasconcelos: engenheiro militar e cartógrafo no Algarve nos finais do séc. XVIII". Stilus, Faro, nº 6-7 (Jan.-Dez.), pp. 145-176.
PORBASE: Base Nacional de Dados Bibliográficos, http://urn.porbase.org/nca/unimarc/html?id=406987
S/A (S/D) Quartel da Atalaia-Tavira. Documentação Histórica, Exército Português, Manutenção Militar, http://www.manutmil.pt/documentos/Lagos/MesseTavira/Noticias/Resenha%20Historica%20Tavira.pdf
Anica, Arnaldo C. (1993) Tavira e o seu Termo - Memorando Histórico, Tavira, pp. 259.

2. Planta original

O documento é de domínio público e pertença do Estado Português.
O único manuscrito conhecido está guardado na mapoteca do Instituto Geográfico Português.
Não existe nenhuma edição diplomática ou crítica deste documento, apenas conhecido por reproduções deficientes, de baixa definição ou em escala reduzida.
A imagem apresentada na página seguinte é uma versão retocada digitalmente de uma destas reproduções.
Aconselha-se uma ampliação de 50-75% para uma visualização optimizada da versão pdf.



3. Transcrição da legenda

A versão actual (18 Junho 2008) inclui diversas correcções da transcrição da legenda, graças à leitura de uma cópia de melhor resolução, gentilmente cedida pela Câmara Municipal de Tavira.
A Planta contém uma rica informação textual, de carácter corográfico e toponímico.
Essa informação consiste em:
* Título e rodapé* Súmula corográfica ou explicação, sob a forma de secções temáticas, constituídas por curtos parágrafos dispostos à esquerda e à direita da planta. Uma dessas secções é um bloco de legenda de coropletas, em que a cor define tipos de edifícios.* 27 topónimos implantados na planta.* 87 referências numéricas cuja chave é exposta numa tabela.
Na transcrição do texto actualizou-se a ortografia.
NotaçãoA vermelho são palavras ou letras acrescentadas pelo transcritor.
Entre [] são omissões ortográficas do autor.
Entre () topónimos alternativos, segundo fontes externas.
(?) segue-se a palavras ilegíveis na cópia digital sobre a qual foi efectuada a transcrição.
! assinala erro de numeração, seguido de descrição e de eventual correcção.

Título
No topo da plantaPlanta da cidade de Tavira, dedicada aos ilustríssimos e excelentíssimos senhores conselheiros, secretários de estado e presidentes da Sociedade Real

Explicação
À esquerda da planta

Os números que explicam as partes desta planta seguem a direcção de alto a baixo.

Os números da sonda são palmos.

As igrejas vão notadas de encarnado forte com uma cruzinha.
As casas aonde moram os oficiais de infantaria, de encarnado.
As dos oficiais de milícias, de amarelo.
As dos ministros, médicos e letrados, de pardo brando.
As de todos os outros moradores da cidade de encarnado brando.

Tem esta cidade dois bairros grandes, a Ribeira e Malfor[o], e quatro pequenos, que são: Asseca, Lagoa, Alto de S. Brás e S. Lázaro.

Tem 7 largos que são: Praça, Corredoura, Largo de S. Francisco, Alto de S. Maria, Largo do Cano, Lagoa e Largo do Carmo.

Tem 5 conventos de religiosos, Carmo, S. Francisco, Graça, Paulistas e Capuchos, um de religiosas de S. Bernardo e um de Recolhidas.

Há mais dois largos grandes unidos à cidade, um chamado Atalaia aonde se faz exercício [militar], e o outro Atalainha aonde se faz o quartel do Regimento.

À direita da planta

Tem 4 fontes públicas, duas são medicinais: a fonte de cuja água se tomam banhos que são como os das Alcaçarias, a fontinha da Atalaia da qual tem a chave a Câmara, que serve para várias moléstias, a fonte do Cano e as fontainhas.

Tem 4 poços públicos que são poço do Bispo, poço dos Moiros, poço da Mão (mó) alta e poço da Pomba.

Abunda esta cidade de poços porque quase todas as casas os têm, com a notável diferença que de uma parte do Rio é água doce e da outra é toda salobra.

Não admite este Rio navios de três paus (esclarecimento do Sr. José Manuel Vargas) por ter uma barra areada, somente de dois é que podem entrar.

Abunda de pescarias, azeite, amêndoa, farroba, vinho e trigo.

A sua população é de 5 a 6000 pessoas, homens, mulheres, rapazes e crianças.

A Ponte foi feita pelos Romanos e reedificada pelo Ex.mo Conde de Vale de Reis, 3º avô do Ex.mo Marquês de Loulé


Chave numérica
No fundo da planta

1. Caminho para Santa Margarida
2. Largo da Nora
3. Casas do Governador de Alcoutim
4. Largo do Cano
5. Fonte do Cano
6. Rua do Malfor
7. Igreja de S. Roque
8. Hospital Militar
9. Estrada das Paredinhas
10. Caminho para Santa Luzia
11. Lagar
12. Porta Antiga da Cidade
13. Poço da mão [mó] alta
14. Largo de São Francisco
15. Convento de São Francisco
16. Atalainha
17. Horta da Bela Fria
18. Convento da Graça
19. Largo de Santa Maria
20. Igreja de S. Tiago Freguesia
21. Casas do Prior
22. Rua da Cadeia
23. Casas do Bispo
24. Hospital de S. José
25. Casa da Ordem Terceira
26. Quartel que se está fazendo
27. Fontinha da Atalaia
28. Casas de Manuel Vaz
29. Igreja de Santa Maria Freguesia
30. Castelo que serve de cemitério
31. Poço dos Mouros ! Erro32. Cadeia ! Corresponde ao nº 31 na planta. Deve ser Capela de N.Sra. da Consolação
33. Horta das Canas
34. Pelóme aonde se lava
35. Terreiro do Parguinho
36. Casas do Desembargador José Bernardo
37. Ditas [Casas] aonde está o Governo de Armas (agradeço ao Sr. José Manuel Vargas a precisão da sua leitura do original)
38. Rua Nova Grande
39. Horta d'El-Rei
40. Fonte de 5 bicas
41. Praça
42. Rua Nova Pequena
43. Rua do Montalvão
44. Poço do Bispo
45. Igreja de S. Sebastião
46. Fazenda do Cabrita
47. Ferreiros
48. Rua da Asseca
49. Tenente Coronel Marques
50. Corpo da Guarda
51. Portagem
52. Rua da Caridade
53. Horta do Bispo
54. Quartel
55. Palácio do Sr. General
56. Jogo do Bilhar
57. Pelourinho
58. Largo da Corredoura
59. Igreja de S. Ana
60. Secretaria
61. Portas de S. Brás
62. Casas do Brigadeiro Stuart
63. Ribeira
64. Rua Direita da Ribeira
65. Cerca de S. Paulo
66. Convento de S. Paulo
67. Largo da Lagoa
68. Rua dos Torneiros
69. Rua da Porta Nova
70. Rua da Corujeira
71. Rua do Poço da Pomba
72. Canto da Caracolinha
73. Telheiro de escaler
74. Casas do Capitão Trindade
75. Armazém do Desembargador
76. Alto de São Brás
77. O Maia (?)
78. Rua de S. Pedro
79. Igreja de S. Brás
80. Casa do Coronel Mendonça
81. Largo do Carmo
82. Rua de S. Lázaro
83. Linha de Preia-mar
84. Linha de Baixa-mar



Topónimos
Implantados sobre a planta
Quinta de Manuel Vaz
Bela Fria
Malfor[o]
Cerca dos Franciscanos
Fazenda do Andrade
Fazenda de José X.er [Xavier]Horta do Tiro
Cerca dos Capuchos
Convento dos Capuchos
Campo de Exercício
Convento de S. Bernardo
Campo d'Atalaia
Sapais
Ribeira
Cais
Lagoa
Palácio
Alto de S. Brás
Fazenda do Grilo
Carmo
Cerca dos Marianos
S. Lázaro
Marinhas do Desembargador
Caldeiras das Marinhas
Casa do Registo
Bateria
Cais


Escala
Ao centro, sob a chave numérica
Petipé de 400 palmos

Rodapé
Debaixo do filete inferior (zona não representada na imagem da planta)
Copiada (de uma planta feita e desenhada pelo Brigadeiro José de Sande Vasconcelos) no Real e Geral Depósito das Cartas Marítimas. Ano de 1800.

4. Ajustamento aproximado da planta à topografia real
A imagem seguinte combina três níveis visuais, que são seleccionáveis individualmente no documento pdf associado.



5. Reconstituição de Tavira em finais do séc. XVIII. Síntese corográfica

Versão vectorial baseada na Planta da Cidade de Tavira, de José de Sande Vasconcelos.

Friday, April 04, 2008

Uma planta inédita de Tavira, do séc. XVI


Materiais para um Atlas Histórico de Tavira

 Uma descoberta extraordinária revela a traça urbana e os edifícios notáveis da cidade de Tavira, na sua época de esplendor quinhentista.

Trata-se de uma planta inédita de meados do séc. XVI, que chega até nós através de uma cópia efectuada cem anos mais tarde pelo pintor Leonardo di Ferrari, autor de um atlas manuscrito espanhol que esteve "perdido" no Arquivo Militar de Estocolmo até 2002.



Tavira quinhentista 

No final da Idade Média e início da Idade Moderna, Tavira foi a cidade mais importante do Algarve e uma das maiores de Portugal. O seu porto era então florescente e a sua vida económica e social prosperavam com as oportunidades oferecidas pela expansão portuguesa em Marrocos.

Foi essa a época de maior importância da cidade em termos de ranking histórico nacional, situação nunca atingida nem antes nem depois.

Tavira era então o principal porto de abastecimento das praças militares norte-africanas, a maior base das milícias algarvias que acorriam à sua defesa em caso de necessidade e o centro logístico da sua retaguarda militar. Tornou-se também nesta época o maior porto mercantil do Algarve e a sua riqueza reflectia-se nas receitas fiscais, no número e qualidade da sua população e na expansão urbana associada à construção de edifícios público e privados, nos novos estilos manuelino e renascentista.

Infelizmente, até hoje, o conhecimento dos detalhes urbanos de Tavira quinhentista tem sido muito limitado. A documentação histórica disponível é escassa e pouco precisa, os vestígios arquitectónicos são interessantes mas pontuais e a arqueologia dessa época só agora se começa a revelar.


O urbanismo
A planta mais antiga da cidade, até agora conhecida, era a desenhada por Sande Vasconcelos em 1800, demasiado recente para reconstituir o aspecto da cidade na centúria de 1500, sobretudo devido às grandes transformações ocorridas após os terramotos de 1722 e 1755.


Tavira - Planta de Sande Vasconcelos (1800)


As tentativas de reconstituição da forma urbana de Tavira quinhentista têm sido escassas.Para além das descrições impressionistas de Orlando Ribeiro (Geografia e Civilização. Temas Portugueses, Centro de Estudos Geográficos, Univ. de Lisboa, Lisboa 1961, p. 134-141), Carminda Cavaco (O Algarve Oriental. I - As vilas o campo e o mar, Gabinete de Planeamento da Região do Algarve, Faro, 1976, p. 49-54) e Arnaldo Anica (Tavira e o seu Termo. Memorando Histórico, Câmara Municipal de Tavira, Tavira 1993, p. 71-80), a única tentativa topográfica foi da iniciativa de José Lamas e Carlos Duarte ("Evolução da estrutura urbana" in Plano de reabilitação e salvaguarda do centro histórico de Tavira, Câmara Municipal de Tavira, 1985, p.40-58) cuja plantas relativas aos sécs. XIII-XIV e XV-XVI (p. 45-47 op. cit.) se reproduz abaixo sobrepostas, com inclusão de níveis de cor transparente que não existem no original.


Reconstituição de Tavira Quinhentista. Montagem baseada em plantas parciais de (Lamas e Duarte, 1985)


O Atlas do Marquês de Heliche
Em 2002 o investigador espanhol Carlos Sánchez Rubio (Editorial 4 Gatos, Badajoz), enquanto classificava o acervo cartográfico do futuro museu de Badajoz, encontrou uma pista sobre um mapa antigo desta cidade que estaria guardado no Arquivo Militar de Estocolmo. Ao aprofundar o assunto "descobre" nesse arquivo um verdadeiro tesouro cartográfico relativo à península ibérica, com 313 documentos relativos ao período entre 1643 e 1797.

Neste espólio cartográfico destaca-se um atlas manuscrito até então desconhecido da historiografia peninsular, hoje conhecido por "Atlas de Heliche".

Este atlas, de que foi feito apenas um exemplar, compõe-se de cidades e planos de fortalezas do antigo império espanhol, desenhado e entre 1642 e 1645 pelo pintor e desenhador bolonhês Lorenzo di Ferrari, a mando de Gaspar de Haro y Guzmán, marquês de Heliche e do Carpio (1629-1687), Grande de Espanha, político e riquíssimo coleccionador, filho de Luis de Haro e sobrinho-neto do conde-duque de Olivares, ambos validos de Filipe IV.

Após a morte do marquês, o seu fabuloso património foi leiloado em Madrid em 1690 e o Atlas, assim como muitas outras jóias bibliográficas e documentais foram adquiridas pelo erudito e diplomata sueco Johan Sparwenfeld, às ordens do rei Carlos XI. O espólio esteve disperso por diversas instituições suecas até 1805, quando a documentação cartográfica passou para os fundos do então criado Real Arquivo Militar de Estocolmo, aí permanecendo até hoje.

O Atlas de Heliche, cujo título original é "Plantas de diferentes Plazas de España, Itália, Flandes y las Indias" contém 117 mapas, incluindo três relativos ao Algarve: Tavira, Castro Marim e Lagos, sendo os dois primeiros inéditos.

Sobre a descoberta da colecção cartográfica de Estocolmo publicaram-se recentemente duas obras, que existem em versões digitais:
  • Imágenes de un imperio perdido – El Atlas del Marqués de Heliche, Rocío Sánchez Rubio, Isabel Testón Núñez, Carlos Sánchez Rubio (eds.); Presidencia de la Junta de Extremadura, Badojoz, 2004




  • La memoria ausente – Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII; Isabel Testón Núñez, Rocío Sánchez Rubio, Carlos Sánchez Rubio; Ed. 4 Gatos, Badajoz, 2006


Planta da cidade de Tavira - Leonardo de Ferrari (1655)
Uma cópia de 1645, de um original perdido
Uma planta de Tavira de meados do séc. XVII seria já uma descoberta extraordinária. No entanto, uma análise mais detalhada revela basear-se numa planta portuguesa mais antiga, que se pode datar entre 1542 e 1568, ou seja, cerca de cem anos mais antiga que o Atlas produzido por Ferrari.

O trabalho cartográfico deste autor consistiu em redesenhar plantas originais de diferentes épocas, escalas e aspectos com as dimensões apropriadas às folhas do atlas (51x36 cm) e conformes a uma norma gráfica da sua autoria. Na colecção sueca subsistem alguns dos originais utilizados por Ferrari, que permitem apreciar o elevado rigor técnico do seu trabalho. Infelizmente, os originais das plantas de Tavira e Castro Marim perderam-se.

Um original português

Embora o título e a legenda sejam em espanhol, é possível detectar a origem portuguesa do original através da palavra "braças" que não foi traduzida e da palavra "Vertas", erro de leitura de "Hortas", que o transcritor não soube traduzir. Uma sobreposição georeferenciada da Planta sobre a topografia real permite ainda confirmar que a sua régua de escala corresponde efectivamente a braças de 2.2 m, valor da braça portuguesa, distinta de coeva "braza" espanhola, de ±1.67 m.

Planta datada de meados do séc. XVI

1542 é o terminus post quem da planta original pois estão representadas já a Igreja da Misericórdia e a primitiva Igreja da Graça no edifício da antiga sinagoga, ambas fundadas nesse ano. 1568 é o terminus ante quem da planta pois nela ainda não está representada a nova igreja e convento da Graça, cujas obras se iniciaram em 1569.

É de notar que a ermida de N. S. do Loreto, já existente em 1573, ainda não é representada.

A presença de dois topónimos que datariam a Planta uns cinquenta anos mais cedo (Convento de Santa Clara, iniciado em 1509 e que terá permanecido com essa designação apenas até 1530, quando é entregue à ordem cisteriense de São Bernardo; e Judiaria, oficialmente extinta em 1497) deverá ilustrar a tendência comum para a persistência anacrónica de designações enraizadas e, provavelmente indicará uma datação mais próxima do início do intervalo, quando a memória dos nomes primitivos estaria mais fresca.

Em conclusão, é possível estabelecer a datação num intervalo de 27 anos [1542-1568], com um valor médio de 1555 associado a um erro absoluto médio de 13 anos: 1555 ± 13.

Um balanço sumário da Planta de Ferrari

Constitui, sem exagero, a maior descoberta historiográfica sobre a cidade desde o achado da Crónica da Conquista do Algarve, em 1788.

As suas principais características são as seguintes:


  • Estilo cartográfico com um excelente domínio da cor e da textura como variáveis gráficas diferenciadoras de tipos corográficos auto-explicativos.
  • Fidelidade topológica absoluta e elevado rigor e detalhe topográfico, bastante superiores ao da planta de Sande Vasconcelos já referida.
  • Representação detalhada das fortificações manuelinas, incluindo panos da muralha e barbacã, 9 portas e 31 torres.
  • Representação esquemática das plantas interiores das 13 igrejas então existentes, revelando paredes, aberturas e divisões internas, paredes e alpendres sobre pilares e, nalguns casos, contrafortes, altares e, talvez, púlpitos e pias baptismais.
  • Localização e planta interior da primitiva Igreja da Graça (antiga sinagoga), apenas conhecida por uma referência documental.
  • Localização e parcelário da antiga Judiaria.
  • Planta dos pilares da ponte e dos seus acessos fortificados (nomeadamente da porta de São Brás, de que não se conhecia a planta), em que se destaca a ausência da quase totalidade do tabuleiro.
  • Localização e planta interior da "Casa do Sal", armazém fiscal apenas conhecido pela documentação.
  • Planta interior da "casa do pão" junto à ponte, antigo mercado, posto fiscal e armazém de trigo.
  • Localização e planta exterior da Alfândega, incluindo a arcaria dos açougues velhos, referidas em fonte documental.
  • Identificação de três fontes, dois poços, um cruzeiro inédito, um moinho de maré apenas vagamente referenciado e a planta exterior do edifício dos Pelames, até agora só conhecidos pela documentação.
  • Individualização topográfica de 178 parcelas edificadas, 9 propriedades vedadas (das quais 5 hortas periféricas) e 150 arruamentos, espaços e caminhos.
    Inclusão de 43 topónimos e designações.


Detalhe da Planta de Tavira, de Leonardo di Ferrari
Porta de São Brás e pilares orientais da ponte


Detalhe da Planta de Tavira, de Leonardo di Ferrari
Igreja e poço de São Roque

O estudo da PlantaO autor desta notícia e o Campo Arqueológico de Tavira tencionam publicar uma edição crítica da Planta, acompanhada de um fac-simile na sua escala original. Contam para o efeito com uma excelente cópia digital de alta resolução, gentilmente autorizada pelo Director do Krigsarkivet de Estocolmo e cedida por Carlos Sánchez Rubio.

O estudo formal da Planta e do seu contexto urbanístico histórico está já em curso. Ele inclui uma nova síntese da forma urbana de Tavira Quinhentista, com base nos elementos da Planta de Ferrari e na compilação sistemática de elementos urbanos referenciados em fontes históricas e arqueológicas e estudos já publicados. Essa síntese terá a forma de uma carta digital interactiva associada a uma base de dados. Inclui-se abaixo uma versão estática e ainda muito preliminar.

Estudos parciais, tais como os relativos às fortificações e à estrutura interna dos edifícios representados, serão realizados por outros investigadores.

Detalhe da planta de reconstituição da forma urbana de Tavira em meados do séc. XVI.
Versão preliminar baseada na Planta de Leonardo de Ferrari e noutras fontes.
Análise tipológica da Planta de Ferrari
O link da imagem seguinte aponta para uma versão inicial da análise tipológica da Planta de Leonardo di Ferrari, sob a forma de um mapa vectorial com níveis de visibilidade seleccionáveis. Esta análise e o respectivo mapa fazem parte do estudo da Planta, acima referido.


www.arkeotavira.com/Mapas/Ferrari/Tavira-1552-net.pdf
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